Tríduo da Quinta-Feira

I. Se a sede é pouca, dão-te um garrafão de cinco litros e exigem que o bebas num gole. Se a sede é muita, ministram-te uma gota d’água num conta-gotas, esperando que a engulas vagarosamente e que ainda a sintas percorrendo todo o caminho que vai da língua à boca do estômago. Este mundo é louco, bella fantina! É louco não na acepção brincalhona da palavra, aquela que nos fala de pinéis, juqueris e piadas conexas à camisas-de-força. É louco como Satã mesmo é louco: em seu íntimo o grão-demônio domina a verdade, mas ela é tão desproporcional nele quanto essa desconformidade entre sede e água. Cristo parece-te desproporcional quando do poço tu retiras no balde capaz quantidade para encher teu cantil, e Ele ainda te vem falar que essa água, suficiente para hidratar saudavelmente teu corpo, ainda te causará sede? E, mais ainda, julgas louco o Mestre quando diz ele que do teu interior fluirão rios de água viva? Ele, insano, que ainda ontem nos dizia que Seu reino não é deste mundo? A alegoria equilibra os pesos e medidas das coisas visíveis e invisíveis.

II. No meio do caminho, começo e fim se unem não pela pedra no meio do caminho, mas por mim mesmo admirando a pedra. Se estou no meio do caminho e vou daqui para aí e se tu estás no meio do caminho e vens daí para cá, teus pés e os meus pés estão juntos. Ora, gostas também de por demoradamente os olhos nas pedras. Estamos cá juntos no meio do caminho. Então, não há mais passos para serem caminhados. O caminho acaba aqui, neste milímetro entre pés descalços, que separa o meu dedão do teu dedinho. Esta pedra, moça, é mais que pedra: é rocha. Eu posso querer esculpi-la, porquê sou metido a artista e tu mereces uma estátua que no mineral faça um pouco mais permanente teu sorriso; tu podes querer implodi-la, porquê preferes fazer areia na beirada deste mar de nossos sonhos azuis. Então… Faz tua areia, faz, porquê este caminho converge com a eternidade e melhor me é passar o tempo todo que foi, é e será olhando para teu sorriso de anjo arrepiado que recordando, na pele de pedra duma Eva inanimada, estes lábios que na carne e no osso me encantam a alma!

III. Esta perambulação de “amor” em “amor” que é senão corrida, quase maratona!, numa gangorra, de paixão em paixão? Patologia do coração. Loucura sem cura, sandice, folia da anomia, esquizóidice. É como se um demônio, um fauno maligno, dançasse polca no útero das fêmeas. É como se fadas, salamandras do mal, mergulhassem nos bolsões dos machos. Os adjetivos masculino e feminino são, respectivamente, coisas de homens e mulheres; coisas de quem ama — amor apegado às sinapses. Na razão sentimental não há vagar errante no amor, com subidas e descidas tão altas e tão profundas num ziguezague de loucura vertical entre céu e inferno. Caminha-se, pois, naquele caminho estreito do qual Cristo falou. Mas que bonito caminho! Apertado, mas retilineamente avante, frondoso e harmônico na mistura de minerais para os quatro pés, vegetais para os quatros olhos e animais para uma só companhia (dois, um para o outro, são sempre um).

Trecho das “Baladas para a Dama das Sete Estrelas”

CANTO XII

E o tempo parou, e a pupila se abriu para o último raio de sol do Levante, entre a areia que o vento trazia e o subir do véu. Vem, vem aqui, sobre o monte mais alto, sobre a torre mais forte. Daqui verás o lugar que para nós dois conquistarei nos quadros, daqui ouvirás as canções e os poemas que deste dia farão seu recordo. Se o pergaminho se queimar e ainda da tela a tinta se despregar, um anjo e sua talhadeira escreverão diante de Sião os versos do meu e do teu coração. Que ressoe a fanfarria e que os tamborins marquem o tempo das flechas, mas que este nosso silêncio seja mais ouvido que qualquer clarim de prata e que esta pulsação acelerada mais se ouça que um hino marcial. O luar já vem subindo e o olhar com ele vai cedendo. O elmo levanto quando já a brisa devolveu às dunas cada grão-de-areia e a ampulheta faz o trabalho que o astro-rei há meia hora deixou de obrar. O tempo está parando. Não o sentes fugindo, suspenso outra vez no olhar recíproco e cândido? Se as dançarinas dançarem apenas sob o desejo de dançar e os soldados sem soldo lutarem, e se o ofício der lugar à vocação e a rotina diária for pelo prazer repetitivo vencida, o tempo, o tempo aqui neste monte, o tempo aqui nesta torre, terá neste leito a única fresta capaz de lhe revelar a eternidade.

Confissões — I

Talvez o grande chamado fosse despertar e dormir sob o canto do galo. Talvez lavrar alguns hectares de terra boa e roxa e criar os filhos ao lado do celeiro onde os patos, as vacas, os porcos e os cães têm suas ninhadas. Arar a terra úmida e ao fim da tarde bater a poeira das botas e do chapéu. Comer o guisado e beber o vinho como um fazendeiro micênico que passou sua vida desconhecendo Tróia e seus heróis. Talvez o grande chamado fosse contar coisas bonitas, causos da roça, para a amada, sem cantá-las em versos hexâmetros. Talvez ter calos nas mãos e não curvaturas mais robustas no cérebro fosse o ideal e esquecer os pergaminhos antigos e os livros modernos aquecesse mais o coração. Talvez nunca compor poemas, mas ter no peito a mesma chama que inspirou o soneto barroco de Camões e até aquela cançãozinha agourenta de Henrique VIII: porquê o “fogo que arde sem se ver” reduziria às cinzas as “mangas verdes”. Talvez ouvir a respiração dela e só, e mais nada neste mundo, fosse suficiente para esta alma que ainda hoje quer por os ouvidos nas composições dos gênios. Talvez o sabiá a ajudasse, e o bem-te-vi e o pintassilgo, e a coruja. Amar ela e só ela sem outra beleza a tentar, sem outra paixão flertando com carências despistadas, sem qualquer outro olhar com que sonhar quando uma viagem precisasse ser feita. Talvez o grande chamado fosse confiar no produto da terra, tão próxima do chão da casa larga com filhos fortes e sadios quanto a limpeza asséptica com sua química está apegada ao berço imunizado dos bebês filhos únicos. Talvez, então, o grande problema filosófico não fosse Deus e o nosso eu e o quê é a verdade, mas tudo se resumiria à certeza de que, um dia após o outro, quando o relógio batesse o primeiro segundo da vigésima-quinta hora, tudo estaria consumado na Eternidade. Talvez o grande chamado fosse uma caneca de café forte pela manhã e uma botija de água fresca da moringa para a tarde e uns goles de vinho doce à noite, e não estes líquidos açucarados que passam direto por sol e lua, por sangue e pâncreas. Dormir na rede, pescar no riozinho fino no fundo do sítio, comemorar as datas santas e os aniversários e os batizados e os casamentos, comer feijão e torresmo do fogão à lenha, passar manteiga saída da vaca que mugiu na noite em que o primeiro filho nosso nasceu, passear descalço no meio da plantação, cavalgar pelo campo feito um homem livre. A vida seria pastoral sem saber o quanto esta palavra, aparentemente bonita e jovial, comoveu poetas, pintores e músicos tão enervados com suas cidades… Talvez o grande chamado fosse acordar e sonhar sob o canto da vida.

