Lamento sobre a Alexandria Brasílica

O galo-da-serra viu subir a lua vermelha.
Cantou, medroso, a melodia que aprendera com o dono antigo, rei e poeta:
Ré do si lá sol fá mi ré…
Dum esquisito paço no centro da nação,
Custodiada por infame mão,
Veio descer a centelha duma brasa que Alexandria incendiou.
Os ossos da Eva do Novo Lácio, calcinados com o faraó inominado.
Os pergaminhos de Cícero e Brutus, enrolados pela labareda insone,
Consomem a letra carmesim, rubricando de brasa a velha liturgia.
Quem é teu Nero, que harpejava enquanto Roma ardia?
Ah, mármore e dourado modestos dum soberano sábio,
Que pode o Clássico, na quinta rural,
Contra o mundo de aço, de pó cinza, artificial?
Eleva teu canto ancestral, poeira de glória,
Como sobre o Ararat Noé balbuciou a História,
E diz ao povo órfão até de avós
A genealogia do homem, da pedra à mó.
O gládio romano e a cimitarra do Islã,
O espadim dos Luíses e a adaga de Lampião,
Tudo fundido, na pedra e no chão,
Sob a força do férreo, espacial torrão;
Outro meteoro da Extinção?
Como cantiga de exilado no próprio lar,
Caipira meto a viola debaixo do alqueire,
Junto à candeia da fé que vem renascente.
Rezo a Deus o pedido final:
Que Idade permanente e medianeira chegue,
De luzes como aquela da gótica catedral,
E escreva, com letras de iluminura,
Sol de caligrafia e altura,
O futuro deste Império Milenal.

[2.9.2018]

Poesia Orgânica — I

A impressão causada às vezes dispersa o ímpeto, como água fria em calçada cálida sobre as fezes.

Figura de verdades ocultas: o figo verde e suas agruras, a nuvem sem forma e a mente nua, a tentativa de comer e enxergar significado, de ter tento no sabor e na variação do vento, sem avaria na boca e alucinação neural.

Paranóico, partiu para o ócio feito rei, potentado estóico em terra de delícias, para tentar a toada do poeta com leite banhar, para no círculo encantado o quadrado da lucidez encontrar: qual luz e verso, a acidez do líquido e a limpeza do místico.

Teus olhos reféns dos meus troféus: lhe dou os méritos, os três lugares do pódio, o lagar sem vinho, a ira sem ódio, a vida sem pretéritos.

Deus deu seu sangue sem cálice, na boca nua, na língua crua, na boa hélice das papilas. O trigo assado, motivo da carne, molhado no corpo, arde votivo no estômago, no âmago.

O professor refez as letras, as palavras na terra desenhadas. Confesso, Senhor, que lavro no papel, o ser da árvore. Vê do alto as nuvens, que vêm todas chover sobre o texto daqui. Tua obra, luz sem breu, que abra o livro à cruz.

Deitei na areia, ali onde reina o mar, onde os ramos se aninham nos pássaros e as leis não doem na teia da civilização. Viril, mantenho a mania de somar proezas e remar sozinho: quero alcançar fama com Deus e zerar a lonjura do horizonte. Juro, ontem e hoje, que rumo da poesia vil ao poema raro.

Caro, li na parede a mensagem, o ágio dos deuses, mentindo à mente, rede de lambaris neurais. O texto, peixe de Jonas, jaz no ventre das arraias: raro sentido para este comum intérprete. Se pedra fosse, preto granito, que alfabeto eu teria? Tédio, são enguias!

Alça vôo, criança! O vô alcança tuas mãozinhas, amorzinho. Maior alegria, raio pacífico ao luar, ilumina a imensidão do agreste. Assim, antes e depois, fica numa geração e noutra cindido o mundo debaixo do mundo de cima. Nós unimos o universo, na ascensão e na queda, ao céu e à terra. E o sol, na cor, crepita na fogueira. Cessa o brilho noturno e o grilho anuncia o galo.

Acostuma-te com as constelações que se apagam. Tem contidas tuas ações, como se no céu os santos, em grandes telas, te assistissem a vida. Tão nuas lágrimas e prantos são assim os eus se unindo na lida. Volta ainda as costas às tímidas jornadas e vai correr, na esgrima dos anjos, com as asas e os arreios dos pássaros e dos cavalos.

O caráter dela é éter, cara! Mas sê com ela gentil, ainda que seu gentílico seja etílico melado ou ácido. Assim dominas os lados éticos do espírito, assim alivias sem lítio o cérebro.

Dê à vida aquilo que te deleita. Sê o Aquiles do teu meio, e não débil cheirando à leite e chorando-o derramado. Sê duma mulher o amado, sê aquele cujo nome sem lamúrias é honrado, ainda que estejas na metade do caminho e te rias do rábula que tenhas te tornado. O furacão da existência, cão de fúria, sopra nas almas prenhas seu gérmen de caos. Mentem as gentes: mentem de língua nos dentes, mentem té aos mendazes!

Dividiremos um túmulo, a dívida do tumulto do Éden. Para lá iremos muito tarde, quando as folhas já forem pedra e os rios rastros na areia, quando os astros medrarem luz fora do universo, no antro onde rema o barqueiro ou no empíreo onde o Rei verseja unidade o Rei.

