Trecho do conto “Com um dos teus olhares”

Ter algum brilho nos olhos não é distintivo de pureza no olhar. Um par de bolinhas de gude refletidas por uma lâmpada de mil watts também brilha. Os olhos das hienas brilham quando circundam as fogueiras dos acampamentos bérberes. Muitos círculos, de carne e de pedra, brilham vulgarmente quando qualquer tocha lhes toca a superfície polida. À distância, os fótons duma bituca de cigarro no que diferem duma brasinha tirada do altar do próprio Deus? Não se trata de medir os lúmens das coisas, porquê frequentemente a força da luminosidade é visualmente a mesma e a óptica não distingue um farolete paraguaio do Farol de Alexandria. Mas só pode reconhecer que por detrás de dois globos oculares brilham dois pequenos fragmentos do “Sol da Justiça” quem em si também os detém ocultos na retina. O brilho da pureza é a pureza do brilho: ele está no misterioso lugar onde a córnea saúda a alma e a íris beija o espírito, onde bem no extremo fim do túnel da pupila rebrilha a glória da Luz Inacessível.

Gênesis 2:20

Belinda was mine…
O último poema que a linha pode ver,
Endireitado sobre a vista dum querer,
Até que outra vez o luar faça regresso
E nada seja mais do pouco que peço.
Then Sue came along…

Don’t know that I will…
A cabeça que agora baixo em relevo
Não quer mais em verso esmorecer,
E nada pede senão o claro escurecer
Doutra noite querendo o amanhecer.
I’ve had it to here…

I know it’s been done… 
O coração cambaleado eu descrevo
Com palavra qualquer que enlevo
Entre as vis manchas do disperso,
Do esquecido, do fim sem regresso.
Don’t know that I will… 

Don’t know that I will… 
E à esta chaga sem vulto de cicatriz
Eu consagro a esperança, tua atriz,
Rogando que no palco atue sincera
O roteiro da dor de quem tudo espera.
A solitary man, solitary man… 