Esponjas de sol — XXXIX

  1. O sentido se reveste do véu invisível da aparência verdadeira, como a brancura etérea segue ao colorido no dente-de-leão e nas fotografias antigas. Acaso pensas que o amarelo enrubescente e as cores quaisquer no papel revelam-te a realidade última e profunda do vegetal e do retrato? Para o branco que ascende ao céu quando o vento sopra e para o branco que emerge da natureza celulósica da folha (como um prisma inverso, reunificador das suas tintas), desliza aquilo que é eterno naquilo que se vê. Também por isto os velhos ficam com os cabelos brancos: o corpo está deslizando em direção ao espírito. As coisas vão, cada vez mais, se parecendo com luz.
  2. O tempo não é linear.
  3. Usa a palavra sem usura, como tecido sem costura, como conselho que cura.
  4. O divino 1-QUE-É-3, desde o princípio da Criação se faz acompanhar pelo 12 humano. Deus e seu relacionamento individual e coletivo com seus comissionados. O Triângulo, ao gerar imagens e semelhanças geometricamente refletidas ao seu [r]estrito redor, gera doze triângulos.
  5. Distância, às vezes, só aumenta a ânsia. Por que de longe desperta o coração quando de perto adormece a paixão? O dia-a-dia relaxa apenas o já lasso, mas aperta e tensiona quando é demorado o contato. Manter na rotina a afeição sentida na extensa espera é a pedra de toque da verdadeira relação. Ao lado, um minuto que dura uma era? Hormônio desarmônico é. Colado, horas a fio que passam num instante? Alma em harmonia é.
  6. Toda ação é uma reação, perpetuada numa descendência infinita, à Primeira Ação.
  7. Tu te perguntas: e o que poderia ter sido se então eu tivesse dito o sim ao invés do não? Seria outra a vida ou mesmo a disposição do universo? As coisas e seus passos teriam se encaminhado por linhas mais retas que estas que hoje, enviesado pelo contexto que te julga, supões tortas? As planícies teriam alçado pés até tocar os planaltos? Subjugados os planaltos e os picos e depois os topos superiores das montanhas, seria talvez o céu mais próximo ou suas cores mais vibrantes que daí do solo nu? Tua voz teria outro tom e as coisas que hoje dizes seriam ditas neste tom? Como seria teu dia de hoje se o caminho escolhido tivesse sido o outro e não este de cujas pedras reclamas? Como seria tua existência se as circunstâncias que acolhestes tivessem no teu espírito encontrado a devida e antagônica resolução contrária? Por que te perguntas, afinal, se até este perguntar altera a essência mesma do espírito que o gera, mudando e variando a alternativa como num radial labirinto infinito? Se tivesses escolhido Beatriz e não Helena. Se tivesses ido visitar tua avó e não caminhar pelas trilhas. Se tivesses lido Petrarca e não Proust. Se tivesses comido amendoins salgados e não amendoins doces. Se tivesses aguentado o primeiro semestre, persistindo na faculdade de Medicina. Se tivesses desenhado mais retratos e menos paisagens. Se tivesses isto, se tivesses aquilo, se tivesses… oh sacra merda da inquietação que é supor! Eu te respondo: nada teria sido, porque o ser das coisas ditas e não ditas se conjugam para o mesmo destino.
  8. Aquilo que começa mal, termina mal. Se o início foi errado, o fim será errado. Se principiou no engano, seu termo será no engano. A origem é pecaminosa? O destino também o será, necessariamente. O efeito da causa ruim será sempre ruim e a reação da ação funesta será sempre funesta. Maquiavelismos do tipo “os fins justificam os meios” não existem senão na retórica sedutora do diabo. E tem de ser assim, porquê Ele, além de instituidor da Lei da Semeadura, é também Alfa e Ômega — Princípio e Fim como Palavra e Primeiro e Derradeiro como Pessoa: todo o dito age, da partida à chegada; o plantar, o regar e o ceifar necessariamente constituem-se no processo de labor pessoal pelo qual se dilata, se extrai e se revela a espécie da semente escolhida.
  9. Neste mundo digital-e-online infernalmente “celularizado”, indício de amor é salvar a foto e mandá-la ao estúdio para ser revelada e colocada num porta-retratos à moda antiga. Nesta seara etérea dos pixels, concretizar uma imagem em papel-fotográfico e enquadrá-la em vidro e madeira esculpida é ato sentimental revolucionário.
  10. Cada dia, para cada pessoa, tem sua melodia. Cada dia é uma música: é um período de 24 horas dominado por uma canção, por um hino, por um estribilho, por uma composição — por uma personalidade musicalmente específica que lhe revela o tom. Ontem foi o Adagietto da 5a Sinfonia de Mahler, hoje foi uma gaita sussurrando um country incerto e melancólico na companhia dum banjo amuado, amanhã poderá ser o dia dum samba do Noel Rosa, dum clarim barroco italiano, dos sinos espelhados de Arvo Pärt ou mesmo dum assovio improvisado. Se você é chegado em música, em boa música, faça o teste: a música que teu espírito quiser escutar (a cada dia com seus ontens, hojes e amanhãs) estará calibrada nele próprio. Cada pessoa, para cada dia, tem sua melodia.
  11. Se eu fosse outra vez menino, criança com meus dez anos e meus cinco sonhos (um castelo nas terras altas da Escócia, uma armadura igual a do imperador Maximiliano, uma namorada como Rebeca de York ou Bárbara Radziwill, a coleção completa das moedas romanas e o Prêmio Nobel de Literatura — sim, eu era uma criança “esquisita”), trataria de me escrever cartas, admoestações sinceríssimas, mandando-me manter cada um destes sonhos infantis com as devidas e necessárias adaptações à Realidade. A gente fica adulto e o castelo torna-se um apartamento caro e apertado, a armadura o sistema de segurança e as aulas de krav-magá, a namorada a moça ou gostosa por fora ou gostosa por dentro (onde, se possível, o meio-termo do “jugo igual”?), a numismática é substituída pelo colecionismo de extratos bancários e a honraria da Academia Sueca se contenta com estes textinhos bocós cá no Facebook. O negócio, o ponto da curva do nó, é este: no dia-a-dia, sê castelão do teu próprio espírito fortificado sobre outonos infindos; cavaleiro nas justas que a rotina arroja contra teu escudo; enamorado de boas-moças-boas; colecionador de curtos mas contínuos períodos de tempo bem cunhado; escritor de pequenas e até voláteis palavras, mas capazes de despertar o fons honorum, os elogios, dos teus amigos.
  12. Faze as contas contigo mesmo, de agora em diante até o último dia em que possas raciocinar acerca do teu eu: perceberás que, mesmo evoluindo (seguida e gradualmente ou aos trancos e barrancos), mesmo avançando nas melhorias que cada recôndito do teu ser carece, ainda assim serás um tolo consumado. A tolice é a condição humana por excelência: ela apanha o iníquo e o santo, ela acompanha o erudito e o analfabeto, ela está pespegada na alma mais lívia e no espírito mais tenebroso, ela balança o berço e sacode a maca hospitalar. “Ai de mim!”, escreveria hoje em dia o profeta, “porquê sou um homem tolo e habito no meio de um povo tolo”. Que é ser tolo? É ser incompleto nas ações e no entendimento delas. Mas a tolice do homem bom, apesar do desajeito, é sempre alegre e dotada de certas profundidades: sua incompletude o faz bem-humorado, palhaçal, risonho como aquelas crianças das pinturas de Frans Hals. O homem mau, porém, de sua tolice arranca perversidade. Escárnio e barbárie o acompanham, como lepra: ele é incompleto no significado, no sentido, no “way of life”; por isto, sua tolice julga mal e faz mal desde sua abissal rasidão. Irmãos, da tolice homem algum escapará. Então: sede tolos, mas sede santos!
  13. As conversas que temos frequentemente acobertam ou desnudam as coisas, sobretudo nossos problemas mais problemáticos. Conversamos com alguém frouxo e superficial, e é como se um véu, um anestésico véu espesso, caísse sobre o fato, coberto por uma grossa mas quase invisível camada de nada, um nada que traz a amenidade da despersonalização, um nada neutral cobridor que extingue no ninho da nossa volição toda a possibilidade de ação e reação, um apaziguamento falso, alienante, embotador. Conversamos com uma pessoa “sangue nos olhos” e a ira cai sobre nós — emerge cruentamente do núcleo do ser, respinga fogo no ambiente e nos inflama a tal ponto que revivemos no presente todo o fato passado, reinterpretando-o coléricamente; então, saímos à guerra, marchando para a vingança. Por isto, diante de questões sérias geradas por fatos sérios que exigem soluções sérias, converse com Deus: só Ele nos amenizará na realidade para a paz ou nos fortalecerá na realidade para a guerra.
  14. Há dois meses não consigo escrever um único verso. Poema nenhum de poesia nenhuma. Por que? Porquê o coração é quem verseja. Coração oco só produz falso silêncio e eco barulhento. O cérebro por si é mudo e analfabeto quando lhe mandam trovar solitário, sem o sangue inflamado do órgão que pulsa a vida mais crua. Nada de palavras bonitas e musicais com rimas, ritmo e sonoridade espiritual. Nada. A prosa prossegue como dantes — vigorosa, bem “almada” e até apegada aos mesmos componentes líricos e psicológicos da poesia. Mas… poesia, mas a poesia não consegue aqui em mim parir sequer um “batatinha quando nasce espalha a rama pelo chão.” Nem mesmo a mediocridade dos versos tolos, infantis e despropositados me ocorre. Há dois meses… Calhou d’eu ler, agora de pouco, esta frase de Benetti, o grande poeta uruguayo: “Si el corazón se aburre de querer, para qué sirve?”
  15. Viver um dia após o outro, num movimento existencial indefinidamente cíclico, é uma espécie de pena infernal. Uma vida sem tesão diário, que não sinta a tensão por cada pedacinho de tempo passando e que aí não perceba com atenção o que vem a médio e longo prazo, é um tormento digno dos círculos demoníacos. Não suponho nada mais infeliz que a rotina entediante de quem usa suas 24 horas apenas para mastigar sem se deliciar, dormir sem sonhar, transar sem amar e defecar sem filosofar (porquê um homem decente é, ao menos quanto à pose pensativa à Rodin, um filósofo sobre a privada). Viver o dia como se ele fosse o último; como se dele dependesse a salvação de toda a Criação; como se Cristo, e não Horácio e depois os epicuristas, tivesse dito o “Carpe Diem”: é nisto que eu acredito.
  16. Foge do olhar que foge. Olho no olho — íris contra íris — continua sendo a melhor peneira para separar trigo de pedrisco. Tudo está lá, entre um globo ocular e outro, na tensão que desvia e na serenidade que encara, na culpa que se nega à fixação da alma na córnea e na inocência que ultrapassa a carne da órbita e chega ao espírito. Tudo está no olhar. Eu gosto de gente que escoa suavemente tudo o que é e que sente pelos olhos, como uma libação do melhor vinho à Divindade. Quanto aos maus, mentirosos, por mais que eles se esforcem para segurar o fluxo, seus olhos vazam como esgoto a céu aberto.
  17. É preciso que ames o complexo e seus detalhes, que te afeições às filigranas, às minúcias e aos pormenores caso desejes passar a vida ao lado duma mulher. Exercita-te no desenho das iluminuras e dos arabescos e também das caligrafias, no estudo das formas geométricas dos cristais de neve e do gótico das catedrais, no exercício pneumológico de respirar e inspirar com mais e menos ar em mais e menos tempo, no cuidado com a quantidade de sal e açúcar e de temperos ao cozer para variados paladares, no preparo das tintas da paleta à imagem das cores no universo, na atenção ao volume que acompanha o subir e o descer das notas musicais nos motetos barrocos, na força gradual empregada no martelo para se chegar a tal e qual espessura segundo a espécie do metal, no sentir a variação de umidade no ar conforme a temperatura e a estação… Exercita-te na polivalência das proporções da Criação do Senhor. E é preciso que ames estas coisas com pura simplicidade: então, sendo simples ao amar (ao amar com este amor bem adestrado no complexo), num relance distinguirás na mulher as finíssimas variações de humor, as quase imperceptíveis alterações no tom de voz, as etéreas mudanças na expressão que do coração e da mente vão à pele da face, as modificações quase inaparentes na cor do cabelo, enfim, serás capaz de nela amar as “variazioni sullo stesso tema”. Perceberás aquilo que ela quer que percebas que nela é passageiro, para que sejas capaz de conhecer aquilo que nela é permanente. Exercita-te na visão, na audição, no gosto, no toque e na fala desta fina e elegante ourivesaria das coisas sutis, porquê elas te darão a dourada e prateada chave capaz de abrir-te, um a um, os segredos do coração daquela tua amante filha de Eva.
  18. Tu pagarás o preço. O preço alto, o preço caro, o preço doído da inautenticidade, do escambo do momento atraente mas frágil pelo resto de tua vida e, pior!, pela poderosa eternidade. Não quisestes ouvir a razão do melhor sentimento? Pagarás o preço. Mentistes por dó ou velhacaria? Chamar-te-ão, nos céus e na terra, de mentiroso. Casastes sem amor? Teu desejo não será para tua aliança e teu coração palpitará a todo instante ansioso em pecar. Folheaste os livros entre bocejos e indolência? Tua inteligência atrofiada terá sua paga no holerite. Destes teus melhores anos à frivolidade noturna? Tuas vazias tardes de velhice sofrerão de insônia. Comestes muito ou pouco? Teu corpo seboso ou esquelético mal se nutrirá de fármacos. Para tudo e em tudo, nas ações e reações em ti e por ti cometidas, um preço será cobrado. Agirás? Recorda, então, que cada um de teus feitos é uma nota promissória, sobre a qual um anjo carimba “Lasciate ogni speranza voi che entrate” / “Deixai toda esperança vós que entrais.” Tu pagarás o preço.
  19. O mundo é imundo, e mudo. Tudo nele é oco e vacuoso, sem sabor nem paladar, sem graça nem humor, entendiante como a contagem duma dízima periódica, sujo como a ramela dos olhos de um porco velho e cansado. É desordem de rumos sem direções definidas, sem caminhos objetivos, sem horizontes capazes de nos dar sequer o prazer retilíneo de um pôr-do-sol silencioso em si mesmo. É caos. Mas o amor é uma espécie de bomba nuclear que, ao invés de pulverizar e tudo destruir até o limite das beiradas do átomo, ao inverso faz o seu trabalho: é uma bomba que constrói do nada, que organiza do zero, que engendra do vazio, que cria do inexistente. É explosão de logos. O mundo, então, passa a ter gosto, passa a ter ânimo, passa a estimular o eu até que, de repente, o estômago gostosamente dói de tanto gargalhar. No amor, o mundo fica sendo digno dos dois últimos versos daquela canção: “Yes, I think to myself / What a wonderful world.”
  20. Caráteres fracos se reúnem, em coleguismo, quando descobrem abruptamente antipatias que lhe são afins: desgostam e odeiam as mesmas coisas e pessoas. São como aquelas agitadas moscas varejeiras que zumbem ao redor do mesmo monte de estrume. Caráteres fortes se unem, em amizade, quando simpatias que lhe são afins são lentamente descobertas: gostam e amam as mesmas coisas e pessoas. São como aquelas andorinhas que cantam ao redor da mesma fonte de água. Idem velle, idem nolle.
  21. Ter dois pães numa mesa, um para cada um, não faz uma comunhão através do alimento; faz apenas uma reunião de fomes individuais. Homem e mulher reunidos corporalmente por uma certidão civil não fazem um casamento; fazem apenas um concerto de interesses patrimonialmente atendidos. Não se deve dividir o “pão nosso”, um diante do outro, se o objetivo é apenas a nutrição física do organismo. Não se deve unir “numa só carne”, um no outro, se o alvo é tão somente a satisfação orgânica do físico. Sem o suporte do coração, não há mesa e cama que valham a pena.
  22. Não te preocupes com a vergonha, que é pública e por isto nada é senão a opinião desintegrada e parcial que vem de fora. Preocupa-te, antes, com a culpa, que é julgadora íntima e por isto tudo discerne quando unida à tua consciência. Não te envergonhes senão quanto o teu próprio dedo, direcionado desde dentro, te apontar a falha, o erro, o pecado. A superfície da poça da reputação é o habitat natural dos mosquitos (e quantos eles são ao nosso redor!), atores no frenesi mais agitado e infértil da existência biológica. A profundidade do oceano do caráter é a morada dos grandes, autores de legados duradouros mesmo quando mediocremente escondidos na calmaria duma vida anônima (mas quão fecunda e produtiva!). Quanto vale tua alma? Vale o silêncio da santidade modesta que só Deus, Senhor de Todos os Eus, conhece; porquê só Ele conhece as batalhas que diariamente travamos contra nós mesmos na luta pela Alegria que não tem fim. Quanto vale teu espírito? Vale a quietude da inocência tão odiada pelo mundo, quando ele cochicha de ti como outrora cochichou de José: “Eis lá vem o sonhador-mor!”
  23. Problema sério da nossa psiquê associada ao nosso ego: projetar interpretações positivas e/ou negativas (conforme nosso querer íntimo) nas ações e reações alheias. Tentar observar as coisas como elas são — a realidade dura e nua e crua — é um exercício diário no qual devemos nos esmerar por dois motivos, sobretudo: (I) para não nos enganarmos a nós mesmos e, conseqüentemente, (II) para não enganarmos os outros. Olhar para as pessoas a partir do que esperamos delas é erro perigoso, que frustra e desespera. António Machado, o poeta, já ensinava: “Peor que ver la realidad negra, es el no verla.”
  24. O homem deve se comportar como advogado de sua mulher, deve agir como seu defensor contra o mundo acusador, contra a multidão maldosa de dedo e língua em riste. É este o papel masculino e varonil, mesmo que ela esteja errada na “briga”. E estando, discuta seriamente com ela em privado, entre quatro grossas paredes; mas nunca, em hipótese alguma, a censure (a favor de tudo e a favor de todos) em público. Se você não age assim, tu é um castrado bem frouxildo e não passa dum bunda-mole mais preocupado em manter uma suposta coerência com os de fora em detrimento daquela que, contigo, é uma só carne. Não cacareje de cabeça baixa diante da turba que não trata bem aquela que te ama. Seja um leão e vá pra cima, ô seu mané!
  25. Quanto à interpretação de sonhos, José está para Freud assim como Daniel está para Jung.

Aquella dolçor amarga

Aquilo que contemplas te completa.
Onde passas tempo está teu templo.
Se os meus olhos não te escapam
E se contigo minhas horas voam…

Alta mirada de fecunda jornada,
Altar mais alto donde jorra alma:
O mapa do mundo recosturado;
Coração calmo, canta meu salmo!

Como é cedo e como é tarde agora…
Preenchido o vazio, foste embora?
A sombra abandonou já o relógio

E do mosaico caiu o vidro dourado.
Um suspiro oculto que só anjo ouviu,
Raio bruto que outro buraco pariu.

Uns olhos

Uns olhos redondos, da cor da jabuticaba depois que acaba de perder o verde, firmes e doces como os favos de mel que as abelhas negras produzem no Himalaia. Uns olhos profundos e turbados, fundos como o lago do conto de Avalon e turbados como as águas purificadoras do Jordão. Uns olhos que olham para o alto mais que para baixo e para o horizonte. Olhos em que qualquer coisa de místico e niilista se fundem na crença do nada e na descrença do tudo. Uns olhos que arrastam anjos à perdição e demônios à santidade. Uns olhos vastos para uns e limitados para outros: os olhos da esfinge, os olhos da coruja de Atena, os olhos da chama do caldeirão e do relâmpago da primavera. Uns olhos imaginando galáxias nas poças d’água, fiando tapeçarias infindáveis, desvendando os enigmas dos magos antigos, caçando os bois de Gérion. Uns olhos onde um filho de Adão se perde para se encontrar.

Três trechos destes três dias

I. Eu me decepcionei com sua beleza como quando, menino de sete anos, pela primeira vez enxerguei uma borboleta imperial sugando as fezes de um cachorro lá da rua. Escândalo metafísico para uma alma toda tola e ingênua como a minha. Será que até mesmo este inseto naturalmente belo e colorido fora afetado pelo pecado original? Certo que meu bairro não era o Éden, mas me acostumei com a imagem constante de apenas vê-las no roseiral. Mas, e tu? Estranho, porém, era que eu te supunha como uma destas borboletas: pura, inocente, cândida. Então, eu te vi. Eu vi.

II. Anotei na última página limpa do caderninho estes versos, que nunca entreguei para o meu e o teu bem: “Sinto teus passos cambaleando, / Certos e incertos: teu pensamento. / E como a água fresca ardendo, / Ardendo na língua febril ao vento. / No íntimo do véu sob o peito, / Enclausuras meu nome ao relento. / E eu, neste espírito recôndito, / Custodio tua memória escrevendo.”

III. Deus também me deixou vê-lo na fresta dum penhasco. A fresta foi um sonho e o penhasco a consciência quando acordado. O sono foi pesado, mesmo depois de ter jantado macarrão e vinho como se meu estômago fosse o de um mamute. Foi na madrugada e na tarde duma sexta-feira, respectivamente. Sonhei que num tribunal um crucifixo caia sobre a cabeça do juiz e o feria de morte. Desperto, fui depois assistir à uma audiência criminal. Num bate-boca com o advogado, a maldita expressão soou do Bouche de la Loi: “Porco dio!” À noite, dirigindo seu carro de volta para casa, noutra cidade, o magistrado bateu de frente com uma estátua do Cristo Redentor instalada na rotatória principal da rodovia. Morreu…

Carta e trecho final do conto “Os Pequenos Sinos”

Bella:

À tua alma só anseio dizer meus nadas. Porque se me perguntas como andam as coisas, só me recordo das ausências das coisas, como o fato do sabor do queijo muito dever aos seus buracos, essas cavernas onde uma substância primordial em certo tempo agiu ocupando espaço e criando gostos. Contigo consigo ser o meu eu ideal. Não calculo palavras, não meço gestos e movimentos, não me articulo esperando ser interpretado de acordo com esta ou aquela idéia que causaria esta ou aquela impressão. Toda a fadiga da repetição não existe. Não há mecânica entre nós dois. Por isto, brotam-te de mim meus nadas; figuras eternas, idéias puras da essência mesma do meu amor. O amor, pequena, não é assim tão metafísico. É físico como a ausência de preocupações no cérebro do monge. Paradoxo? Contradição? O vocabulário está mudado, porquê desejo dizer a realidade que as palavras limitam na cadeia de suas formas sonoras e desenhadas.