Esponjas de sol — XLI

  1. Se almejas a grandeza, não deves construir teu castelo nas mais altas montanhas, porquê ele te ficaria inacessível; nem nas montanhas mais baixas, porquê aos outros ele ficaria acessível. Mede as coisas pelo teu passo e estatura. Procura, então, uma montanha de médio porte e sobre ela ergue teu castelo, para que ele seja acessível a ti e inacessível aos outros.
  2. Se escolhes o céu, tu aqui já o provas com a cabeça nas nuvens. Se escolhes o inferno, teus pés já na terra queimam…
  3. A verdade às vezes liberta tão profundamente que sua mera menção é (poderosa ao “trincar” a estrutura da realidade) tão incrível quanto a mentira.
  4. Não percepção de presença não é ausência.
  5. Enigma. Trombeta de cobre, clarim de prata, flauta de ouro. Assim se descobre o tesouro! Atlas carrega o mundo nas costas como faz seu irmão, o imundo besouro.
  6. Você sabe que alguém está a sério na sua vida quando você sonha com a pessoa. Sonho desobrigado por “barriga cheia” ou por qualquer impressão que passou batida pelo filtro da consciência. Quem remexe com seu espírito durante o sono, primeiro mexeu com sua alma acordada. Quem inspira poesia quando o sol está no seu zênite, a pino, necessariamente a inspirará quando lua e estrelas esbranquiçam, como veias de prata, o céu escuro. Recordo Kant: “O sonho é uma arte poética involuntária.”
  7. TRÊS CONSELHOS AOS CAVALHEIROS (utilidade pública): I. Entre o que fala uma mulher e o que pensa uma mulher há a expressão facial duma mulher. Aquilo que a boca dita o cérebro nem sempre medita, mas a cara credita. Aprender a entender a modulação da voz, a compreender as caras-e-bocas e toda gestualística do semblante feminino é obrigação moral do homem que não quer sucumbir à loucura. Há uns cem anos atrás, se diria com razão que a “verdade verdadeira” do comportamento duma mulher está no meio do caminho entre o leque e seus olhos. Hoje, basta substituir o leque pelo smartphone; II. A simplicidade cai bem ao homem. Mulher alguma é simples. Se você não se deleitar (e se divertir, em boa medida) com os altos e baixos de humor, com as quedas e subidas de nervos, com as idas e vindas de opinião/gosto/vontade/desejo duma mulher, melhor você comprar um vídeo-game, que vem com manual de instruções e funciona na base do joystick. Barquinhos para flutuar pimposamente em lagos plácidos com cisnes, pedalinhos e vitórias-régias são para meninos. Homens são naus-capitânias que enfrentam as tempestades, as ondas e os monstros marinhos femininos (coisas complexas e perigosas, mas belas, mas tremendamente belas como as sereias). Capisce?; III. Aprenda a jogar xadrez, a montar quebra-cabeças, a brincar com jogos de adivinhações e a ler as estórias do Sherlock Holmes (a Arte da Dedução ajuda muito, ô rapaz!). Mais: aprenda a gostar disto tudo, caso naturalmente você não seja dado à estratégia e à tática, e também não se empolgue muito com enigmas, mistérios e “obscuridades lúdicas”.
  8. O processo de santificação é paralelo ao processo de individuação. Quanto mais o indivíduo é ele mesmo, mais santo ele é. Há um mal-estar interno, espécie de “radiação de fundo”, em toda personalidade que está deformada pelo pecado que lhe sobrevém da própria carne, do mundo e do diabo; e que lhe vem, em última instância, de si. Este mal-estar, este incômodo que de vez em quando ressurge (em forma de melancolia e suspensão de significados existenciais) lá do fundo da personalidade, surge do profundo do espírito da pessoa mesma. Quando não se está sendo o que se é e quem se é, quando toda a potência de ser não toma conta de cada parte do eu real, mas há apenas fragmentação e espargimento dele em direção desnorteada e incerta, o homem não pode ser integralmente feliz porquê não é integrado em si, e o desintegrado existe impermanentemente nas partes reunidas aqui e acolá em sua ação no mundo, mas desunidas pela falta de propósito, pela ausência de impulso constante em direção à uma vocação permanente. Quanto mais você é você mesmo, uma variação única e especialíssima da Imagem-e-Semelhança, mais você é santo e, como tal, cheio daquele bem-estar que impulsionou Maria a cantar “Magnificat!” — mais que canção poética, uma anuência implícita e explícita de quem quis se entregar ao Querer, porquê convergentes, porquê é-se unido, e não [con]fundido, em Deus, de modo que quando mais próximo dEle mais próximo é o homem de si. A Divindade diz ser seu nome “Eu sou o que sou”; o homem, nomeado por Ela, de si pode dizer “Eu sou quando nEle sou.” Abandonar o pecado e dedicar-se a virtude é abandonar a personagem atriz dum eu falso e cultivar a pessoa real e autora do eu verdadeiro. A exortação “Sejam santos porquê eu sou santo” nada é senão isto: “Sejam vocês mesmos, porquê eu sou eu mesmo.”
  9. Deus sussurra no silêncio noturno, nos nossos sonhos de mente limpa e nos pesadelos de barriga cheia. Deus está ali, nos cantos do dia e nas frestas das oportunidades, dizendo baixinho: “Este é o caminho, andai nele!” No meio do nosso coração, por debaixo da carne e do sangue, há uma bússola, uma bússola cuja agulha o Espírito imantou. Ela aponta não para o norte magnético, não para os pontos cardeais; ela gira, e tanto gira que fixa permanece (stat crux…), ela gira apontando para o Céu! Ah, minha consciência, meu astrolábio para caminhar na senda das coisas visíveis e invisíveis, sê em mim a guia! Deus me conta, sentado ao meu leito, que vêm por aí dias de vinho sangrado das uvas mais doces, de pães da flor do trigo dilacerados pelos dentes mais brancos. Deus me conta que o mito, que a imagem desfeita das lendas e símbolos antigos, é tão faz-de-conta quanto os números por detrás da matéria. Deus sussurra segredos e mistérios, revela imagens de minha vida e semelhanças dela com a existência dos anjos. Sonhamos à toa, colorido e branco-e-preto como as televisões mais velhas? Sonhamos como sonha o cão que corre deitado no canto da sala e que rosna de olhos fechados para preás feitas de nuvens e miragens cerebrais? Deus continua sussurrando, mas já é dia! É dia, de sol e luz ao alto, e Deus sussurra porquê dormindo eu também estava acordado…
  10. Todos nós julgamos uns aos outros o tempo todo. Justa e injustamente, benéfica e maliciosamente, racional e irracionalmente. Nós nos julgamos de maneira automática, instantânea de tão rápida. O pensamento — tiro disparado entre alma e cérebro — de imediato julga tudo e todos que entram na sua mira cognitiva. O fato é este: com critério e sem critério, nós batemos martelo e emitimos veredictos. Impossível deter isto. E ainda bem que impossível, porquê o julgamento é nossa balança condutora, é nosso GPS relacional. O problema, e que grande problema!, é julgar desde uma posição de superioridade inatingível e egóica. O problema é julgar para apontar, para criticar por criticar, para analisar o semelhante como espécime de outra raça que não a humana, tão miserável e gloriosa. Julgue o outro, julgue sim, mas em silêncio; no silêncio de quem primeiro se julgou e por isto se calou de vergonha…
  11. Não dou o mínimo valor à cultura, à erudição e ao conhecimento para gostar de alguém. Ao toque da última trombeta, tudo isto é bobagem terrena. Quando falamos de gente para se ter ao lado na vida (nesta e na outra), a coisa que me comove de verdade, que mexe fundo e remexe o profundo do meu coração de pecador arrependido, é a capacidade de ser tão sincero e verdadeiro quanto o mais santo e o mais iníquo são. Detesto com rins e fígados a macaqueação, tenho nojo visceral de [dis]simulação, me dá coceira na alma lidar com atores sem Oscar, com simulacros caricaturais de “gente boa”, com fingidos que acreditam no próprio fingimento. E tudo é muito pior quando à falsidade existencial somam-se diplomas, honras acadêmicas e pose cheia de afetação sapiencial. Lasquem-se todos! Eu amo (com amor reverente) nas pessoas é a cara limpa, suja ou lavada, mas limpa naquilo que se é nua e cruamente — humano, demasiado humano. Letrado ou iletrado, o negócio é prestar, é ser gente decente. De mentirosos compulsivos para si e para os outros, eu quero é a mesma distância que o diabo quer da cruz sagrada.
  12. Jesus Cristo perdoou completamente prostitutas, assassinos e ladrões em sua grande luxúria, morte e roubo, mas nunca perdoou fariseus e hipócritas sequer nos seus pequenos deslizes de fingimento e falsidade. Podem procurar na Bíblia.
  13. Você será feliz quando valorizar coisas pequeninas, também. O prazer de tomar um copão de água, de beijar o rosto quente da namorada, de conseguir assistir ao filme até o final sem dormir e controlando a quantidade de pipoca na vasilha, de correr alguns quilômetros sem ofegar, de se espreguiçar na manhã de sábado observando aquelas partículas de quaisquer elementos brilhando através da luz que passa pelas frestas da janela. Quantas coisas diminutas, sem preço, são capazes de nos fazer felizes. As coisas grandes, grandonas e grandiosas são legais, gostosas e nos fazem bem. Mas elas acontecem só de vez em quando. Porém, de vez em sempre nossa rotina está assim rodeada duma densa mas imperceptível nuvem de felicidadezinhas. Presta atenção, ô!