Esponjas de sol — XLIV

  1. Cachorro algum gosta de osso. O bicho adora é a carne que estava grudada no osso. Ele cheira, lambe e rói não porquê seu paladar tenha predileção por cálcio duro e poroso. Ele quer é a carne tenra e suculenta que envolvia aquele canudo branco. Ele não gosta da caveira do boi. Ele gosta e quer, quando passa desesperado a língua e os dentes no osso, o tecido vermelho e a gordura amarela. Tenho para mim que a devassidão sexual de muita gente nada é senão um farejar desesperado dos afetos: querem amor, mas no açougue das baladas só encontram os restos cadavéricos da nutrição; querem carinho, mas no abatedouro das festinhas só encontram as poucas calorias duma refeição famélica. Mudar os “hábitos alimentares” é preciso!
  2. Teste de fogo: se você não tem assunto suficiente para passar no mínimo duas horas seguidas de papo empolgante com seu par, vocês dois não vão ter “gás” para ir muito adiante. Língua que só beija e não diz “las cosas del alma que despiertan rutinas” está condenada a falar merda na primeira mordida. Adão estava todo jururu solitário no Éden não porquê lhe faltasse fêmea para a cópula mamífera, mas porquê não tinha companhia. E a companhia fala, tem que falar, vive de falar, ama de falar. A companhia fala até calada, se esgoela até sem língua. Sem o vai e vem que chega e que volta dum gostoso diálogo tão natural quanto a nudez, tudo termina em mudez.
  3. A vocação do marido deve ser a vocação da mulher e a vocação da mulher deve ser a vocação do marido.
  4. A serpente do Éden sempre foi excelente gastrônoma. Grand maître de cuisine há milênios…
  5. Nunca suponha nada. Acumular suspeitas e raciocínios apriorísticos na tentativa de julgar uma pessoa ou cenário é burrice. A realidade das coisas pode ser, além do comum, muito simples ou muito complexa. O meio termo quanto ao desconhecido não existe: ou é evidente ou não é evidente; e se não é evidente, não o é justamente porquê não entra na escala do normal corriqueiro. E mais: o “e se…” trabalha contra essas duas possibilidades, porquê o simples é de pronto descartado por sua natureza demasiado fácil, e o complexo por sua natureza demasiado difícil. Junte cada detalhe, intuição, indício e rastro ao seu Catálogo Geral de Modos & Comportamentos, mas nunca faça deles o contorno duma solução. Não conclua na base do “parece ser, porquê isto e aquilo” ou do “já foi assim e assado, então…” Nunca suponha nada. É burrice.
  6. O auto-engano é uma modalidade açucarada de masoquismo. Você dá murro na ponta da faca, mas se deslumbra com o brilho da lâmina. Você dá com a cabeça na parede, mas gosta da nova cor do látex. Você se afoga na piscina, mas se encanta com o peixinho dourado estampado no fundo. Ilusão e insistência. Repetição da própria burla. Looping da própria quimera. Toda vez que você se engana, você racha um tiquinho sua consciência, que vai capengando entre o desejo e a realidade até que um dia a realidade, toda concreta, soterre de repente todo o desejo, abstrato, e duma vez por todas te enterre em tristeza, amargura e, não raramente, em depressão.
  7. Deus ama os esquisitos, os diferentões, os heterodoxos, os tipos “figurinha carimbada”. Deus ama os Forrest Gump deste mundão. Doidos às vezes varridos, mas estrambólicamente autênticos. Loucos às vezes de pedra, mas grandiosamente íntegros. Deus ama as personalidades “sui generis” quando puras. Não à toa, Ele escolheu entre os estranhos seus melhores santos e profetas: malucos-beleza gritando vaticínios nas praças, comendo gafanhotos no deserto, caindo no chão diante de visões do além. Tu deveria ficar preocupado caso esteja assim todo perfeitinho no gel, todo engomadinho feito miniatura de mordomo inglês em dia de chá gourmet…
  8. Pornografia não é coisa de homem não. Pelo contrário: depõe ferozmente contra a masculinidade. É coisa de moleque em ebulição, não de homem pronto para o altar e para enfrentar o mundo com mulher e filhos. Erotismo calcado em imagens e fantasiagem mental é faminto tentado aplacar a fome salivando sobre panfleto de supermercado. Homem que é homem cumpre a rota natural do corpo-a-corpo depois do caminho alma-à-alma. Sujeito que se satisfaz na artificialidade neurônio-a-papel e sinapse-a-pixel está condenado à perpétua puberdade. A pornografia embota e aliena o cérebro e, então, retirando do coração toda a ternura da realidade e toda sensibilidade do toque erótico autêntico, faz do seu usuário um viciadão ao estilo “craqueiro orgásmico”. E todo viciado é necessariamente auto-centrado; como tal, incapaz de amar.
  9. Deus existe, é todo-poderoso e lhe ama. E você aí se exasperando feito pavão despenado para chamar a atençãozinha da Beltraneja ou do Ciclopiano… Adão dormia enquanto o Criador lhe providenciava Eva. A obsessão por alguém ou por um estado sentimental nunca lhe trará pessoas e coisas boas: porquê uma idéia-fixa incapacita a razão, corrompe seu julgamento e cega sua visão espiritual. “Durma”, então. Sossegue, espere e não fique em estado de vigília, à espreita e cata de possibilidades em contatinhos ou ansiedades duma falsa escolha tão definitiva quanto a sobrancelha da moça. Durma como Adão dormiu: não precise, não queira obstinadamente, não deseje ardentemente, não foque nesta ou naquela pessoa tão freneticamente. Nada de alarmes. Nada de alertas. Durma, e quando você acordar — revigorado, despreocupado, serenado — Deus já terá arrancado uma costela do seu lado. Chame a atenção do Pai, porquê a atenção dele sempre e sempre é correspondida com afago, carinho e amor que não tem fim. Com Deus a reciprocidade é lei e, assim como ele é Trino, tratará de “imaginar sua semelhança” em você, fazendo de um indivíduo (você, você mesmo!) um trio com mulher e filho(s). Deus existe, é todo-poderoso e lhe ama. Chame a atenção dele.
  10. Há tanta gente que se ama e se odeia ao mesmo tempo que fica impossível dizer que se desgostam. Quem ama, gosta. Quem odeia, também gosta. Gostar é atribuir importância e focar a atenção e a força da consciência no importante; se positiva ou aparentemente negativa (digo aparentemente porquê tenho quase certeza de que o ódio é sempre qualquer sentimento originalmente bom depois não adequadamente “correspondido”), não importa: importância é que importa. O ódio não é cruel, porquê é inflamado — é passional. A indiferença é cruel, porquê é fria — é desumana. Pois, é isto: o extremo oposto do amor é a indiferença.
  11. A verdade não é uma narração descritiva, literária e abstrata das coisas. Ela é uma força absoluta e total, uma força física até. Preste atenção no gestual do mentiroso (o clássico — nem sócio nem psicopata): gagueira, coçadas no nariz e na orelha, garganta seca, olhos voando por todos os lados e se negando a encontrar os teus, pés e mãos inquietos, tom de voz anormal, tronco em postura defensiva, coração acelerado e desritmado, etc. Se o corpo biológico fica assim tão constrangido com a verdade, como não ficará o espírito?! A verdade, a potência da realidade, é tão poderosa que contraria materialmente todo aquele que se lhe opõe. A verdade constrói e estrutura a natureza humana, harmoniza o metafísico interno com o físico externo; a mentira, destrói e desestrutura, quebra a coerência dentro-fora. É como se o barro que Deus moldou feito vaso fosse desmoldado pelo diabo em pinico e, em fase final de degeneração, é como se o barro modelado voltasse aos montes de argila da beirada do rio, à sua condição original — cheio de bolhas de ar, cheio de palha e mato, cheio de pedrisco, indigno do oleiro…
  12. Você é vocacionado a ser você mesmo. Nenhuma vocação é um encontro posterior com uma ou outra versão sua melhorada ou piorada. Vocação é o caminho que você faz hoje em direção ao seu eu eterno que pode ou não ser conquistado amanhã — o seu eu puro e essencial sonhado e planejado por Deus desde antes do ventre de sua mãe, desde antes do espermatozóide fazer a corte ao óvulo. Não se trata de ocupação ou profissão. Sua vocação é o seu específico chamado à integralidade, à completude, à unidade de consciência e personalidade: ao [pre]enchimento da sua estrutura genética com o máximo de espírito capaz de fazer com que você seja o seu máximo em corpo e mente sãs. Sabe aquele mito pseudo-científico que diz pela boca dos tiozões da Barsa e do Google que as pessoas só utilizam 10% do próprio potencial neural? Pois é a mesma coisa quanto à vocação, só que num nível espiritual. Você é vocacionado a ser aquilo que é. Porém… eis o terrível fato: provavelmente muito daquilo que você chama e diz ser você, não é você. É uma caricatura psico-social (uma personagem mais ou menos introjetada) que o mundo, o diabo e a carne produziram em você. Ninguém pode negar-se a si mesmo durante muito tempo: sua vocação, traumática ou serenamente, hora ou outra vai emergir. Resistir à própria vocação é senda de infelicidade e, caso ela seja poderosa, é caminho de transtornos que beiram à loucura. Você é vocacionado a ser você mesmo: seja!
  13. Esconder sua fé dos seus amigos é como estes maridos infiéis que guardam a aliança no bolso quando vêem passar uma gostosa qualquer na rua. Chega um momento no qual a gravidade já não é a falta da aliança (porquê todos sabem que eles são casados), mas a falta completa da marca da aliança: tanto saem à cata de rabos-de-saia pelas esquinas que o sol mal tem tempo de queimar desigualmente a pele do dedo anular. A gravidade já não é que eles não saibam que você crê de alguma forma em Deus (porquê eles sabem que você frequenta a igreja), mas a falta integral das chagas de Cristo no seu caráter de crente: tanto você está igual a todo mundo que ninguém mais — a não ser nominalmente o pesquisador do IBGE — nota a diferença.
  14. O Diabo é o maior psicólogo/psicanalista/psiquiatra que existe. Freud, um bostinha. Jung, um merdinha. Adler, um bestinha. Lacan, um idiotinha. Rank, um nadinha. Quem manja da psiquê humana é o Tinhoso. Mas, de maneira geral: ele conhece apenas o comportamento padrão do Homem, bem como suas variações excepcionais igualmente padronizáveis. Ele só pode ser pego de surpresa (ser sabotado, então) pelo comportamento de um homem caso este se conheça a si mesmo a ponto de quebrar seus próprios movimentos cíclicos de causa-e-efeito. Satã conhece as estruturas mentais e seus gatilhos, sabe como brincar de “efeito dominó” com as ações e reações humanas internas e externas, sabe metodicamente construir e prever cenários a longo prazo, sabe jogar xadrez com nossas emoções e pensamentos, sabe cruzar por paralelismos idéias conscientes com o inconsciente sem que nós percebamos que estamos rodando a roda do hamster e que, lá na frente, a falsa e nenhum pouco casuística Roda da Fortuna acabará nos esmagando no moinho do pecado. O Diabo não brinca em serviço. Ele fez a anamnese de Adão e Eva e ainda agora põe no divã o seu Zé Pedreiro, a Duquesa de Kent, o professor Yang Hui, a atriz pornô Abella Apple, você, eu e todos os outros 7 bilhões de almas no planeta. Ele anota seus jeitos e trejeitos, suas caras e taras, seus movimentos e inércia, seus gostos e desgostos, enfim, ele põe na ponta do lápis tudo o que for possível sobre o seu todo aparente (porquê, por dentro, só tu e Deus). O Diabo quer roubar sua personalidade, matar seu ser, destruir seu eu: ele quer embaçar sua imagem e desfigurar sua semelhança. Enquanto Deus não for seu oleiro, o Demônio vai tratar de, miligrama a miligrana, arrancar de você a argila limpa e pronta para a roda e substituir por barro sujo de beira de brejo sujo… O Diabo é o maior conhecedor da Humanidade depois do Criador. Invejoso, ele quer recriar a espécie segundo seu reflexo e aparência: para fazê-lo, ele deve transtornar o espírito humano, pervertendo-o o máximo possível; ele deve e efetivamente (ontem, hoje e nos amanhãs que restam) o faz. Para isto, pega um homem de cobaia e o trata como seu camundongo de laboratório: condiciona, desconstrói, reconstrói, recondiciona — destrava latências, lança anzóis ópticos e fisga neuróticos, aperta os calos para ouvir os ais, passa Gelol onde convém amainar, sussurra esganando e sugere coagindo, etc, etc, etc. Em resumo, meu conselho: acerte-se com Deus, “conhece-te a ti mesmo” e escolha a santidade pra já! Com o Diabo a cura é a doença, porquê a loucura humana é a sanidade infernal.
  15. Não. Você não tem que ter sempre e só e apenas “papos inteligentes” com quem ama. Nem só de tiradas geniais e frases de efeito que impressionam a audiência (nos inícios da paquera) vive um relacionamento. Namoro/noivado/casamento não é congresso de iniciação científica com carinho e erudição. Tem que falar sobre tudo um pouco porquê a vida é, sobretudo, o pouco que sobra de tudo que encontramos no dia-a-dia da existência: falar sobre a última leitura, sobre como estava diferente o gosto do sorvete de sempre, contar piada sem graça para rir da própria falta de graça, falar “olha lá o super-homem no céu — passou!”, narrar segundo a segundo como foram as últimas 24 horas, falar sobre o jeito esquisito do comportamento de não sei quem no trabalho, sobre o preço do shampoo de babosa e da costela premium, falar “à toa”: falar sobre tantas pequenas, médias e grandes coisas que fazem da rotina comum e normal de todo santo dia a coisa mais extraordinária para o amor: que fazem querer ouvir a voz do outro falando — partilhando o som do próprio eu, compartilhando o próprio eu. O ordinário ordena o prazer. E é a coisa mais gostosa do mundo você contar para ela uma bobagenzinha qualquer do tipo “você não sabe o que aconteceu hoje!” naquele clima confidente de Romeu e Julieta no balcão. Papo não é tanto o tema formal quanto o conteúdo real; e não é tanto o conteúdo real quanto a intenção espiritual. Uma boa conversa diária salva qualquer relacionamento do buraco, o buraco que começa com o furinho do silêncio seco. Sim. Papo inteligente é a gente sendo gentil e… papeando!
  16. Eva envelheceu sob o peso de meia dúzia de séculos. Maria ficou velhinha já aos cinquenta. Nossas avós, quase todas, ainda envelhecem à moda antiga: cabelos brancos variando entre um prata leitoso e um cinza azulado, pele fina e sedosamente enrugada, o corpo e a idade harmonizando-se numa beleza toda digna e capaz de inspirar reverência, autoridade e sabedoria. Envelhecer, passar dos 70 quero dizer, está esquisito hoje em dia para as mulheres. Está também muito esquisito o próprio viço da juventude nelas, que anda retalhando as formas em busca duma beleza algo “equina” (é “cavala”, que fala?): a suavidade das curvas está cada vez mais muscularmente definida e angulosa, a pele adocicada por água e perfume está rebocada de cremes atômicos, os cílios de sombra e luz estão crescendo como bambu e… a beleza com a qual se nasce e cresce está oculta, quietinha e envergonhada pelas modas produzidas (sejamos francos!) por homens que não gostam de mulher. E vocês, musas e prima-donnas da nossa vida, sucumbem aos delírios duma estética anti-feminina! Não se obriguem a padrões cujos patrões não lhes podem tocar com amor erótico. Vaidades: tenham-nas todas, porquê nós em vocês nelas nos deleitamos. Embelezem-se com as matérias e maneiras mais atrativas dos reinos do planeta! Mas… na adequação temporal, para que não se tornem caricaturas. Volto ao princípio, com uma pergunta: como serão as avózinhas daqui duas ou três gerações? Os netos poderão lhes tocar nos rostos e olhar nos olhos com a doçura quase adoração de quem vê na brancura dos cabelos e nos sulcos da pele um poucochinho da imagem de Deus? Não, vocês não têm que ser Donas Bentas de coque, camafeu e cadeira de balanço à espera do réquiem. Ninguém quer isso. Ninguém com os miolos da alma no lugar [talvez, só aqueles doidões reacionários que não sabem nada de vocês porquê não têm vocês]. Só sejam, se quiserem (sempre, se quiserem), filhas da própria cronologia. A beleza da idade é, paradoxalmente, eterna. A beleza do tempo com suas marcas é imortal.
  17. Você chega a ser um homem bom quando, consciente de que o mundo não se importa contigo, você persiste se importando com o mundo. É a mesma angústia que dói no coração de Deus. O mundo é de certo terrível e odioso, mas ainda assim você o ama.
  18. Não tenha pressa. O café às vezes tem que esfriar, o ônibus tem que ser perdido, a camisa não tem que ficar passada, o médico tem que faltar à consulta, as coisas da existência têm que passar para que fique a vida. Não tenha pressa, não se afobe, não fique ansioso. O café quente é para ser dividido, o caminho tem que ser feito num passeio à pé, a camisa não é a roupa mais adequada e a dor no tendão vai passar por si mesma sem que você precise gastar uns trocos além do orçamento. Não tenha pressa. O que vai de nós e se esvai nos outros é porquê tem que ser, às vezes. Se você esquenta a água, põe o pó, coa e serve na caneca e ainda assim esfria, é porquê era para esfriar. Se você acorda no horário, corre cinco quarteirões e chega no ponto vazio, era para perder. Se você passa o linho todo retinho e assentado pelo ferro e ainda assim as rugas se embrenham no tecido, era para enrugar. Se o médico não aparece para o check-up, era para faltar e a dor persistir. Todo acontecimento — atos ou fatos — está eivado de porquês que desconhecemos. Só não tenha pressa, faça sua parte: Deus ajuda quem cedo madruga, mas Ele é quem dá o sono e o galo despertador. Não tenha pressa e labute dentro das suas possibilidades, que o melhor (para sua alma, sobretudo) sempre acontece.
  19. Organize primeiro seu mundo físico. Ponha seu quarto em ordem. Dê jeito na pia. Arrume os livros na estante. Regre-se com horários e datas. Limpe, distribua, catalogue, disponha, estruture, componha, asseie. Elimine o caos. O ritmo e o hábito físico vão vagarosamente se impregnar no seu metafísico: a vontade vai se fortificar, o desejo vai amainar; você espelhará sua conduta corpóreo-material no seu incorpóreo-imaterial. Seus afetos vão se racionalizar, suas paixões e vícios vão recrudescer; sua moleza, sua preguiça, sua vagabundice — sua acídia! — vão se esvaziar até que a fortaleza, o auto-domínio e a consciência assumam o controle.
  20. Não é coisa desejável fazer testes para avaliar o relacionamento, mas… parece-me que o “tiro e queda” seja mesmo a ausência. Se você sumir do mapa, desaparecer do nada, o outro deve ficar desesperado caso realmente se importe contigo, afinal, teoricamente, a rotina dele foi tremendamente alterada com sua falta. Se ele, porém, não mover senão uma ou outra palha e mal esboçar um ou outro “hei, cadê você?” (direto ou indireto), você tem tanto valor quanto um punhado de sal na boca do cavalo.
  21. Nós somos como aqueles bonecos russos, as matrioskas: uma camada superficial, uma cópia inflada e oca mais imperfeita por fora, recolhida dentro de outra e de outra e de outra até que se chega à original, menor mas maciça e refinada no desenho. Perceba como você age e reage no dia-a-dia. Perceba a desconexão entre seu sentimento profundo em relação às coisas e o quanto e como você o transparece. Dos sorrisos amarelos e meramente educados diante duma piada sem graça, que lá no fundo às vezes gera antipatia e até asco, às simulações completas (teatrais, caricaturais, empurradas com a barriga do ego) que quebram a autenticidade da sua personalidade. Entre seu “eu central” e o seu “eu periférico” há um filtro, o filtro do condicionamento psíquico-social. É preciso rompê-lo. É preciso que você não sorria apenas por educação. Não, não é para fazer uma cara feia condizente com seu estado interior objetivo. Tem que sorrir sim. Porém, é necessário que seu estado interior, que sua consciência, admita que subjetivamente quem lhe contou a piada o fez talvez com bom grado e que esta atitude gentil merece um sorriso. Daí, você terá um sentimento genuíno (interno) capaz de gerar uma igual ação genuína sua (externa). O filtro não tem que deixar de filtrar. As camadas do boneco não podem deixar de existir, mas entre uma e outra o que passa por uma tem que fluir necessariamente por todas as outras, feito um fiozinho retilíneo e intangível do seu eu que é, que foi e que será — sendo, sendo e sendo.
  22. Só podem durar as coisas, as pessoas e as situações que surgem imperceptivelmente. Tudo aquilo que é arroubo, que é de repente, que é epifânico: se esvai no ar com a rapidez com que deu as caras. Aquilo que começa de mansinho, na serenidade que avança tateando no espírito, dura muito e quase sempre dura para sempre. Você está lá e, conforme tudo passa, aquilo fica, aquela pessoa fica, aquela situação fica. Você mal viu o começo, mal discerne o ponto de largada: e por isto não verá o fim, e por isto não verá a chegada. O amor tem mesmo que se esgueirar na alma, como um banho dado gota a gota em cada grãozinho de areia do deserto. O amor tem que ser aquela lava telúrica que percorre toda a cama oceânica entre as águas geladas sem muito amainar na temperatura, naquele vagar constante próprio dos poderosos. Quase não se notou, mas está ali no esplendor da própria grandeza, bombeando vida na própria vida. Só dura o que se acrescenta no dia a dia segundo a segundo, o que se aumenta no passo a passo milímetro a milímetro, o que se adiciona de invisível a invisível toque a toque.
  23. Cada qual com sua miséria, com seu calo onde lhe aperta, com seu pecado, com sua falha. Cada um com sua canequinha de mendigo diante do mundo passante. Há qualquer coisa de pedinte em todos nós. Estamos maltrapilhos diante de Deus. A madame veste Dior, o porteiro TorraTorra, o príncipe tem alfaiate próprio, o playboyzinho JohnJohn, a menina pobre sequer etiqueta tem no vestidinho de chita. Farrapos do Éden. Panos de imundície. A mesma mortalha de indigência espiritual a todos veste sem cobrir: ao cabo, estamos todos nus diante do Rei do Universo… Onde está, ó marca, a tua vitória? Onde está, ó grife, o teu aguilhão? Louvado seja o meu Senhor, Jesus de Nazaré, o da túnica inconsútil!
  24. Gente de coração mole, “manteiga derretida”, é coisa linda de se ter do lado. Não, vocês não são bobões chorões não. Vocês são a parte doce da lágrima salgada. Continuem pondo para fora a alminha de vocês, porquê este mundão está carente desta afetividade inocente. Melhor suar emoção pelos poros que bombear gelo no peito. Melhor se comover diante de “coisinhas sem importância” que ter a sensibilidade dum cacto.
  25. A vaidade da moça de sutiãs abertos com seios arfando e com sua boca-bico à Angelina Jolie tirando selfie diante do espelho da boate é maior que a vaidade da moça pudica que desfila toda-toda exibindo sua “modéstia” de grife italiana pelos corredores da igreja? A vaidade do playboyzinho pseudo-fazendeiro tirando racha com a Hilux do papai é maior que a vaidade do pastor todo empoado com sua oratória de locutor do Love Songs, seu terno de duzentas pilas e seu sapato de cromo paraguaio reluzindo à graxa de R$ 1,99? A vaidade, a vaidade das vaidades, não tem nada a ver com o que vai por fora. Tem a ver com aquilo que está lá dentro e vai brotando para fora… O exterior é mero indício do interior. O Evangelho muda o exterior, mas muda primeiro o interior.
  26. Mulher de temperamento difícil é, quase sempre, um grande desafio que vale a pena. Por detrás de toda ferocidade, de toda explosão passional, de toda “violência”, repousa silencioso o fato que geralmente nos escapa: um amor tão desmedido que excede a “linearidade” dos comuns (e chatos) bons sensos. Sabe como elas tratam as crianças de colo, com apertões insistentes, beliscões pontiagudos e com outros aumentativos de substantivos tão substanciais quanto bem “físicos”, que chegam às raias das mordidas e da “brutalidade” mais destemperada? É a mesma coisa conosco. E quem se atreverá a negar sua alta natureza amorosa? Claro que estes ímpetos não são para sempre e para todo o tempo, mas aquilo que os move (e porquê os move) é para sempre e para todo o tempo. Mulher de temperamento difícil, uma vez domado e apaziguado com mais amor, é fonte do carinho mais poderoso para um homem bom. É deste amor que Salomão falava quando escreveu que “o amor é mais forte do que a morte.” Por que? Porquê ele é todo vida — vida abundante, vida ardente, vida temperamental, vida difícil…
  27. Compartilhar seus buracos, suas brechas, seus trincos, suas frestas, seus pequenos vácuos, as arestas onde as peças não encaixam. O grande desafio dos relacionamentos: ser capaz de por terra fértil no buraco e ali cultivar um jardim, lapidar granito para a brecha da muralha, encher o trinco da porcelana com ouro como fazem os ceramistas japoneses, arranjar argamassa para a fresta ou expandi-la como uma janela-mirante, retirar da própria oquidão matéria para cobrir o vácuo, recortar a peça que falta para compor este sempre inconcluso quebra-cabeças do coração. Se você não está disposto a isto, cairá no buraco, a flecha lhe acertará, o chá vazará ao primeiro gole, o ladrão roubará o tesouro da torre, o vazio se encherá com o monturo do mundo, peça alguma se encaixará e sequer se chegará a saber qual era o desenho delineado nestes mistérios de incompletude. Cada qual chega diante do outro com suas questões inconclusas e não haverá possibilidade de serem uma só carne enquanto a compatibilidade for meramente anatômica, enquanto o feromônio corporal não se ajustar ao perfume do espírito, enquanto aquilo que entre um e outro existe é o tanto e o quanto da própria solidão despistada com companhia e tempo repetidamente perdidos.
  28. Deus nos faz chorar. Ele nos faz sofrer. Ele nos suscita dores. Deus revolve espinhos em nossa carne, salga nossas feridas, cauteriza a ferro e fogo nossas chagas. E Ele colocará e tirará pessoas do nosso entorno para isto: gente boa e gente má. Ele lhe fará ter a companhia dos santos e dos ímpios a um só e mesmo tempo: e aí, a sua conduta se amoldará pelo bem no mal. Ele lhe fará ser traído pelos injustos para que você se apoie nos justos que desprezou e seja também um justo. Ele lhe fará ser beijado pelos hipócritas para que você valorize o ósculo dos sinceros que abandonou e seja também um sincero. Ele lhe fará comer e vomitar o bolo confeitado pelos exóticos da terra para que você coma com satisfação o pão dos simples e seja também um simples. Deus lhe fará derramar lágrimas salgadas e quentes para que você refresque aquela sua alma outrora doce, agora amargamente abrasada pelo mal. Ele lhe fará gemer. Ele lhe fará berrar ais silenciosos e sonoros. Deus mexerá com seu corpo para remexer seu espírito: de fora para dentro, do exterior para o interior. Ele lhe fará primeiro perder objetos materiais; depois, acontecimentos e pessoas. Ele lhe alijará daquilo que lhe impede de ser santo. São avisos: de início, sussurrando, pequenas perdas; depois, falando, médias perdas; por fim, bradando, grandes perdas. Seu carro lhe movimenta em direção ao vício? O motor fundirá. Seu computador lhe catapulta para o pecado? A placa-mãe estourará. A festa será ocasião para mais iniqüidade? Você não conseguirá ir ou ela não acontecerá; e caso aconteça acabará mal. Seus amigos lhe desencaminham? Você os perderá; de uma forma ou outra, cada um deles será neutralizado. Quem ou aquilo que lhe afastar de Deus será removido, permanente ou provisoriamente, para que Ele substitua a pessoa e a coisa na sua existência e, então, lhe conceda vida real. Deus fechará o cerco com choro, sofrimento e dor. Ele tomará seu falso eu de você para que você seja efetivamente você. Ele baterá severamente no barro sujo para que a argila fique limpa e suave para sua roda de oleiro. A pedagogia divina, principalmente para turrões e teimosos recalcitrantes, é literalmente “flagelo no lombo”. Deus lhe ama e, por isto, como Pai que é, precisa arrancar do marmelo uma boa e rija varinha…