Aquelas histórias sobre castelos nos céus, sobre pedras sustentadas por nuvens: é este o nada que te quero contar. O nada qual as sombras que a luz do vaga-lume gera por onde passa. Quais pequeninos entes ganharam, na terra e nas paredes da terra, figuras sombrias através do fogo químico deste inseto? Tal é um destes nadas. E também esta questão o meu nada encerra: em noite escura, quem vê as estrelas refletidas nas gotas d’água que umedecem a relva? A imagem dos astros o quê muda na natureza da água, seus espelhos? Tua alma escuta a minha nestes nadas que são tudo.

Então, eu te respondo: “mais ou menos.” Quão poucos são os seres de nossa espécie capazes de conhecer, nas vísceras do espírito, o significado desta expressão. Quem, pergunta por aí, já sentiu o mais do nada e o menos do mesmo nada a ponto de, tudo equilibrando no tudo, poder olhar para a situação, para sua situação, e dizer consciente como diante de Deus: “estou mais ou menos.” Este “ou” não é conjunção alternativa, segundo julga a gramática da língua lá de baixo. Porquê se diz por lá que o “ou” é isto ou aquilo e que ou está assim ou assado, de um jeito ou de outro, sendo x ou y; tudo bem estanque e limitado e definido. Mas, não: aqui se está, ao mesmo tempo, mais e menos. Este “ou” é, de certa forma, um “e” que adiciona. No entanto, não deixa de ser um “ou” efetivo, porquê funciona como uma balança, como uma gangorra, como um pêndulo, como um imenso cano que, deixando sem parar fluir água dum oceano a outro, durante a maior parte do tempo a retém neste caminho, em si. Pois, então, se estou mais e menos, um estado anula o outro e conclui-se que não estou nada. E este nada é tanto. É tudo. Por isto, à tua alma desejo dizer meus nadas.

Esponjas de sol — XXXVIII

  1. Se por mil casas passássemos, o lar conosco ainda habitaria. E se centenas fossem as mesas, ainda assim um seria o jantar.
  2. Quis para mim jurar que este seria o último poema e que verso algum, desta pena e coração, teus olhos veriam. Mas é assim tão louca a desilusão, e tão variante a canção, que outra vez tomo papel e escrevo sobre a paixão. Ainda que negues ver neve sobre os umbrais da casa, chamando amarelidão à brancura em montanha, como se nos afligisse o sol em verão, desperta sob a lareira e vem ler esta ilusão.
  3. Jurei ouvir passos onde não haviam pés e sentir o calor do sol quando não havia dia. Por que discernir distintamente o andar e na pele o candor dos raios se tais não são? Outrora jurei que nela eu tinha a amiga e que o tempo tratava de compor sua valsa, e que num fim de tarde a dança moveria todo o aguardado em pensamento e emoção. Mas de juras não pode a realidade viver, porquê a verdade é este permanente escolher: aqui tens o caminho e os teus pés, aqui tens o inverno onde a sombra não chega. Juro-me, para poder jurar-te depois, que há existência além de nós dois. Tu tens de mim o que de mim te dou e eu de ti tenho o nada que me deste. Apreendida ficará para sempre esta lição: jurar para quê quando há confiança? Jurar, então, já não é uma quebra de aliança?
  4. Pessoas de pensamento instável, cuja ansiedade movimenta o julgamento, quase sempre assumirão como verdadeira a última versão à qual tiveram acesso no contexto dum “puxa-puxa” de conversas, boatos e falatórios acerca dum mesmo fato-assunto. Em bom português: gente de miolo mole frequentemente aceita e acata, por força da impressão psico-emocional mais recentemente causada, os supostos argumentos da última pessoa com quem conversou. Julgo que 99,9% dos indivíduos padeça deste mal cá no Brazil-zil-zil. Doravante, fica diagnosticada a “Síndrome do Pós-Julgamento Recarregado”. Popularmente, podem chamá-la de “Síndrome do Ouvi-Agora-Logo-É-Verdade.” E também já podem inscrevê-la no CID. Meditem aí.
  5. Na Criação, a mulher vem do homem. Na Redenção, o homem da mulher.
  6. Joana d’Arc é a Judite da Idade Média.
  7. Escarlate ou rubra é a cor. Vermelha, direi. Eis a face quente em cor, o sangue gotejando na flor, a imagem sanguínea do amor. Coração pulsando humor e rubor, espinho rasgando a pétala da pele: também é carmesim.
  8. Arquétipos são sequestradores do ser, da personalidade real.
  9. O santo é o homem logosoficado. Seus gestos e ações são puros como idéias-palavras. São essências excedendo o próprio ente.
  10. A justaposição de imagens cria uma imagem inexistente. A justaposição de idéias cria uma idéia em si mesma existente.
  11. Haverás de calar por um instante, e entenderás que o silêncio é relevante como um eco do universo bem no peito, como um brado de mil deuses em respeito. E então caminharás bem vacilante, na alegria inesperada do levante, como ébrio de razão e devoção à verdade deste nosso rei-peão.
  12. Cavalguei pelas colinas florescentes, sob as estrelas douradas.
  13. Confiar é fiar-se no coração alheio.
  14. Ourivesando palavras, ando lavrando maravilhas, vendo douradas nuvens, ouvindo serafins.
  15. Qualquer covarde pode manejar um revólver. Mas a bravura sempre estará apegada (porquê indistinta) à espada. A bala é distância. A lâmina é contato.
  16. A flor perfeita é rara, / cor branca de nata / para a régia receita. / Pura e sem mácula.
  17. Estava com as narinas entupidas. Então, vi ela. O nariz logo ficou livre, desentupido. Sem Sorine nem assoamento no lenço. O amor, bem sei, é uma espécie de pneuma.
  18. Quando os passos a si mesmos se guiarem, entre o descalvado monte e a reta avenida, saberás que o caminho marcha dentro de ti como bússola pelo Santo Espírito imantada. Escuta a harpa que a musa futura dedilha, a harmonia que à alma traz som e calma, porquê ouvirás ainda poucas vezes o hino que o Rei mesmo compôs na invernada. A guia dos teus sonhos e melhores ilusões é o labor que o dia-a-dia desenha em mapa, é o amor que, farol superior, do eu se aparta. Se a primavera vier forte porém atrasada, entre o lastro do frio a bela rosa apertada, terá chegado o kairós desta santa jornada.
  19. O tamborim e o ventre da dançarina: eco de mútuos vais-e-vens de couro e corpo.
  20. Sob as abóbodas celestes, as abóboras terrestres.
  21. Ler todo dia algo que valha a existência das palavras: um poema de mil anos, a Bíblia, uma mensagem escrita ainda ontem por quem nos quer bem, um livro qualquer que não te faça ser um qualquer. Ouvir todo dia algo que vá além dos tímpanos e chegue ao mundo das esferas musicais: uma sinfonia de Mozart, um samba do Cartola, uma missa de Byrd, um modão de Tião Carreiro e Pardinho, um oratório de Bach. Contemplar todo dia a beleza de Deus no mundo: uma mulher bonita sorrindo, uma árvore se desfolhando, uma criança aprendendo a andar, uma ninhada de cãezinhos cheirando à leite. Provar todo dia, nos cinco sentidos, que há um sentido na vida, e que a beleza se impõe como meio de salvação diante da rudeza ordinária e vil que tenta deformar a imagem e semelhança dEle em nós. Faço isto todo santo dia. Funciona.
  22. Apenas quem for capaz de ler tua alma será capaz de te amar. Algumas pessoas, poucas pessoas, poderão bem entendê-la em certos aspectos principais e até mesmo compreendê-la em certos detalhes mais profundos, mas nunca te amarão integralmente, fecundamente, totalmente: no máximo ter-te-ão carinho, paixão e bons afetos. Porém, apenas quem for capaz de ler teu “textus vitae” (aquela narrativa oculta e misteriosa que a alma individualíssima encerra) com a gana de querer relê-lo para sempre (sem tédio, sem enfadar-se com a rotina, sem fastio) te amará. Cada alma é uma esfinge: decifra-a e ela também te amará. Recordo, à propósito, Valéry: “Il y a une sorte de réciprocité entre le besoin et l’objet qui le satisfera.” / “Há uma espécie de reciprocidade entre a necessidade e o objeto que a satisfará.”
  23. Frequentemente quer-se demonstrar como presença aquilo que é ausência. Quer-se demonstrar que se ama e se está amando e sendo amado porquê a falta real de amor agoniza a alma. Quer-se demonstrar inteligência porquê a falta fática de razão e tirocínio embaça o pensamento tão diariamente que a fala chega a parecer-se com o zurro asinino. Quer-se demonstrar sucesso, elevação e posição como adereços capazes de enfeitar aquilo que no fundo é medíocre e por enquanto insuscetível de subir para além de certo e “baixo” status. Então, pára de te comportares como titã da paixão e do sexo, como mito e gênio do intelecto, como exemplar maquiado e macaqueado da realeza mediatizada alemã ou de super-executivos de Wall Street! “Conhece-te a ti mesmo”, profetiza o oráculo socrático. “Examine-se o homem a si mesmo”, pontifica o Evangelho. Sê tu mesmo a ponto que, conhecendo-se e examinando-se, teu eu efetivamente (de eco fraco a eco forte do ser) chegue ao fundo final do teu eu-si-mesmo. Estes vernizes mundanos, a quem enganam senão a ti mesmo? Não te comportes como don juan ou femme fatale, como Tomás de Aquino ou Simone Weil, como Dostoievski ou Flannery O’Connor, como arquiduque d’Áustria ou lady vitoriana, como Steve Jobs ou Huguette Clark. Nas baladas, no câmpus universitário, na sociedade e no trabalho (e também no Facebook) é certo que és apenas um zé-mané/mariínha-manoa. Teus anseios de subida são legítimos. Tuas pretensões de ascensão são cabíveis. Mas o fingimento nada alcança senão uma fina película de mentiras meticulosamente tramadas que qualquer perguntinha à mamãe ou ao Google desfaz. Concentra-te em saber quem és e, então, a partir do ponto-radicular da verdade, poderás dilatar tua potência e aí serás de fato um adulto amante, sábio, culto e, sabe-se lá o que isto quer dizer, enfim serás um adulto “importante”.
  24. O ritual é a base social da sanidade moral do indivíduo. Do culto ortodoxo russo ao haka dos maori, estou convencido desta realidade.
  25. Há tantas grandezas por conhecer, tantas alturas por alcançar, tantas belezas por criar… e nós (e eu, e eu mesmo, quantas e tantas vezes!) nos deblaterando por ninharias, por tolices tão nulas quanto implicantes, por coisinhas ranzinzas e “inhas” de infindos diminutivos, por minúsculas partículas de nada com nada e mais nada. Há tanto por viver entre uma meia-noite e outra. Há tanto por viver entre uma pessoa e outra. Há tanto! Há tanto, que nada destas desgastantes tolices diárias e nada destas desenergizantes idiossincrasias cotidianas vale à pena. Nossa rigidez lógica é frequentemente um lago de breu; um lago de breu, reverso daquela má e velha “tempestade em copo d’água”, perturbando a razão natural das coisas — profundas, vastas, oceânicas. Há tanto por viver. Tanto…
  26. O homem salvo por Cristo não foi feito para viver como a maioria dos homens. Se o calo aperta, continuamos a caminhada com os pés sangrando. Se a boca seca, engolimos saliva em benefício de cada palavra que ainda precisa ser dita. Se a tentação mastiga ferinamente a carne, nós nos jogamos no espinheiro até que o auto-domínio floresça. Se os homens comuns desejam apenas existir como entidades biologicamente controladas por aquelas necessidades da Pirâmide de Maslow, nós suportamos as carestias físicas e metafísicas com os olhos pregados na vida que é eterna. Um homem cristão não foi feito para passar a vida se arrastando entre cama-e-ronco e sofá-e-bocejo entremeados por trabalho profissional, fadigas corporais e rotinas mentais: nós fomos feitos para avançar audaciosa e corajosamente o Reino de Deus entre esses outros homens em cuja humanidade a “imagem e semelhança” dEle está embaçada. Há um mandamento sacrificial por guardar: “Ide!” Lembra-te.
  27. Apenas gente muito boa ou muito má calcula com certo rigor de detalhes suas ações, seu minucioso procedimento diante do mundo das coisas e dos homens. Atenta-te para o caráter de quem observas: se é virtuoso, tal cálculo é sua temperança e prudência no agir; se viciosa a alma, ali tens um enxadrista a calcular cautelosamente seu ataque.
  28. Se é o olhar que te seduz, que farás com ela inteira? Se é o sorriso que te cativa, que farás com todo o resto abaixo e acima da curvatura dos lábios? Se é isto ou aquilo ou qualquer outra “parte” do conjunto que especialmente te atrai, que farás com o “todo” harmônico ou desarmônico que carrega o detalhe encantador? Que farás com o todo interior, com tudo aquilo que carrega seu corpo pelo mundo? Que farás com sua genealogia e atavismos, com seus modos e usos e costumes, com sua impostura diante do altar de Jeová? Que farás com seu desdém por livros e música, por arte e vida interior, por viagens por terras cheirando incenso e canela, macarrão e doce de maçãs, sal desértico e gelo ártico, lã no curtume e carneiro na brasa, tâmaras e pato de Pequim? Que farás quando quiseres gastar dobrões a mais numa iluminura medieval e ela outra-e-outra-e-outra vez desejar a grife milanesa? Que farás no domingo quando tu quererás acompanhar as crianças na escola bíblica e ela quiser dormir mais e mais, atordoada pela ressaca? Que farás com sua existência anterior toda marcada, toda chagada, pelo sistema coator das massas? Tu quererás a 5ª de Shostakovich e polvo e vinho verde e quererás na semana seguinte o forró pé-de-serra pernambucano e baião-de-dois com buchada de bode e batida de cocô com jurupinga; ela te arrastará perpetuamente para qual pub, para qual balada, para qual rolê, para qual night de Skol Beats e cacofonia entre o cheiro do cigarro barato e o gosto rançoso da porção mal feita? Tu quererás ler e gastarás algumas horas lendo; ela irá para o shopping. Tu quererás que teus filhos estudem música, aprendam línguas antigas e cacem e cavalguem e acampem; ela lhes dará celulares, babás e conselhos falsamente maternais sobre como “não perder tempo com estas bobagens” e sobre o quanto “é perigoso ficar correndo por aí.” Tudo por um reflexo momentâneo dum olhar tentador e brilhante? Tudo por duas mandíbulas bem providas de dentes e graça estética? Dalila é sempre um pesadelo perfeito: sentimento de sonho que ao pensamento é horror.
  29. Só se ama quando tu és tu e só tu mesmo com a pessoa, sem vernizes cobrindo e recobrindo tua personalidade, sem brumas anuviando teu ser. Ser e só ser, de espírito nu. Sem os melindres de parecer isto e insinuar aquilo, sem a preocupação de impressionar falando ou calando, sem o medo de fazer a coisa certa do jeito errado. Sem as “folhas de figueira” da persona projetada no mundo: sem vergonha. Só se ama na nueza da alma toda despida dessas preocupações de não ser bom o suficiente, porquê o outro basta na sua [in]adequação. Só se ama quando ali, um diante do outro, homem e mulher se enfrentam e se encaram sem que frontes e caras se despistem no olhar mútuo — olhar que carrega, leve e densamente, tudo o que eles foram, são e serão porquê passado, presente e futuro comungam do mesmo destino. Todo o resto, senhoras e senhores, é bobagem sentimental que não vale a pena.
  30. O amor não carece de dia, mas o dia, um em especial como hoje, sempre carece de mais amor. A lógica do Dia dos Namorados, por mais que pretensos racionais a neguem sob gastos argumentos de que se trata dum evento comercial dedicado a varejismo sentimental, é a lógica que sempre guiou o ritual, a liturgia: determinar especialmente um tempo para, com melhor consciência e atenção, se dedicar mais intensamente àquilo que já se dedica silenciosamente no dia-a-dia. Então, não chorem as amargas pitangas contra a data se o andarilho cupido ainda não lhes acertou o miocárdio. É feio!
  31. Os ideólogos dum lado atiçam o povo contra o povo atiçado pelos ideólogos dum outro lado. Os dois povos são um só povo, que uma verdade (igualdade) numa grande mentira (igualitarismo) opôs à outra verdade (liberdade) numa outra grande mentira (individualismo).