  14. Estou cansado, bom amigo, deste vale de ilusão. Para onde corre o fiozinho, a gota d’água, meu coração? Sombra imunda duma vela que morto algum velou. Sou assim, oh meu Mestre, a ondinha que ricocheteou no casco do teu barco e aos téus se prostrou…
  15. Toda dor e sofrimento colaboram conjuntamente para nossa salvação — que é o bem final da vida, e está necessariamente ligada ao fim da vida. A rede de infinitas reações que se sucedem à uma ação só é conhecida por Deus. Quais os efeitos duma morte, p.ex, na conduta física e metafísica de alguém a curto, médio e longo prazos? Quantas coisinhas rotineiras se seguem e se acrescentam umas às outras na existência a ponto de imperceptivelmente mudá-la por completo? Nós não somos onipotentes, oniscientes e onipresentes. Só Ele é. Que console nossos corações saber que o Senhor limpará dos olhos toda lágrima, porquê toda lágrima pedagogicamente lava nossas vestes manchadas pelo pecado hoje, amanhã e pelos séculos dos séculos. Jeová é oleiro e suas mãos nos moldam dolorosamente, quando necessário. Todo sofrimento, pequeno ou grande, nos ensina alguma realidade dantes oculta ou esquecida, e nos transforma — nos transforma para melhor. A cada dor, o amor dEle se manifesta. É misterioso, é enigmático, é imperscrutável. Nós não o entendemos e até contra ele nos revoltamos. Mas é amor.
  16. Procura te obrigar ao silêncio. Falas muito. Fica mudo, então. Observa como tu te negas ao agir impulsivamente pela boca. O impulso da língua! O impulso da palavra sem logos!
  17. O faro aguçado que as mulheres têm para identificar mentiras e embromação facilmente transforma-se em cegueira completa quando elas estão apaixonadas ou muito apegadas afetivamente. É como se o bloodhound (talvez a melhor raça de cães farejadores que existe) do Sherlock Holmes de repente fosse incapaz de distinguir um bife de picanha mal-passado duma rodela de papelão pintado.
  18. Há paralelos entre todos os pensamentos e feitos, seja em identidade ética (semelhança) e/ou estética (imagem). A presença dum elemento “igual” em essências e entes diferentes e divergentes é conditio sine qua non para a criação, para a existência, para a vida e para a Criação da Existência e da Vida. Por isto, eis parte(s) e todo(s) e seu relacionamento intrincado de fluxos de significados convergentes no imanente e no transcendente. Tudo se comunica em todos.
  19. A escumalha é a espuma dos metais. Alquimia.
  20. O número de homens de caráter é proporcional ao número de mulheres de caráter. São poucos. Quem eleva, via de regra, a qualidade da moral masculina é a mulher. O homem imprestável pode se esforçar para prestar por amor à uma mulher. Uma mulher imprestável dificilmente melhorará por um homem. Um anjo é sempre superior, mas quando ele resolve tingir suas asas de negro e cortá-las (ou depilá-las)… Corruptio optimi pessima!
  21. A ordem do teu mundinho exterior (teu quarto, teu banheiro, tua casa) corresponde à ordem do teu mundo interior (teu pensamento, teu sentimento, tua inteligência). Se o caos domina teu metafísico e a bagunça impera no teu imaterial, enfim, se a desordem sobrepuja tua alma e espírito, também teus ambientes físicos serão confusão material.
  22. Fui buscar água no pote e ela, já ao primeiro gole, revelou que tinha tomado um pouco do gosto do barro. “O Espírito de Deus se movia sobre a face das águas”: “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra.”
  23. Nesta vida quem nunca, estando certo e correto, pisou o pé na jaca, chutou o pau da barraca e cagou na retranca, fazendo-se assim errado e incorreto? Eu já me irei e, furioso, me enchi dos piores sentimentos de “justiceiro galáctico” (como se a minha causa, justa a princípio, devesse movimentar a cólera e a solidariedade de toda a Criação): já mirei a espingarda pro céu como se pudesse atirar nas estrelas e acertar em cheio os miolos prateados dum anjo. É da vida. Quem nunca atirou pedra, que atire mais uma pedra; e confesse, assim, que peca. O importante (pra nós mesmos, pros outros e pra Deus) é ter a consciência no lugar e então se julgar, se criticar coerentemente e, por fim, se arrepender. Quem se arrepende, sem vergonha e timidez, tem perdão. Melhor fazer constantemente o “mea culpa” do publicano que exalar a orgulhosa auto-justificação do fariseu. Mesmo com um pé lambuzado de nódoa e o outro quebrado, e os dois fedendo a estrume, seja sempre capaz de aceitar que você é um pecador. E lute para melhorar. Coma o fruto da jaca, arme e levante a barraca, faça das fezes esterco!
  24. Nossa consciência nunca entra em contradição consigo mesma. Ela sempre alerta para um único caminho, para uma só possibilidade, para um julgamento. A consciência fala em nós como se o profundo do coração e da mente unissem suas vozes de sentimento e pensamento num único e permanente sussurro. A bagunça da incerteza só acontece quando nós pretendemos ouvir o superficial do coração e da mente, que de vez em quando gritam (cada qual em seu tom e volume) seus desejos contraditórios. A gente sabe qual caminho tomar. A gente sabe onde deve colocar os pés e caminhar. A gente sabe. E a gente sabe que sabe. E é aí que as coisas se complicam porquê nós nos acostumamos a conviver com esta tensão, com esta oposição de incoerências, como se ela fosse natural, contínua e ininterrupta. A gente vive acossado, suspenso de nós mesmos; como diz o ditado, nem cagando nem saindo da moita. Canseira do mesmo se repetindo no looping ourobírico da angústia que mal se compreende: um “não sei o quê” renitente e obstinado que vai e volta e estagna em si mesmo. Então, nestas condições, não se vive propriamente. Porquê viver é fluir a vida sem barreiras quanto ao sentido, sem contrariedades de compreensão daqui e dacolá, é perseguir o tracejado do mapa da existência através da bússola da consciência. Dá ouvidos à tua consciência quando ela te despertar falando baixinho das coisas horizontais (teu dia-a-dia contigo e com os outros) e verticais (teu tempo com Deus), quando ela ao pé do teu ouvido declamar os versinhos que o teu eu te quer compor para ti mesmo, quando ela levantar o véu espesso da ilusão e te mostrar a realidade da felicidade que é possível.
  25. Quem gosta da gente nos trata bem. Quem não gosta da gente e finge que gosta da gente também nos trata bem. Mas há uma diferença: a gentileza de quem gosta de verdade é minuciosa, é espalhada nos pequenos gestos sentimentais, nas coisinhas visíveis e invisíveis do dia-a-dia, ela é feita de movimentos menores e efetivos, de açõezinhas cheias de bem-querer que vão crescendo e diminuindo na intensidade do carinho conforme o peso do dia. A gentileza de quem não gosta da gente é feita de grandes ações que se esforçam em demonstrar sua intenção lisonjeira e conquistadora; são espalhafatosas, performáticas, são jogos de cena, espetaculares; e são grandes “atos” (no sentido teatral do termo) muito enérgicos, muito veementes, que acontecem hoje e se repetem daqui semanas ou meses. A gentileza de quem não gosta da gente é sazonal e, quando acontece, é assim intercalada de explosões emocionalescas. Anota.
  26. Se você pudesse olhar nos olhos dum anjo cego e enxergar sob o branco opaco de sua córnea impotente uma centelha espelhada duma célula qualquer que absorveu o fulgor do Pai das Luzes… E se você pudesse sussurrar e gritar nos ouvidos ocos dum anjo surdo, talvez um querubim da guarda que durante certo tempo cuidou dos tímpanos de Beethoven… Ele não te veria materialmente, nem te ouviria fisicamente. Mas ele de certo te amaria, porquê te sentiria a querida presença. Por mais insensível (dotada ou não dalguma consciência) que alguém seja ao carinho; por mais refratário que alguém seja ao cuidado e à gentileza, por sua natureza nem tanto atávica mas provavelmente adquirida, é certo que a comunicação que vai de quem olha até os olhos de quem não pode expandir suas íris e então piscar, e que vai da boca de quem diz aos ouvidos cujos martelos não tilintam na bigorna e cujos sinos não badalam às sinapses, ah!, é certo que esta comunicação produz o milagre da visão e da audição espiritual. Tenho para mim que certas almas que nos parecem brutas e inertes, impassíveis até, só nos aguardam o primeiro olhar, só nos esperam a primeira sílaba. As moças brucutus, as donzelas chucras, as mulheres indomáveis; eis o que elas são: anjos indiferentes, de granito sólido, cujo despertar não se faz pela violência da talhadeira amputadora de arestas, mas através da carne e do osso que, frágeis, tocam; tocam e esculpem vida.