  29. Aprofundar-se numa alma é muito mais difícil do que penetrar um corpo. É por isto que estão todos aí babando carência na mesma proporção em que comem e se mastigam uns aos outros. Todos canibais e vampiros, ainda que incapazes de digerir carne e sangue. Todos se regurgitam, entre vômitos e cuspes que vêm e vão conforme o paladar da líbido baixa — conforme eles se rebaixam. Fertilizar um óvulo é tão fácil quanto estourar um balão, e os chimpanzés adestrados de qualquer circo sabem fazer tão bem um quanto outro. Você pretende, então, ser um bicho paritário a um macaco, um hominídeo destes desenhados nas cronologias da Evolução? Só um macho com um “porrete”? Semear um coração e torná-lo livremente cativo da chuva, do arado e da foice é coisa apenas dada a homens tementes a Deus fazê-lo. Uns preferem estufas e boates, tubos de ensaio e camisinha, manipulação genética e anticoncepcionais. Nós, que ainda somos gente com alma, fizemos a opção pelo caminho antigo das estações e das igrejas, do sexo com amor e totalmente nu, da abertura à vida terrena e à Eternidade. A menina definha porquê lhe cortaram a beleza para o vaso antes que terminasse de desabrochar; depois a substituem por uma cópia de “plástico”. O rapaz mirra porquê lhe amputaram a fortaleza para o pragmatismo antes que terminasse de amadurecer; depois o substituem por uma réplica de “halteres”. Esta conversa de confessor e penitente não é sobre moralismo, sobre céu e inferno ou sobre qualquer teologia barata baseada em punição ou em mecanismos de repressão mental. Nem religião, nem psicologia. Nada além da realidade toda crua e toda nua alertando para o ponto do cozimento da sua existência e para a temperatura da sua vida. Estou lhe dizendo estas coisas porquê elas delimitam ainda mais os seus limites enquanto indivíduo. E certamente chegará o dia, fatídico e terrível, em que você já não poderá refazer o caminho de volta…
  30. Ajudar com as pequenas tarefas domésticas, tornando-as prazerosas não pelas ações em si (limpar, passar, cozinhar), mas através dos porquês aos quais elas se destinam (confortar, vestir, alimentar), é um dos ingredientes prévios que homem e mulher devem levar das suas existências de solteiro para sua vida de casados [atenção aos plurais e singulares!]. Aspirar pó pode ser chato, labutar com o ferro elétrico pode ser maçante, esquentar as panelas pode ser aborrecido; mas dormir num quarto asseado é agradável, mas usar uma camiseta cheirosa é estimulante, mas comer o prato preferido é delicioso. Rapaz que não ajuda a mãe com a louça na pia e moça que não ajuda o pai com a caixa de ferramentas, e vice-versa, não sabem o valor de um copo limpo na mesa de jantar e da água quente do chuveiro depois de um dia de suor. Assim, eles não chegarão a ser esposo e esposa. Sem varal e varreção, não há varão nem varoa. Não basta ser casal e acasalar para casar: tem que saber cuidar da casa. Juntos, apenas juntos nestas atividades rotineiras, eles serão efetivamente os senhores do lar.
  31. Todo intelectual verdadeiro tem apegada à sua vocação para lidar com as coisas imateriais uma vocação para lidar com as materiais, um talento para “ofícios mecânicos”. Um grande literato pode também ser um cuidadoso jardineiro, um filósofo pode passar dias inteiros na forja como mestre ferreiro, um professor universitário é capaz de ser esmerado marceneiro, um estadista pode ser exímio ceramista, um poeta pode ser excelente lenhador. Não só podem, deveriam e devem. Por que? Porquê a abstração sem o contato constante com o real, com o mundo físico, cria aberração. A genialidade das mentes com alta capacidade imaginativa (capaz de fazer malabarismos com o “ser”) precisa ser contida e moldada pelas estruturas das coisas como elas são (os malabares dos “entes”).
  32. Quem te faz ser menos você, não pode te fazer feliz. Quem suprime da tua personalidade as características mais profundas e naturais (aquelas que são seu potencial máximo e melhor de grandeza humana), por conveniências pontuais ou por exigências pseudo-morais, não pode naturalmente se aprofundar em você. Anular no outro as belezas tão diversas quanto especiais da individualidade é negar à pessoa os presentes que Deus lha concedeu antes mesmo do espermatozóide fazer a côrte ao óvulo. É deprimente a quantidade de homens e mulheres que levam “vida dupla”: são expansivos, vivazes e extraordinários no desempenho do próprio ser quando estão libertos do olhar castrador do “companheiro”, mas basta que as retinas da censura marital surjam no ambiente para que a alma se recolha à sua ostra de silêncio e melancolia. Quem te faz ser menos você, não pode ser um com você: ser “uma só carne” não é ser “uma só personalidade”.
  33. Quantas pessoas bobas de tão boas nós não ignoramos simplesmente porquê babamos por pessoas malandras de tão más. Quando nós nos afastamos de quem presta por quem não presta, fica evidente que nós não apenas nos aproximamos dos ruins por mera atração: fica evidente que nós nos atraímos pela nossa ruindade espelhada nos outros. A malícia cá de dentro milita pela malícia aí de fora. Quem chama o meigo de tolo, quem repele o ingênuo, quem desfaz do inocente, quem se estimula com a astúcia: quem isto faz é que é tolo e bruto, é velhaco e repelente, e é malicioso ainda que despiste isto (oh egóico auto-engano!) com discurso virtuoso.
  34. Papai e mamãe levam os filhos para ver o Papai Noel no shopping. Mas papai e mamãe não levam os filhos à igreja para saber do tal do “aniversariante”. Vocês estão dando presentes e mimos porquê (vamos ser sinceros?) vocês são pais ausentes de filhos mimados. Onde a “noite feliz” nesta diária infelicidade mercantil? Cadê o “sino pequenino” nesta surdez espiritual? O presépio não tinha renas, nem duendes, nem pisca-pisca, nem regalo algum senão o pobre Menino-Deus entre gado e pastorinhos sob uma estrela. Um dia, talvez logo ou talvez só na longínqua velhice (nas suas e nas deles), ainda vão ter que orar muito para o Bebê-Crucificado. O ho-ho-ho pode acabar num ai-ai-ai.
  35. Eu entendo perfeitamente o coração do Daciolo. Tem dias que minha vontade mais visceral também é só dizer (repetidamente, até sem parar): “Glória a Deus!” É assim mesmo.
  36. Deus está em todos os lugares. O diabo, em qualquer lugar.
  37. Diariamente nós afugentamos da nossa mente centenas de pensamentos “incômodos”. Pensamentos ternos, pensamentos tenebrosos, pensamentos bons e pensamentos maus, alternativas nunca testadas e obsessões que não podem sequer serem provadas, amores confinados a sentimentos aqui e ali reprimidos, ódios soterrados no abismo da consciência, possibilidades desejadas e medos pavorosos com seus terrores e suores. Nós temos pensamentos de todas as ordens e desordens que incomodam e, porquê incomodam, covardemente nós damos logo um jeito de esquecer e, já no instante em que ocorrem, tratamos de “pensar outra coisa”; e nós artificialmente pensamos outra coisa, criando do semi-nada um assunto para nos distrair do enfrentamento com o outro pensamento, com “aquele pensamento”. E lá vamos nós a ziguezaguear a atenção pelos neurônios até que, de repente, voltamos ao tal pensamento, retrocedemos outra vez àquele maldito pensamento incômodo. Forçamos a barra e, a custo de muita força mental, empurramos mais uma vez o indesejado para debaixo do tapete psíquico. O dia acaba, dormimos, acordamos e a atenção acorda mais ou menos focada noutra e qualquer coisa. Mas, boom!: horas ou dias ou meses e tempos depois, sob a pressão da importância que nós atribuímos a ele sem contudo admiti-lo, ele volta. O pensamento incômodo sempre volta para incomodar. Solução? Conheça-se a si mesmo, passe em revista sua consciência, faça diariamente uma bem racional “operação pente-fino” na sua volição, na sua intuição, na sua (vá lá!) meditação. Pensamentos incômodos só incomodam gente acomodada.
  38. Esqueci teus olhos passando por eles todo os dias. A rotina apagou de mim tuas retinas. E aquilo que me era o farol entre águas e trevas, hoje é um par de olhos como os olhos de qualquer uma na multidão das rotinas ensolaradas. Esqueci me esforçando para esquecer, desaquecendo o coração, forrando o cérebro com as páginas sagradas. Esqueci teus olhos, piscada a piscada, como se aquela areia dos olhos sonolentos me tomasse a consciência da visão a cada encontro, cada encontro que se desencontrava a cada reencontro de íris reciprocamente cegas sob luz ideal.
  39. Como estão porcas e degeneradas as relações. Como estão porcos e degenerados os corações! As camas são lamaçais, as almas são pocilgas. Os corpos são belas mas ocas estruturas: os espíritos são carrancas e espectros de feiura. Puta que pariu!
  40. Então, eles apontam para você e dizem “lá vai o sonhador, o bobo, o louco, o esquisito”? Eles fazem piada da sua conduta, dos seus modos, do seu comportamento? Então, você desanima quando debocham da sua fé e dos seus princípios? Então, porquê lhe creem um palhaço, uma criatura exótica, você esmorece o coração? Sossegue! Não tergiverse, não ceda, não baixe a cerviz, não se renda. É tão melhor ouvir a gargalhada do mundo e ainda assim poder contar com o sorriso de Deus…
  41. O pecado dum santo é como um arranhão numa jóia de ouro. O risco é evidente, mas o dano, por outro lado, revela que sob a superfície dourada tudo é ouro. O pecado dum santarrão é um arranhão numa falsificação, numa bijuteria. Basta lacerar a superfície para descobrir que por debaixo do banho de ouro o material é ordinário e barato.
  42. Hurt é Salomão se lamentando. É o Eclesiastes do Cash.
  43. As coisas fáceis que vêm fáceis são só coisas que se vão facilmente. Coisas fáceis não exigem força de vontade, não pedem zelo, se dão como putas de esquina de estômago vazio. As coisas difíceis, estas sim, pedem que você seja destemido, que seu coração seja valente e um tanto puro, e só se entregam como a donzela da torre cuja alcova só se alcança depois que o cavaleiro degola o dragão. Se você não está preparado para renunciar às facilidades, tudo será dificuldades; tudo será mediocridades sem valor, inúteis e vazias. Se você renuncia às bobagens ordinárias e enfrenta a si mesmo e ao mundo, a grandeza cairá nos seus braços. As coisas difíceis que vêm difíceis são coisas que permanecem, que permanecem para sempre.
  44. À fórmula clássica da jura de casamento deveria ser acrescentada mais esta condicionante: “na sanidade e na loucura.”
  45. Meios-termos, conversas moles, papo pra boi dormir, vagueza. Poucas coisas são tão terríveis para a alma quando o suspense das indecisões, das conversas não terminadas, do não dito no dito. Quando a hesitação é permanente, quando não ata nem desata, quando não caga nem sai da moita, quando nem vai nem racha: toda dor, por mais miúda, se torna um suplício; e toda espera, ansiosa, devagarinho míngua em desesperança. O drama do saber-não-sabendo faz tanto ou mais mal que a certeza que entristece, machuca mais que a clareza afinal adversa. Só quem já ficou com a alma pairando neste vácuo de [in]significâncias, só quem já ficou vagando feito espectro caçador de corpo, sabe o quando a expectação que não termina é das angústias mais pesadas que o coração pode suportar. Por isto, cá meu conselho mais sincero: diga, fale, explique, converse, esclareça, verbalize, chame, conte, deponha, recite, declame, dialogue, responda, retruque, lecione, evidencie, exponha. Não deixe nada na penumbra, porquê as trevas da dúvida esganam…
  46. Mesmo as mulheres esteticamente muito parecidas podem ser muito diferentes quanto à percepção que temos de sua beleza. Dou um exemplo: conheço duas morenas, de cara e corpo praticamente idênticos no talhe físico: desenhos, ângulos, curvas e harmonias de igual medida e feitio. As duas são muito bonitas e, como dito, quase gêmeas na aparência. Uma delas é boa menina, a outra pertence àquela cepa das “da pá virada”: todo mundo que olha para a primeira diz que ela é linda e todo mundo que olha para a segunda diz que ela é “boa” naquele sentido mais sem-vergonha da palavra. Qual a diferença? O porte e a postura, o ser denunciado pela personalidade vazada tanto nos pequenos quanto nos grandes gestos. Não se trata da proporção áurea regulando os números e distribuições anatômicas. Não se trata de simetria material. É algo mais profundo, sob e sobre o véu da carne. Trata-se de caráter. E que coisa bonita é um caráter bonito!
  47. Esta é a geração que menos calafrios tem tido na espinha. Nada lhe excita a alma a ponto de fazer esse impulso de calor-e-frio percorrer a coluna dum extremo ao outro. Quem por aí ainda se arrepia de elevação, de maravilhamento, de admiração? Sequer os namorados têm sabido o quê é este deslumbramento que cavouca seu leito medular entre o corpo e o espírito, que atravessa a carne com um punhadinho de comichões feitos de luz eterna. Que tristeza…! O sujeito pode dormir sob um céu como aquele da “Noite Estrelada” de Van Gogh, pode dormir ouvindo a namorada lhe cantar, nota a nota e ao ouvido, o “Luar do Sertão”, bem depois dum banquete farto de carnes gordas e vinhos velhos, e… ainda assim o miserável não vai sentir nada de sideral no corpo. Nada, nada, nada…!
  48. A gente começa bebê balançando no berço e nos braços dos nossos pais, fica criança brincando no balanço da praça, fica adulto balançando de paixão a cama e, então, fica velho na cadeira-de-balanço. A vida é uma balança. Nós somos o peso. O balanço é o pêndulo do tempo e o prato da justiça. É o movimento de ir e vir da vida, que mede nosso envelhecimento e julga nosso amadurecimento. A gente balança no barquinho com Jesus e com Pedro. Aqui, a gente balança entre a fé e a descrença, entre a espada desembainhada e o canto do galo. E nós balançaremos, assim, até que um dia o colo seja o do Pai, até que o parquinho seja o Céu, até que o amor seja a visão pura dos santos, até que a serenidade não seja a quietude dum corpo alquebrado pela biologia entrópica mas sim aquela paz toda potente do corpo glorioso. Eu balanço porquê me balançam e porquê balanço os outros. Todo este balançar, porém, é um movimento ascendente em direção à Eternidade. Que cada um deles seja mais que um giro de 180o graus, físicos ou metafísicos. Que cada balançar seja a oportunidade dum sono de neném, duma alegria infantil, dum gozo carinhoso, duma sabedoria provada. Que seja a oportunidade de dizer “oi, Deus.”
  49. O desejo do bem faz surgir o bem. Não se desespere. Se o seu coração anseia sinceramente por coisas boas e bonitas, Deus tratará de por bondade e beleza na sua vida. O querer modesto, de aspirações legítimas e silenciosas, quer sempre aquilo que também quer Deus para nós. Sem grandezas falsas, sem megalomanias, sem as superficialidades vaidosas das cenas e contracenas do mise-en-scène das massas e maiorias. Você quer um amor, um lar, uma existência daquelas de “moringas de água fresca” e de “vestidos de linho azul da esposa amada”? Sossegue. Só continue a desejar e a querer. Pelo menos mantenha guardadas na alma estas “aspirações altas e nobres e lúcidas.” Desejar-e-querer é o primeiro passo para conquistar-e-obter, porquê estes nossos anseios íntimos moldam finamente nossas ações tanto quanto às finalidades da existência quanto aos finalmentes da vida. Não se desespere. Sossegue.
  50. Nem sempre é o objeto ou a pessoa. Às vezes é a distância que faz com que atribuamos valor às coisas. Se existíssemos na Lua, à noite nós olharíamos para a Terra e comporíamos canções, poemas e laudes à uma vida por lá. Ícaro teria querido atingir a imensidão azul a partir do satélite prateado. As óperas italianas não cantariam “que bella, que bella luna”, mas sim “que bella, que bella terra”. As crianças brincariam de missões espaciais para cá e os astronautas quereriam fincar suas bandeiras não nas crateras largas e cinzas da “rainha da noite”, mas nas nossas florestas oxigenadas e verdejantes. A imagem do queijo furado seria a do próprio habitat: a terra seria o disco azul lá em cima, quase boreal na cor de opala e aurora. Parte fundamental do amadurecimento da nossa vida adulta (afetiva, sobretudo) consiste em saber separar a aura romântica das coisas das coisas em si mesmas. Muitas vezes, o valor é dado às pessoas e aos objetos em função dos objetivos que ingenuamente idealizamos e do quanto eles são ou estão distantes. Queira o objeto por ele mesmo, esteja ele a centímetros ou a quilômetros de distância. Queira a pessoa por ela mesma, esteja ela a um passo ou a um continente de distância. Sonhar acordado, entabulando quimeras e miragens insufladas por afastamento (e, então, pelo critério disponibilidade/indisponibilidade), é tolice.
  51. Existe consciência pura. Não existe inconsciência pura. Existe consciência impura.
  52. Valor deve ser dado a quem sabe o preço das coisas, a quem sabe a quantas mls de suor equivale a xícara de café, o arroz e o feijão, o celular, o sapato, as coisas todas à venda. Valor deve ser dado a quem escolhe um tecido menos caro para poupar a carteira na carteira de poupança. Valor deve ser dado à menina que rala o dia todo para pagar a faculdade, que sai do serviço e vai direto (sem banho) para a sala-de-aula. Valor deve ser dado às donas de casa que remendam panos, que costuram colchas e tapetes com retalhos, para dar uma “roupa de missa” pros filhos. Valor, muito valor deve ser dado a quem, mesmo com o orçamento apertado, economiza para fazer gentilezas à esposa, aos filhos, a quem quer bem. Valor! Nada é sobre dinheiro. Tudo é sobre sentimento.
  53. Não é tão difícil: os olhos duma pessoa profunda são também profundos, e diante deles a gente estagna como se olhasse para dentro dum abismo, um vórtice infinito de segredos que se revelam conforme a visão é mantida íris-à-íris. São ternos e firmes, e mesmo que olhem fixamente para determinado ponto, parecem irradiar sua atenção por todos os ângulos e perspectivas. Olhos profundos parecem-se um tiquinho de nada cansados, mesmo que estejam totalmente dispostos: eles têm uma densidade metafísica, carregam o peso da consciência que, mesmo leve, pesa muito mais que a consciência dos frívolos. Olhos profundos se aprofundam nos nossos e aumentam nosso próprio limite de profundidade: eles cavam, escavam, cavam e escavam o limiar do nosso espírito até que a matéria dos nossos nadas fique palpável e a córnea translúcida como o véu do templo de Deus. Olhos profundos são dois fragmentos iguais e perfeitos daquela mítica pedra filosofal. Se você encontrar por aí um par destes, roube-o para si.
  54. Sou da opinião de que aos votos matrimoniais deveria ser acrescentada mais uma jura, esta: “na sanidade e na loucura.”
  55. Esteja pronto para não estar preparado. Imprevistos acontecem e o leite acaba derramado. Só não esteja despreparado para ajuntar os pedaços da xícara quando ela também for pro chão. A vida não é tanto sobre acertar: é mais sobre como passar o pano e recolher os cacos, é sobre como lidar com o erro. O passado, sempre passou e continuará passando. Mas, e o futuro? E o presente que embesta e desembesta o futuro? O mais importante é continuar comprando e esquentando o leite, é não trocar a porcelana por vidro grosseiro ou plástico, é não deixar de insistir nas coisas boas porquê um dia o percurso se acidentou com o nosso “mau jeito”.
  56. A gente também tem temperatura. A gente também fica quente, frio, morno, gelado, fervendo. E a gente sabe disso porquê nosso espírito é um termômetro: os graus celsius da consciência sobem e descem todo santo dia… A gente tem coração, onde cai fogo e saraiva. E a gente tem cérebro, onde neva e o vento corta. O amor, a ira, o carinho, a insensatez, o desprezo, a bondade, a maldade e todo o mais com ou sem simpatia e antipatia — também com ou sem empatia — queimam e congelam nossos afetos. A gente tem o verão e o inverno no peito e na cabeça. A gente… é gente. E gente tem destas coisas: estes 8-80, estas contradições, estas ausências de primavera e de outono, estas temperaturas de Saara e Ártico que por mais que se toquem raramente produzem uma alma morna, moderada. A gente geme por ser gente, gente polarizada, mas Deus sorri disto porquê hoje Ele também é “meio” gente. Deus é o nosso equilíbrio térmico: se a temperatura está baixa, Ele é a lareira quentinha do nosso quarto; se está alta, Ele é a fonte de água fresca do nosso jardim.
  57. Mais do que compatibilidade nas virtudes, é preciso ter compatibilidade nas imperfeições. É fácil simplesmente idealizar as coisas e dia e noite aspirar à perfeição, à uma vida tão “certinha” quanto irreal. O difícil, mas necessário, é aceitar o outro com seus pecados passados, com seus vícios presentes e com tudo aquilo que disso tudo ainda vai reverberar no futuro. Amar é acolher no outro seus erros e defeitos para construir na vida a dois uma parceria de acertos e aperfeiçoamentos. Amar é fazer ajustes permanentes, é cortar na carne, é amassar e moldar o barro sujo, é esquecer e tolerar, é acariciar as chagas e as feridas mal cicatrizadas que ainda marcam a pele sedosa: é sofrer e, sofrendo, encontrar até nas dores do pecado os motivos maiores dos prazeres e das alegrias da santidade. Qualidades afins valem muito para quem quer morar no céu. Mas as falhas em comum valem muito mais para quem quer levar consigo o cônjuge para o céu. Ainda estamos na terra. E aqui na terra o amor serve para purgar, para limpar, para purificar. A única coisa incompatível é o desamor. Todo o mais se ajeita. Todo o resto se ajusta.
  58. Vi agora à hora do almoço um velhinho engraxando os próprios sapatos. Descalço, aos pés duma escadinha, defronte à própria casa. Estava de meias, verdes ou cinzas. Roupa social: camisa branquinha como a neve, calças dum cinza amarronzado. Do lado, um chapéu puído de pele de lebre. Dava para ver, pendendo do lado, um velho relógio de bolso, um “patacão” prateado. Cabelos azuizinhos-céu de tão brancos. Mais de 80 anos, com certeza. Deu gosto. Depois dum sorriso feminino que vi pela manhã, esta foi a imagem mais bonita do dia. Já tinha um tempo que eu não encontrava, pelas ruas de Pindorama, um destes avôzinhos à moda antiga, cavalheirescos. Sobrou cá comigo uma pergunta: como seremos nós, os avôs do futuro?
  59. Há muito que percebi que, nas mulheres, certo sono, certos bocejos, certa letargia ou dengo corporal, estão intimamente ligados ao coração, a um desassossego interno que tanta energia consome no lado de dentro que pouca vontade sobra para os gestos do lado de fora. Este silêncio quase onírico acomete aqueles dias de reflexão. É um período muito sentimental, quando (talvez elas não saibam) a gente mais consegue enxergar o que de angélico elas carregam no coração. Muito sútil, mas muito forte. Muito sereno, mas muito poderoso. A beleza delas fica tão evidente quanto devia ser a de Eva nos primeiros segundos quando ela se percebeu existente.
  60. Há mais coisas entre o silêncio e o grito duma mulher do que pode sonhar nossa vã filosofia masculina. Engana-se o bocó que acredita que as coisas acontecem do nada com elas: a coisa não está “boa” e de repente fica “ruim” do nada, num zás-trás que transforma a ursinha-carinhosa num satanás de saias. É tudo muito gradual, mas duma gradualidade comprimida, ultra-compacta: é como se elas tivessem dentro de si um termômetro absurdamente progressivo, mas cuja velocidade entre o zero grau e o calor absoluto se atinge muito rapidamente. É um processo lógico, mesmo que suas etapas nos escapem pela ligeireza. Se elas mesmas fossem capazes de equacionar toda a cadeia de argumentos que se sucedem concomitante e sobrepostamente um ao outro, sim, senhores: nós muito frequentemente estaríamos ferrados.
  61. Nada me encanta tanto quanto a sinceridade. Nada.
  62. Pessoas temporárias são aquelas que marcam horário para você. Afinal, você é só mais um atendimento, às vezes incômodo. Pessoas para a vida toda desmarcam o relógio inteiro por você. Você merece atenção, então tudo sempre se acomoda. Toda importância é medida pelo tempo empenhado: importa o que não é cronometrado. O tempo só é relativo na teoria de Einstein. Cá no peito é a eternidade que governa, e a eternidade é sempre maior na sensação da carne quando se pode acrescentar mais um segundo, e outro minuto, e uma hora e… mais tempo. “Moro em Jaçanã, quero perder este trem!” Quanto mais alguém olha no relógio, quanto mais um compromisso compromete o papo, o conselho, o diálogo e até o silêncio, maior é a certeza de que o tempo importa e, porquê importa, ele não pode ser gasto naquilo que o calendário vai levar embora. Romeu se lamentou quando percebeu que o sol nascia. Julieta se lamentou quando percebeu que o sol nascia.
  63. Todo rosto tem marcas, rugas, pintas, linhas desiguais, pontos dum lado que não se compensam no outro, pequeninas desarmonias. Este desequilíbrio é justamente o elemento central da beleza. A total simetria, que prezasse por completude regular no desenho, faria duma face um exercício de purismo geométrico. E nós sabemos muito bem que não é assim. Um rosto bonito é um rosto onde as principais estruturas são proporcionais, mas cujos detalhes, cujos entalhes de personalidade individual, são semeados de maneira algo “dispersa” — relativamente desigual. A famosa pintinha sobre o lábio feminino, a covinha que se destaca mais dum lado que do outro, as expressões que desbalanceiam o maxilar, a penugem que toma mais um braço que o outro, a auréola maior ou menor nos seios, a verruguinha no pescoço, uma cicatriz, mais sardas aqui que ali, etc. Enfim, é certo que a beleza é um conjunto orgânico e simbiótico de positivação e negativação de padrões que se auto-ajustam no corpo. Os feios são os polarizados, são justamente os excessivamente geométricos e os excessivamente assimétricos.
  64. Gente carente vive assoprando fogo de palha, tentando reacender fagulha fria. Poderia queimar uma floresta toda de lenha até a Eternidade, mas prefere cronometrar os instantes luzídios duma qualquer poeirinha de carvão. Não tem duma chama senão um vislumbre estético, uma visão “pisca-pisca” que não esquenta nem conforta, ainda que iluda os sentidos com as “provas cabais” dos seus termômetros de paranóia e romantização. Auto-engano térmico. Se contenta com os pequenos “sinais” das cinzas que há muito já não são brasa… Se contenta em saber que o borralho provém do fogo. Tenho imensa compaixão de quem se apaixona por fogueiras de gelo e nevasca, que queimam, mas queimam pelo frio. Não se iludam, não se humilhem. Camões estava enganado: amor é fogo que arde e se vê. Apenas os carentes, susceptíveis e sugestionados de tanto ansiar, conseguem ver labareda onde só há lenha molhada, sequer capaz duns borbotões de fumaça mesmo que lançada num vulcão…
  65. O tempo nos consome. A pele de bebê de repente está enrugada. O cabelo, ralo e branco. As unhas, grossas e duras. O tempo depõe sobre nosso corpo suas crostas. Os velhinhos aí estão, com suas bengalas e doenças. A pele jovem, a pele adulta: é a nossa. Cabelo e cabelo com viço e cor: é o nosso. Unhas rosadas, flexíveis: as nossas. Nós estamos aqui, com a coluna ereta e os pés firmes, com saúde. Mas, e daqui a pouco? Hoje, temos 20, 30, e logo se passa dos 40 e então mais o dobro e já estamos aposentados, na terceira ou quarta idade, sentados debaixo de uma árvore olhando quietamente para o mundo. Então, eu que penso loucamente nestas coisas, me pergunto: como será a velhice daqueles que te abandonam, meu Deus? O tempo vai ruminar o corpo do crente até que ele se torne pó de ampulheta. Mas seu espírito se erguerá vivo na Eternidade. O tempo também tornará pó o descrente. Mas… e o que se fará da sua imortalidade para definitivamente decrépita? O corpo glorioso é para os salvos. Mas o corpo do infiel recém-saído da cripta é o mesmo corpo de sua morte, que nele estará pespegado para sempre e sempre.
  66. Tem poder sobre você não quem hierarquicamente, pela força da coação dum sistema, pode ordenar que você faça isto ou aquilo. Tem poder sobre você quem livremente, pela força dum coração que queima, pede que você faça isto ou aquilo e você irresistivelmente faz.
  67. Um dos preços de andar com Deus é caminhar já em nuvens sobre a terra: você flutua por dentro e os outros pensam que você está no mundo da lua, você levita no interior e os outros pensam que você é aéreo. Como é gostoso ter os pés sobre a terra e ainda assim sentir que até os espinhos são algodoados. Como é gostoso caminhar no solo do planeta e ainda assim ver que tudo são “pedrinhas de brilhante” numa das ruas da Sião celeste. Um dos preços de andar com Deus é ter um par de asas invisíveis que, como aquelas atrofiadas das galinhas, às vezes nos permitem alçar vôo por cima da cerca do mundo, sob o cacarejo atônito e debochado do galinheiro que mal pôde perceber que em seu meio havia uma águia…
  68. Nada me encanta tanto quanto a sinceridade. Nada.
  69. Meu TC do Curso de Direito foi mal feito. A falta de tempo é cruel comigo. Já há dois anos não leio um livro inteiro… Registro isto para perpétua memória da coisa.