Versos livres — IV: César e Cleópatra

Uma estátua primeiro eu vi,
Divinizada em ouro e rubi,
No estuário do grande rio
Reluzindo fogo nas águas,
Suando sol em suas lágrimas.
A cidade, teu baluarte, passei;
Sobre o cavalo do lácio montei
E nas ruas cheirando a jasmim,
Sob o incenso e o perfume dalém,
Fui arriar diante do portal teu,
Morada da neta-ninfa de Ptolomeu.
Corredores de pintura rajados,
Frescos pelo granito sepulcral,
Prenúncio de dor no bem e no mal.
Uma estátua de carne eu vi,
Humana da cor do leite acanelado,
No trono de carvalho ancião,
Entre as sombras do palácio janelado.
Braseiro de estrelas, teus olhos,
Corpóreos assomos de espírito
Atribulado por desespero e paixão.
O protocolo por dois poderosos seguido,
Teatral arranjo de acordo e coação.
Despedi-me com aceno de elmo posto,
Conquistando terras e talvez teu rosto.
Crepitava a chama e o sono já me vinha
Quando a ama me chamou à tua cama.

Do Livre-Arbítrio

Poderás escolher entre o fundo do poço e o chão do abismo, entre as entranhas trevosas da terra e as profundidades escuras do solo. Poderás arbitrar entre o gosto amargo do fel e o paladar acre da bílis. Em copo de vidro, em taça de cristal, em cálice de prata e ouro atesourado, do mesmo líquido, espesso líquido, beberás das mil e uma versões iguais. Na mutação das palavras, apenas, a diferença entre os caminhos bifurcados no início separam-se em opostos destinos; mas, lá no horizonte da realidade final, onde convergem as linhas todas das escolhas aparentes, encontram-se no mesmo cavoucado sepulcro o querer dos homens, o teu querer e desejo e vontade. Poderás escolher e arbitrar entre a morte do corpo e a extinção da biologia, entre sepulcro de mármore esculpido e vala rasa no canto anônimo do campo santo. Poderás decidir entre velas amarelentas de cera apiária e de parafina branca, entre coroa de rosas vermelhas e arranjos de lírios alvos. Poderás deliberar sobre o cântico fúnebre: se o Dies Irae de Mozart ou o de Verdi ou ainda qualquer assobio triste na gaita rouca ou pagode entretido no estéreo. Poderás sentenciar os detalhes indetalháveis das tuas exéquias, se na luxúria das telas pornográficas eletrônicas ou nos caros bordéis monegascos, se no licor decantado nos barris das Terras Altas ou na ordinária cachaça dos jacus, se na lâmina prateada de espadachim palaciano ou no tiro exterminador de brigão de pocilga, se erguendo o punho ideológico cerrado contra as Duas Tábuas ou calando passivamente a voz da lei eterna que palpita consciência. Eia, ao labirinto dos trezentos e sessenta e cinco atalhos conduzindo para o único portal, caminho por onde o barqueiro das chamas distribui suas moedas aos cegos. Poderás deliberar e sentenciar, resolutivamente, sobre qualquer aspecto fatal do decreto imperecível: estás morto e ainda uma vez mais morrerás.

Que é este facho de luz, puro como a água da primeira fonte a irrigar aquela árvore de cognição perfeita? Por que escoam centelhas e farelos de estrelas sobre o cerebelo que me atina sentido? Que é esta escada, faiscando direções longínquas até o topo celeste? Por que sinto os sentidos sensíveis à imensidão, querendo o que nunca quis e tendo prazer em não ter os prazeres que agora pouco me excitavam a carne? O choro com suas lágrimas, lágrimas densas de terra por saliva umedecida, rompeu nos meus olhos visão plena de quem sou, de onde estou e para onde ia e agora já não vou. O sono da campa fria vai-se embora num nevoeiro de espectros e arquétipos fantasmagóricos e dentro de mim, no centro nuclear do espírito moldado do pó da terra, ergue-se — ergo-me! — o eu mesmo. A espada cessou de guardar sentinela a entrada do meu éden; conduz-me uma Mão através da fronteira, passo ao largo do foço, atravesso as muralhas custodiadoras das formas originais da alma, adentro o portão ameado pelas lanças e bandeiras dum “Faça-se!” que é palavra-e-ação, chego ao pátio do domínio, posto-me no grande salão real, sento-me num banco que ladeia um trono em doze degraus assentado. De repente, grande mesa de dois manjares, pão e vinho, estende-se; e brancura celeste toma o recinto. É de barro ourivesado o cálice, o graal da Verdade. A doce bebida vinificada jorra do lado dum cordeiro estendido e o pão é a carne trigal do seu corpo. As vozes invisíveis dos arautos dizem-me: “nasceste!” Escolho? Arbitro? Decido? Quero? Desejo? Mas, quê? Escolho escolher e arbitro arbitrar decisões de quereres desejados? Há só e solitariamente uma direção que me pode impulsionar, um só trecho que é também única estrada: o teu querer, Senhor. Se assim sou tua imagem que o físico quis refletir em semelhança de veroparecimento, não sou contigo fundido sem ser confundido? Não sou um exemplar tão acabado como aquele pai meu, pai nosso, erguido da vermelha fuligem terrenal? Despertaste-me. Ah… e se ainda não é em glória o corpo reformado, se ainda não está elevado à estatura maior que o aguarda, ainda assim escolheste-me para a Vida que não tem fim. Vivificaste-me e ainda uma vez viverei.

Esponjas de sol — XXXVII

  1. Aprende, todo santo dia, a cortar as pequeninas amarras que se vão enraizando bem devagarinho, tiquinho por tiquinho, no teu coração. Se permites que o teu maior sentimento seja presa dos teus afetos menores, se assim deixas o que é passageiro deitar a mão suja sobre aquilo que em ti é puro, se consentes que cresça contradição à força de sedução sorrateira quando mais e mais deveria a coerência fulgurar em teu espírito; se assim ages, oh homem, como lograrás cingir nesta existência a verdadeira felicidade e no além a vida que é alegria eterna? Aprende a libertar-te destes grilhõezinhos que, ao cabo dos dias, serão para ti um calabouço: coração esganado, louco e desencaminhado, sucumbente ao mundo e aos deleites mais efêmeros. Vide cor tuum!
  2. Coincidências não existem. Na vida, esta nossa vida sobre o planeta, tudo é incidência da mão ordenadora de Deus. Nada é acidência dum acaso cego e mecânico com suas causas e efeitos subsidiários — tão desconhecidos quanto despropositados. Então, quando tu te perguntares “por que?”, mesmo que não seja possível distinguir um qualquer sentido racional para o fato que te molesta a consciência, sabe isto: o Senhor, o Deus Todo-Poderoso que nos formou do quase etéreo pó da terra, trabalha para enxugar dos olhos toda lágrima. E quão sólidas são nossas lágrimas! Em tudo, para todos, há um propósito (uma purgadora intenção salvífica) a ser cumprido. É a Graça, soberana Graça!
  3. Byron, aquele grande poeta, escreveu desde o estábulo do seu coração que “but the test of affection’s a tear” / “mas o teste da afeição é uma lágrima.” Belo verso, mas enganado verso. Pode-se chorar por qualquer coisa — na ira ou no amor, na dor ou na cólera, na alegria ou na desgraça, no positivo ou no negativo. Mas sorrisos, mas um sorriso!, só se pode dar, só se pode transparecer na face perante o mundo, quando a afeição é sincera e, então, é de fato afeição. A prova melhor do carinho é um sorriso, porquê facilmente consegue-se discernir (pela curvatura dos lábios, pelo rubor das bochechas, pelo tencionamento da pele, pelo estado dos olhos…) o que verdadeiramente sai da alma daquilo que amarelamente uma postura social introjetada na psiquê obriga por na cara. A lágrima é líquido vazando da biologia corporal, esteja o espírito como estiver. Enganar-se acerca da natureza fontanal duma lágrima é facílimo. O sorriso, no entanto, nasce dum estado bruto e puro e muito específico do espírito humano; não se dissimula, por mais que teatralmente se tente.
  4. Durante o processo de amadurecimento (de aperfeiçoamento real para esta vida), com todas as suas tentativas e erros e acertos, nós sempre nos machucamos uns aos outros. Ferimos e somos feridos, mesmo querendo acariciar. Sangramos o outro, que também nos sangra. Um coração canibaliza outro coração por pura inépcia, por falta de jeito, por despreparo, por criancice geniosa. Então, de ferida em ferida e depois de cicatriz em cicatriz, nós um dia acordamos conscientes do turbilhão de causas e efeitos que gerem o mundo do outro. Assim, concluímos nossa questão: já não há muito o que fazer, senão tentar não repetir os mesmos erros. Amadurecemos, pois.
  5. Todos nós, pouco ou muito sinceramente, somos montadores de quebra-cabeça. Os outros são nossos quebra-cabeças. As mulheres, sobretudo, são dificílimos quebra-cabeças. A gente se achega à “grande mesa das montagens”, o palco da consciência onde interpretamos o mundo e o mundo dos outros, e, com as peças que as pessoas nos vão disponibilizando a esmo e aleatoriamente (aos gritos e aos silêncios, aos berros e aos sussurros, com gestos miúdos e espalhafatosos, em hecatombes e vácuos), tentamos montar a imagem, a figura, o símbolo, o significado, enfim; aquele complexo “ideo-imagético” que quer assim nos dizer aquilo que não foi explicitamente dito. Toda mensagem muito séria que não se quer tornar completa e evidente a quem ela se destina acaba quebrada em cacos, atirados como pedras ou espalhados como a trilha de pães de João e Maria. E os cacos, como ciscos ou como lascas, nos caem nos olhos de dentro (o coração) e nos olhos de fora (a mente). Enigmas e sombras que compomos, pedaço a pedaço: tudo “sotto il velame” não dos versos estranhos, como diria Dante, mas sob o véu das “azioni strane”, das ações estranhas. Tudo muito cansativo, mas muito rotineiro e permanente. Fadigoso ofício: montar quebra-cabeças, humanos.
  6. Duas vidas freqüentemente se emparalhelam e assim devem permanecer por toda a vida: pararelas, lado a lado, caminhando numa mesma trilha fraterna; sem se cruzarem e então se fixarem numa intersecção de destinos unidos para serem existencialmente “uma só carne”. Há distâncias, de perto e de longe, que foram feitas para um mútuo auto-aperfeiçoamento que de modo algum — por mais que a diferença seja sútil — se confunde com mútuo aperfeiçoamento. Relutância, melancolia, frustração e alguma tristeza surgem, mas é assim que as coisas (Deus o sabe!) são e estão organizadas para o nosso bem.
  7. De vez em quando, aquele menino de cinco aninhos que eu fui há vinte e quatro anos passados aparece, com o dedo levantado e bem apontado para o meu nariz, e passa pito sem cerimônia: “E então, Dayher, o que é que você está fazendo com a minha vida, seu moleque existencialista?” Machado de Assis tinha razão, e lá está ela bem inscrita como título num capítulo do seu Brás Cubas: “O menino é o pai do homem.”
  8. Um olhar não olha outro olhar. Os olhos assim olham-se como espelhos que se refletem. Donde a luz? Qual caminho percorre o facho, a linha cintilante de duas íris, o élan da mirada de dois corações? Um olhar para outro é lúmen e também uma labareda cegal: se a um tempo liberta das trevas, noutro é densa escuridão capaz de tolher qualquer apelo, luminescente ou não, da razão. Estes faróis que antigamente guiavam naus em calmaria e tempestade; estas fogueiras diante do sol e das luas, estas córneas, apontam para portos e altares, para pedidos e promessas, para juras e confidências. Que é um olhar? Que são dois pares de olhos justificando-se em silêncio? Olhos olham outros olhos. E apenas no relance, o instante pequenino em que o ângulo de intersecção arranca das cavernas das retinas o extremo clarão do amor, apenas neste relance pouco mais que instantâneo, uns olhos ficam sabendo que outros olhos existem em si mesmos, porquê, sabei vós, na maior e mais larga medida do tempo disposto, eles lá estão ocupados no ofício hipnótico de olhar, de olhar e olhar, mas não de ver o próprio olhar. O olhar, os olhares, são qualquer coisa acima da biologia do globo ocular. O olhar, os olhares, são aquela íntima visão-de-além-corpo que Adão e Eva compartilhavam entre si quando ainda não se percebiam nus. A alma, a alma enxerga.
  9. Quem mente no pouquinho, mente no montão. Mente no pequenino? Mente também no grandão! As minúcias e pormenores da vida desenham suas grandes estruturas. Impossível ser verdadeiro no principal e no superior se se é falseado no subsidiário e no inferior. És amante da verdade, custando o que custar?; da verdade libertadora, doendo como doer? Então, teus lábios não provam a mentira no menor detalhe, porquê tudo é curva e linha no maior entalhe. Anota, recordando do nono mandamento.
  10. Entranha-te na realidade. Cria raízes nas coisas como elas são. Esquece e dá cabo de ilusões pueris, de ventos vãos que cintilam desejos em oásis também miragens. Apega-te à terra, que é como é e está como está. Apega-te àquela sensação superior da qual és capaz de perscrutar a origem — o amor. Destrói as baixas impressões que apenas impressionam, e cujas raízes pairam solitárias plantadas no éter das emoções, no nada comovente — a paixão. Procura a solidez da permanência, da estabilidade da coluna ereta diante da sordidez mundana, da dignidade espiritual que vem com o bipedismo. Entranha-te na realidade porquê a vagueza cai bem apenas ao mar, porquê “quizás, quizás, quizás” apenas comovem os tolos e os insonsos, porquê o homem foi formado da terra, máxima realidade…
  11. É grande quem vive no mundo e para o mundo aquilo que se vive no íntimo silencioso da própria consciência. É grandeza, grandeza libertadora, que uma alma consiga se despir das aparências, das futilidades, das mascaradas supérfluas que revestem as personas sociais. É grande (três vezes grande como três améns), é soberanamente grande exercer os destinos da própria existência em respeito ao que vai no coração sentimental e na razão mental. É grande, porquê é verdadeiro, porquê é real, porquê há muito deixou de ser animal soprado e levado ao sabor dos vendavais da aspiração-e-respiração alheia. Como é bom — sob a Providência preparando o mar, a rota e o porto para nosso barquinho — poder navegar e declamar para si e poder remar e recitar para o mundo: “I am the master of my fate: I am the captain of my soul.” / “Eu sou o mestre do meu destino: Eu sou o capitão da minha alma.”
  12. É preciso muito esforço e muita força de vontade para não cair seduzido pelo fingimento. Nunca fingir ser o que não se é, para si mesmo nem para o mundo. Quem finge, apenas finge, e com isto ganha, por pouco tempo, algum conforto psíquico (que tenta dar substância às idealizações próprias, congelando na alma certas “gelatinas” emocionais e fornecendo-lhes a aparência de solidez) e algum conforto social (a veneração ignorante das massas adoradoras de ícones, aos quais, ao mesmo tempo, elas votam concomitantemente o ódio mais cruel: palmas à realeza daquele a quem condenam à cruz). Quem finge, constrói para si uma maquetezinha romântica e toda empoada do Palácio de Neuschwanstein na escala 1:1000, que a coletividade, em seguida, saúda atônita fotografando-se e deixando-se fotografar ao lado das coloridas muralhas deste novo Castelo da Disney. O cristão, porém, o homem equilibrado que é efetivamente o que é (tanto individual quanto socialmente), deve resignar-se à arquitetura original que Ele quis dar às suas “quatro paredes.” Daí, conforme ensina Teresa d’Ávila, ele tem pleno acesso ao castelo da sua alma. Fantasias caem; e sempre cairão muralhas de papelão abstrato e torres frágeis de ilusão isoporada — as de dentro e as de fora. Anotai: o diabo não apenas assedia; ele sempre conquista fortalezas edificadas sobre a areia (segundo a Mineralogia, não é também rocha um grão de areia?) do fingimento; Pai da Mentira, sem ler Sun Tzu ele sempre soube que demonstrar ser nunca é efetivamente ser. Todos somos castelos quanto à dignidade, quanto ao “fortitudinis spiritus”, mas na arquitetura dos frutos (da missão do ente segundo à natureza do ser) cada qual é cada qual. Eu, p.ex., sou uma simples casa de família, de pedra e madeira, construída no topo duma montanha onde primavera e inverno predominam. Cada qual, porém, é uma morada diferente e específica para o retiro do Espírito Santo. Cada um de nós tem uma vocação já engendrada pela engenharia celeste, um sentido estruturado para trilhar o Caminho da Verdade na Vida. Por isto, “To be or not to be, that is the question.”
  13. O diabo ataca sempre em várias frentes aparentemente autônomas e desconectadas. Faz isso para não dar à “presa” o senso das proporções do golpe tramado. Mas, há um fio invisível na medida em que inquebrável conectando cada atacante a um grande ataque final (depois que os ataques individuais e ocasionais não logram efeito). Há uma estrutura metafísica demoníaca gerando complôs silenciosos. Então, busque discernir o espírito das pessoas e o mundo ficará claro como um tabuleiro de xadrez. Discirna os afetos que elas depositam em seus interesses, anseios e desejos (sobretudo os frustrados) e você verá limpidamente cada peça na sua casa e cada peça harmonizada ao lance da outra numa “avant-première” do xeque-mate: os até então dispersos unem suas escaramuças e reúnem suas demandas num ataque orquestradente grupal. E tudo faz sentido, porquê, como diz o salmista, “abismo chama abismo”; ou ainda, como ensina perguntando São Paulo, “poderão estar juntos se não estiverem de acordo?” O diabo, eu já o dizia semana passada, é um mestre da estratégia. Ainda bem que o Espírito Santo está conosco. Dominus Deus Sabaoth!