Os Vales de Fortún e o Pendão de Carolina

Granada parecia-me um pedaço de céu habitado por demônios. Jardins de querubins alojados de diabos e suas cimitarras. Azulejos, torres, zimbórios… Tantas e tantas graciosidades celestes servindo de espaldar para gentios. Granada era este Éden ocupado pela Serpente e suas crias. A romã que provei aos pés da colina maior deixou minha língua permanentemente marcada por um dulçor que até então desconhecia e talvez cria mesmo fisicamente impossível. A maça, o fruto da queda? Maná, que foi e que era? Notei também a quantidade de pedras bem polidas e de vidros lapidados. Natural, entre nós cristãos, que as pedras sejam lapidadas e os vidros polidos, porquê um já vem com brilho implícito e o outro nós homens fazemos brilhar porquê fazemos existir, e isto é explícito. Talvez seja esta a lógica do Islã com sua Sharia: o criado por Deus, mais duro e duradouro, deve ter seu brilho pouco revelado, quase embaçado na fricção irreverente das lixas grossas e finas; e o criado pelo homem deve ser elevado, posto numa proeminência de modo que a areia fundida mais refulja que os rubis e os diamantes. Porém, nós os súditos do Ressuscitado já há muito aprendemos com o querido Boi Mudo que a pedra deve ser burilada para sua ascensão e exaltação enquanto reflexo de Deus, e que aquilo que o homem cria deve permanecer como descendente de sua pequenez originária.

Eu, arvrinha

Esconde-te do mundo.
Faz-te comportado e mudo
Como a árvore que solitária
É agora a chama mais fraca na fogueira.
Regula a seiva da tua madeira
E sê, como quiseres, o rei da eira.
Se te querem cortar e usar,
(Galho e graveto,
Tronco e raiz),
Não dês aos maus
O fogo dos teus ossos
E o calor da tua alma.
Resiste na fornalha,
Porquê contigo,
Entre a brasa e a labareda,
Caminham o Jardineiro,
O Lenhador e o Carpinteiro.

Propter officium – III

Quando as hastes douradas
Vergam-se ao cinza no buril,
Quando só resta no cálice
A lâmina escultora e infantil,
Quando os séculos cinzelam
A verdade em imagem e mito,
Da Medusa resta o grito
E do tempo a marcação.
7.5.2018

“Tum propria flammis corpora alienis cremant diripitur ignis: nullus est miseris pudor.”
Sobra do barro que o fogo queimou,
Que em areia ou poeira se tornou.
Um graveto de tempo e cálcio
Enterrado no meio do Lácio.
Entranhas ao vaticínio.
Pensamentos ao símio.
Aranhas cosendo o sudário
Da carne podre no relicário.
8.5.2018

Num canto do mundo,
Entre a muralha chinesa e a parede babilônica.
Num ponto escondido,
Da acumulação holandesa e da visão faraônica.
15.5.2018

Quantos becos e tropeços,
Quantas ruas de pedras nuas.
16.5.2018

Dissimula!
Disse a mula?
Disse o mulá?
Muge lá!
21.5.2018

Eis o homem, de nós o demônio murmura.
Eis a carcaça mal assemelhada de Adão,
A estrutura carnal daquele rei e peão!
Toca o mundo, sente a brisa e o vinho,
Acaricia a seda das pétalas e o espinho,
Descansa tranquilo sobre oceanos e secura.
22.5.2018

Às vezes, planeja não planejar.
Arqueja os ideais por um instante.
Revê as idéias, areja a mente.
Planeia o mundo em silêncio,
Planifica o ar do parlatório.
Sempre sim ao esmo
Do mistério sem fim.
23.5.2018

Quando fizeres contigo tuas contas
E teus afazeres do passado as luas
Tiverem engolido em delícias nuas,
Olharás para o céu sem frio,
Sem sol cálido, sem sentido
E sem rio.
29.5.2018

Há uma sombra que se achega à parede,
A parede das heras e ervas, das eras cinzas,
A parede densa e vertical do bosque perdido,
Do jardim enclausurado no centro do mundo.
29.5.2018

No centro do céu o inferno,
No centro do inferno o céu.
Quatro círculos assim desenhados,
Um dentro do outro, em ordem.
Divisando a fronteira, um véu.
Velando a divisa,
Minha fronte altaneira.
29.5.2018

Eu vi uns olhos
Guardando galáxias,
Velando os astros
Lânguidos de prata.
Entre lua e luar,
Entre reflexo e clarão,
Ali estava a face,
O rosto enternecido
Da donzela de Ruão.
30.5.2018

Erbarme dich.
E que esta piedade
Pie no bico do passarinho,
Que no ar me diz:
Voa, voa, voa!
30.5.2018

Mal o dia delendava o pensamento,
E um anjo enviado pelo Senhor veio dizer,
Em cor de confidência há muito no céu remoída:
Isto aí que tens no peito: maladie de la pensée!
5.6.2018

Nunca contaste teus passos,
Porquê passeias nos contos
E sempre preferes o caminho
À geografia que fere o destino.
6.6.2018