O altar da noite escura [artigo para jornal]

A lua antigamente servia à localização noturna, à poesia e ao parto das grávidas. A lua afetava as ondas do mar, o crescimento do cabelo, a semeadura do campo. E muito mais. E ela continua a obrar estas coisas. É que a gente não sabe mais dessas coisas, nem de quase nada. Ontem, sentado no jardim cá de casa, lendo e respondendo bobagens no celular madrugada a dentro, percebi que a lua hoje em dia (e hoje em noite) mal inspira o miado dos gatos e o latino mal uivado dos cães que ainda guardam parentesco distante com os lobos. Séria pergunta: me diga, para que serve a lua na sua vida? No máximo, você curte ou compartilha fotos dela grandona ou vermelha no Facebook, quando os movimentos orbitais da terra aproximam ela de nós e os raios solares colorem sua superfície. Você já ouviu o Sinatra cantando “Fly Me To The Moon”? Você já quis ser astronauta da Apollo 11? Você já ouviu aquela musiquinha “Rato”, aquela em que o rato toma um “toco” amoroso da Lua? Você já viu alguém comparar um queijo suíço esburacado com as crateras dela? Você já ouviu a sonata “Clair de Lune” ao piano?

Bem… Mas não se trata da lua. Tem mais. Muito mais coisas feias e bonitas que nós nos esquecemos que existem por aí, dando mole pra nossa alma, dando sopa pro nosso espírito, mas que nós rejeitamos friamente, como se não precisássemos de nada além das coisas que estão ao alcance material das nossas mãos igualmente materiais. A gente não quer mais saber das “coisas inúteis”. A gente só quer aquilo que venha rápido pro bolso, que venha rápido pro estômago, que venha rápido pros genitais, que venha rápido porquê a rapidez é tão rápida que a gente precisa fazer uma rapidez seguir a outra até que surja rapidamente o dia da nossa morte (ah, e que seja rápida!). Então a vagabundice tem que ser bem remunerada, porquê suar é pra bestas de carga; então a comida pode ser a do micro-ondas ou a do fast-food, porquê cozinhar é praquela velhinha no sítio com seu fogão à lenha; então o orgasmo tem que ser vapt-vupt, quase precoce, porquê há muito mais vaginas pelo mundo e a noite é uma criança; então… é preciso correr, porquê o percurso desta existência acaba logo e é necessário não só tatuar o “Carpe Diem” na nuca — a gente tem que ser um epicurista que não leu Epicuro e tem que mandar a ver na existência!

Não é só a lua. É tudo. Você não percebe (vai, seja sincero) que você é um ralo pro mundo e que todas as coisas boas e bonitas da Criação te são inaproveitáveis? É, você é um ralo. Não, não é um abismo. Você é só um ralo superficial pelo qual escorre vômito, fezes e urina metafísica. Você não quer nada com nada e, quando o nada vem fazer arrepios na sua espinha, trazendo medo e depressão, o que você faz? O que você fará? Arre! Será que pelo menos você será consolado ao saber que tem uma ópera, La Bohème, que fala duma vida toda suja e também toda pseudo-romântica e alcoolizada entre amores, paixões e devassidão?, e, ah!, que também fala da lua numa ária bela e trágica? Sequer isto você tem. Sequer o vil consolo da cultura. “Ma per fortuna / È una notte di luna / E qui la luna / L’abbiamo vicina.” Admita: você não tem nada! Você não tem sequer isto a que você apelidou de você mesmo, o seu eu aparente. A gente está mal, muito mal. Quisera eu, pobre leitor, que você de fato soubesse que Deus criou a lua e que o fato dEle a ter criado é a informação mais importante a que você terá acesso em toda a sua vidinha. Porquê aqui está uma verdade — a Criação — e uma verdade sempre empurra a outra, sempre conduz à outra, como num efeito-dominó.

Esta noite, saia lá pra fora. Vá ver a lua. Chame alguém para vê-la contigo, entre queijos, vinho e boa música. Pesquise sobre ela na Wikipédia. Se necessário, leia até qualquer bobagenzinha sobre suas funções na Astrologia. Mas faça qualquer coisa de mais elevado com sua vida ainda agora e lembre-se disto: o tempo está passando e… também existe um calendário lunar, e ele tem menos dias que os 365 de costume!

[2.12.2018]

 

Boca cheia e coração vazio [artigo para jornal]

A gente chama de bonita aquela que agrada à vista: é estética corporal. A gente chama de linda aquela que encanta a cognição: é estética com ética, para a alma. Mas a gente só chama de bela aquela que simbioticamente agrada e encanta o espírito, a alma e o corpo, porquê, como dizia Urs von Balthasar, “o crítério da verdade é a beleza.” Só é belo o que é bom, também.

Os adjetivos dizem muito do que um homem procura numa mulher. Se o rapaz só te chama de gostosa, você não passa de um deleite gourmet facilmente categorizável num cardápio ou num catálogo. Se ele só te chama de cavala e de potranca, você é um execício lúdico para o fim de semana, que pode ou não incluir montaria. Pitéu, fruta e filé são matérias comestíveis que servem à língua e aos dentes no sabor do prazer, mas que logo vão parar no estômago, depois nos intestinos e, por fim, no en passant dos lençóis e do papel higiênico, na privada. Esta é a alegoria do ciclo pega-e-come[e caga]. Para boa entendedora…

Nosso palavreado é nosso ser se manifestando no mundo. Cristo, a propósito, disse que “a boca fala do que o coração está cheio”. A forma como eu me dirijo a você aqui neste artigo exprime o que eu quero de você: atenção. A forma como o Maurício Pit-Bull, o Jão Vaqueiro e o Tom Bombadinho falam com você demonstram o que eles querem de você e como eles vêem você: um bife a ser mastigado, uma vaca a ser coberta, uma fruta a ser descascada. O cara que é um estereótipo pronto e acabado, uma caricatura juvenil desta classe de galináceos que cacarejam apoleirados nos rebaixados e caminhonetes de cada esquina, vai, muito sinceramente, descrever a realidade do próprio desejo de macho configurado na sua realidade de fêmea.

Volto ao começo da conversa. Um dos dons concedidos ao homem por Deus é o de nomear as coisas, chamando-as pelo seu nome próprio. Heidegger dizia insistentemente que “só há mundo onde há linguagem.” Por que? Porquê nossas palavras estão limitadas pelos nossos pensamentos. Nós colocamos na língua aquilo que, por mais que seja abstrato, já é concreto na nossa mente. Os valores dados às coisas, sobretudo. Os valores que são nossos julgamentos das coisas. Se você não escuta constantemente que é bonita, que é linda, que é bela e, na proporção inversa, ouve que é isto e aquilo com estes e aqueles adjetivos dados aos substantivos comuns, Genival Lacerda adverte: “ele tá de olho é na butique…” Quem poupa carinho na palavra só quer apalpar a poupança.

Se é isto que você quer, legal. Beleza. Ok. Só faça um justo favor aos homens que têm alguma vergonha na cara: não fique por aí (no Facebook, no Instagram, no WhatsApp, na sua rodinha de luluzinhas baladeiras) reclamando que “homem é tudo igual.” Homem só é tudo igual para mulher que é tudo igual. E as coisas começam pela boca. Nem tanto pela boca que beija; mas mais pela boca que fala. Dê, você, nome aos bois; porquê eles andam te dando nome já há algum tempo…

[25.11.2018]

Trecho do conto “A Moça da Sétima Janela”

A chuva é sempre uma oportunidade de sono para as almas românticas. É fatal! Basta que tamborilem no telhado as primeiras gotas para que aqueles que detém um “sono primordial” na alma caiam sobre as cobertas. Este sono nada é senão um elemento de ligação entre a quietude de dentro com a de fora: uma alquimia de melancolia. E não, não se trata de modo algum de melancolia que se parece com tristeza. É aquela melancolia dos regatos se deixando absorver por rios maiores, é a melancolia doce das folhas secas e douradas caindo aos pés da própria árvore. Ela me dizia que um dia de chuva a aconchegava como o colo de sua mãe. Ela sempre me disse que ouvir o murmúrio da chuva na calha ao lado de seu quarto era narcotizante, quase morfínico. Isabel, romântica feito princesa de conto medieval, se encorujava na escola quando menina, com seu capuz de moletom; e se aninha desde sempre nos cantos do sofá, com ou sem a companhia dum livro, quando é sábado à tarde e o mundo do lado de fora está acinzentado, cheio de nuvens, sob chuva pouca ou cerrada. Minha conclusão, e que deliciosa conclusão, é que ela é tão “anacrônica” quanto eu: vive num castelo, com pedras, torres, musgos, montanhas, ar frio, bosques; dormindo e sonhando ora no travesseiro morno, ora com os olhos castanhos bem abertos diante do horizonte.

Tricórnio

I.
Não só o céu, criança, está nublado.
Está assim também minha esperança.
Não só as estrelas estão apagadas.
Estão escuras e frias aquelas ilusões,
Aquelas linhas coloridas no tecido cinza,
Aqueles bordados de ânimo na realidade.

II.
Oh, tu, rasa opinião:
Que mísera fauna te deu razão?
Animal sempre é quem zurra
Com fala de humana turba!

III.
Tudo é um profundo fluir.
Um leite azul,
Um lírio transparente.
Oh, vem doce e quieta descer do além para cá, minha luz.
Vem quietinha espreitando entre as estrelas minha sombra.

Vocação

Um oceano vem com a alma
E ele goteja em qualquer coisa,
Naquilo que irrita e acalma,
Na letra dourada e na loisa.

Um poço que mina os mares,
Uma fonte que seca o abismo,
Como herói voando nos ares
Sem asas, no puro holismo.

Em cada pedrinha e lugar,
Sobre a terra e no lagar,
Sou de Deus a libação.

Em cada amor e desilusão,
Sobre a carta selo e aspersão,
Sou de Deus o respingar.

Essência mística

Ser que és não sendo,
Pedra no caminho que vai morrendo.
Toda terra no mar vai dormir,
Todo ser submerge antes de surgir.
Marca os pontos no céu
E no papel as alvuras do véu.
Porquê saem as estrelas
A dar-se ver
Como as virgens de Antioquia
No Amanhecer.
Se o alaúde tocar mistério
Como poderei ler teu saltério?
Nas linhas e contornos
Da alma antiga,
Nas frestas vagas
Onde goteja leite morno;
Está lá, bem escondida,
A rosa que o mel
Num milênio nutriu.

Trecho do conto “A outra possibilidade”

Quisera poder ter sido um fazendeiro. Medianamente alfabetizado, sem saber ler o barômetro mas capaz de olhar pro céu e dizer à terra dos próximos movimentos das nuvens. Eu não saberia de certo declamar os poemas latinos que decorei quando menino, não saberia escrever naquela caligrafia gótica aprendida na adolescência, não comporia sonetos elegantes às moças que amei ou quase amei. Mas nada me impediria de ser gentil, mesmo bronco, com as camponesas da colônia e colher rosas frescas no jardim da casa-grande para a pastorinha que fica sobre a pedra do outro lado da cerca. Não que eu tenha me tornado um protótipo daquele dândi tolo e envernizado por civilidade inócua que arrastou debilidade na Cidade até encontrar as Serras. De modo algum! Meu espírito nunca foi tomado por plumas e firulas. Acontece que, é verdade, sempre me atraiu muito mais a vida rural que a as questões físicas e metafísicas da metrópole. Sempre me achei mais próximo da sabedoria profunda dos velhos roceiros que da erudição universitária. Sempre me cri mais capaz de admirar as coisas calado, ruminando exclamações e mistérios, que descrevê-las em boa prosa literária. Mas, cá estou neste século e lugar; pronto para procurar eternidades no calendário, preparado para minar diamantes num pântano tão infértil quanto os desertos do norte da África. Não sou nem serei fazendeiro, destes que lavram a terra diretamente, destes que aram os veios e os semeiam estação após estação. Permitiu-me o Senhor, contudo, que eu fosse um cultor destas verdades incômodas à Civilização, da qual esta é a maior: quanto mais longe da terra, menos pó dela nós somos.