1116: Quem se apega à verdade, faz aliança implícita com o próprio Deus. A verdade, nunca excessiva e por isto nunca má, constrói no caráter a humildade: ensina que as coisas acontecem como acontecem e são e estão como são e estão porquê o mundo é coator de tudo e de todos, ou seja, sobre nós caem definitivamente certas ações e reações inalteráveis. Porém, a despeito de todo este poderio, o mundo não nos pode impedir de conhecer seus movimentos e natureza. Conhecemos aquilo que não podemos alterar concretamente, e cuja negação formal é a mentira, abstrata. Entretanto, além: o mundo não nos pode impedir de contra sua verdade (imutável, humanamente) combater pela Verdade (plenamente imutável): II Coríntios 13:8. A verdade da terra pode, quando Cristo o manda, ser conformada pela Verdade do Céu. O conteúdo-de-Ser que desce do Alto até o baixo, aqui, transforma a estrutura-do-ente. O homem que ama a verdade-informação será amado pela Verdade-Pessoa. Eis algo da metanóia, que se explícita.

  1. Se tu aceitas qualquer coisa, qualquer resto e migalha, tu aceitas ser uma coisa — restinho e migalhinha. Se não escolhes o melhor para ser melhor, contentando-te com o “menos pior”, com aquilo que na escala das delícias está abaixo da vibração da tua alma, acabas escolhido pelo pior e, então, irremediavelmente, ficas pior. Quando compreendes que assim como as estrelas têm cada qual sua glória particular (I Coríntios 15:41) e tu também tens a tua, percebes a grandeza da individualidade e o quanto tal grandeza dignifica-te e honra-te pelo que és. Não aceita o que sobeja vil e podremente. Come, mastiga e digere o manjar todo do amor. Come, mastiga, digere e te nutre de todo o banquete da paixão. Não permitas que requentem sequer o prato principal. Não permitas que teu paladar prove o fruto murcho, o vinho quente e cheio de borra, a carne seca e fibrosa, o pão duro e inutrível. Aceita a superior coisa, o primeiro e o principal, a primeira fatia, a primeira colher, o primeiro corte, o primeiro gole.
  2. O teu eu verdadeiro onde está, que faz, que é? Em que núcleo bem denso e duro do teu espírito está escondida a tua personalidade, esganada pelo mundo malemolente? Quem és tu, entre as personas visíveis e invisíveis que envernizam tua ação entre os homens? O teu eu verdadeiro às vezes rompe a caricatura, não percebes? Não percebes quando tu e tu mesmo dizes algo, falas algo, pronuncias algo, pensas algo, meditas algo e refletes algo que estava assim tão aguilhoado no profundo do teu espírito porquê abafado pela personagem que se apresenta ao mundo como se fosse tu, tu mesmo? O teu eu verdadeiro dorme nas sombras, quando na verdade é mais luzido que o meio-dia. O teu eu verdadeiro faz discursos imortais enquanto tu balbucias concordâncias servis com a massa numericamente forte. O teu eu verdadeiro é um obelisco de dignidade antiga enquanto tu te enraízas no lodo vil e baixo da modernidade envelhecida. O teu eu verdadeiro brame hinos misteriosos, canções diletas aos profetas e sábios dos desertos, enquanto tu aqui entre os tolos e mortais assassinas a eternidade em infecundos falatórios sem fim. O teu eu verdadeiro está onde não estás, fazendo o que não fazes, sendo quem não és.
  3. Apenas o que é verdadeiro vale à pena. Todo o resto, dispensável. Todo o mais, digno de descarga antes mesmo que o produto fétido das entranhas psíquicas submerja na água limpa da privada do esquecimento. Pelo verdadeiro, enfrenta audacioso o mundo, atravessa oceanos, aventura-te nos continentes, sobe as cordilheiras, dá a cara (limpa e lavada) diante do Céu. Pelo que é mentira manifesta ou mentira disfarçada de dúvida, não entrega sequer o teu mais fraco pensamento de atenção. Pelo verdadeiro, batalha a peleja até que tua alma sangre luz. Pelo dúbio gangorreiador, pelo periclitante insosso, por aquilo que contradiz malignamente a realidade disfarçando-se com o manto denso, cinza e trevoso da falsa sinceridade, nada faz senão virar tua face em direção ao sol. Vale à pena o que é verdadeiro, apenas.
  4. Mulher que não se comove com poesia e homem que não se atreve a rabiscar versinhos para quem ama, estão condenados à infertilidade espiritual. Eis aí dois corações que vão se ressecar assim que a pele secar, dois cérebros prontos a raciocinar um “fui!” assim que a emoção passional perder sua fonte feromônica. O relacionamento pode até durar em termos cronológicos, mas dificilmente aspirará à eternidade: “vou aguentar mais um pouco, mais um dia, mais uma semana, mais um tempo.” E por poesia entenda-se, simplesmente: palavras bonitas que ninguém mais poderia (querer) dizer, estejam elas arranjadas na forma de soneto italiano, estribilho de música popular ou bilhete escrito no guardanapo da lanchonete. Sem palavras formadas pela beleza, ecos diários e infindos daquela palavra dada no cartório ou jurada no altar, a feiúra da realidade do mundo carcome a certidão e expõe a promessa copiada do Google. Sem o Logos, sem o Verbo, sem a Palavra: logo o vento sopra a palha. Se não tem palavra bonita, não tem alma bonita; e se não tem alma bonita, não tem nada.
  5. Tudo passa e passará. O corpo, belo ou feio, se desfará. As linhas bem proporcionadas, harmônicas e geométricas, se desalinharão conforme o caos tomar a pele, fazendo do tônus fragilidade e da melanina uma profusão de fraqueza celular. Tudo passa, e está passando. Da beleza e da feiura do lado de fora, só restarão poucos traços estruturais e muitas lembranças saudosas num espelho trincado não no vidro mas na pele refletida. Quando tudo aquilo que hoje é firme e matematicamente gracioso se desfizer, o que sobrará do lado de dentro? Quando o presente for passado e o futuro um pretérito há muito conjugado, que será da alma? Que permaneça, pelo menos, aquela beleza que brilha nos olhos mas que às vezes ricocheteia na íris. Que permaneça, ao menos, aquela formosura de valores que hoje vaza silenciosamente apenas nos sorrisos e na fala sincera. Que permaneça o permanente, porquê, como dizia o apóstolo, “as coisas que se veem são passageiras e as que se não veem são eternas.” Tudo passa e passará, mas a beleza que vem lá do âmago, do espírito ainda luzindo inocências, esta ficará.

Bewusstsein?

Ouço os meus passos. Mas não caminham estes meus pés sobre terra alguma. Eles estão quietos, estirados debaixo do manto. Quem vem lá, aderido ao timbre dos meus ossos e nervos caminhantes? Lá fora os pinheiros lamentam qualquer hino ancestral, na língua dos ruídos, entro os uivos dos lobos, que se vestem do lastro de prata que a lua asperge, a lua que iluminada pelo dourado solar é enigma e musa para a alcatéia. Qualquer coisa como palavras — não as minhas, porquê estou calado — formulam um discurso no parlatório desentranhável da minha mente.

E o que se fez, isso se fará

O brilho primitivo se move entre o neon:
Por sob as lâmpadas de química avançada,
De eletricidade científica, fulgura a fogueira;
E grita Prometeu: “theon, theon, theon!”

No areópago que ampara a luz mal pensada,
De velocidade sideral controlada, se esgueira
A chama que centelha no átomo toda a alba.
O moderno, oh deuses, é fábula transloucada!

Sha naqba īmuru: tlahtoāni

As folhas continuam caindo,
Como se no Iraque o zigurate ainda estivesse de pé,
Como se Montezuma oferecesse sacríficos cruentos,
Como se as árvores ainda fossem as mesmas.
As folhas caem porquê caem,
Assim como a chuva, mais alta, também se lança sobre a terra,
E lava e corrói os tijolos milenares de Babel,
E lava e enxagua a pedra americana ensanguentada.
Caem porquê caem, porquê há aí o acaso?
Caem, porquê caindo sob o ocaso do Sentido
Ainda cintilam seu significado mais profundo
De soberania e divindade.

Trecho do conto “Vendaval na Invernada” [1.1.2015]

Céu vermelho ao anoitecer, tempo bom. Tentei quebrar o silêncio jogando pedras na janela, assoviando versos ao luar, sorrindo tonto para ela. Consegui quebrar a janela, acordar os cachorros e ser tomado por louco. Não, não há mais o que fazer. Há sim este passado que há pouco é pretérito e que vai passando como um balde d’água que escorreu pela ladeira até encontrar o bueiro mais distante do quarteirão. Agora, tudo seria simplesmente falar o que foi dito, emitir sons mais ou menos silvados na boca, sorrir amarelo na cor da gemada azedando em cima da pia. Ouve-me, ouve-me a ti mesmo! Fica sabendo que este mundo, este mundo de hoje em dia, não está organizado para que o teu coração tenha o quê fazer: os corações que por aí estão, com exceção do coração de Helena, são bombas de sangue empurrando e distribuindo sangue quente; só isto é o que são. Anatomia mamífera! Se nas tuas artérias flui o elixir passional e incoagulável do amor, melhor que durmas no sereno uma noite para que o frio do ambiente, do ambiente real, te gele um pouco o cérebro e ele se faça gangorra, balança e contrapeso deste teu coração que insiste em bater estas coisas que são “sentimentos”! “Some they think only to marry. Others will tease and tarry.” Ouça-me cá: guarda o teu silêncio e os teus versos e os teus sorrisos para a anunciação de Helena. Do contrário, adquirirás o hábito — e depois o vício — de quebrar vidraças e vandalizar janelas, de uivar aos cães e incitá-los à “pega!” contra os gatos de rua, de ter sempre nos lábios o riso dos sacanas e velhacos. Céu vermelho ao amanhecer, tempo ruim.