Precipita-te de cabeça no teu peito.
Tateia a prece que começa a subir,
Que sobe e sobe; incenso de fé a ir,
A ir anuviar a beca lassa do direito.
6.6.2018

Ja, maar niet te veel.
Já, mar e nada, véu:
Batata marinada, mel.
Sim, mas não muito.
Nuvem, talvez o céu.
6.6.2018

Dantes os mistérios
Misturados de Dante.
Sérios textos pedantes?
Pés, versos, quebras,
Métricas, terços,
Estranhos quereres.
Véus místicos e ares
Soprando sereno
Sobre as palavras,
Remando no Arno,
Voando sem asas.
7.6.2018

Deixa a ilusão,
Vem ver este clarão
No céu, meu bem.
Olha a imensidão
Acenando pro além.
Bate a saudade
Quando a rosa murcha vai,
Vai murchar ainda mais
Com saudade do meu pai.
Olha, a escuridão
Vem se anunciar:
O quanto os teus olhos
Me inundam do teu mar.
8.6.2018

Lógica, ogiva de loas à angina de Satã:
O coração acídico do mal palpita meditada incongruência,
Odeia da ciência o pito ditado pela mediação da contingência.
Cérebro de nódoa racional, berrando sério impropério.
Contra o Logos lança sua lama, palavrório da insignificância,
Na ânsia de agitar, fogo e narina, seu afã.
14.6.2018

No teu peito, taciturno, bate com o luar o coração.
Entre as brumas e as pedras, pensas e caminhas.
Peleja à tarde, tácita e noturnamente, e sê a ação.
14.6.2018

Lírios negros sobre brancos montes,
Nuvens azuis em céus também brancos,
Améns entre turíbulos e anjos silenciosos.
Satã barulhento, fumo de vulcão, nega!
Escuridão sobre o firmamento vermelho,
Abismos cinzas debaixo de ervas pardas.
15.6.2018

A lança feriu de relance
A couraça de carne e sangue.
Abriu no corpo fresta de luz,
Criou no espírito rico pus.
4.7.2018

Se o véu do mistério eu descobrisse
E por sob a pele, na alma, a luz visse,
Que alegria deitar cedo para sonhar!
Sonhar sem querer acordar, e acordar
Sobre a nuvem deitado, no céu acordado.
19.7.2018

Som de luz, qual é,
Quando o Céu desce aqui
E ilumina de som a Terra?
Som de luz ouvi
Entre silêncio e altar.
Aleluia, cantai!
Aleluia, Aleluia,
Aleluia!
26.7.2018

Esponjas de sol — XL

  1. Se tu não escolhes um caminho e nele pões enraizados os pés, qualquer direção incerta te escolherá: ou marcas no mapa a tua caminhada, a linha reta ou ali e aqui bifurcada mas lá no horizonte convergente à missão proposta, ou qualquer placa falsamente direcionada a atalho ou qualquer anúncio de roteiro mais barato te lançará naquela cova aonde vão cair os incautos cuja bússola são as paixões tão instáveis quanto a adrenalina que no sangue lhes envenena a alma. Quem lê, entenda. Et tu, Calvinista!
  2. O que um dia nos diz quando a luz entra pela fresta da janela; quando um pardal pia e bate os pezinhos na calha; quando qualquer silêncio é anormal porquê a vida tem que correr pela rua. O que um dia não nos diz quando o sono ainda cansa as pálpebras; quando o grilo cantador ainda deveria de longe (cúmplice do mosquito, de perto) violar o repouso; quando sequer o eco do eco sussurra a queda duma gota de orvalho na grama, sob o espanto da formiga insone…
  3. A fortaleza cristã consiste em ser afável por fora e sólido por dentro, como um tronco de carvalho: gentileza nos gestos comuns no dia-a-dia, mas possante e resoluto no combate naqueles dias necessitados de vigor e decisão “fulminante”. Brando por fora, cavalheiro amortecedor; duro por dentro, cavaleiro lutador: assim age o homem digno de sua hombridade, na alternância contextualizada do lenço e da espada, do escudo e da pena. O problema é que a imensa maioria de nós, caros senhores, têm sido duro por fora (bronco e grosseiro) e mole (jujubinha-de-jesus) por dentro. Conselho do rei Davi ao seu filho Salomão: “Esforça-te, pois, e sê homem!” (I Reis 2:2)
  4. Quando a proverbial sabedoria caipira nos diz que uma palavra às vezes dói muito mais que um murro, muito mais que um soco, muito mais que um tapa, enfim, dói muito mais que uma violência física qualquer, ela nos diz a verdade. Deus é Logos e nós somos nano-logos: as palavras criam, em nós e nos outros, ações, situações e reações. Elas ferem e curam, atam e desatam, libertam e escravizam: correm em disparada do positivo ao negativo, e entre estes pólos amornam inação. Qualquer coração se movimenta (de dentro para dentro ou de dentro para fora) quando outro coração-e-mente se movimenta em sua direção verbalizando-se. Quantas vezes, por isto, não queremos o silêncio supremo, sem contato com quem quer que seja!, sem conversas e sem diálogo, como que almejando um completo vácuo e uma total suspensão do mundo da fala? Não à toa, Shakespeare confessou no ato V da cena I do seu Timão de Atenas: “Lábios, fazei cessar o amargo verbo, pondo fim à linguagem!” A palavra dói, dói desde o âmago mais abissal do espírito humano, porquê no fim também é o verbo e o Verbo sangrou no Calvário.
  5. Oh, minha alma, tanto antes calva,

Porquê sobre o vento vi a luz, vi a alba;

E se a nuvem escureceu a estrela,

Daqui da terra esculpi uma estela:

Gravei o movimento fixo do astro

Como se o girar fosse uma palavra,

Como se a amplidão em seu círculo

Fosse uma rima num verso perfeito.