Esponjas de sol — XLIII

  1. Há dentro de cada um de nós um lugar onde nós somos nós mesmos com nós mesmos. É lá onde nosso silêncio tem interpretação pura e imediata, onde a palavra na língua nada comunica. É lá, nesta gruta aberta (antítese permanente de espaço e tempo), que o eu ricocheteia suavemente nas paredes de espelho que o refletem infinitamente para si mesmo. Vocês não percebem que há no centro do próprio eu um recinto no qual, circundado por Deus, nós somos nós mesmos por nós mesmos, numa espécie de solidão acompanhada, uma solitude presente de si, como aquela que a Trindade Santa vivia consigo mesma antes que qualquer outra coisa além de si existisse? Há dentro de nós um cenáculo onde nós nos reunimos conosco mesmos e deliberamos com o eu unificado, com a consciência leve a ponto de tocarmos o nada e então criarmos para nós (cada um para si, como Deus criou) um mundo inteiro de solidões completas de coisas e sonhos instantaneamente realizáveis. Há dentro de cada um de nós um lugar onde não há eco para o que vem de fora, um lugar onde nosso mistério particular soa uma mesma nota num mesmo tom sem que o ouvido imortal se enjoe da melodia. Há dentro de cada um de nós um lugar onde a luz pulsa, pulsa como coração da própria alma. Lá, neste pedaço de Eternidade que de alguma forma guardamos dentro do peito de carne, nós estamos nus e, como na inocência original, lá nós não vemos que estamos nus. Lá, a suprema, a inefável, a tão procurada Realidade.
  2. Nas suaves curvas das asas das aves, / O suor dos pássaros voa e toca o céu. / A gota que pinga não desce, não cai; / Ela sobe e avança nas nuvens e seca. / Seca como relâmpago no raio de sol.
  3. O homem autêntico age no mundo como se estivesse sozinho nele. Anda livremente sem medir a elegância métrica do passo. Fala sem empostar a voz em gravidade e falsete. Do primeiro pé no chão ao primeiro bocejo na cama, tudo é natural e espontâneo. Maneja os objetos do mundo e se relaciona com tudo e todos sem imaginar como lhe enxergam, como lhe julgam, como lhe crivam os movimentos visíveis. O homem autêntico é e só é, como se nada o acompanhasse senão a companhia de Deus. Nenhuma consciência lhe condiciona senão a sua própria. O homem autêntico é o homem mais livre e, porquê é o mais livre, é o único que é efetivamente homem.
  4. Lembrar é levantar a memória informativa das coisas, pô-las de volta no centro da atenção mental; é uma prática cerebral na qual os dados guardados são desengavetados da competente repartição burocrática neural; lembrar é acessar registros formais e oficiais do tabelião sináptico. Recordar é abrir um álbum, é passar os olhos e sentir de novo cada passado com a força dum acontecimento presente; é abrir o baú dos tesouros ou a caixa de pandora de nossa alma; recordar é aceder à biblioteca de pergaminhos da qual nós mesmos somos os escribas.
  5. A mulher conhece-se e ganha-se nos detalhes. A alma feminina é como uma toalha de renda: toda filigranada, toda cheia de minúcias e partes em si mesmas completas e aparentemente “autônomas”. É como um vitral gótico, como uma partitura tintinnabulum, como se Escher pintasse mandalas hindus e iluminuras ocultistas medievais valendo-se, ao mesmo tempo, de microscópio e telescópio para mais precisamente desenhá-las no mesmo papel. Uma mulher não é irracional, não senhor! Sua extrema sensibilidade e ultra-volatilidade não provém duma alma complexa porquê ilógica. Quando nós homens não entendemos (rotina nossa de cada dia!) bulhufas do comportamento feminino, isto se dá porquê nós via de regra apenas notamos as estruturas principais (da personalidade, das suas ações), enfim, nós padronizamos as ações duma mulher por sua regularidade quando, como no espaço-tempo da Física, aplica-se ao coração feminino a Lei da Relatividade, que, in caso, Verdi ironicamente resumiu nestes versinhos da ópera Rigoletto: “La donna è mobile qual piuma al vento / Muta d’accento e di pensiero” | “A mulher é volúvel qual pluma ao vento / Muda de voz e de pensamento”. Longe de ser um caos desamparado de padrões e uma anarquia desprovida de coerência, o coração duma mulher na verdade está assim tão semeado de micro-lógicas internas, que bem se parece com um ouroboros infinitamente clonado em versões pequeninas e grandonas que se auto-integram e comunicam. A mulher é fractal; é “alquímica”. As proporções de Pi e Áurea, as raízes de 2 e de 3 e de 5, as séries de Fibonacci e as escalas musicais e quaisquer outras coisas como as “medidas sagradas” totalmente fundidas mas não confundidas: bata tudo isto no liquidificador vórtico da alma e você terá uma mulher. A mulher não é ininteligível, porquê irracional. É inefável, porquê ultra-racional. Por isto, a nós, filhos de Adão, cabe conhecê-la como a um mistério e ganhá-la como a uma graça espiritual.
  6. Não são meras poéticas bíblicas as afirmações de que Deus têm contados os fios do nosso cabelo e que de folha alguma se desprende duma árvore sem que Ele expressamente o permita. É uma realidade profunda e às vezes imperceptível. Se você parar para prestar atenção na sua vida (nos acontecimentos externos, nos tempos e nas ações internas), verá que sua história pessoal é uma biografia escrita de cima para baixo e que, embora você tenha a sensação de que decide e escolhe o que fazer com seus passos, seus pés caminham por uma estrada previamente determinada. Portanto, também não é lirismo teológico afirmar que “todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus”. É realidade pura e refinada: tudo, absolutamente tudo, inclusive nossos pecados mais sórdidos e erros mais dolorosos, colaboram para a salvação de nossas almas segundo a vontade soberana do Senhor.
  7. O ridículo é a faceta mais evidente do amor quando estamos nos dias dos começos, quando ainda não há intimidade suficiente para não se preocupar com as primeiras, segundas e terceiras impressões. E o ridículo só nos acomete porquê idealizamos uma liturgia passo-a-passo para causar esta ou aquela impressão. O ridículo acontece como conseqüência da “média artificialidade” (porquê se por um lado a ação não é natural, sua motivação certamente é) do proceder que fazemos para demonstrar sermos assim ou assado. O ridículo ocorre quando nossa caricatura não se encaixa com a realidade do nosso ser autêntico, afinal, todo script falha e não há gênio de Stanislavski morto ou vivo capaz de atuar quando o coração quer saltar como géiser pela boca… O ridículo faz parte. O ridículo é coisa bonita de se ver e, principalmente, é coisa bonita de se sentir; porquê quando efetivamente se vê e se sente no outro, ambos se encontram “nus”, e nesta visão e sentimento que coram as bochechas, a timidez e a vergonha se beijam e, então, a intimidade nasce. Nascida a intimidade, acaba o ridículo e em seu lugar surge a cumplicidade de loucuras e doideiras próprias dum casal. O ridículo é a prévia superficial do profundo, é a avant-première externa do relacionamento que ocorrerá no âmago mais interno do coração.
  8. A Graça Comum, pilar da nossa doutrina calvinista, é de longe um dos mais belos dogmas da Teologia. Ela está tão amplamente enraizada em nossa vida ordinária, esta das rotinas silenciosas e modestas, que mal a percebemos. A Graça Comum é uma série infinita de “cafunés” divinos. Uma série de minúcias de contentamento e conforto diluída na existência mais quietinha do nosso dia-a-dia: a primeira xícara de café forte pela manhã, o cheiro de leite na boca dos filhotinhos, o sorriso das moças sonhadoras, a sombra do ipê carregado de flores ainda no verão, o copo grande e açucarado de limonada com bolo de chocolate no meio da tarde de férias, um filme antigo que há muito se queria assistir e que de repente qualquer canal resolve exibir bem quando estamos zapeando com o controle remoto… A Graça Comum é Deus acariciando a alma de todos os homens com gentilezas e elegâncias tão sutis quanto poderosas.
  9. Confiança é a pedra-de-toque de todo e qualquer relacionamento. Confiando, a distância de oceanos e continentes não demove a alma de sua paz. Desconfiando, na presença um do outro, supõe-se que embora o corpo não aja, lá está o pensamento traidor voando dum neurônio ao outro. Confiando, a integridade do sentimento está custodiado contra as setas e os laços da imaginação criadora de traições. Desconfiando, o coração é o alvo preferido de quaisquer suposições de deslealdades e emboscadas sentimentais. A desconfiança aterroriza a alma de quem está afeiçoado à outra pessoa: faz ver fantasmas, espectros e alucinações que, às vezes, dor das dores!, efetivamente são “penumbras” de carne e osso armadas com o antigo punhal da infidelidade. A par das obsessões e neuroses dos apaixonados, nunca se poderá amar sem que o ânimo esteja aquietado no sossego da confiança.
  10. Haverá dias em que nos “perderemos”. Sentiremos uma suspensão dos significados das ocorrências da vida. Não será possível compreender os rumos e a existência nos parecerá absurda neste ou naquele ponto. Não conseguiremos distinguir o porquê das coisas e como elas se encaixam ou se desencaixam no trajeto de pedras que temos trilhado. Haverá dias em que tudo parecerá estranho. Porém, apesar da angústia das nossas inconclusões, é preciso humildemente entender que Deus age estranhamente e que Ele mesmo trata de nos por nesta condição “para fazer a sua obra, a sua estranha obra, e para executar o seu ato, o seu estranho ato” (Isaías 28:21). Nenhuma obra grandiosa, por dentro ou por fora, pode ir adiante se o vaso a todo tempo for capaz de discernir os motivos de cada toque operado pelo oleiro no barro. Cristo nos consola, contudo. Recordo das palavras que ele oportunamente dirigiu a Pedro, quando este também se viu atordoado: “O que eu faço não o sabes tu agora, mas tu o saberás depois.” (João 3:7)
  11. Pode-se viver sem versos, mas não sem poesia. Aquela dose diária de qualquer coisa que faz brilhar os olhos e aquecer o coração é “poiesis”– porquê cria beleza, porquê goteja o Ser naquele pequeno buraquinho de não-ser que diariamente ameaça corroer nossa alma. Pode-se ser analfabeto e então estar incapacitado de ler os sonetos de Dante a Beatriz, as epopéias de Homero e de Milton, os poemas de T. S. Eliot e Pirandello. Mas não se pode pertencer à raça humana e não sentir tudo o que os grandes sentiram e… depois escreveram. Você pode viver sem escrever e declamar poesia pra morena, mas não pode viver sem ler a poesia dos olhos da morena. A poesia precede o poema como o número precede a matemática e o sentimento precede a declaração.
  12. Se você não aprender a diferenciar seus pensamentos, você não exercerá o necessário controle sobre si mesmo e, então, não prosseguirá muito além no caminho da santidade. Tudo o que voa-e-vaga na cabeça parece ser duma mesma substância e ter você como única fonte produtora. Mas, não. Há pensamentos que são genuinamente seus, há pensamentos que são setas malignas e há pensamentos que procedem de Deus. Aí dentro do seu crânio tudo é pensamento e é próprio do imediatismo natural das impressões dos nossos julgamentos supor que todos os pensamentos são produtos diretos do nosso eu. Mas, não. Com tempo e cuidado, você perceberá que estas três categorias exercem sobre sua consciência uma força diferenciada enquanto propostas de ação virtuosa ou viciosa: (i) seu próprio pensamento provém dum impulso resistível pela razão e pela vontade; (ii) o pensamento demoníaco provém dum impulso resistível pela razão e pelo desejo; (iii) o pensamento divino provém duma proposta resistível apenas pela consciência espiritual. Diferenciar a origem da “formação das idéias” que passam pelo nosso intelecto é primordial para crescer em graça e conhecimento. É sério, muito sério.
  13. Uma coisa esquisita mas bonita: semana passada, fui calçar os sapatos para vir pro trabalho e, ao por duma vez o pé, senti que tinha esmagado algo. Era uma crisálida de borboleta. Fiquei me sentindo mal. Hoje, no mesmo dia da semana, quinta-feira, fui por o mesmo sapato e, no mesmo par, antes da ponta do pé atingir o fundo do calçado, senti qualquer coisa lá dentro. Não levei o pé direito adiante e, com a mão, retirei lá de dentro outra crisálida. Guardei a pupa num outro calçado. Recordei então do primeiro livro que li na vida, no prézinho, presente de minha mãe. Está lá nO Pequeno Príncipe: “É preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas.” Se vivêssemos entre os persas antigos ou entre os gregos, decerto algum oráculo haveria de enxergar nisto um sinal, o sinal místico de que vêm por aí mudanças de ordem espiritual. Mas, claro: não é nada, nem diz nada senão que há pequenos e esquisitos acontecimentos de beleza no mundo — até mesmo surpresas dentro dum sapato. [18.10.18]
  14. A média da nossa moral é a média da moral de quem nos circunda. A média da nossa espiritualidade é a média da espiritualidade de quem se ajunta à nossa mesa. A “roda dos escarnecedores” (Salmo 1:1) e a “assembléia dos justos” (Salmo 111:1) interferem na alma de tal forma que, ainda que o salvo não seja um completo produto do meio, uma certa “homeostase” deforma pontualmente o barro onde Deus previamente começou a moldá-lo. Há um “efeito gangorra” nos nossos pecados que deriva, em certa medida, dos habitats espirituais que frequentamos e do quanto suas empatias, antipatias e simpatias agem sobre nossas passividades (convivência em grupo implica em passividade, sobretudo pela tolerância e moderação exigidas no relacionamento igual tido com os diferentes). O uso das expressões “roda” e “assembléia” por si já demonstra os critérios reunitivo e unitivo, respectivamente: no primeiro, um voltar-se de costas para o externo em direção a um centro de interesses egoístas que liga o grupo; no segundo, abertura ampla e arejada diante do mundo a partir dum ajuste interno reconhecidamente virtuoso. Em bom português: “quem com porco anda, farelo come.”
  15. A solidão degenera até as almas mais sólidas. A não ser que você seja um ermitão daqueles que peregrinavam santa e misticamente no deserto acompanhados apenas da Trindade, você vai se tornar um brucutu do mato se não mantiver relacionamentos profundos e intimamente sinceros. Isolamento é o primeiro passo para a amargura e o segundo para a soberba: sem contatos de afeto, carinho e amor (neste escala ascendente), a pessoa logo se torna um purgante de chata e, em seguida (como tentativa de proteção da auto-estima), o umbigo da galáxia de orgulhosa. Almas fortes o são na medida em que convivem, como os elos da corrente, como os ângulos da pirâmide, como o trançado da corda. Recordo duma frase de Bécquer: “La soledad es muy hermosa, cuando se tiene a alguien a quien decírselo.”
  16. Um pensamento que é seu surge e cresce por acumulação: uma idéia a esmo na qual sua consciência vai acrescentando e retirando nuances, informações, dados, conclusões, juízos e julgamentos; você meio que tem domínio do processo de desenvolvimento dele e sente que é por ele diretamente responsável (dure quanto durar) e que te liberta ou coage conforme você mesmo o conduz. Um pensamento que é demoníaco aparece abruptamente na sua consciência, como um choque imperativo (e tão urgente quanto fatal: um “deus ex machina” coator, um dado completamente inexpugnável que ordena e que, por isto, mal se pode tentar ser raciocinado passo-a-passo, ou seja, que só se impugna por completo, como um todo, porquê não é inteligível — logo, porquê é confuso – enquanto sistema), mas já com uma “arapuca” de base: uma idéia pronta e acabada que cai como bomba na sua cognição e, ao invés de destruir dividindo o que tem por lá, reúne as partes do “boom” e te obriga à qualquer mal; é a famosa gota d’água, mas uma gota d’água minuciosa e milimetricamente planejada a tal ponto de entornar um copo ou oceano que talvez você sequer tenha percebido existir dentro de si. Um pensamento que é divino aparece apresentando-se como idéia externa a você: uma idéia que é depositada na sua consciência com a delicadeza dum conselho fraternal; ele também surge pronto, mas não é um bloco sólido que não esteja aberto à análise e à discussão; ele brota de repente, mas como um regato manso de rio pequeno, como o toque vagaroso mas imediato do carinho de mãe; você escolhe o que fazer com ele.
  17. Cristo tem seu rosto estampado até numa lata de Coca-Cola. Você bebe o refrigerante e sequer percebe se é a efígie do Nazareno, do Luan Santana ou do Pablo Vittar que está ali. E a latinha vai pro lixo. Cristo tem seu corpo pregado a esmo em qualquer pingente à venda na 25 de Março. Você pendura a corrente no pescoço e sequer nota que, enquanto você mente, adultera e peca, o crucifixo mantém os olhos fechados pelo estatismo do metal, enquanto o Filho de Deus lá do Alto os cerra de tristeza. Como os santos do primeiro século, neste instante (agora!) nossos irmãozinhos chineses, escondidos nas suas “igrejas das catacumbas”, passam de mão em mão desenhos de gibi e recortes de revistas com a “fotografia” do Salvador. Guardam estes “ícones” escondidos sob o peito para, nos momentos de privacidade do Grande Irmão Estatal, olhá-los ternamente não como a ídolos, mas com aquela mesma reverência e carinho com os quais nós de vez em quando miramos cheios de saudade as fotos daqueles a quem amamos na vida ou na morte. A imagem do Rei do Universo, do Emanuel, foi banalizada no Ocidente. Nos museus ela é profanada com urina, fezes e mil ignomínias. Nas repartições públicas ela é um pedaço de madeira e bronze relegado ao alto das paredes que silenciam as vilezas e corrupções que ali se cometem contra os órfãos e as viúvas. Jesus Cristo tem seu rosto, sua carne e sangue, seu corpo chagado, pintado nas camisetas, tatuado nas peles, transformado em logomarca… |-| Jesus Cristo: e eu, e eu miserável, tenho-te ainda pintado em meu coração? Senhor, que eu não me esqueça do teu rosto. Senhor, eu não vi tua face “real”, a tua mesma que passou cá pela terra há dois milênios e nós esbofeteamos e então ferimos até que se desfigurasse. Mas, Senhor, eu tenho te visto por aí: os povos da Europa desenham-te branco e dolicocéfalo como eles o são, os asiáticos pintam-te sem aquela dobra na pálpebra superior, os negros retintam tua pele; e cada povo que te ama, bom Pastor, cada aprisco que te serve, lembra-se de que é tua imagem e semelhança, e então sobre ti ele carinhosamente põe a própria imagem e a própria semelhança. Que eu sempre me recorde do teu rosto impresso naquela primeira lição da Escola Bíblica Dominical em 1994… E embora eu não seja um novo Moisés pedindo para ver tua face, mostra-a, revela-a a mim sempre que qualquer figura apontar para quem és na terra ou no céu. Amém.
  18. O prazer de ter o tecido da roupa limpa e perfumada sobre o corpo recém-banhado. O prazer de ter na língua o gosto doce e azedinho do chá de hortelã com limão acompanhando um pedaço de bolo de chocolate. O prazer do silêncio eloquente entre quem se ama na mudez que sempre se segue a um diálogo sincero. O prazer dos pés descalços no chão frio de cerâmica fria da casa da avó num domingo de verão. O prazer de no bem-me-quer-e-mal-me-quer das dúvidas e ansiedades descobrir o sim ou o não definitivo. O prazer de de repente ouvir a música preferida numa esquina qualquer exatamente quando o ânimo era desânimo. O prazer do ócio dos rabiscos aleatórios da caneta no papel produzindo qualquer idéia bonita e útil. O prazer do abraço aninhante da mãe quando o coração quer ninho. O prazer de acordar pensando na mesma pessoa que embalou à noite o sono. O prazer de correr sem se cansar até parar simplesmente porquê a linha de chegada chegou. O prazer de ouvir do púlpito de Deus um raio-x da própria situação. O prazer de sair para fora numa noite insone e só de olhar para o céu conseguir voltar para a cama e dormir. O prazer de entender a letra e compreender a mensagem do bilhete amassado e quase rasgado que ficou no bolso da calça e foi parar na máquina de lavar. O prazer de sentir prazer por estes pequeninos prazeres.
  19. Todas as coisas são sinais. E uma coisa sempre será um sinal para outra.
  20. O amor não é sexualmente transmissível. Quanto mais “sexo sem compromisso” se faz, menos carinho está envolvido. Esta é uma geração que transa mais que os macacos bonobos do Congo e está ainda mais carente que filhotinho de cachorro solitário abandonado. Os olhos de “Gato de Botas do Shrek” das meninas não enganam: por mais lascívia a que se entreguem no mero corpo-a-corpo da luxúria sua de cada dia, mais elas necessitam ser efetivamente amadas. A rotina mecânico-química do rala-e-rola corporal esgana a alma se ela não estiver devidamente casada com o amor.
  21. Teu amigo nunca será teu cúmplice. Teu amigo vai por o dedo bem no meio do teu nariz, vai engrossar a voz contigo, vai te mandar tomar tento. Quem te auxilia nos teus pecados e incentiva tua degradação não é teu amigo. É teu algoz. Quem ouve teus planos e estratagemas imorais e neles é coadjuvante não é teu amigo. É teu carrasco. A necessidade natural de desabafar e de ter com quem dividir as agruras da vida tomando conselhos é boa, mas fazê-la acontecer aos ouvidos dum coração degenerado é loucura. Teu amigo vai te exortar, vai deitar o safanão na tua alma, vai te corrigir sem dó nem piedade. Teu amigo sempre será teu censor.
  22. Quantas vezes na vida eu pensei ter perdido uma oportunidade: pensei que o cavalo passou encilhado e eu não montei. Quantas vezes não deixei as coisas correrem por si mesmas e, então, depois, pensei arrependido: perdi o amor da minha vida, perdi uma carreira brilhante, perdi o grande acontecimento que poria tudo a ganhar. Quantas vezes! Mas, depois, passado todo o incômodo da frustração, com o tempo passando, percebi que o melhor sempre havia acontecido: aquele amor não era amor e coisa muito melhor substituiu a ilusão sentimental; aquela profissão não era vocação e coisa muito melhor substituiu a falsa percepção de trabalho; aquele grande acontecimento não era grande nem acontecimento e coisa muito maior, real e melhor substituiu a pseudo evolução existencial. Quando tu depositas cada palmo da terra do teu coração nas mãos de Deus, por mais que teus desejos vivam sapateando a tarantella das ansiedades no lagar do mundo, Ele mesmo vai tratar de fazê-lo fertilmente pulsar quando de ti mesmo faltar no peito a energia e a resolução para ir adiante no bombeamento dos teus “sonhos cardíacos”, para aceitar e acatar teu amor, tua vocação, tua vida!
  23. Ela não sabe sovar o pão como tua mãe sova? Ele não sabe instalar o chuveiro como teu pai instala? Ela não sabe usar aquela proporção de amaciante na roupa colorida como tua mãe usa? Ele não sabe cortar lenha e fazer uma fogueira para a costela como teu pai corta e faz? Ela não sabe passar a calça social e deixar a linha paralela como tua mãe passa e deixa? Ele não sabe usar a chave-inglesa no sifão da pia como teu pai usa? Um dia, teus filhos também olharão para trás, e do lado, e também idealizarão tuas capacidades, comparando-as, medindo-as, julgando-as em função de suas próprias mulheres e maridos. Talentos e capacidades domésticas são importantes para a rotina, mas não mantêm de pé casamento algum. Talvez até ela não saiba sovar o pão, lavar e passar a roupa. Talvez até ele não saiba instalar chuveiro, cortar lenha e usar ferramenta alguma. Mas, se houver talentos outros e capacidades outras compensando a falta dessas, nada estará perdido e, com amor, tudo estará ganho. O pão, o chuveiro, a roupa, a lenha, a costela e a pia o Youtube ensina a sovar, instalar, lavar, passar, cortar, assar e arrumar. E quanto ao namoro, o noivado e o casamento? Só você, com Deus.
  24. Todo sentimento verdadeiro se contradiz. O sentimento é imutável e permanente, mas quem o sente não. O amor verdadeiro se contradiz não porquê seja menos amor ou não seja amor, mas porquê quem ama se contradiz, mas porquê quem ama tem dentro de si a contradição máxima e imutável de ser humano. Trata-se, porém, duma contradição descompensada, onde o amor está sempre um [de]grau acima da raiva, por exemplo. O amor é dominante, mesmo que tenha que conviver com a soberba, com a ira ou com o “ranço”. Os sentimentos pelos quais o amor se “distende” são sempre antagônicos a ele na medida em que são, sobretudo, uma reação egóica a ele. Os sentimentos que contradizem o amor são seus subsidiários hierárquicos. Contradição aparente nas ações e emoções exteriores = coerência oculta e quieta nos sentimentos interiores.
  25. Todo homem é um pouco Sansão. Toda mulher é um pouco Dalila. Todo homem é biológico: deseja na mulher beleza corporal e sensualidade. Toda mulher é biológica: deseja no homem força corporal e poder. Isto é natural, e bom, desde que estes dois instintos masculino e feminino, respectivamente, estejam sujeitos à ordem da razão e do bem, que os moderará e encaminhará moral e espiritualmente. Do contrário, os vícios do narcisismo e do hedonismo animalizam homem e mulher, rebaixados a meros macho e fêmea. Como virtude, então, a vontade imprime à beleza estética a necessidade da beleza ética, e imprime à força física a necessidade da força metafísica: harmonia entre corpo e espírito. Assim, todo homem é muito Isaque, e toda mulher é muito Rebeca.
  26. Cada um de nós está um pouco solitário em si mesmo. A gente tenta remendar o rasguinho e tapar o buraquinho com uma taça de vinho, uma maratona na Netflix, um sono prolongado no domingo, uma mesa dividida com gente também cheia de rasgos e buracos, enfim, com qualquer peça do quebra-cabeça mundano que pareça ter a proporção da nossa “micro-solidão.” Isto é estar solteiro. Todos têm isto até que se encontre a “tampa da panela” para os vocacionados ao altar, até que se encontre a peça que à si completamente se ajusta no complexo e difícil quebra-cabeça de duas peças que é o amor. Os santos e os místicos, os psicopatas e os degenerados, estão todos esburacados no ponto onde a nudez homem-mulher é redescoberta sem aquela vergonha do Éden. Por que? Nos versos de Shakespeare em Romeu e Julieta, pode-se doutra maneira dizer: “pois nunca houve história tão triste como esta de Eva e seu Adão.” A história da quebra da unidade natural, que agora nos põe no jogo dos encontros e desencontros amorosos. Desde então — desde o Éden — apenas duas solidões são capazes de se anular e dar utilidade à esta tristezinha, criando uma “terceira presença”, a presença dos dois que se fazem um. Assim, um costura no outro a brecha nas vestes e cobre no outro a abertura da falta: duas taças para uma garrafa, uma série para dois lugares no sofá, um cochilo de conchinha, uma mesa para duas famílias que caminham para ter o mesmo sobrenome. O rasgo se torna abertura; e o buraco, toca. Isto é ser casado.
  27. Estão pintando as guias das ruas do cemitério municipal. Fui dar uma inspecionada no trabalho. Andei por cada uma delas. Acabei botando reparo na mudança da arquitetura dos túmulos conforme os anos. Os da década de 10, 20 e 30 têm na crença do além-morte sua tônica e são de longe mais refinados artisticamente: mármore talhado em vasos e arabescos, esculturas de anjos e do Cristo, só pedra polida, nada de metal, nada de fotografias, muitos epitáfios; um “campo santo”, enfim, como se fosse um anexo ora clássico ora barroco duma igreja. Conforme chegou a década de 40, e até meados da década de 70, os túmulos estão mais brutos e minimalistas com suas pedras rústicas, correntes de ferro e ladrilhos de cerâmica vermelho-chumbo todos com poucos sinais de religiosidade, um pouco mais de fotografias (em branco e preto) e os nomes em placas pequenas e simples; muitos dos jazigos parecem saídos do estilo Bauhaus, todo imanente. As décadas de 80 e 90 são o ápice do piso cerâmico e a inserção do granito lapidado e polido (mas anguloso e geométrico), surgem pequenas peças de bronze (devoções a santos entre católicos e versículos bíblicos entre evangélicos) com uma qualidade artística razoável, poucas cruzes e muitas fotos coloridas. Os anos 2000, que avançam até hoje, representam o ápice do granito polido e ondulado, o quase que fim das cruzes, a inserção das devoções marianas (Aparecida e de Fátima, predominantemente) com peças de bronze com uma qualidade artística altamente kitsch (brega) e o aumento drástico de fotografias (no tamanho, no colorido e na postura do fotografado) e capelinhas para velas que fazem lembrar os incensadores hindus; confusão metafísica e sincretismo. Dá para fazer uma leitura religioso-cultural e ideológica a partir dos túmulos cá do nosso cemitério. E, com o devido respeito, ela não é boa. A monarquia dos mortos prevê duras lições à república dos vivos… “Fomos o que és — Serás o que somos”, eles dizem silenciosamente. [29.10.18]
  28. Em amor há tipos. Há “modelos” mutuamente atraentes, em maior e menor grau. Por que? Porquê cada tipo corresponde à uma função/funcionalidade sócio-espiritual. Há tipos que se classificam por biótipo e há tipos que se classificam por arquétipos: predomínio do físico e do metafísico, respectivamente, do concreto e do abstrato que se entrelaçam, variando, num tipo específico. A moça de caráter mais romântico e feminino, de físico mais delgado, quase sempre se atrairá por homem de caráter mais nobre e intelectual com físico imponente. O rapaz de caráter mais prático e ativo, de físico mais franzino e mediano, se atrairá por mulher de caráter mais impetuoso e de físico corpulento. Os sentidos e os sentimentos se complementam tanto pela igualdade quanto pela oposição e, na combinação espiritual de homem e mulher, combinam-se também o aspecto corporal de macho e fêmea. Há tipos regendo, via de regra, o amor erótico. A mesma força que atraiu a maçã à terra para Newton e a maçã à boca para Adão é a força que atraiu Catherine Storer a Newton e Eva a Adão: a mesma força que, em padrões e paralelos, aos quatro uniu. Em amor há tipos, não estereótipos.
  29. Deus a si mesmo retratou-se como pomba. Mas a João, como águia. Deus entregou-se silenciosamente à cruz. Mas em favor de seu povo, quando ofendido, bradou: “Por que me persegues?”
  30. A Santa Aliança havida entre católicos, ortodoxos e protestantes no século XIX será em breve revivida para a defesa da Cristandade em terras brasílicas contra o Globalismo.
  31. O jejum é uma forma de auto-contemplação. Quem retira do corpo a nutrição, acrescenta ao espírito. Retira do entorno do ego os espelhos de vaidade, pelos quais vemo-nos em reflexos, por partes; acrescenta ao redor do eu olhos espirituais de realidade, pelos quais vemo-nos nus e crus, inteiros. O jejum é um exercício de auto-conhecimento. Quem retira da carne a comida, acrescenta à alma. Retira de dentro do ego as quinquilharias da personalidade, pelas quais enxergamo-nos em facetas, por partes; acrescenta ao centro do eu as estruturas autênticas do ser individual, pelos quais enxergamo-nos unos, integrais.
  32. A implicância é uma das multiformes ações do amor feminino. Homem que não compreende isto (e acha chato, insuportável, incomodante) está quase tamborilando as portas do armário. “Encher o saco” e “torrar a paciência” é carinho. Dê graças a Deus com mãos aos céus se ela implica contigo. Há fidelidade na implicância — a fidelidade mais infantil, mais inocente, mais sincera. Birrar e embirrar é uma delícia para quem está consciente do quanto há amor nestes gestos e sentimentos: de cutucões insistentes (a repetição é a força-motriz da implicância) a “onde você tá?” contínuos. Implicar é se importar. Nietzsche, a propósito, acertou: “Die gleichen Affekte sind bei Mann und Weib doch im Tempo verschieden: deshalb hören Mann und Weib nicht auf, sich misszuverstehn.” | “As mesmas paixões no homem e na mulher são diferentes em seu andamento e é por isso que o homem e a mulher jamais deixam de se desentender.”
  33. O mundo quer nos dispersar para, depois, nos dispensar. Quer que troquemos o amor pelo rabo de saia, a magistratura nacional por honorários de porta de cadeia, um vinhedo por alguns goles de batidinha, um púlpito junto ao altar por um palanque político… Daí, a ilusão se desfaz no ar e, depois do gozo pecaminoso, da remuneração gorda, do álcool batizado e da agitação populista, sobra o nada; o nada em nós, o nada que ficamos sendo, o nada que acaba na lixeira. Fixe seu coração nas coisas grandiosas e elevadas, nas promessas reais de felicidade verdadeira. Tenha força de vontade e nutra-se com o amor duma só mulher, com o pão ganhado na honestidade nossa de cada dia, no cálice bebido na moderação duma consciência reta, na vocação e no chamado para as coisas do Alto. Conselho que dei e dou a mim. Conselho que dei e dou a cada um de vocês.
  34. Oh, grandes mares, dai do pó dos ossos o rastro n’água! / Oh, desertos salgados, onde da areia se distingue o cálcio?
  35. Navego por entre mares internos, Senhor. Sou eu quem me sopra as vagas do coração e os furacões cerebrais. Sou eu, Senhor, quem navega contra as ondas do próprio eu, atirando raios furiosos com o braço arqueado e recebendo-os depois no peito. Se afundo, sou o abismo. Se subo à superfície e respiro, tu és a rocha portuária sobre as águas. Remo em mim mesmo, ainda que também seja eu o líquido escuro do oceano e a ventania que me amedronta.
  36. Os detalhes são as mais importantes estruturas da realidade.
  37. Quem nunca teve vontade de silenciar completamente por dias inteiros, de emudecer tão visceralmente como se nunca tivesse tido língua na boca e fala no cérebro, que atire a primeira palavra.
  38. Ouvir um hino numa língua desconhecida é um exercício de mistério. A gente sabe que aquilo ali, aquilo que ouvimos, é um cântico. Sabemos que ali temos um amor louvando o Amor. Mas se por um lado a literalidade dos significados imediatos nos falta, sobra na consciência espiritual a mediação da verdade última das palavras com sua música, do idioma desconhecido numa música algo conhecida (porquê as notas ricocheteiam na alma na mesma fluência cognitiva que une alemães a zulus, mongóis a judeus, tupis a belgas): é belo, é bom, é divino, é beleza, é bondade, é sobre Deus.
  39. Se te olhares primeiro numa fotografia de quando eras criança e depois num espelho, sentirás triste saudade como aquela do poeminha de Casimiro de Abreu. Partirás do passado para o futuro, que é o presente, e suporás o que poderia ter sido e não foi. Mas se primeiro olhares para o espelho, e depois para a imagem no papel, te sentirás catapultado lá para trás, quando as ânsias de crescer te povoavam a imaginação. Então, teu sentimento será consolador, porquê perceberás que daquilo que querias tu já tens um pouco e que a matutação duma criança, por mais doce que seja ao sabor do coração infantil e romântico, pouco discerne o quão difícil é enfrentar as abelhas e recolher nas montanhas o mel dos favos. Tu te deves ver como homem que um dia foi criança, não como criança que está sendo homem em infindas vinte e quatro horas.
  40. Quando em teu coração brotar [porquê tudo nele já está semeado desde o Éden, bastando que os fatos da existência e os atos da vida preparem sua terra] amor, trata de imediato de ir ter com as nuvens do teu cérebro. Acorda com elas o seguinte pacto: “Vós não chovereis se em lugar das vinhas, das oliveiras e dos trigais que desejo lavrar, eu mesmo vier lançar sementes de estranha procedência, rajadas de cores atrativas, porquê elas (ouvi-me, distintas cumulonimbus da razão!) empestearão o solo com os legumes da horta que Acabe tencionava plantar com Jezabel na quinta de Nabote. E se eu vier a mastigar seu cozido de lentilhas, Dalila servir-me-á na bandeja de Salomé a ceia da indigestão!”