Quadrante da sexta

I. Esta grama que vejo verde, resplandecendo qual fagulhas de sol, ela daqui a pouco será cinza e o céu mais escuro que o carvão. Vou ali por os pés e aproveitar a maciez tão pequena. Vou ali deitar sobre a relva e cochilar meu sonho de menino. [7h14min]

II. Branca de neve, lábios de vermelhas maçãs, branca, branca como neve de leite quente. Ah, cabelos negros de negros véus, de negros fios tão finos, tão finos e negros… [12h17min]

III. Uma fresta, feito pequeno rasgo nas muralhas troianas, entre um olhar e outro, entre olhares mutuamente desviados no instante do piscar retirante de duas lanças, de duas íris, se quebrando e se tocando, faiscando. Pequena rachadura de dois mundos que, contradizendo-se em ódio e amor, têm diante de si a visão do Paraíso. [12h47min]

IV. Nada senão os preceitos antigos, de antiguidade que se marca em marcos sobre a terra e seus domínios espirituais, poderão outra vez resgatar-nos destas novidades tão velhas quanto os fósseis amarronzados e pardacentos da prata e do ouro dos séculos passados em festins. Porquê antigo, antigo verdadeiramente, é o cálice há milênios ourivesado em barro e que ainda hoje, nos altares, ainda hoje é usado. [16h28min]

Bella fantina, i’t’ho donato il cor

Se por muito tempo pensas,
Terei logo a cabeça suspensa
E os olhos dormidios cerrados
Em direção ao teu telhado.

A atenção logo se acaba,
Como grande vela em pequeno mastro,
Quando a mente desaba
Sobre o coração seu intelectivo lastro.

Se por muito tempo pensas,
Amenizas sim as desavenças,
Mas o preço duas vezes pago
É o de perder também o afago.

Enquanto meditas da torre marfínica,
Enquanto supões quimeras
De sonhos livres da penumbra empírica,
Os castelos louvam taperas.

[10.4.2006, segunda-feira]

Esponjas de sol — XXXVI

  1. Uma das coisas mais gostosas deste mundão é escrever poesia para quem sensivelmente é capaz de compreender que ali, entre versos e estrofes, está o próprio coração na mão. E uma das melhores imagens nesta vida é ver olhos femininos enternecidos diante dum pedacinho de papel que custodia, com letras bem caligrafadas, um poucochinho de tudo aquilo que este coração sente; que sente e que sentiu ao se desnudar rimando, destemidamente, seu espírito enamorado.
  2. O fanático não é tão perigoso pela sua idéia (“Timeo hominem unius libri”) quanto pela troca repentina de uma idéia por outra, enfim, por sua substituição — quase sempre num estado de “conversão” pseudo-metanóica. Pode-se discernir em caracteres patológicos certa ascensionalidade crescente de obsessões ideológicas menos abrangentes (nível pessoal) para obsessões mais abrangentes (nível social). O stalinista idealista justificador dos Julgamentos de Moscou nas redes sociais que torna-se “nazista romântico” e vai fazer coro aos loucos negacionistas nas praças, o crente moralista fiscal-da-vida-alheia que torna-se ateu eticamente laxo e vai às assembléias legislativas atirar ovos e tomates nos crucifixos, ô… oh… e muito mais! Eis por aí tanto chato-de-galochas que abandona a pouco duradora tolerância mínima em direção a definitiva intolerância máxima. O mundo está perigoso para os homens de muitos livros.
  3. A gentileza só é gentileza de verdade (e não mera cortesia social) quando é levíssima de tão suave, quando é diluída no gesto (mutatis mutandis, Bilbo Bolseiro diria “esticado como manteiga espalhada por um pedaço muito grande de pão”) tanto quanto o beijo na testa que a gente deu pela primeira vez na primeira namorada. Quando se parece — porquê é — com ritual formulário, quando é caricatura formalesca, não é gentileza coisa nenhuma: trata-se apenas de urbanidade habitualmente introjetada. Dâmasos de Salcede há a valer por aí!
  4. A política externa brasileira deveria prestar triplicada atenção nestes três países: Rússia, Tailândia e Polônia. No primeiro, pela movimentação ideológica eurasiana (maior bloco de poder no mundo oriental); no segundo, pela mutação político-econômica que fará crescer a população islâmica; e no terceiro pela lugar-tenência eurocética. A sério que “o silêncio é um espião”, Mário Quintana? Abin! Abin! Abin!
  5. Tem todas as idéias e todas as opiniões! Contudo, não permitas que elas façam de ti uma idéia e uma opinião. O homem livre, o homem bom, é um decanter de pensamentos docemente tintos, e não um barril de borra mental vinagricenta.
  6. César, ao recepcionar de muito má vontade uma delegação de senadores que lhe viera anunciar a concessão de novas e mais lustrosas nobilitações, ficou regiamente sentado em sinal de desdém pela aristocracia lambe-botas. Caiu em si: grave erro estratégico mexer com os brios de homens senis mas poderosos. Teve que fingir (e mandar espalhar em forma de boato verossímil) uma diarréia para justificar a postura altiva. Resultado: vinte e três facadas. Provérbios 16:18, of course.
  7. A glória das coisas está em ser o que elas são. “Cada estrela tem sua glória”, Ele nos diz. A glória é o ser.
  8. Olhos carinhosos e sensíveis, olhos que superam olhares, olhos profundos feito oceanos de céu e céus de mar. Minha voz fica embargada e meu coração apertado — como se o dom da fala me faltasse e as batidas fossem badalas de pêndulo gigantesco em sineta doméstica — diante dela. Os teus olhos, sabe, são os luzeiros da minha esperança.
  9. Aliança de prata e aliança de ouro: o refino ascencional do relacionamento — do até certo ponto provisório para o totalmente permanente.
  10. O Velho da Invernada. José Bernardo da Silva, meu bisavô.
  11. Quero casar num domingo, só para poder olhar para minha amada e dizer: “A voz do anjo / Sussurrou no meu ouvido / Eu não duvido / Já escuto os teus sinais / Que tu virias / Numa manhã de domingo / Eu te anuncio / Nos sinos das catedrais.” Daí, no altar duma catedral, eu vou dar um sinal para que badalem os sinos.
  12. Um dia, o próprio Deus irá caminhar conosco pelas ruas da nova terra depois duma corrida nos novos céus. Pois, sim! Depois de uma maratona, mano a mano, indo do transcendente “mais além” e vindo para o imanente das galáxias “além”, Deus mesmo nos explicará o “porquê” metafísico do “como” físico: não existirá Teologia nem Ciência, porquê as primeiras coisas serão passadas. Abstrato e concreto: palavrório indicionarizado. Um dia, não haverá sequer esta espaçadela de 24 horas que sem muito critério ontológico nós simplesmente chamamos de dia. O dia será um infinito de eternidades rompendo eternidades infinitas, como uma gota d’água que goteja para cima ou como uma pareidolia numa nuvem que toma a forma de toda e qualquer imagem que simplesmente nossa mente concebe no instante: sem fim, sem começo, sem meio, sem início, sem término, sem entremeio — completamente criativo, totalmente criando, integralmente “fiat!”. Um dia, o próprio Deus deixará, conosco, suas pegadas no solo lunar e na fossa das Marianas e no Everest e no tal do planeta OGLE-TR-56b. Um dia, em corpo glorioso (em unidade completa do eu-eu-mesmo), com Deus nós iremos singrar Tudo, feito pai e filho que construíram um barquinho para, pelo resto de suas vidas, navegarem pelo lago sossegado que a floresta guardou em silêncio para uns poucos. Isto não lhes consola e comove? A mim sim.
  13. O martírio nestes tempos pós-modernos é psíquico.
  14. Tentei quebrar o silêncio jogando pedras na janela, assoviando versos ao luar, sorrindo tonto para ela. Consegui quebrar a janela, acordar os cachorros e ser tomado por louco. Não, não há mais o que fazer. Há sim este passado que há pouco é pretérito e que vai passando como um balde d’água que escorreu pela ladeira até encontrar o bueiro mais distante do quarteirão. Agora, tudo seria simplesmente falar o que foi dito, emitir sons mais ou menos silvados na boca, sorrir amarelo na cor da gemada azedando em cima da pia. Ouve-me, ouve-me a ti mesmo! Fica sabendo que este mundo, este mundo de hoje em dia, não está organizado para que o teu coração tenha o quê fazer: os corações que por aí estão, com exceção do coração de Helena, são bombas de sangue empurrando e distribuindo sangue quente; só isto é o que são. Anatomia mamífera! Se nas tuas artérias flui o elixir passional e incoagulável do amor, melhor que durmas no sereno uma noite para que o frio do ambiente, do ambiente real, te gele um pouco o cérebro e ele se faça gangorra, balança e contrapeso deste teu coração que insiste em bater estas coisas que são “sentimentos”! “Some they think only to marry. Others will tease and tarry.” Ouça-me cá: guarda o teu silêncio e os teus versos e os teus sorrisos para a anunciação de Helena. Do contrário, adquirirás o hábito — e depois o vício — de quebrar vidraças e vandalizar janelas, de uivar aos cães e incitá-los à “pega!” contra os gatos de rua, de ter sempre nos lábios o riso dos sacanas e velhacos.
  15. A realidade esmaga ilusões como minha avozinha esmaga nas unhas os carrapatos do seu cãozinho. A realidade é uma prensa que impressiona o indivíduo até que ele fique sem expressão — lívido e sem meios de agir, mas sanguíneo e reativo. A realidade é um copo de água que tem o gosto doído da pinga mais queima-goela da roça. A realidade é a mensagem na garrafa lançada ao mar que, depois de milagrosamente ser empurrada pelos sete mares, acaba nas mãos do destinatário. A realidade é um sonho para o qual se acorda depois que, no quadro negro da sala-de-aula onírica, a professora escreve que 1+1=2 com giz cor de breu. A realidade, meus amigos, a realidade (esta fantasma espectral de luzes e sombras etéreas) conquista-se diariamente!
  16. Nada em mim, insisto, pode acusar outra chama a refulgir no olhar. Apenas o teu fogo, de calor reverente como a fogueira confortável que aqueceu na primeira noite com Zípora os pés de Moisés, me pode corar o pensamento e me enrubescer a face. Eu aqui sou contigo, e estou aquecido. Faz frio, mas no peito brota a fagulha filha do cristal que outrora incendiou as florestas do antigo Saara tropical. E minha poesia te é mais sincera e amante conforme no papel ela jorra um poucochinho aquém da excelência na lírica métrica, no polimento ourivesador dos versos, na cadência sonora dos fonemas dez ou cem vezes antes recitados. Quanto mais bonito tu julgas o poema, minha mourinha, sabe que estética mais comum ele detém. É o coração — menos geométrico, menos harmonioso na física das disposições sensíveis — que te diz “é belo!”, quando os mais belos para a Literatura são aqueles que tu julgas menos bonitos, porquê sentes afinal o quanto o fulgor de dentro se perdeu nas rimas exigidas pela arte cá do mundo de fora. Tu discernes, vejo, a literalidade palpitante que bombeia caligraficamente meu sangue quente em cada estrofe que, se por um lado renuncia à imortalidade das letras pela forma mais bruta com que cai na folha, por outro conquista a eternidade porquê entoa a simples verdade profunda e real, esta realidade da profundidade do meu espírito: cá tens meu amor. Nada em mim, outra vez o digo, pode acusar outro brilho a faiscar no olhar. Teus cílios, escuta, são meus círios.
  17. A verdade é que sou ainda uma criança, um camponês disposto à cavalheirescas alianças, uma cria sem maldade soprando suas bolhinhas em direção aos espinhos que não vejo. A santa simplicidade do ingênuo assim só alegre, a maravilhosa inocência de quem ainda cora; este presente, dádiva do alto, que me ganha o futuro. A verdade é que assim outras crianças aparecem e a metrópole pouco a pouco se esverdeia em povoados, em vilinhas, em casinhas de tijolo vermelho e hera. As bolinhas de gude do passado rebrilham nas pedrinhas algo mais caras que na coroa brotam, uma a uma. A verdade é que hoje o Cordeiro ressuscita, hoje os balidos do Sepulcro reverberam na boca do sacerdote, hoje sangue e vinho se misturam em símbolo e substância; a verdade é que sou um caçula egípcio feito primogênito da raça de Abraão!
  18. Uma vez te pedi para ficares comigo para sempre. Declinaste, não sei porquê, o pedido. Mas, coisa estranha, inda assim me queres por perto quando aniversarias, quando é Páscoa, quando Cristo aniversaria, quando uma data qualquer merece (ou carece de) presença e compartilhamento. Pedes-me que fique. Por que? Não sei… Mas comprei teu presente e não entreguei, comprei chocolates e guardei-os; e assim me vou esgueirando para fora destes teus desejos memoriais para que, talvez, nestas minhas ausências intencionais, tu reencontres tua vontade cotidiana, teu querer natural que os temores fantasmagóricos do inconsciente minam sem mais nem menos. Châteaux en Espagne ou castillos en Francia? Proponho-te uma casinha branca escondida na praia quase deserta… E então, até quando seguraremos rijo este mútuo silêncio mortificador? Vamos, deixa que o ministro primeiro, por nós dois, o quebre: Christos anesti, alithos anesti!
  19. A suma felicidade é um “caminhar” que apenas a via da santidade pode oferecer aos nossos passos, às nossas decisões. “O salário do pecado é a morte”, nos diz o apóstolo Paulo. Inversamente, a justa paga da virtude é a vida — vida plena, vida total, vida integral, vida que é vida porquê é Céu. Todo o mais é existência inerme e inerte, é pura existência estagnada como o inferno paralisado, que sozinho existe só existindo em solidão (sem o dínamo relacional da alegria e do amor que movem a Criação). A santidade é a única felicidade. Santidade é felicidade. Lembra-te disto!
  20. Este mundo vai passar. Esquece a política miserável nossa de cada dia e olha para o Céu. A Eternidade vale mais que quaisquer Lula, Bolsonaro, STF e tutti quanti se matando por poder e apenas poder. Não esteja entre os tolos militantes terrenos deste ou daquele lado dextro ou sinistro. Este mundo vai passar: transpassa-o, então, com tua alma e guarda teu coração da corruptibilidade do ouro, da prata e da opinião irracional postada no Facebook…
  21. Há dia em que a gente fica com a alma calibrada naquele clima daquele verso de Miguel Torga: “Apetece cantar, mas ninguém canta.” Tudo é silencioso e cheio de expectativas como uma orquestra tocando no vácuo sideral para uma constelação de surdos com o talento potencial de Beethoven. É tudo e qualquer coisa entre a afirmação dum sim e a negação dum não. É a suspensão e a derrota da lógica pela intuição voraz. Lá diz um outro verso: “Apetece fugir, mas ninguém foge.” Fugir da aparência do mal ou do bem aparentemente disfarçado? Há dia e… há dia.
  22. A verdade é que sou ainda uma criança, um camponês disposto à cavalheirescas alianças, uma cria sem maldade soprando suas bolhinhas em direção aos espinhos que não vejo. A santa simplicidade do ingênuo assim só alegre, a maravilhosa inocência de quem ainda cora; este presente, dádiva do alto, que me ganha o futuro. A verdade é que assim outras crianças aparecem e a metrópole pouco a pouco se esverdeia em povoados, em vilinhas, em casinhas de tijolo vermelho e hera. As bolinhas de gude do passado rebrilham nas pedrinhas algo mais caras que na coroa brotam, uma a uma. A verdade é que hoje o Cordeiro ressuscita, hoje os balidos do Sepulcro reverberam na boca do sacerdote, hoje sangue e vinho se misturam em símbolo e substância; a verdade é que sou um caçula egípcio feito primogênito da raça de Abraão! Graças a Ti, Senhor e Deus de mim.
  23. Julgar superficialmente é um exercício de emburrecimento: quem julga a superfície das coisas (e dos outros, sobretudo) torna-se incapaz de descer à própria profundidade. A mente do julgador superficial passa a fazer juízos de valor tão automáticos que ele perde o senso das proporções (sobretudo dos efeitos semelhantes de causas dissemelhantes) e, insensível para com as nuances do objeto de seu julgamento, acaba então com a própria mente restrita à superfície do próprio eu aparente. Quem se nega a aprofundar-se nas questões externas a si ante a qualificação das coisas (e dos outros…) necessariamente não poderá aprofundar-se nas questões internas de si, porquê a auto-qualificação vale-se da mesmíssima estrutura de consciência. Quem muito julga, e muito julga com rapidez meramente neural, julga mal. O julgamento do homem prudente é, antes de tudo, produto de reflexão demorada, silenciosa e empática. Julgar superficialmente não apenas emburrece o indivíduo privadamente: além, tal dá lastro à injustiça coletiva e pública. O “Não julgueis!” aconselhado pelo Senhor é, por isto, não apenas uma lei moral e espiritual que salvaguarda nossa salvação eterna; é também um remédio para a inteligência humana nos porquês do aqui-e-agora terreno.
  24. “Rebaixar-se” que é e que fica sendo quando se trata, na verdade, de vergar a coluna ao solo, de abaixar-se até a terra, para pegar uma jóia caída (chafurdando) numa pocilga infecta? Sujar completamente as roupas e embeber-se de mau cheiro, que significa diante da possibilidade tão real de ganhar para si o prêmio precioso, o pomo de ouro? Quem desdenha a beleza e o valor de algo/alguém pelo seu estado aparentemente deplorável, sem se dar conta da realidade essencial que repousa sob toda a “sujeira”, não aprendeu de Cristo a mais importante lição salvífica: “Porque o Filho do homem veio para salvar o que se havia perdido.”
  25. Guardar as coisas para si, em silêncio e em quietude, é um exercício de mistério — é, efetivamente, mistério. Chegar a conclusões cujo instrumento de raciocínio é espiritual e cujo sentido é rastreado apenas pela alma é um dos grandes gozos de quem tem “vita abscondita cum Christo in Deo”. A virgem Maria, no Novo Testamento, é a primeira personagem que o texto bíblico dá conta deste diálogo misterioso entre o “eu” e o “si mesmo”. Está lá no Evangelho de Lucas, no capítulo 2, versículo 19: “Mas Maria guardava todas estas coisas, conferindo-as em seu coração.” Ela guardava as coisas para si porquê, se as contasse, se as publicizasse, seria tomada por louca, por foliã em devaneio megalomaníaco. Devemos nós também silenciar quando Deus nos der um mistério Seu para custodiar em nosso íntimo. Paul Valéry, à propósito, bem o disse em verso: “Chaque goutte de silence est la chance d’un fruit mûr.” / “Cada gota de silêncio é a chance dum fruto amadurecer.”
  26. Coisa mais rara neste mundo tem sido encontrar olhos puros (gente que vai achar piegas este adjetivo, p.ex., já não os têm), sinceros e limpos como um dia fresco e de céu aberto. As íris estão quase todas embotadas, opacas, desbotadas de luz. Eu olho por aí e… fico triste (o caipira diz melhor e mais bonito: “jururu”) como caboclo sem rede ao perceber que os olhos de muita gente (muita mesmo) nada são senão dois globos oculares vacuosos rastreando biologicamente o mundo físico na mesma medida em que um cão fareja as fezes de outro. Olhos puros, profundos e simples, fazem muita falta. Olhos puros porquê de almas puras. Não falo de santarronice idealizada, nem de beatice inatural. Nada disto… Trata-se é de vida autêntica em Deus — consciente, isto sim, e portanto capaz de primeiro enxergar o Invisível mais Real. Mas, repito: estas palavras te parecem piegas e assim tão ingenuamente infantilóides? Teus olhos não estão puros…
  27. Sou um poetinha chinfrim, mas subo ao topo da alegria deste ofício que exerço nos tempos vagos quando uma moça não frívola e de coração ainda romântico (o que hoje em dia é um achado metafísico) lê algum destes meus poemastros de quinta e sorri, como dizia o Ariano Suassuna, “com cara de alma que tá pedindo reza.” Vale tudo e não tem preço.
  28. Quanto à compreensão, as mulheres são como os livros: algumas mais fáceis e outras mais difíceis de entender. Elas são, em todo caso, complexas. Um livro de palavra, enredo e papel, a gente aprende a desvendar através de boa exegese, enfim, através da nossa pessoal atividade e esforço compreensivo. Uma mulher de espírito, alma e corpo, apenas se chega a (mais ou menos) entender se ela mesma quiser nos ensinar os rudimentos da sua personalíssima “Pedra de Roseta”: há uma hermenêutica para o coração feminino na qual somos alunos passivos. Daí, um livro tão difícil quanto “Em Busca do Tempo Perdido” se transforma, num zaz-traz de olhares didático-pedagógicos, num gibizinho todo colorido da Turma da Mônica. Anotem.
  29. O tipo de vida que você decide ter implica na renúncia (como ganho e como perda, seja de bens ou de males) de outros modelos e possibilidades de vida. Se o futuro é semeado no presente e você está diante do imenso paredão das escolhas existenciais, não exite em tomar para si aquilo que agrega à consecução da sua grande missão e sequer por um relance de segundo tosqueneje em lançar fora qualquer objeto (por mais atrativo que ele seja) que impeça seu grande objetivo. Fuja da danteana/drummoniana “pedra no meio do caminho” como o diabo foge da cruz. Fuja, fuja daquilo que é, no dizer paulino, “a aparência do mal” — porquê, ali, o aparente indica concretamente o mal, o mal que seguramente vai lhe desviar do caminho querido e pretendido. A vida que você tem e terá nasceu e nascerá da sua consciente escolha diária (por isto, saia do conforto do “piloto automático” subconsciente), das coisinhas pequeninamente nanicas às coisas gigantescamente grandes. Tome sobre si a oportunidade da decisão! Conselho muito simples e modesto para nós todos, que somos demasiado complexos.
  30. Sob as arcadas, meus ideais, que sustentam no rosto a serena expressão, o Espírito martela as pedras, tijóleos granitos, do meu coração.
  31. Em Ti descansa meu espírito, como terra sólida pairando sobre as águas. Em Ti repousa minha alma, como luz de diurna lua iluminando o sol. Em Ti meu corpo se embebe da natureza gloriosa (e física) do Princípio.
  32. Deus meu, Deus meu, por que me abraças?
  33. Todos os homens são afetáveis e passíveis. Apenas Deus é inafetável e impassível.
  34. Atividade do intelecto não é produção intelectual…
  35. A memória determina o indivíduo.
  36. Enigma: Os lírios conforme secam ficam dourados, / dourados diante do brancor do céu amanhecido.
  37. Um conservador caricato (quer dizer: um reacionário) é um sujeito que se imbuiu superficialmente dos arquétipos cronológicos (pretéritos, via de regra) dos valores eternos.
  38. O tempo existe onde eu existo.
  39. O indivíduo deve sentir acerca do básico-estrutural o que pensa a espécie a respeito deste.
  40. Ultimamente, tenho crido que o maior dos grandes feitos de Napoleão (se é que ele operou, de fato, mais do que meia dúzia de “grandes feitos”) talvez tenha sido propiciar aos Estudos Clássicos a Pedra de Roseta.
  41. Se nós fôssemos fotografados em todo momento e instante da vida e da existência, quais fotografias seriam coloridas e quais preto-e-branco?
  42. Vida sem Deus é razão sem Logos.
  43. É a adequação do ente ao ser que o faz verdadeiramente perfeito.
  44. Que os arroubos de ser se confundam com os silêncios do que é, e então não sobre nada senão o ente, puro e sublime imaginando e semelhando Deus.
  45. Escuta, Abraão: Deus ama a teu filho mais do que tu mesmo o amas!
  46. Poder é princípio organizador externo. Amor, interno.
  47. Ansiedade é um frenesi letárgico.