  1. A minha alma — da tua a ferida benigna — rasgou-se em pó; verteu luz, seu pus. Enigma.
  2. Põe-te em pé, diante da tempestade. Faz das mãos os remos e da alma a vela. Tu és a nau e o capitão. Tu és a âncora e o marinheiro. Oh, deixa Deus soprar! Oh, deixa a onda arrebentar!
  3. A água a que chamais incolor, se muito se movimenta nada através se vê. Este espírito turbulento, que na quietude etéreo se apresenta, constrói e derruba na terra. Estrelas distantes brilhando iluminam; mas de perto, dos olhos a um palmo, elas cegam.
  4. Tu sabes que este dia um pouco te reviveu ou um pouco te matou? Se de segunda à segunda-feira tu divides os dias entre aqueles que deves trabalhar sofregamente e aqueles que deves descansar em diversões, se o tempo passas assim repartido entre labor penoso e fim de semana entretido, dize-me: de que qualidade fecal é a tua existência? Nada além de tempo em vão, perdido como se fosses um porco, um cão ou um vírus estirado na placa de petri — perdidos todos, cada um a seu modo, para a Eternidade. Agrada-te o fato de que chegarás à idade dos velhos apenas velho pela deterioração, apenas passado pela entropia atuando sobre o teu físico, como um assento de privada que por décadas serviu à latrina pública ou como uma lata de pêssegos reaproveitada para guardar pregos mais ou menos enferrujados? Agrada-te que entre tua concepção e teu funeral quase nada se terá acrescentado ao teu espírito? Sem vida interior (zoë), esta que sob a superfície do ordinário revolve em seu âmago o extraordinário oceano das fontes do abismo divino, a vida exterior (bios) logo te afogará com uma só gota… Uma só bastará. A sinfonia desprezada como “música que dá sono” te fará falta quando teus ouvidos estiverem ocos. O poema esquecido como “frescura de moças” te fará mais solitário quando os olhos estiverem opacos. Não terás apegada à tua memória e sentido as imagens, os sons e as letras da vida superior: então, no inverno, poderias recordar dos campos floridos de Van Gogh e das paisagens douradas de Caspar Friedrich; e nos domingos sem possibilidade de ir carregado à igreja, terias na alma cada trecho de sermão de Calvino, de Barth, de Vieira e de Balthasar, e recomporias no altar a música de Pérotin, de Bach, de Byrd e de Palestrina. Mas, para além da beleza que te ajudaria a consolar, te faltará mais, muito mais; te faltará a companhia da sossegada vida comum que todo homem deveria ter na carne e no espírito, que é a beleza mais alta: recompor, sarado, os passos e feitos de Adão e sua Eva; comer, com a descendência à mesa, torta de maçã, doce de figo e cordeiro assado — luzes e perfeições, símbolos engenhosos e fatos crus, terra e céu, transcendente e imanente. Pagarás, porém, o preço da solidão lancinante por te negares a amar uma só mulher e, com ela, santamente criar filhos como a videira presenteia de frutos as mesas e os altares, os copos e os cálices. Nestas segundas, terças, quartas, quintas e sextas-feiras e nestes sábados e domingos que passas como se não fossem dias especialmente únicos; mas uma mesma segunda e uma mesma terça, quarta, quinta e sexta repetidas ad infinitum, e então uma só coisa, um só bloco de “dias da semana”, de “dias úteis”; como também sábados e domingos não te são este sábado e este domingo específico, mas sábados e domingos igualmente atabulados na rasidão duma mesma nomenclatura e finalidade ourobóricas. Não vês que tens nome de vivo, mas estás morto? Do Senhor sequer preciso dizer-te: Ele é em tudo e para tudo indispensável. A Suprema Beleza que perpassa cada ato teu e cada ação tua, como uma linha de luz atômica que vai e volta do Ocidente ao Oriente dentro da alma. Do contrário terias cultura e erudição ou incultura e ignorância sem sentido, esposa e filhos sem missão extra-genealógica, existência socialmente acomodada à regras em si corretas mas sem o amor livre à Lei que gera a Realidade. Se o mundo assim tão cheio de fama é condenado com aquele brado altissonante (“Sic transit gloria mundi”), a ti este mesmo mundo sussurra ao pé do ouvido: e tu passarás comigo, oh homem anônimo e ludibriado! Hoje, reviveste ou morreste?
  5. Se tu não tens Deus, não tens a ti mesmo: és folha solta, folha petrificada de árvore extinta num só golpe de mandíbula. Sem Deus, que és? Não és… Um desenho no pó delineado, um sopro pareidólico, uma miragem sútil na penumbra demiurga. Se tu não és possuído pelo Senhor, como um cálice se realiza acolhendo o vinho da ceia vespertina, como a pena só tem sua missão quando a asa lhe movimenta nos céus, como a letra só se lê ao se irmanar ao alfabeto na palavra… ||| Oh, Senhor, fonte eterna que gera as fontes perenes, útero da substância da certeza que é real, coração de luz que fora do universo pulsa o puro ser! Sê seiva e enxerta-me na árvore. Outra vez me diz ao ouvido: “vive!”; e sopra nas minhas narinas a pneuma imortal. Assenta sobre as colunas da existência a casa do meu espírito. Desenha-me — no mármore intangível do Teu pensamento, pela concretude da Tua invisível paleta fazedora — e prova-me Tua paternidade. Deus meu, Senhor meu… tem-me em Ti!
  1. Tu podes conquistar um castelo inteiro com seus feudos — das torres góticas à esmerada alcova real. Por que sucumbir por um seixo arrancado do calçamento da rua onde pisou Lady Guinevere? Tu podes juntar todos os quadros e cenas humanas e retábulos e imagens divinas. Por que tudo trocar por um esboço mal desenhado da segunda ou terceira cópia duma bela mas falsa tela? Tu podes compor sonetos como Dante e escrever versos tão métricamente puros como Shakespeare. Por que tudo trocar por insossos poeminhas dedicados à trigueirinha mundana e imbecil? Tu podes, sob Deus, riscar nos mapas o destino eterno dos povos cristãos. Por que tudo trocar por um tabuleiro de xadrez com peças gastas, quando o peso da idade te curvar a coluna idosa? Tu podes fazer tuas preces no Santo Sepulcro e jejuar junto ao altar de Santa Sofia. Por que tudo trocar por rezas pela conversão de almas iníquas, irmãs de Saul? Tu podes gerar uma descendência vigorosa, cheia do viço milenar da raça dos godos cavaleiros e lavradores. Por que tudo trocar pela desonra duma aliança com cepa desarmoriada e preguiçosa? Tu podes ouvir o canto dos rouxinóis nos jardins imperiais e o piar das águias no topo do Himalaia na companhia duma moça virtuosa. Por que tudo trocar pelo gorjear cacofônico do rádio de pilha e pela ralhação duma mulher rixosa? Tu podes viver os dias dum Adão restaurado, empunhando o cetro do auto-domínio e do governo de si, nomeando regiamente a tua porção da Criação. Por que tudo trocar pela pulverização de tuas forças e por esforços hercúleos para no lugar manter minimamente são o centro de tua consciência, a todo tempo desequilibrada pelo mundo exterior? Tu podes ser rei e sacerdote, coroado e ungido entre o insenso da justiça e a glória do amor. Por que tudo trocar pela servidão laical, onde a espada te decepa a cabeça e a balança te pesa o coração, como se Maat e não o Cristo julgasse os homens? Tu podes ser o que podes ser, ato factual da potência possível, máximo e excelente no limite que o Céu te impôs. Por que tudo trocar por pedriscos e rabiscos, por pés de barro e esterco, por ninharias no instante atraentes mas cujos prazeres tanto valem quanto uma flatulência animal guardada em vidro de perfume caro ou um confeito apodrecido vendido sob o preço do maná dos anjos? Tu podes. Por que tudo trocar?