As Aventuras de João Burronenhum

VI. CAVALO XUCRO

Eu sempre dizia a plenos pulmões que não pretendia correr de briga alguma, que enfrentava o mundo inteiro sozinho naquela bravura de Santo Atanásio. Era um “galinho índio” dando murros até na brisa, como se ela fosse ventania. Quando punha o pé na rua, fazia questão de estufar o peito e amarrar a cara –marrento, queria marretar os outros na marra. Eu sempre dizia também que dava um boi pra não entrar numa briga e uma boiada pra não sair dela. Um dia, encontrei no boteco do Zé Galhardo um tipo que poderia ter nascido irmão meu: a mesma postura de alma e jeito de lutador de vale-tudo. O sujeito quis começar uma discussão com a garçonete por causa duma pururuca que ele disse ter gosto de ranço. Ele queria paladar no rango: coisa de fresco. Pensei: se esse filho da mãe tivesse fome de verdade, mastigava o torresmo como se fosse maná. Tomei por insulto a reprimenda dada na Belena e, movimento de bote, em dois segundos deitei o miserável no chão. Ele saiu de lá carregado por dois outros mal encarados que fiquei sabendo serem funcionários seus numa fazenda do distrito de Vila do Arraial. Dois dias depois, sexta-feira, o brutamontes voltou. Estava de batina! O canalha, além de implicante, era sacrílego. Ave Maria! Se a carne de porco me tinha posto irado ao primeiro embate, agora o acerto de contas era com o filhote bastardo do próprio Antíoco Epifânio! Num estalo, cai com os punhos no sujeito. Ele desviou, como cobra. Só consegui ver, de relance, um brilho de fazer cair do cavalo. Um clarão. Apaguei. Acordei três horas depois, me contaram. E me contaram que assim que me levantei para deitar porrada no homem, ele retirou do bolso um crucifixo e soltou um “vade retro, Satana!” Eu estava possesso! O homem era padre-padre: frei Zenón, um galego vigário de São Bento do Arraial. Durante quase duas horas ouvi atônito o João Quincas narrando o quanto me debati, blasfemei e atanazei. O ritual do exorcismo foi feito e, ao último amém da pequena multidão que circundava atônita todo o frenesi, eu acordei. Estava leve feito pena sobre as nuvens, me sentindo um filhote de coruja despenado, mudado, sem vontade de abrir a boca, mudo. Sai de lá envergonhado, invertebrado; mas decidido a ser santo, santo, santo!

Três anotações sobre a Tentação

Alguns amigos há algum tempo me têm pedido para falar qualquer coisa sobre tentação e como lidar com ela. Compilei algumas anotações que escrevi ainda ano passado, pensando em publicá-las numa “didática espiritual” — gênero tremendamente inexistente na atual produção literária reformada. Cá vão três excertos, apenas, que considero suficientes, en passant, para entender por cima como ela funciona:

I. A tentação é uma falsa promessa de prazer. Durante a tentação, sentimos uma “prévia” hipotética do que a suposta consumação pode proporcionar. É como se naqueles instantes, quando o impulso do desejo se densifica na carne e a inebria, o maior prazer disponível a um homem nos fosse oferecido facilmente, a um só passo de distância — um passo passivo de deixar-se levar pelo magnetismo que vem do objeto tentador. A tentação ao mesmo tempo que eleva a irracionalidade ao seu mais alto grau, também nos dá, simbioticamente, a possibilidade de refugá-la: a consciência está ali ativa e é capaz de deter nosso desejo através de dois passos para trás da nossa vontade ativa. Um passo para recuar ao estágio de “tentação imaginada” (aquele momento em que já se sente uma micro parcela antecipada do gozo total) e outro para retroceder ao estágio da “aparência do mal” (quando nós nos apercebemos diante da potencial tentação, aquele momento antes da “fisgada” que empurra para o anterior).

II. Uma vez que cedemos à tentação, não demora muito para ela desaparecer no éter e então sua fatura, seu preço de vacuidade, ser cobrada. Assim que o combo triplo adrenalina-endorfina-serotonina evapora da corrente sanguínea e a realidade bate à porta, o vazio toma conta do peito e uma sensação do tipo “o que aconteceu?”, próxima à amnesie, cai sobre mente e coração. A promessa do prazer infinito ou perene vaza e se consome no nada. Aí, a gente “cai em si” e bate no peito um mea culpa não por arrependimento autêntico, mas por remorso, pelo egoísmo das contas feitas e conclusas: não valeu a pena! Nunca vale a pena. Quando tudo termina, quando a gente “limpa a boca” e diz “não fiz nada de mal” (Provérbios 30:20), sobra a destruição da vida ordinária, do dia-a-dia que deve ser enfrentado não como se nada tivesse acontecido, mas como se, pelo nosso pecado, nada mais já pudesse acontecer, porquê o espírito está cheio de nada e o mundo contra nós já levanta tudo e todos.

III. A tentação promete todo o El Dorado e entrega uma pedra cinza e afiada bem direto na testa. É ilusão, é Pasárgada, daquelas que desenham miragens no deserto e fazem os sedentos de água se lançarem nas dunas como se mergulhassem em oceano de água doce e fresca. Todos seremos tentados, mas aqueles que têm o “corpo” melhor “hidratado” pelo auto-conhecimento e por uma vida devocional com Deus (Mateus 26:41) terão menos sede, e terão alguma reserva no “cantil”. Aqueles que são adestrados na geografia das “coisas visíveis e invisíveis” são capazes de saber onde o calo aperta e por isso não porão os pés nus nos atalhos desconhecidos, nos supostos caminhos mais fáceis e prazenteiros que ao cabo levam, como no conto da Chapeuzinho Vermelho, direto para a boca grande do lobo mal; com a diferença de que o Lenhador pode não aparecer… Paulo ao dizer que “o espírito está pronto mas a carne é fraca” diz o que qualquer caipira sempre soube: “ninguém é de ferro”. O sangue de Cristo, porém, pode banhar de ouro nossa carne enferrujada…

Trecho do conto “O muro que se guardava do mundo”

Olhos profundos não têm fundo. A gente sabe que anatomicamente acaba tudo ali no limite côncavo da íris e da córnea; e que atrás dele vem o cérebro. Então, todo o complexo da visão se restringe espacialmente ao seu pedaço de carne incrustado no crânio. São duas bolinhas brancas e coloridas entre miolos cinza-sangue. E pronto. Olhos profundos, porém, superam a prisão do globo ocular. Que deleite olhar nos olhos dalguém e sentir que, se na morfologia corporal eles se resumem àquele espaço, àquela órbita e cavidade óssea, o espírito que neles habita mostra-nos galáxias, mundos, sonhos e existências tão superiores que a gente chega a duvidar que estamos diante dum corpo físico; a gente chega a pensar que aqueles dois círculos além-pupila detém a eternidade e que cada piscadela é um eclipse de glória sideral. A ternura do olhar é tão mais infinita, e tão mais bela, que toda a progressão matemática que vai dum extremo do universo a outro. Depois que eu olhei nos olhos dela, Monsenhor, eu entendi dois versos do Pessoa que sempre lera batidos: “A noite não anoitece pelos meus olhos, / A minha idéia da noite é que anoitece por meus olhos.” Com ela, é sempre dia e o sol não ousa deixar de brilhar. Mas esta ousadia fulgurosa, por outro lado, misteriosamente chama a lua ao dia; e a noite com ela vem para fazer das minhas vinte e quatro horas uma só e mesma coisa que não é nem totalmente dia nem totalmente noite. É um tempo lusco-fusco. Só tempo, cuja sombra é também labareda. Tudo por causa daqueles olhos profundos… Valha-me Deus de me apaixonar outra vez por alguma dessas moças de olhos rasos e embaçados, rasos feito um pires convexo e embaçados como espelho de banheiro de boate. Depois que eu olhei nos olhos dela, fiquei sabendo que os abismos que vão e voltam do centro do planeta não passam de poças d’água. Olhos profundos não têm fundo, Monsenhor Alfons! Não têm fundo!

O paraíso na terra do qual falam os cristãos

[Comentário a João 18:36]

A vida cá no planeta bem que poderia ser como num daqueles panfletos utopistas das Testemunhas de Jeová: união universal entre tudo e todos ao som dum piano variando restritivamente sobre sol-lá-si-dó (ou sobre um assovio hipongo acompanhado pelo chacoalhar búdico dum sino dos ventos), um comercial da margarina Doriana com a axiologia do comercial do cream cheese Philadelphia. Uma perfeição kitsch: caricatural porquê artificial, engendrada na patacoada forçada duma harmonia melada e tão certinha quanto bobinha. Não seria fenomenal que todos se tratassem festivamente com salamaleques superlativos, como o Ciro Gomes faz com quem lhe cai bem? “Oh, digníssimo e caríssimo ilustríssimo e excelentíssimo irmão!” Não seria grandioso que fôssemos assim todos perfeitinhos, e incapazes de levantar o dedo para discordar individualmente para o conforto da concórdia coletiva? Não seria maravilhoso que cada qual cuidasse dos alqueires invisíveis do próprio quadrado, moldando-se ao cubículo que o tabuleiro impõe às peças? A vida cá no mundo bem que poderia ser como nas páginas milenistas dos santos loucos e dos loucos santos e também dos pecadores loucos e dos loucos pecadores: Thomas More, Platão, Cabet, Francis Bacon, Evêmero, Marx, Saint-Simon e tutti quanti. Seria realmente bom que o Éden fosse por nós mesmos reedificado, que uma era dourada numa nova Arcádia fosse por nossas mãos obrada?

Não! Não seria. A vida só poderá ser boa no Bem quando não for assim tão facilmente descrita por papel e tinta, porquê se uma coisa o Cristo nos ensinou é que o “Reino não é deste mundo” porquê “a letra mata” (II Coríntios 3:6). Entre estes dois versículos articula-se a incapacidade humana de arrebatar a perfeição prometida lá e adequá-la aqui (seja na prática, muito mais difícil, seja na teoria, muito mais fácil). Estamos impossibilitados de construir uma terra de igualdade, liberdade e fraternidade como nunca jamais se viu desde que a maçã foi mordida justamente porquê a árvore secou e cá nós estamos escravizados à diferença (todas as maçãs são iguais entre si?) e à desigualdade (há maçãs iguais para todos nós, diferentes e desiguais?) do ego. A espada que foi posta para circundar o portão do Éden ideal é a mesma que circuncidou nosso coração real: entre nossa concretude falha e a abstração perfeita, está a espada — a espada da força, porquê só à força pode-se tentar obrigar à igualdade, só à força pode-se tentar obrigar à liberdade, só a força pode-se tentar obrigar à fraternidade. No dia-a-dia, quando estes belos conceitos ocorrem (alheios à quaisquer teorias político-filosóficas), já não ocorrem como conceitos; mas como gestos puros e amparados por resignação, consciência e auto-sacrifício de quem quis ser irmão do outro infringindo a si mesmo um nivelamento. Estas virtudes não são impostas pela coerção externa, seja da massa opressiva ou da longa manus estatal; antes, elas nascem do interior, do âmago individual, porquê se por um lado o “Reino não é deste mundo”, por outro “o reino de Deus está dentro de vós” (Lucas 17:21).