Sei que faz dia e noite

Até quando se dirá, entre sóis mal despertos e noites mal descidas,
Que o amor é este raio quente e frio entre dois corações confusos?
Porquê o tempo, anota bem para ti esta verdade esclarecida,
O tempo que é diante da cronologia dos gestos e olhares?
O rei de ouro que acorda e a rainha de prata que deita
São dois lusco-fuscos cintilando e piscando no universo-escuridão.
Estas moedas, minha bela, eu as tomei do antigo baú mitológico,
Fundidas dos adornos mais bem esculpidos dos escudos de Salomão.
E estas setas tuas, argênteas gotas dos teus olhos, que são?
Ah, minha doce menina, eu bem sei da poesia que o choro produz
E eu bem sei das palavras que trabalhei enquanto dormias em luz.
O cálice oferecido, libação para duas bocas secas, de alegria encheu a ceia;
Cantando elas nos prenunciam a tão mútua salvação, como os arautos
Antigamente aos pés do trono soavam melodias de anunciação.
Eu te direi, em silêncio e com voz sussurrada,
Que vidente certeza foi por mim alcançada,
E que entre escombros de ilusões varridas,
Entre assomos de anseios maltrapilhos,
Encontrei-te quando tocavam os sinos da conversão.
Com versos em pequenos lenços escritos,
Manuscritos da dialética eu-tu,
Papéis de rimas metricamente incomuns,
Com estes versos, puro anjo,
O sol beija na fronte a casta lua,
E eles se vão a reinar no dia que é noite e na noite que é dia.
O amor reúne, na una carne dos espíritos entrelaçados,
E amalgâma, na justa aliança das almas enamoradas,
O ouro e a prata. O electro do amor é esta fusão inconfusa
De paz e paixão, de sossego e frenesi, de distância e união.
As sombras são o véu da realidade que pia com a coruja,
Este pássaro que conosco detém as córneas do infinito.

Esponjas de sol — XXXV

  1. Todas as gotas de chuva que se puderam retirar, com esponjas, de sobre o túmulo de Napoleão, os russos conseguiram destilar, beber e com elas se embriagar. Imagem que me ocorre ouvindo a parte final da 5ª Sinfonia de Shostakovich.
  2. O último luar que tu verás, aprende bem, será entremeado dalgum dourado. O argênteo noturno abandona a natureza quando uma alma da terra se vai despedir.
  3. O silêncio voluptuoso das noites quentes que nos pede senão carne para o vinho, a nossa carne tenra para ser refrescada pelo calor do mosto, da fria vide etérea?
  4. Nada além de contornos, de vagas formas, de luminescências cerebrais paisageando minha mente. Nada, senão poeira semelhante à fumaça. Nada, como uma mina secando feito aguardente em cálice de ouro sob o sol do deserto. Assim se me vai a última imagem com a última memória, assim se esvai qualquer líquida pintura da alma amante na tela translúcida do córtex. Adeus, moça!
  5. O símbolo sempre te atrairá ao objeto [a]signado. Mesmo quando, por suposto e superficial erro primário teu, tu te puseres no encalço do símbolo e este se mostrar imediatamente condutor a outro objeto, mediatamente neste mesmo caminho darás de cara (ele ficará demonstrado, então) com o teu objeto. O símbolo atua, não raramente, com pseudo coincidência retro-significante, ou seja, como condutor da imagem-meramente-igual para o especial-fato-teu. 
  6. A Verdade é a fiadora do Bem e a Mentira é a credora do Mal.
  7. Quem te engana, não te ama: te algema a alma na lama. Quem te seduz, te induz como morcego branco à luz que é chama… Quem te manipula, te estrangula até a gula! Quem te ilude, adultera toda a mente e a leva à sepultura. Quem te burla, falsifica a sementeira do dia-a-dia no coração. Quem te ludibria, se esguia insaliente à danação. Anota. Faz-te de tonto, de bobo, de tolo. Sê o Príncipe Idiota (como aquele santo de Dostoiévski), para que não suspeitem que sequer tu suspeitas; porquê tudo sabes, tudo vês e tudo discernes sob sorrisos mornos e palavras insonsas.
  8. Via de regra, em se tratando de relações amorosas, a mulher praticamente só não “manipula” (ou seja, filtra as reações dele através de suas ações mais ou menos planejadas) o homem que ela real e verdadeiramente ama. Isto é bom. Dissertação para depois.
  9. A ilusão é a aluvião da esperança. Coisa de criança construindo seu castelo de areia entre a penúltima e a última vaga do mar: uma expectação de restolhos metafísicos que vão se desvanecendo pelas bordas do cérebro até que sobre, soçobrado, o principal — até que sobre o material do faticamente esperado, até que sobre mesmo a pura e nua esperança: a Realidade, feita garrafa mensageira lançada (em séculos ascendentes) no mar — a Realidade, querida por Deus mas nem sempre por ti.
  10. Caim/chipanzé. Abel/bonobo. Sete/homo. Está aqui um paralelismo simbólico para o pessoal criacio-evolucionista.
  11. Na mulher até a loucura é mistério. Por loucura entenda-se o indiscernível, o irrastreável e o imponderável que faz de qualquer atitude feminina aparentemente irracional e ilógica uma centelha mesma da “absconditude” divina. Logo, não se trata de loucura verdadeira, clinicamente discernível e tratável: trata-se, antes, duma realidade mais profunda e algo inacessível ao nosso masculino olhar de superfície. Não à toa, toda comunicação feminina é tão mais simbólica conosco — os homens — quando ela é mais sincera, e tão menos oral e mais gestual quando ela é mais verdadeira (e pura). A suma disto tudo, meus caros e bestas confrades da Irmandade Adâmica, é que nós não passamos sequer de neandertais diante nem do fogo: nós não passamos de hominídeos sem metafísica diante das estrelas. E para o limitado, viagens no espaço em direção a astros cativantes é coisa de louco (e, oh, loucas estrelas). Na mulher, todo mistério é para o homem uma forma de loucura.
  12. Pedra antiga, lavrada na casca,

Como estela de vitória ancestral.