  2. Quando a proverbial sabedoria caipira nos diz que uma palavra às vezes dói muito mais que um murro, muito mais que um soco, muito mais que um tapa, enfim, dói muito mais que uma violência física qualquer, ela nos diz a verdade. Deus é Logos e nós somos nano-logos: as palavras criam, em nós e nos outros, ações, situações e reações. Elas ferem e curam, atam e desatam, libertam e escravizam: correm em disparada do positivo ao negativo, e entre estes pólos amornam inação. Qualquer coração se movimenta (de dentro para dentro ou de dentro para fora) quando outro coração-e-mente se movimenta em sua direção verbalizando-se. Quantas vezes, por isto, não queremos o silêncio supremo, sem contato com quem quer que seja!, sem conversas e sem diálogo, como que almejando um completo vácuo e uma total suspensão do mundo da fala? Não à toa, Shakespeare confessou no ato V da cena I do seu Timão de Atenas: “Lábios, fazei cessar o amargo verbo, pondo fim à linguagem!” A palavra dói, dói desde o âmago mais abissal do espírito humano, porquê no fim também é o verbo e o Verbo sangrou no Calvário.
  3. Olha pela janela, mesmo quando for alta noite e os assovios do vento e das corujas te encherem de medo. Talvez vejas lá por baixo passar a alma que o destino conduz pela rua porquê é a tua rua, e porquê é a tua alma! Olha, olha porquê o mundo quer que os quartos não se fechem apenas para a intimidade; olha, porquê Deus mesmo quer que para o lado de fora haja uma abertura pelo lado de dentro.
  4. O primeiro sinal duma alma atacada pelo diabo é seu fracionamento. A pessoa está toda dividida, despedaçada em pedaços quase sem encaixe: há vários “eus” reunidos num mesmo ente, mas cada “eu” (o profissional, o familiar, o afetivo, o isto e o aquilo) é uma qualquer coisa que quase que age por si mesma, sem coesão, sem unidade. Papéis diferentes, personalidades distintas, funções diversas e caráteres divergentes num só bloco individual, num só indivíduo, variando conforme tempo e lugar. As partes acéfalas, mas autônomas, não pertencem ao todo, já que o todo não é um tudo — é um nada. “Qual é o teu nome?” Respondeu ele: “Meu nome é Legião, porque somos muitos.” (Marcos 5:9). Quem está sob o poder do diabo pouco se conhece e, por isto, pouco se reconhece a si mesmo em si mesmo. Há ação, há impulso, há energia fazendo e acontecendo por meio de si no mundo, mas não há consciência, não um querer da vontade sobre a realidade, não há sequer um desejo (porquê o desejo se sente sempre em paralelo ou contraposto ao intelecto): age apenas o instinto encavalado pela perversão — ora jorrando e ora vazando um comportamento tão impetuoso e forte quanto improdutivo e sem finalidade. A alma assediada pelo diabo olha para o horizonte e não enxerga o porvir, lê o calendário e não mede o tempo pelos propósitos de prazo mais longo, cheira o ar úmido anunciando a chuva e não percebe que o campo está pronto para o plantio. Um “eu” trabalha o dia todo, outro “eu” trabalha odiando o trabalho, um “eu” sai de volta para casa para descansar o corpo, e um e outro e mais outro e outro “eu” prepara o jantar, toma banha, assiste a novela, manda mensagens no WhatsApp, paquera os contatinhos, acorda ainda com sono, acorda também os filhos, compra e lava e passa roupas, vai à igreja esquentar o banco, faz isto e aquilo e só faz; e qualquer um dos “eus” objetivamente apenas e só faz — porquê fazer por fazer é o que faz o diabo. A pessoa se perde num movimento cíclico sem fim no qual todo dia a vida começa e acaba. Há tantos “eus” que não há “eu” algum… Cada pecado que cometemos nos tira lentamente do centro de nós mesmos, nos tira e arranca (gradualmente) um pouquinho do controle que temos sobre nosso “eu”, dividindo-o. E dividido o “eu”, o diabo impera. Ao pecar, batemos a talhadeira do mal na rocha e vamos nos quebrando, nos fracionando e nos esmigalhando até que, em grau absoluto de iniquidade, sejamos e estejamos espalhados em cada pedra, pedrisco, pedaço de pedra e pedaço de pedrisco, e em cada grão de areia que restar pulverizado daquela grande pedra original (petra que es, guardadas as devidas proporções, petrus).
  5. Se não tens controle de ti mesmo, se não és senhor de tua alma, o mundo te controlará e em ti mesmo tu não serás mais que um inquilino com vaga posse do teu corpo. Se não dispões tuas ações, alguém as disporá sob o império duma consciência decidida e duma vontade férrea que não as tuas — porquê estás inconsciente, alienado, e cheio de inconstantes desejos. Se não te controlas, és peça de xadrez no grande jogo mundano; peão ou rei, não importa a hierarquia com suas penas e confortos, uma mão invisível te controla. Sê de ti mesmo o mestre, para que sejas causa e ação, e não joguete inerme de efeitos e reações que desconheces porquê não conheces a ti mesmo!
  6. Um pequeno mal gera mais e outros e maiores e mais fortes males. Se tu não deres fim ao pequeno trinco (tapando-o) que ameaça expor tua mente e teu coração, ele logo crescerá até que se torne rachadura e, então, muro após muro e muralha após muralha, desmoronará todo o teu castelo interior. Duma semente de cardo não queimada pelo jardineiro de pronto surgirá um jardim logo feito bosque e após transformado em floresta, em selva, de ervas-daninhas! Quando identificares um mal, um pecado aqui e ali confinado em ti, trata de eliminá-lo para que ele não venha, depois, a fertilizar teu espírito e neste esparrarmar-se indefinida e incontrolavelmente; assim, perderás as rédeas dos infinitos efeitos e das infinitas reações desta causa e ação primária que poderias, santificando-te, ter exterminado. Anota.
  7. A paixão é de si tão inferior ao amor que não somente é um estado patológico psiquiátricamente comparável à loucura, é também muito mais sem graça no nível consciente (porquê a paixão, ora, é feita de inconsciência pura e refinada). É sem graça porquê lhe falta, entre muitas coisas, o enigma e o mistério. No amor, sorrisos recatados e olhares de cores sentimentais mais cheias de nuances que uma tela de Van Gogh; na paixão, lábios-e-bicos caricaturais e caras eróticas de hiena no cio. No amor, detalhes silenciosamente entregues aqui e ali no perfume borrifado no papel e na gola, na letra mais esmerada, no apertado de mão sem jeito, no encabulamento amplo, geral e irrestrito, na timidez que sabe porém o que quer; na paixão, o exagero atirado dos feromônios, a comunicação sem-vergonha dos toques, contatos e mensagens retas e diretas (mas espiritualmente tortas e oblíquas), a desinibição que sequer sabe o que quer. Na contramão dos versos de Camões: paixão é fogo que arde e se vê, é ferida que dói e se sente. A paixão é o suprassumo do aparente, do alcançável, do evidente; e, como tal, é solucionável. O amor é de si tão superior à paixão que não apenas é um estado de saúde espiritual, é também muito mais cheio de graça!
  8. Faz o que é certo. Deixa os resultados com Deus. Semeia, planta e rega, porquê ao Senhor cabe dar o crescimento. Faz a tua parte, sem terceirizá-la ou dividi-la, para que depois a culpa ou o mérito não sejam injustamente compartilhados no todo. Guarda tua consciência e nunca arreda em nada, sequer numa vírgula ou til. A covardia de ceder por conveniência psicológica ou social não cabe a um homem redimido. A única opinião que importa é a da tua consciência julgada por Ele. Faz o bem, o elevado, o melhor: e que se lasque o mundo amante do mal, do baixo, do pior. Se estão acostumados à lavagem dos porcos, mostra-lhes as pérolas e depois joga-as aos leões da terra e às aves do céu. Faz o que é correto. Deixa as reações com Deus.