Trecho do conto “Às portas do Paraíso”

Sou mesmo um esquisito! E não te parece ser a coisa mais fenomenal do mundo? Por que você vive como se não tivesse alma? Olha, eu percebi que era um “esquisito” quando consegui reconhecer, no meio do engarrafamento, horário de pico em São Paulo, o “Va, pensiero” assoviado por um pedreiro, a uns vinte metros de distância do meu carro. Olhei para o relógio, instintivamente. Lembrei que por aqueles minutos tinha acabado o horário eleitoral gratuito. Tratava-se, com certeza, duma reminiscência do jingle do Partido Liberal inspirando o velho da construção a assoviar. Desde então, sempre que encontro um “tesourinho auditivo” em meio à cacofonia da cidade, eu fixo nele minha atenção e deixo meu pensamento pousar “sobre as encostas e as colinas onde os ares são tépidos e suaves.” Pode ser qualquer coisa, desde que ela detenha uma beleza superior digna de atenção, digna da nossa condição de homens. Um radinho de pilha tocando um baião à moda antiga, uma criança gargalhando pra mãe toda estabanada entre sacolas, um naco de som que de alguma forma seja eco daquela música que toca desde que Deus compôs o mundo. Ah, como é delicioso ser “esquisito”!

Trecho do conto “O Último Sermão de Beda o Menor aos Náufragos”

A vida está escorrendo das suas mãos, como aquela água de mar que escorreu das mãos do menino que a Agostinho ensinou a resignação dos mistérios. A vida passa como tempestade na primavera, como brisa no inverno, como um jogo de xadrez no qual o movimento das peças é feito pelo acaso determinista das correntes de ar do planeta. Nós cá estamos, sentados em nossos cantos e tronos, no anonimato de nossos particulares reinados, à espera da lágrima final e do sorriso eterno. Tudo se encaminha pela entropia, pelo desgaste das pedras no fundo do mar e pela consumição dos gases de Júpiter. Tudo é uma grande mancha no espelho, uma casquinha de prata sobre o bronze polido, um véu rasgado duma noiva casta mas sem pretendente? Não, meus filhos, nós somos o espelho feito daquele cristal fluído que moldou as almas; nós somos já a imagem pura e irrefletível do Espírito que soprou; e nós estamos em festa de bodas desde que água batismal lavou nossas frontes e corpos. A vida aqui sob o sol está correndo contra àquela ampulheta que reúne um grão a mais que todos os desertos da terra. A vida aqui escoa como a chuva que desce do solo até às nuvens e contraria o ciclo das águas ao se reempregnar no acolchoado branco e silente do céu que está um pouco acima do céu. A vida aqui se torna permanente como os peões, os cavalos, os bispos, as torres e os reis e rainhas do mundo vindouro se enfrentam naquele jogo de pique-esconde que agora apenas os anjos jogam.

Trecho do conto “O laço e o nó”

Tu eras um desenho, pouco mais que rascunho, uma pincelada de guache na cartolina, um esfumado de grafite, linhas da estrutura ainda não completada pelos detalhes de lábios e íris. Poderias ter sido obra-prima, tela nas galerias e quadro sobre a lareira. Tu eras sinfonia inacabada, partitura em alegro ma non tropo que cuidava de anunciar aquelas notas de êxtase do vivace; notas esparsas e geniais, árias fulgurosas, harmonia superior mas incompleta. Poderias ter sido a opus fundamental dos consertos que me arrepiaram a espinha. Tu eras uma grande peça de mármore, extraída finamente daquela fonte toscana, delineada por fora no cinzel, só esculpida nas mãos e na face, com um certo polimento na ponta dos dedos mal talhados. Poderias ter sido uma Pietà casadoira, um monumento de pedra à tua carne rosada. Tu eras e poderias… Então vieram as novas de Viena e tive que correr a acudir minha mãe viúva. Pensei que, órfão, tu me acudirias o coração. Ausentei-me durante o inverno e a primavera. Bastou uma semana e as cartas então diminuíram primeiro no tamanho, na quantidade de palavras; depois, reduziram-se no número e no espaço de tempo entre uma e outra. Há dois meses nada vem daí e nada vai daqui. De minha parte, com a guerra na fronteira, tu sabes o quanto é raro encontrar papel nas imediações de Innsbruck. Da tua, sei que em Saint-Fargeau o papel não apenas é da melhor qualidade, mas está tão barato que a resma já se compra ao preço de dois francos.

 

 

Esponjas de sol — XLII

  1. Creio que o maior esforço espiritual nestes nossos dias seja a luta para não se tornar uma caricatura de si mesmo. As personalidades estão tão afetadas por certas “facetas de estrutura”, dominantes, que é impossível não perceber o quanto tantos e tantos outros componentes (responsáveis por estabilização psíquica) estão sendo deixados de lado. Está tudo muito burlesco. E quando alguém está levando uma ideologia pra cama, muito pior a coisa fica: com causa, qualquer abortista ou pró-vida, eleitor do Bolsonaro ou do Boulos ou do Amoedo e do PT, vegano ou proto-carnívero, adepto da Intervenção Militar ou da Alienígena numa nova Woodstock galática, se torna um rascunho muito mal feito (kitsch, eu diria) de si mesmo. Conclusão: há mais pessoas que indivíduos. A existência desta maioria, por isso, pode até se parecer com uma charge, mas a vida… ah, a vida sequer é uma tela de Manet: a vida é a nossa carne e nosso osso como estão carregando nossa alma e nosso espírito como eles serão! Lute para não ser uma caricatura. É das coisas mais desprazerosas ter que passar algum tempo ao lado de um cartoon que calhou pertencer à espécie dos homo sapiens.
  2. Atirar politicamente rótulos sobre os outros (com todos os seus pré-julgamentos psicológicos e ideológicos) é coisa de fanáticos incapazes de argumentar. Toda barreira que você cria contra uma idéia e contra uma pessoa, sem se dar ao trabalho de racionalizar a primeira e de se relacionar com a segunda, depõe contra você mesmo: diz que você é, no mínimo, bocó; e que esta bocózice camufla a instabilidade daquilo que você pensa/defende. Apenas quem não está seguro de si e do que carrega na cabeça pode espernear tão histéricamente quando alguém lhe indaga o porquê de sua opinião/credo. E não há nada mais óbvio, mais sintomático disto, do que apontar e deitar fogo com a metralhadora dos pré-conceitos.
  3. Nossa intimidade profunda foi feita para ser dividida com duas pessoas, apenas: Deus e nosso cônjuge. Se você não é casado, só com Deus. Não é prudente contar a ouvidos humanos que não tenham contigo o mais alto grau de relacionamento (espiritual, almal e corporal) as coisas que teu eu produz desde o âmago. Cala a boca! Guarda teus sonhos, anseios e preocupações para compartilhar com o Senhor, sempre, e com a pessoa que receberes no altar. Silêncio para todos os outros.
  4. Eu te quero encontrar, Senhor, onde da minha alma sai a fagulha de sol. Eu te quero encontrar, Senhor, no silêncio desprendido do último suspiro de Adão. Eu te quero encontrar, Senhor, entre dois reflexos que se anulam até o infinito. Senhor, encontra-me quando faz frio e meu espírito gela em si mesmo; encontra-me quando respiro o oxigênio do mundo sem o ar do teu pulmão; quando a vaidade dos olhos-espelhos é a visão que mais anseio.
  5. Sei dizer tantas coisas, meus amigos anjos e homens, mas é esta a única que me tem comovido: “Eu prefiro o Paraíso!”
  6. Pisa o teu passo. Se na terra encontrares o rastro doutros pés, passa ao largo. Dá a volta sobre a pisadura alheia e percorre, e corre, a maratona dos teus próprios pés. Não te voltes a olhar e seguir a medida do caminhar alheio, porquê outros são os mapas e outros são os tesouros. O “x” que procuras, em dourado marcado sobre o pergaminho do Texto Sagrado, foi ditado pelos sábios, pelos profetas e também por Deus: sê tu mesmo! Pisa o mundo, calca teus pés, impõe tuas linhas à face do solo. Passeia, de passo largo e firme, e faz de cada naco de chão fronteira alargada de Sião!
  7. A seresta que mais a comovia / Não era a flor que eu juntava, / Não era o dourado do mimo. / Era eu, eu mesmo, / Dando na cara que a via, / Mostrando tudo quando sorria.
  8. Há dois encantamentos que a mulher produz no homem: i) o encantamento de catarse, que vem do coração e é capaz de purificar os sentimentos até dum australopithecus; ii) e o encantamento de animalização, que vem da baixa biologia e conspurca as emoções até dum querubim ungido. Você pode se apaixonar pelas duas, mas só conseguirá amar uma: aquela que te deixa bobo ao mesmo tempo que consciente, idiota ao mesmo tempo que racional, bestão ao mesmo tempo que sapiente. O encantamento de catarse é um permanente “je ne sais quoi” que de alguma forma sabe o quê é, e que, feito aqueles perfumes espirituais dos desenhos animados, arrasta a atenção, o olhar e o pensamento até que os sentidos todos se narcotizem na realidade.
  9. A arrogância é, de longe, o mais poderoso inimigo da inteligência.
  10. Que dificuldade maior tens que a de suportares a ti mesmo em teus acertos e desacertos, em tuas trapalhadas e mancadas? Sabotar-se é da condição humana, filho. Nossa natureza, indômita e xucra como estes cavalos arredios que vês naquele monte acima, pisa e sapateia nas coisas, pisa e sapateia com o ímpeto dos titãs do mito malhando os crânios dos deuses no lagar. Mas sabe antes que todos os teus pecados e infrações, cada maldade e tolice, colaboram para que sejas homem mais santo, mais preparado, mais Homem! Cada lança quebrada, cada flecha vergada, cada desastre quando desastrado e cada ira quando estivestes irado, são para ti o que para o vaso são as mãos do hábil mestre ceramista. Olhas para ti mesmo como um menino da Antiguidade mirava inquieto o próprio reflexo turbado pelo tosco polimento do espelho de latão! Tu não és teu reflexo, de linhas tortas e vagas! Tu não és a aparência refletida, de tonalidade metálica e pardacenta! Espera porquê ainda tens que passar pelo espelho do vidro banhado de prata e pelo espelho da água pura antes que finalmente possas dar de cara contigo mesmo, na montanha mais alta, no cume mais elevado, no centro do mundo onde céu e terra se beijam. Então, meu filho, quando tua mão mesma te machucar, quando tua ação em ti reagir dolorosamente, quando teus porquês forem causa de respostas amargas, sê feliz: porquê aprendes, e mudas!
  11. Cabe ao homem completar o silêncio da mulher não com um discurso, mas com outro silêncio. Quem silencia, silencia ou para se fazer notar ou para se esconder. A mulher age no silêncio querendo, ao mesmo tempo, estas duas condições de espera: quer que lhe percebam a quietude, mas quer que esta quietude não seja por qualquer coisa (senão pela sua resolução) perturbada. Respeita o silêncio feminino como o observador da ave-do-paraíso mal toca a relva por medo de vê-lo bater asas e ir silenciar em outro lugar. O canto do pássaro, quanto mais raro, não será ouvido por um homem ansioso — porquê as aves, como as mulheres, quando observadas, só cantam quando seu silêncio é quebrado por outro silêncio.
  12. Vou buscar nas auroras os raios altos, rabiscar vôos, soltar sorrisos presos, sonhar surpresas ouvidas só pelos anjos, ajustar orações. Vou buscar nos rios os sopés das montanhas, as estranhas mornas das águas calmas, a alma da sopa, o núcleo de paz de todas as coisas.
  13. Senhor, eu te seguirei até a primeira estação da via. Depois, medroso, te deixarei. Irei até o limiar da primeira acusação. Ouvirei, escondido atrás da mureta do quartel, o primeiro e o último estalar do flagelo: ao segundo até o trigésimo-nono estrondo do açoite, estarei mastigando tâmaras na vendinha de um dos sacerdotes. Beberei vinho impuro e esfregarei as mãos na fogueira enquanto o Cireneu te carregar o lenho. Senhor, eu te abandonarei sempre que me sentir ameaçado, sempre que meu egoísmo subir à superfície das minhas prioridades particulares. Senhor, mas tu me segues pelas minhas vias dolorosas, tu és meu defensor ante o tribunal do mundo, tu cauterizas com amor as feridas com que sou ferido em casa de meus inimigos, tu vens a visitar-me quando sou para mim mesmo uma cela, quando sou de mim mesmo o carcereiro. Porém, cá estou admirando-te as chagas, contemplando o quão vermelho é o sangue de Deus; aqui estou, sentado aos pés da cruz como diante dum quadro, donde tu pendes como se o sono de Adão outra vez tivesse prostrado um mortal…
  14. O tempo que vai por aí perdido… Quanta proeza soterrada pelo alarme do WhatsApp, quanto sentido escorrido na válvula de escape do bate-papo eletrônico, quanto doce não cozinhado, quanta unha não cortada, quanto versinho pela metade ficou para trás anotado nas margens dobradas do caderno de Direito Constitucional, quantas idéias e ideais de possibilidades o cuco do aplicativo não sepultou na memória e na realidade. Artur deixou de sonhar com o reinado em Camelot para jogar Clash of Clans no Facebook. Rapunzel não ouviu o príncipe gritando seu nome porquê há semanas está deitada na cama e não desliga os fones de ouvido do Spotify de jeito maneira. Dante deixou de treinar seus sonetos no “stil novo” para focar nos 140 caracteres do Twitter. Van Gogh está brincando de acende-e-apaga no Paint. Bach está viciadão no Guitar Hero. Perdidos, nós vamos por aí no tempo. Nunca pensei que chegaria a usar aquele lema batido dos epicuristas, mas vá lá e lá vai: “Carpe diem”, turma!
  15. Das centenas de sonhos que temos na vida, uma dúzia e meia são factíveis, quatro ou cinco são realizáveis e apenas um ou dois acabam vingando. Lei natural, uma espécie de “filtro entrópico” que purga as pequenas coisas que sublimamos das grandes coisas que podemos. No fim das contas, é desejável que apenas um sonho se realize — o grande sonho que abarque e complete nossa vida, que é também apenas uma. Você pode ter centenas de desejos, dúzias de anseios, umas poucas vontades, mas apenas naquilo em que tua alma concentrar a densidade duma aspiração humana inspirada por Deus o teu eu será feliz, feliz como num sonho, o “sogno di volare.”
  16. Por mais que a gente cresça e vire adulto, que a gente avance na idade e na experiência das coisas, resta em nós uma “rapa de tacho” de infantilidade autônoma. Sabe quando você está lá, comportado e centrado, com a mente preparada para devastar a selva escura da própria vida e o deserto iluminado da existência dos outros e, de repente, a criançola (misto de bobo-da-corte com Loki na puberdade) que habita silenciosamente aquela porção do teu cérebro que ainda é caverna pula pra fora e põe tudo a perder? Até um tempo atrás, eu via nisto uma espécie de auto-sabotagem ou mesmo uma área do espírito não suficientemente domada pela metanóia, uma faceta não alcançada pela regeneração salvífica. Percebi, com o tempo, que eu não devia esganar este pequeno Bart Simpson interior, que fala bobagem quando o momento é de gravidade, que prega peças quando é hora de [com]postura, que dá vexame quando há uma liturgia a seguir (seja ela qual for). Ele, como todo o mais em nós, também amadurece e, se bem entendido, serve beneficamente à unidade do nosso ser individual. Este bicho peralta (tolo e bocó, idiota saltimbanco, louco mas com laivos geniais de racionalidade) é, para quem o aceita, um “algo além” misterioso, um grão de sal que compõe a receita das personalidades grandiosas e fascinantes.
  17. Este negócio de “dedo podre” é simplíssimo: você se afeiçoa (e continua afeiçoado) amorosamente à pessoa que lhe “reapresenta” ao seu próprio nível moral. Digo reapresenta porque, via de regra, a si mesmas as pessoas (se auto-enganando) se apresentam no mínimo como de médio senão como de alto nível moral. Nós amamos aquela pessoa que representa proximamente o mesmo nível que o nosso. Em bom português: se o seu tipo erótico-afetivo é uma porcaria e você re-correntemente cai no mesmo buraco, não é porquê você simplesmente se atrai por porcaria, como se fosse um destino sofrer, de foça em foça; é porquê você também é (mais ou menos, aparente ou ocultamente) uma porcaria. Se o seu padrão é baixo, você se atrairá por gente de padrão baixo. O seu arquétipo se inclinará a outro igual ou semelhante. Melhore como gente e você gostará de gente mais decente. Continue sendo quem você é que a podridão do dedo logo se estenderá não apenas a todo o corpo, mas também ao seu espírito (porquê a meleca toda já sai da alma). Abismo chama abismo, diz lá o salmo. E montanha invoca montanha. Recordo do famoso conselho de Ibn Hazm: “Guarda tu alma de lo que la vicia, y desecha la pasión, pues la pasión es llave de la puerta de los pecados.”
  18. No mesmo dia em que escrevi aquele que considero o mais belo dos meus poemas, usei desta minha língua para dizer palavras das mais pérfidas contra meu próximo. No mesmo dia em que mais carinhosamente toquei um coração e um corpo, destruí outro com o desprezo imerecido duma virada de face. No mesmo dia em que dei cem contos a um mendigo embriagado, neguei cinco moedas ao gazofilácio do Senhor. No mesmo dia… É esta a nossa grandiosa e miserável natureza: entre o céu e o inferno, anjo e demônio em vinte e quatro horas; mas bem-aventurado, porquê somos terra convidada à Eternidade!
  19. A nitidez dos olhos sinceros. O embaçamento dos olhos insinceros. Nuns, tudo é cristal da cor da água; noutros, tudo são córneas espelhadas de cinza. Não me esqueço da primeira vez que vi uma galáxia em um par de olhos autênticos, duas gemas de luz — o urim e o tumim do amor. E sempre quero me esquecer quando vejo, quando sempre vejo, um buraco negro incrustrado nas órbitas falsas dalguém. Por mais belos que sejam aos cílios e a íris, neles eu só consigo ver o que os pequenos hobbits viram no Olho de Sauron: vacuidade, o vazio niilista da mentira.
  20. Será triunfal ver o homem comum de senso comum triunfando. O roceiro agricultor suplantando o universitário guevarinha de coletivo, a dona de casa modesta vitoriosa sobre a atriz messalina do Projac, o caminhoneiro semi-analfabeto com um sorriso de orelha à orelha e o intelectual uspiano chorando fel, o pai e a mãe trabalhadores vencendo a guerra ideológica contra a filha sustentada vagabunda e revoltada “contra mundum”. Será triunfal que o homem comum de senso comum chamado Jair Messias Bolsonaro triunfe nestas eleições.
  21. Como se eu fora um daqueles velhos galeões, de madeira e ferro, velejo entre as tormentas e as calmarias. O mundo, oceano imenso e não mapeado, bate rijo no casco ancestral de minha estrutura antiga. Na noite dos tempos, ora de bandeira no mastro ora anônimo na surdina dos litorais virgens, eu persigo o fogo de santelmo que meu astrolábio (herança dos reis-magos) indica. A âncora não quer descer, submergindo na água salgada que a corrói; ela quer subir, como se o céu fosse o fundo dum mar maior e mais vasto e doce, o profundo inverso dum empíreo que também é caverna, qual aquela em que Elias dormiu nos dias de sua melancolia. Navio de antiga forma eu sou, duma engenharia que mistura as formas da galé bizantina com a serenidade dos bergantins brancos que carregam os príncipes em dia de boda real, que une os canhões potentes da nau-capitânia de Filipe II com a ligeireza da liburna romana. Ao mar, ao mar! Que Camões jamais escreveria versos a estes krakens de aço e fogo que percorrem a água do mundo sem notar que no horizonte o pôr-do-sol é mais belo. Que fariam João d’Áustria e Horatio Nelson comandando barcos tão grandes quanto fastiosos na sua tecnologia e inumanidade? Ah, Lepanto! Ah, Trafalgar! Guardo no coração, coração de velho barco (tão barco quanto os botes tailandeses, tão barco quanto o cruzador ignoto que levou a pique os sonhos de grandeza dum reizinho de brincadeira), a proeza e a poesia de quem ousa dizer: “I am the master of my fate: / I am the captain of my soul.”
  22. Jung exagerou no seu arquétipo da sombra, dando-lhe feições demasiado exotéricas e místicas maniqueístas. Mas acertou que em cada um de nós subsistem trevas, negrores, horrores de penumbras malignas que sobem e descem na superfície e na profundidade da consciência, da subconsciência e da inconsciência. Nós cristãos bem podemos chamá-la “carne”. Trata-se, para todos os efeitos, da mesma estrutura de maldade que convive com nossa vida ordinária e mais ou menos boa. A grande questão, porém, é outra. E é uma pergunta: o quanto a luz em nós é capaz de sobrepujar as sombras, ainda que estas decorram daquelas, “brilhando mais e mais até ser dia perfeito”? (Provérbios 4:18). Porquê a Luz Inacessível, quando toca nosso espírito, brilha e brilha acessando nossa alma até que a candeia seja acesa e as trevas sejam alumiadas (Salmo 18:28). A grande batalha espiritual, a grande e maior, creio, é esta: lapidar a abstração da própria sombra até que do escuro brote o claro; é devolver a chama a Prometeu e esperar na caverna o raiar da Estrela da Manhã.
  23. O uso de “frases de efeito” é diretamente proporcional à incapacidade de argumentação lógica, racional e sistêmica. Quanto mais comprometido afetivamente com um causa, maior o número de memes, tiradas, chavões e instrumentos retóricos (emocionais e imagéticos, sobretudo) que um indivíduo utiliza. Quanto mais se tenta condensar toda uma gama de questões complexas numa frase tiro-e-queda, numa imagem caricatural que força o sentimento contra o pensamento, numa espécie de “anzol” ou “gancho” que prende mais pela força impressiva do humor (bom ou mau) despertado que pela estrutura que ele parece re[a]presentar, mais a pessoa se afasta da realidade e, com isto, mais mentirosa e canalha é a mentira defendida. Visite e reviste a timeline alheia nestes dias eleitorais e averigue por si mesmo.
  24. O coração de pedra fria e o coração de sangue quente se parecem numa coisa: um precisa de carne e sangue, o outro de dureza e solidez. No confronto destas duas forças aparentemente antagônicas, irreconciliáveis na superfície de pele e mineral, acontece o milagre: o coração de carne bombeia pedra até diluí-la; o coração de pedra bombeia sangue até que ele a consuma. Então um só coração, natural na biologia e no espírito, pulsa e palpita a razão e a emoção; um só coração, cálido e gélido num extremo e noutro, se equilibra na temperatura da normalidade. Eis o extremo possível do que consiste o “e sereis ambos uma só carne.” Há ajustes entre estados, personalidades e almas que, por mais contraditórios que pareçam entre si, não incorrem em “jugo desigual” (que não raramente se dá entre carne e carne e pedra e pedra, infecundas entre si).
  25. Sentimento e ressentimento. A capacidade de saber quando estamos com um ou outro no coração é a chave para julgarmos a autenticidade daquilo que experimentamos afetivamente. O sentimento é sempre originário, primário: por mais que já tenha sido experimentado no passado em contextos tão diversos quanto distintos, ele sempre se apresenta com tal intensidade como se fosse a primeira vez. Você ama a mulher, adulto, como amou pela primeira vez a menina na infância. Isto é real e verdadeiro. O ressentimento é sempre uma repetição, uma volta cíclica: ele é uma tentativa de reproduzir, por vero-imitação, o sentimento. Você tenta amar a mulher, adulto, como amou pela primeira vez a menina na infância; tenta recuperar o autêntico que aconteceu no passado e pespegá-lo, e implantá-lo, no presente pela contínua projeção ideal no futuro. Isto é irreal e falso. É preciso, por isto, perscrutar sem cessar as disposições do nosso coração e o quanto ele tem entranhado desejos que, na ânsia de acontecerem, acabam criando espantalhos sentimentais naquelas pessoas com as quais nos relacionamos por fartura ou carência afetiva.
  26. Conta das misérias do teu coração as obras que as eras nele deitaram. Conta das grandezas do teu coração os feitos que os séculos nele frutificaram. Não sabes que nas tuas ações agem os atos dos teus ancestrais? O gosto pela gordura do porco é cinco gerações à mesa e ao prato. A ira, fecunda de violência é cólera, é a fúria dos cruzados teus avós. Te encantam as ruivas do Norte e as morenas do Oriente? Não tens dos godos a predileção do próprio povo e das terras conquistadas? Mas, são gostos teus também, porquê entre ti e Adão há um e só homem: tu mesmo.
  27. Pisa o teu passo. Se na terra encontrares o rastro doutros pés, passa ao largo. Dá a volta sobre a pisadura alheia e percorre, e corre, a maratona dos teus próprios pés. Não te voltes a olhar e seguir a medida do caminhar alheio, porquê outros são os mapas e outros são os tesouros. O “x” que procuras, em dourado marcado sobre o pergaminho do Texto Sagrado, foi ditado pelos sábios, pelos profetas e também por Deus: sê tu mesmo! Pisa o mundo, calca teus pés, impõe tuas linhas à face do solo. Passeia, de passo largo e firme, e faz de cada naco de chão fronteira alargada de Sião!
  28. Para ser considerado civilizado o suficiente pelo establishment, e então ser um bom político, o homem deve ser um eunuco. “Moderação”, hoje em dia, é uma outra palavra da novilíngua para castração. Quanto mais emasculado, mais tido por cheio de virtudes cívicas e sobriamente administrativas é o sujeito. O negócio desta laiada é ser uma espécie de Gríma Língua-de-Cobra misto com Luís Roberto Barroso. Leônidas de Esparta, Churchill, Reagan, Trump e Bolsonaro mandam lembranças aos frutinhas Demarato, Chamberlain, Carter, Clinton e Alckmin.
  29. Eu te quero encontrar, Senhor, onde da minha alma sai a fagulha de sol. Eu te quero encontrar, Senhor, no silêncio desprendido do último suspiro de Adão. Eu te quero encontrar, Senhor, entre dois reflexos que se anulam até o infinito. Senhor, encontra-me quando faz frio e meu espírito gela em si mesmo; encontra-me quando respiro o oxigênio do mundo sem o ar do teu pulmão; quando a vaidade dos olhos-espelhos é a visão que mais anseio. Amém.
  30. A gente só ama quando há murmúrio e silêncio. O barulho da exposição destes relacionamentos “ostentados” no Facebook como provas cabais de felicidade valem tanto quanto o berro dum mudo. No muito ruído há pouca substância: é tudo oco de superfície e caro, como um kinder ovo. Calcule, objetivamente, o “custo-benefício.” Quanto mais real, mais tempo se gasta com a coisa por ela mesma e menos tempo se tem para dar a [in]devida publicidade. Quanto mais ilusório, mais tempo se gasta em se mostrar e demonstrar que a coisa não é ilusória, porquê ambos bem sabem que qualquer brisinha praieira derruba o castelinho disneylândiano. A meia-voz os amantes se amam entre si. No estrondo das declarações publicamente declamadas, eles amam o fato de que o mundo pensa que eles se amam.
  31. Você come o arroz e o feijão e não distingue a diferença do sabor do comido ainda ontem. Você acorda, põe o pé no chão e não sente se ele está mais ou menos frio que ontem. Você olha pros olhos de quem diz amar e não percebe se eles estão, na cor e no humor, mais claros ou escuros. Você perdeu o ontem hoje e, por isto, não tem futuro amanhã. Todo o dia a mesma coisa, todo o dia que é dia nenhum. Esteja o sol no começo ou no fim do horizonte, na verão ou no inverno, é o relógio do celular que apenas te diz, vibrando: faz isto e aquilo porquê está estipulado. O teu hábito te fez habitual, tão habitual quanto um bacilo de Koch mastigando o pulmão dum cadáver. O tempo te corrói. O mundo te consome. Os outros te devoram. Você é comida do nada. Até quando? A cerveja bebida no sábado passado, a redação escrita na aula anterior, a boca beijada na última balada, etc, etc, etc. Liste aí tuas realizações, tuas ações reais e irreais. Liste e perceberá que você é um autômato sem eira nem beira que duma caveira se distingue apenas pelo funcionamento biológico. Até quando? Hoje, mais arroz e feijão na marmita ou no prato, mais pisos e solos de cerâmica ou barro, mais relacionamentos insossos que apenas se mantêm pela comodidade afetiva e social de ter qualquer coisa pra fazer ao se ocupar de ocupar o outro. Hoje, mais nada de nada em função do nada. Até quando? Pense nisto.