Eis da esquecida canção o memorial.

Entre os campos altos da Escócia anciã,

Na direção do cardo celeste caminhando,

Li no romano granito a lápide talhada,

O poema que limou iletrado escultor

Para o pobre rei que fora rico pastor:

“A gaita do cordeiro foi feita,

A música da ressurreição é a eleita.

Sabei todos vós que o grito desta terra

É a saudação ao Reino chegado.

Alba gu bràth!”

  1. A potência com a qual se comete pecados na juventude corresponderá, proporcionalmente, quando da velhice, à fraqueza em padecer seus efeitos. Para cada pá de terra fértil arrancada do jardim (do éden do eu verdadeiro), uma pá de terra infértil sobre o caixão no cemitério.
  2. Podem me chamar de quadrado e reacionário (coisa que sempre ouvi nesta minha vida), mas a felicidade, a felicidade que é boa e permanente, está depositada naqueles velhos ideais pelos quais viveram nossos avós: trabalhar, amar e casar, ter filhos; e neste “tripé” sossegar, serenar, sublimar. Nestas coisas simples, cheias de coração, reside a felicidade que Deus quer nos dar cá na terra. Nestas coisas, aliás, está a verdadeira santidade. Que me perdoem meus confrades e confreiras de geração, mas vocês todos estão muito errados (e por isto, muito tristes e muito entediados e muito sem rumo) se pensam que sombra e água fresca, pegação sem compromisso na balada e individualismo à moda “pai/mãe de pet” serão capazes de fartar de alegria os anos que lhes restam pela frente. É esta a equação.
  3. Como é raro poder conversar (dialogar puramente) desarmado — sem suspeitar de primeiras, segundas e terceiras intenções, sem recear papos colaterais e falatórios subsidiários, sem maquiar expressões tornando-se uma caricatura, sem temer parecer obtuso ou tolo ou fraco ou débil ou nu em si mesmo. Como é raro isto! Como é bom não “sorrir amarelo”, não ser meramente gentil para não ferir os protocolos do bom tom, não dissimular nem teatralizar as palavras querendo agradar por agradar. Como é raro… Como é raro um bate-papo entre pessoas que, mesmo adultas pela cronologia dos tempos, nada são senão inocentes crianças entre si (quer dizer: profunda e visceralmente verdadeiras) fazendo da existência, tão complexa, um ba-be-bi-bo-bu de almas simples. Como é raro. Como é raro!
  4. Sê o que és ao relacionar-se com os outros, puramente. Não sejas teatral, nem quanto às grandes nem quanto às pequenas coisas e acontecimentos. Que cada movimento teu, corporal e espiritual, seja integralmente nascido da tua consciência alinhada à Verdade. Atende ao teu âmago, este cálice de nano-logos que derrama libações (que tu chamas metafisicamente de “intuições”) sobre o teu pensamento opaco. Sê cauteloso e não dize muitas palavras, grandes períodos sobretudo, entre uma respiração e outra. Não tentes a qualquer influenciar valendo-se de simulação: até mesmo simular bondade, praticando-a oficialmente, é dissuadir do ato aparente o fato gerador. Se não tens palavra ou gesto genuíno, fica silencioso e inerme diante do mundo. Fica ali, ao canto, como um ente cósmico que se nega a ressoar o silvo dos corpos imanentes. Sê estátua de carne e osso para estas outras estátuas de sal (teus semelhantes) que passeiam pelo mundo; e ora o teu particular “noli me tangere!” Sê, apenas sê. Que de ti e por ti não passe nem transpasse laivo algum de imitação, brasa alguma de atuação. Sê, com simplicidade, o teu eu — sendo. Sê Quixote de la Mancha, sê Myschkin, sê Kerkhoven, sê Paulo Apóstolo, sê imagem e semelhança do Cristo! Anota.
  5. O gênio de Wagner foi o ocaso irrecuperável — última chama azul no fogareiro de Euterpe — da Música Clássica Alemã. Ele é elevado na medida em que é patológico e é mítico na medida em que é fenecente. Das war’s Leute!
  6. Verdi, agnóstico-quase-ateu, deitou no seu Réquiem toda a densidade (ou etericidade?) das suas idéias. Há um “je ne sais quoi” de dúvida e melancolia perpassando toda a obra — católica, ma non troppo. O Dies Irae é, por exemplo, um misto de desespero de penitente póstumo com horror de condenado permanente. É um artista que ourivesa filigranamente aquilo (a Vida Eterna) que para ele nada é senão um mito passível de ser humanamente trabalhado para o deleite psico-cultural dos homens cultos.
  7. Um dos sentimentos mais plenos (mais totalizantes de amor, quero dizer) que nosso coração pode sentir é a cumplicidade. A cumplicidade completa. É ouvir a voz de Deus num poço destapado. Pelo vácuo da queda — distância entre o eu sedento e o fundo do poço onde repousa o líquido precioso –, transita o balde indo-e-vindo. A cumplicidade é este balde, é o balde cheio de água. “Apresso una fontana / Vidi sentar la bella”, canta a velha canção italiana. A cumplicidade carinhosa é, para o dia-a-dia na sequidão mundana, a fonte perene do amor que é capaz de hidratar o “para sempre” prometido no altar. Depois, a reciprocidade entre a língua seca e a fonte limpa: minha língua é para ti fonte e fonte para mim é tua língua, oh mulher. A água brota do coração.
  8. Se encontrares um campo verde, deita-te sobre ele. E se o céu for azul como o azul dos afrescos de Giotto, deitado então no campo verde contempla a vastidão de nuvens incrustada. A paz, aquela que do céu traz o ramo de oliveira, sussurrará as cantigas esquecidas no teu ouvido jovem, as canções que os sábios murmuram apenas no leito de morte, os hinos que cedo embalam os meninos destinados ao ofício de Salomão.
  9. Cada passo em falso leva ao cadafalso.
  10. Alto es Alto (Alba de Tormes es Álvarez de Toledo). Título alternativo para o conto “O Bastardo de Alba”, que nunca escreverei.
  11. Candelabros de prata

Abrindo as trevas da cadeia,

Desaferrolhando celas,

Atraindo luz às ervas

Crescendo no chão de pedra.

  1. O amor é um sortilégio que elegemos na dor.

Propter officium – II

Fui olhar os lírios do campo.
Era inverno e estavam nus.
Lá estava o lírio, único lírio.
Apenas o caule açoitado demonstrava
Da sua flórea vocação os contornos.
A lira, esta minha de poesia,
Pouco desta visão poderá cantar,
Senão a verdade de que a nudez,
Também nas plantas e vegetais,
A nudez pobre e casta,
Vem de Deus.
3.1.2018

Das memórias que não se vão,
Fica apenas o derradeiro senão.
As aves que subiram ao paraíso
Ovo infértil deixaram no ninho.
3.1.2018

Partindo conversas como feixes
E pensamentos como vivos peixes,
Conversei sem pensar à mesa
Enquanto sobre o Cristo versava.
9.1.2018

A poeira eterna,
De glória impermanente,
É esta palavra
Que agasalha o tempo
Numa sentença
Desenhada
Em papel perecente.
11.1.2017

Os meus sóis serão miragens
Entre sombras e luzes eternas.
E meus lagos e oceanos
No espírito um só firmamento.
Nada que eu diga e veja,
Senão a realidade Aqui disposta,
Uma esperança tardia!,
Consumirá do Mundo o Facto.
Mistério chamarei a todo o inaudível
Quando o Cosmos vociferar
No ventre o Caos mal digerido,
Quando a saraiva das gentes
Pelo Logos bradar.
17.1.2017

Conforme andarias entre mortais,
Descobrindo signos e insígnias
Para a Eternidade compor,
Dizei-me se o ocaso dispensou
Cada indício de enigma
Inscrito no portal
Das estrelas antigas.
23.1.2018

Se as coisas principais, ao menos, fossem assim tão certas,
Se o giro dos planetas se alinhasse ao movimento de nossas cabeças
E de repente tudo fizesse sentido porquê óbvio o metafísico,
Os amores seriam imediatos e para sempre,
As mesas de domingo estariam todas abarrotadas de macarrão e vinho,
O galo que canta às três da madrugada cantaria ao meio-dia
E eu aqui não derramaria medíocres versos em poesia.
24.1.2018

Dantes a golpes seja posto o espinho sobre minha fronte
Que o ouro de pagão e rico diadema me adorne a cabeça.
Defendo, eis aqui meu sangue, a santa Cruz do santo monte.
Defendo, eis cá a cicatriz, o frio sepulcro que jaz aberto.
Godofredo de Bulhão eu sou. Não sou rei: minha sentença!
25.1.2018

Propter officium – I

O mundo enluarado do meu pensamento
Constela de quietude qualquer teu lamento.
Olha que as estrelas reverenciam o silêncio
De quem se atribula e faz de si sacrifício.
5.5.2017

O mundo é uma pira de ação:
Consome o ato com emoção,
Consome o átomo sem ação.
O mundo é uma piração à toa.
2.6.2017

Eu me canso de estar cansado
Quando cansado só me canso
De cansar-me e cansando-me
Cansado, enfim, eu me canso.
14.6.2017

Senhor, tu sabes quanto sou paupérrimo em constância.
Tu sabes, porém, que minh’ânsia é dormir no teu arrimo.
22.6.2017

Sê fiel à dama da tua vontade, à senhora do teu ideal,
Porque a mulher da tua vaidade nada é senão teu mal.
7.7.2017

Céu e terra no horizonte se encontram.
Apenas lá, onde a linha solitária tudo une e toca.
O azul, fresco e suave, o vermelho tanto acaricia
Que no calor gerado, o telúrico fogo,
A amplidão celeste num beijo abrasa.
12.7.2017

O repente do sertanejo é sua graça d’alma,
É uma toada na viola que todo mal acalma.
14.7.2017

Leio tantos gênios, tanta gente versada em bem prosear,
Que caio de cabeça nesta minha oca de feios palavreados:
Eu não sei escrever, não domino minha língua! Ai de mim.
Capitão de versejadores ruins, um puro trovador chinfrim.
E estes sonetos de sons imortais, estes elegantes períodos
Que me alegram o coração, eles também me fazem chorar.
17.7.2017

A silhueta que eu via em carne-e-osso,
Valsando diante destes meus olhos sedentos,
De repente fez-se miragem de sombra
Entre as fagulhas dum amor besta e doido.
18.7.2017

Anelo à uma Gabriela, uma sem muita canela,
Uma que não goste muito de cravo na panela.
Uma Gabriela para por belo anel na mão dela,
Uma de quem eu retire a tristeza com aquela
Cantiga do “dorme, dorme minha filha.” É ela!
25.7.2017

Não temerás que te temam ao entrar.
Temerás, antes, que te temam ao sair.
26.7.2017

Decidi decorar o que agora recordei:
A imagem e o som unidos antigamente
Sob o cheiro de cânfora e de café
Sobre o piso de ardósia e a mesa de mogno.
Decidi contemplar na memória
Este resto de vida na história,
Este lampejo de paz imortal.
11.8.2017

A vida que escorre
Na existência que corre.
A Eternidade goteja
Líquido sólido no
Tempo.
31.8.2017

Se a noite é escura,
Persevera.
Arranca o pó da sepultura,
Faz do breu iluminura.
A vida é eterna fartura,
É terna formosura,
É pura altura.
5.9.2017

Não te direi
Novamente
Coisas passadas.
Sequer novidades
Das quais te lamentes.
Antigo amor
É todo dia nova paixão.
Oh, Deus,
Dai-me disto libertação!
11.9.2017

Quanto tu amas, respiração dormente é grito,
Sussurro é longo discurso, ação é terremoto.
Tudo que é silente, e mesmo a inação, é fato.
Nada é à toa, rotina perdida no mero gesto.
14.9.2017

Quem ao céu deseja ir,
Que se encontre consigo mesmo.
Quem ao céu deseja ir,
Que esteja pronto para o cerco.
Desejo ir ao céu,
Mesmo que sem idílio, no ermo.
Desejo ir ao céu,
Fazendo frente ao fátuo esterco.
15.9.2017

Argumento comigo mesmo,
Contra mim mesmo. Argúcia de pensar
E de repensar o istmo que une o lagar
Desta alma arquejante
Ao espírito altivo e forte.
15.9.2017

Resigna-te ao silêncio,
Ao silêncio sem linha coerente,
Ao silêncio em si mesmo disperso,
Ao silêncio do vácuo insignificante
Como o mudo silencio
De quem por qualquer uma fez verso.
29.9.2017

Criança ainda eu sou.
Um sopro infantil na tempestade velhaca,
Um ouvinte de soul,
E da mais antiga e atual música clássica.
Atiro farelos aos peixes no lago,
Refaço os desenhos que estrago,
Comungo dos ideais do náufrago.
O mundo é um laço,
É um laço e um tiro.
Satã, passarinheiro e atirador,
Que fique sabendo:
Tua moeda é falha pataca,
É pena de gralha esganada
Em insano ritual alquímico.
10.10.17

Doce e firme,
Anjo verdadeiro.
Tua fala mimosa e altiva
Ao mundo teu caráter
Celeste assevera.
Alva alma
De palavra relampejante,
Tua postura é gótico entalhe
Na catedral deste mundo.
19.10.17

O cume da mais alta montanha da cordilheira,
Branco mas não de geleira,
Brilhando altivo sobre a penumbra bem cinza,
Tocando o céu: brincadeira
De Deus fazendo ponta de lápis
Sempre apontado pela brisa.
20.10.17

Tu me rejeitas porquê rejeitas o que em ti eu sou: contradição.
Contrais teus lábios e passos.
Passas por mim mordiscando o cantinho da boca
E acelerando teus pés indecisos.
O caminho é por aqui, é aqui, é comigo.
O beijo é por aqui, é aqui, é em mim.
Foi pra isso que eu vim:
Pra encher de paz tua alma oca.
23.10.17

Do que te posso dizer, isto só te digo: quando?
Não há o que fazer, senão ir arrumando
Pretextos para nos crermos lógicos,
Contextos para interpretarmos
O que nós mesmos escrevemos.
Dizendo e repetindo que não pode dar certo,
Mais a razão nos diz que dará
E mais nos contorcemos solitários,
Espasmados de paixão,
Diante dos olhos um do outro.
24.10.17

Num momento, sei que te amo e que tu me amas,
Noutro tu me amas e eu me sinto assim indiferente,
Depois nós dois nos amamos e nunca nos amamos.
E sempre não sabemos o que dizer um ao outro…
Somos Adão e Eva saindo do Éden
Numa madrugada cega e fria.
Eu sou aquele pedaço de céu
Onde dorme a Estrela do Norte,
Tu, solitária, do espaço guardada.
24.10.17