9a. Divina Misterya

1.
Santo é o homem sereno e denso,
Leve de fronte pensa.
É aquela bolha de sabão
Que se for pousar na balança o peso dirá:
1 tonelada!
Paradoxo e contradição,
Titânio alado.
É o é que será.

2.
Deus te salve, angústia!
Da augusta fibra a mãe,
Do elevado e nobre o pai!
Por todos os meus ais,
Corporais,
Por todas as minhas cãibras,
Espirituais,
Eu te louvo a dor,
Eu te saúdo o sofrimento.
Porquê é tudo amor,
É tudo unguento.
A chaga, meu santo estigma!
A ferida, minha pura vida!
O mundo é um Monte Alverne.
O mundo é onde o berne
Mastiga a carne
Para dar à lida
O fragor da alma,
O canto que acalma
Pelo espinho o espírito…

3.
É preciso escrever
Sobre o que não se pode ter.
Uma ode, um soneto,
Um correr de proveitos
Nunca provados,
Desejados e intocados.

4.
Somos todos vermes, eu sei.
Mas se vós corroeis o pútrido,
Eu mastigo vagalumes!

5.

“[…] decifrarei o meu enigma ao som da harpa.”
(Salmo 49:4b)

Que digo de mim ser?
“Cavaleiro monge sem ninguém que o conte? Caminhais em mim?
O homem que pensa e tem a fronte imensa e tem a fronte pensa?”
A gaita de fole e a guitarra elétrica,
O torresmo e o Nissin Lámen,
O vinho e a Coca-Cola,
A pedra e o musgo,
A torre medieval e o computador.
Do cálice bizantino ao copo de plástico,
Dos afrescos de Fra Angelico aos quadrinhos de Stan Lee,
Dos sonetos de Dante a um post qualquer no Facebook.
Mas, então, eu cantarolo com o duduk e com o samba.
Bebo o café dos arábios e engulo o suco articial do supermercado,
Admiro em êxtase a Pietà e tal qual o mármore eu me fixo em mim mesmo.
Tomo na taça da bisavó austríaca e na caneca do Mickey Mouse do prézinho.
Desço e subo: das cidades às serras, das serras à cidade.
Talvez eu seja um Davi filho legítimo e herdeiro de Saul!
Toco a harpa que a mim mesmo me acalma, toco minha alma.
Um hobbit que é viking,
Um anão que é Sansão,
Uma sempre aparente contradição.
“Salvator mundi, tu illum adiuva!
Redemptor mundi tu illum adiuva!”
Que digo de mim ser?

6.

“A lu suono de la grancascia
Viva lu populo bascio.
A lu suono de tamburrielli
So’ risurte li puverielli.”
(Canto dei Sanfedisti)

Valsas e forrós,
Todos se ajuntam no passo.
Mas um é da praça
E a outra é do paço.

7.
Que seremos amanhã,
Quando o hoje for sanha de passado irreparável?
Nada, como o frio que primeiro tocou o pé do cadáver!
Nada, feito a loucura do morto que agora vê a Deus e é são!
Nada é tudo quando se atravessa o umbral da Criação.
Há trevas e insônia até sobre a flor,
Paira uma nuvem cinza sobre todo arco-íris.
É o Éden, é o Éden!
E no regato do tempo todas as mãos se lavam,
Todas as vestes se purificam,
Todas as coisas se extinguem,
Toda a luz se infiltra no breu.
Mas claramente eu vejo a vela horizontal.
E dum sepulcro antigo,
Duma pedra que jamais mastigou nossa carne,
Ecoa a voz dum anjo: “Ressuscitou!”

8.
As pedras me dizem coisas que outras coisas não me dizem.
Dizem que os musgos murmuram canções sobre as galáxias
E que os líquens exaltam constelações por Deus nomeadas.
As pedras clamam sobre marcos remotos de tempos já idos,
Oram sobre as proezas dos titãs, contam sobre as chinas muralhas
E ao cabo revelam que sobre Deus mais souberam os escaravelhos
Que os próprios faraós deificados…

9.
Se Napoleão se tivesse mantido fiel ao ideal,
(Afinal, terá ele tido algum bom ideal?)
A Eroica ainda seria Buonaparte
E o velho Napo teria um pequeno-grande funeral:
Teria os netos ao caixão,
Teria a glória de ter sido apenas homem,
Teria a arte daquela sinfonia imortal
Diante da (im)possível coroa imperial…

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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