Trecho do conto “A Penúltima Estrela de Annwn”:

O coração feminino também é selvagem. Apaixonado, é capaz de crimes inarráveis, de terrores míticos e trevosos, de loucuras que esfriam e esquentam a espinha de quem lhes ama ou detesta. Mas é duma selvageria doce, cheia de candura.
— Acende aí o candeeiro, interrompeu dando-lhe também o copo e apontando para a garrafa sobre a pequena mesa posta ao lado da lareira. —
A abelha que ferroa a cabeça, deita mel na boca. A rosa que violenta a pele, dá o perfume que estonteia. A mulher assim tremendamente apaixonada parece-se com aquelas crianças psicopatas dos contos e da realidade: beijam carinhosamente a testa que talvez escalpelassem e curam com seus unguentos as chagas que num minuto poderiam salgar. E os olhos, como agem nesta selva? Abertos, eles hipnotizam; fechados, erotizam. São medusas cujas serpentes se aninharam no cálice cerebral, invisíveis. Os faróis da Antiguidade também causavam esse estupor: se a fogueira flamejava, marinheiro algum ousava tirar dele a visão; mas se a chama sumia, seu desejo e oração eram, com obsessiva ansiedade, não de chegar seguro ao porto, mas de rever o ponto de luz que lhe guiava, nem que para tal tivesse que gastar propositadamente mais algumas horas ou talvez se fizesse, por alguns dias, náufrago consciente no mar. Sereias e naufrágios, meu filho, são amantes associados entre si; pactuaram o mesmo contrato visceral que sede e água mantêm ajustado desde que Deus criou os mundos.

Trecho do conto “Os Sinais”

Como caem secas as folhas e o vento a cada uma empurra à fogueira, com um pulo me levantei do divã e em três segundos já estava diante da porta dos aposentos de Leonora. O piso, apesar de diariamente barulhento, não rangeu. Madeira alguma estalou sob e sobre meu caminho. Talvez por obra do demônio, de repente, impulsionado por esses ares frios que, rastro do inverno, acometem violentamente certas noites de primavera, começou lá fora um vendaval capaz de abafar o barulho produzido por um pelotão de artilharia praticando tiro-ao-alvo no meio do salão. Também me recordei, porquê desde o começo da semana eu ainda estava acordado à esta hora, que a velha governanta costumava fazer uma última ronda antes que o relógio batesse à meia-noite. A Sra. Jenyns não apareceu e, por isto, também todas as velas que se acabam àquela hora não foram trocadas. Tudo ficou escuro. Que potestades do ar assim poderiam conspirar para que um tal pecado se cometesse em silêncio? Deitei o ouvido esquerdo à madeira da porta: discerni o som da pena no papel e a respiração ofegante de quem está tomada por ansiedade. Ela me esperava, e de certo rabiscava qualquer verso na tentativa de me impressionar novamente. Mas estes sinais, arautos das aparências do mal, aos quais eu sempre fora muito sensível desde a infância, me detiveram antes de bater à porta. Pela manhãzinha, pouco depois do último canto do galo, saí do palazzo alegando enfermidade na família. Deixei-lhes um bilhete, um bilhete oficial, no qual pela primeira vez opus o brasão pastoral e assinei o título de reverendo doutor. Passei pela mulher de Potifar sem sequer deixar-lhe as vestes nas mãos. O próximo passo, para ao qual eu já havia calçado as botas, era pedir Rebeca em casamento.

Trecho do conto “Num lugar de São Paulo”

O Quixote deste tempo forjou das latinhas de refrigerante sua armadura prateada; alumínio com o logo da Coca-Cola embaçado. Fez do bambu arrancado da decoração dum restaurante japonês sua lança. Arvorou bandeira dos trapos amarrotados duma torcida organizada. O escudo, retirou-o do tampão azul dos bueiros da Sabesp. E dum capacete de futebol americano fez seu elmo. Seu Rocinante? Mira o fidalgo cavalgando a Monark aro 26 resgatada do lixão! Ainda vejo cavaleiros. Homens de porte digno e medieval, trotando a pé seus alazões de almas antigas, seus espectros de puro-sangue equino estacionados nas baias das praças com catraca. Cavaleiros sagrados e ungidos pelo óleo que pinga do céu, o óleo duma gota gelada do filtro do ar-condicionado instalado no septuagésimo sétimo andar, o óleo duma cagada aérea de andorinha que dizem dar sorte. A Dulcinéia persiste sendo a mesma, debruçada do balcão da lojinha ou do consultório médico, moça igual as lavadeiras de Tebas, as enfermeiras de Gettysburg, igual as donzelas castas e não tão castas que as ruas, as igrejas e o mundo expõem na modéstia um pouco brega e um tanto cândida da normalidade feminina.

Cinco pensamentos | Gênesis 2

Cinco pensamentos sobre o Sermão de 30.9.2018, acerca de Gênesis 2, do Rev. Benones Santos, pregado na Igreja Presbiteriana de Catanduva:

I. Um homem e uma mulher, juntos por algum tempo, sozinhos os dois nalgum lugar, se tornarão Adão e Eva no Éden. “Si puer cum puellula / Moraretur in cellula…”, canta a Carmina Burana. Impossível que um rapaz e uma moça sem vínculos terceiros compartilhem o mesmo espaço por algum tempo sem que qualquer coisa de afetivo surja em seus corações.

II. A expressão “dominar a terra” pode ser perfeitamente traduzida por “guardar a terra.” Dominar é extrair, mas não é sugar; é retirar, mas não é espoliar; é remover, mas não é arrancar; é fruir, mas não é extorquir. É criar a partir da Criação para que o homem também “veja que é bom” (“vós sois deuses”, aplica-se), não recriar para a Destruição na cegueira do que é mau.

III. Ao homem cabe tomar a iniciativa amorosa. É ele quem deixa seu estado de solteiro e avança em direção a mulher para uni-la a si. A corte, como ao flerte chamavam os românticos, principia com o olhar feminino mas se inicia com o passo masculino. “Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma só carne.”

IV. A costela de Adão foi o tubo de ensaio da variabilidade genética humana.

V. Deus nomeia as coisas dando-lhes um ser: o que é como é porquê é — interno. O homem nomeia as coisas descrevendo-as num ente: o que é conhecido como é conhecido porquê é conhecido — externo.

Lamento sobre a Alexandria Brasílica

O galo-da-serra viu subir a lua vermelha.
Cantou, medroso, a melodia que aprendera com o dono antigo, rei e poeta:
Ré do si lá sol fá mi ré…
Dum esquisito paço no centro da nação,
Custodiada por infame mão,
Veio descer a centelha duma brasa que Alexandria incendiou.
Os ossos da Eva do Novo Lácio, calcinados com o faraó inominado.
Os pergaminhos de Cícero e Brutus, enrolados pela labareda insone,
Consomem a letra carmesim, rubricando de brasa a velha liturgia.
Quem é teu Nero, que harpejava enquanto Roma ardia?
Ah, mármore e dourado modestos dum soberano sábio,
Que pode o Clássico, na quinta rural,
Contra o mundo de aço, de pó cinza, artificial?
Eleva teu canto ancestral, poeira de glória,
Como sobre o Ararat Noé balbuciou a História,
E diz ao povo órfão até de avós
A genealogia do homem, da pedra à mó.
O gládio romano e a cimitarra do Islã,
O espadim dos Luíses e a adaga de Lampião,
Tudo fundido, na pedra e no chão,
Sob a força do férreo, espacial torrão;
Outro meteoro da Extinção?
Como cantiga de exilado no próprio lar,
Caipira meto a viola debaixo do alqueire,
Junto à candeia da fé que vem renascente.
Rezo a Deus o pedido final:
Que Idade permanente e medianeira chegue,
De luzes como aquela da gótica catedral,
E escreva, com letras de iluminura,
Sol de caligrafia e altura,
O futuro deste Império Milenal.

[2.9.2018]

Poesia Orgânica — I

A impressão causada às vezes dispersa o ímpeto, como água fria em calçada cálida sobre as fezes.

Figura de verdades ocultas: o figo verde e suas agruras, a nuvem sem forma e a mente nua, a tentativa de comer e enxergar significado, de ter tento no sabor e na variação do vento, sem avaria na boca e alucinação neural.

Paranóico, partiu para o ócio feito rei, potentado estóico em terra de delícias, para tentar a toada do poeta com leite banhar, para no círculo encantado o quadrado da lucidez encontrar: qual luz e verso, a acidez do líquido e a limpeza do místico.

Teus olhos reféns dos meus troféus: lhe dou os méritos, os três lugares do pódio, o lagar sem vinho, a ira sem ódio, a vida sem pretéritos.

Deus deu seu sangue sem cálice, na boca nua, na língua crua, na boa hélice das papilas. O trigo assado, motivo da carne, molhado no corpo, arde votivo no estômago, no âmago.

O professor refez as letras, as palavras na terra desenhadas. Confesso, Senhor, que lavro no papel, o ser da árvore. Vê do alto as nuvens, que vêm todas chover sobre o texto daqui. Tua obra, luz sem breu, que abra o livro à cruz.

Deitei na areia, ali onde reina o mar, onde os ramos se aninham nos pássaros e as leis não doem na teia da civilização. Viril, mantenho a mania de somar proezas e remar sozinho: quero alcançar fama com Deus e zerar a lonjura do horizonte. Juro, ontem e hoje, que rumo da poesia vil ao poema raro.

Caro, li na parede a mensagem, o ágio dos deuses, mentindo à mente, rede de lambaris neurais. O texto, peixe de Jonas, jaz no ventre das arraias: raro sentido para este comum intérprete. Se pedra fosse, preto granito, que alfabeto eu teria? Tédio, são enguias!

Alça vôo, criança! O vô alcança tuas mãozinhas, amorzinho. Maior alegria, raio pacífico ao luar, ilumina a imensidão do agreste. Assim, antes e depois, fica numa geração e noutra cindido o mundo debaixo do mundo de cima. Nós unimos o universo, na ascensão e na queda, ao céu e à terra. E o sol, na cor, crepita na fogueira. Cessa o brilho noturno e o grilho anuncia o galo.

Acostuma-te com as constelações que se apagam. Tem contidas tuas ações, como se no céu os santos, em grandes telas, te assistissem a vida. Tão nuas lágrimas e prantos são assim os eus se unindo na lida. Volta ainda as costas às tímidas jornadas e vai correr, na esgrima dos anjos, com as asas e os arreios dos pássaros e dos cavalos.

O caráter dela é éter, cara! Mas sê com ela gentil, ainda que seu gentílico seja etílico melado ou ácido. Assim dominas os lados éticos do espírito, assim alivias sem lítio o cérebro.

Dê à vida aquilo que te deleita. Sê o Aquiles do teu meio, e não débil cheirando à leite e chorando-o derramado. Sê duma mulher o amado, sê aquele cujo nome sem lamúrias é honrado, ainda que estejas na metade do caminho e te rias do rábula que tenhas te tornado. O furacão da existência, cão de fúria, sopra nas almas prenhas seu gérmen de caos. Mentem as gentes: mentem de língua nos dentes, mentem té aos mendazes!

Dividiremos um túmulo, a dívida do tumulto do Éden. Para lá iremos muito tarde, quando as folhas já forem pedra e os rios rastros na areia, quando os astros medrarem luz fora do universo, no antro onde rema o barqueiro ou no empíreo onde o Rei verseja unidade o Rei.