  9. Vida feliz é vida com Deus. O resto é desespero existencial camuflado. Um buraco na terra tapado com concreto ou geléia ainda assim é um buraco. Um buraco na terra tapado com terra deixa imediatamente de ser buraco. O buraco é o vazio que todo homem carrega. Deus é a terra para nossa terra, é o preenchimento perfeito que extingue o vácuo, que acaba com o buraco — porquê em Sua semelhança se funde nossa imagem. Qualquer outro material é placebo tampador, que nada promove senão um disfarce tapeador. Sem Deus a gente não passa de animal ansioso por saciar imediatamente seu instinto sedento por prazeres desordenados ao preço de tristeza rigorosamente paga em prestações intermináveis e cada vez mais caras, mais doídas. Isto deveria fazer você perder o sono!
  10. Há muita beleza numa face trigueira, de carne ondulada e harmoniosa. Há muita beleza nuns olhos da cor e da forma da amêndoa, de íris alada e fulgurosa. Mas há muito, muito mais beleza numa expressão sincera, de espírito reto e angular. Há muito mais beleza num olhar colorido de pureza translúcida e moldado na integridade de mãos livres. A partir do momento em que a pessoa deixa de ser uma estátua de carne e osso, um objeto para o julgamento estético à distância, e torna-se um indivíduo de alma e espírito no contato e no relacionamento direto, a ética da proximidade altera completamente nossa percepção de sua beleza. Conclusão, que aprendi lendo Ortega y Gasset e, muito melhor, que aprendi lendo as mulheres: a beleza que atrai muito raramente coincide com a beleza que enamora.
  11. Sinta, só hoje, saudades de passados que não foram; de namoro, noivado e casamento que não aconteceram; de filhos que não tivemos e com os quais não brincamos, e que nunca conhecerão a fé em Nosso Senhor porquê eles não são, porquê eles não foram; sinta saudades de jantares que nunca comemos, cúmplices, à luz de velas, de estrelas e de comuns lâmpadas incandescentes, na cozinha apertada do apartamento do começo inexistente das moedas contadas e depois na longa e elegante sala de jantar do casarão que nunca foi comprado na abastança; sinta saudades dos poemas não compostos mas de alguma forma decorados, das canções orquestradas entre duas sombras no cerebelo mas nunca ensaiadas para platéias silenciosas, dos sonhos desesperados e das esperanças que foram cair num buraco — o abismo do que poderia acontecer e não aconteceu, a câmara secreta do possível transmutado em impossível. Sinta, só agora, saudades destas possibilidades tão simples e douradas, tão caras e singelas, inundadas por complexidades assassinas, prateadas, tão custosas e presunçosas; sinta, porquê se qualquer fio de luz ainda te restar na alma, ainda hoje e agora és capaz de reviver estas possibilidades. O presente é ausente quando não se move para o futuro por culpa das ansiedades do passado. Estou ouvindo aquela Romanza melancólica, de solitudes suaves e profundas, de Bacarisse: escuta ela também, para que sobre o teu espírito desçam as mesmas preocupações que inundam o meu. O violão, assim ponteado, desnudou a nós dois, como se a pele mesma fosse rasgada e mais nua que o corpo se encontrasse desvestida a própria alma; mas os violinos, e a orquestra toda com eles suspirando, nos cobrirão, nos cobrirão!
  12. A maioria das pessoas sequer conhece o significado do próprio nome. Daí (início mínimo do conhecimento sobre os aspectos formais acerca de si mesmo enquanto terráqueo), até o auto-conhecimento fundamental de seu significado individual no cosmos, há um abismo quase que intransponível pela imensa maioria das pessoas. Tudo começa e termina com nomes: com aquele que está na Certidão de Nascimento e cujo registro nos identifica entre os membros sociais da espécie, e com aquele que Deus nos chama em oculto e depois nos chamará publicamente e cujo escrito nos assinala como filhos Seus. Começa aprendendo o porquê de teu nome Aqui, para que, então, te prepares para o porquê de teu nome Lá. Será assim tão à toa e casuísticamente despropositado teu nome, fruto dum capricho de gostos paternos ou maternos? Não! Teu nome é teu símbolo impermanente no imanente e permanente no transcendente, tua sina fatídica no físico e fática no metafísico. Sê minoria: sabe o porquê e o significado; conhece-te a ti mesmo!
  13. Qualquer coisa grosseira se muito e repetidamente tocada acabará delicada. A madeira mais rústica se tornará lisa e tão polida quanto uma mesa envernizada de convento de freiras idosas. A pedra mais dura se tornará lapidada e tão luminosa quanto um fragmento de estrela ou uma gema de coroa imperial. E o coração mais escamoso e congelado, toque a toque, no toque digital e individual que desgasta o metal carnoso e lhe transfere um poucochinho do seu calor, se tornará tão aveludado e quente quanto o colo materno. O toque puro de uma alma é capaz de descascar, lapidar e polir outra tão melhor que as milhares de mãos que diariamente, há séculos, lustram o pé da estátua de São Pedro em Roma. Com muita sabedoria diz o caipira: “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.” Se no carvão há centelha de diamante e sob o tronco se delineia obra de arte: goteja teu afeto! E repara bem, porquê o brilhante pode ser negro e a escultura o entalhe de uma árvore…
  14. Tenho notado que, das coisas que uma alma mais sente falta em outra, a falta maior é de companhia para conversar aquelas conversas tão longas e profundas que se começam falando, vá lá, por exemplo, do mistério da Santíssima Trindade, passam pela povoação de todas as galáxias e terminam numa boa receita de spaghetti alla carbonara. Encontrar companhia para olhar as estrelas como Kant olhou e como os aborígenes ainda olham o céu noturno e, depois, conversar sobre; companhia para ficar perplexo com a última notícia proseada no pinga-sangue sensacionalista do Datena e com a crueza poética de Macbeth e, depois, conversar ainda mais sobre; companhia para se encantar com uma idéia bem pensada, com uns versos bem limados, com uma pancada de chuva na diagonal molhando justamente o pedaço de chão mais seco do jardim, com uma ninhada de cãezinhos cheirando à leite, enfim, com isto: com o mundo real que parece imaginário para a maioria que mal sabe que, entre o coração e o cérebro, existe uma alma da cor do primeiro gole d’água que Adão deu na moringa logo depois que suou sua primeira gota de suor. E depois? Conversar mais e mais sobre! Companhia adequada para falar, aparelhada para dizer, alinhada para… conversar. O silêncio é importante como a digestão e a conversa como a comida. Tem alma quem não precisa assim, assim tão profundamente, conversar?
  15. Descobri que eu tinha qualquer coisa na vida mais a ver com o passado que com o presente quando, moleque, eu olhava pras pedras e pensava (sentindo) que elas não eram tão pedra quanto o seixo que Davi meteu na testa de Golias, quanto qualquer rocha tocada pelos pés dum eremita anônimo nos desertos da Síria ou da Capadócia; menos pedra que uma pedra lapidada pelas mãos de Moisés ou esculpida por Michelangelo, e mesmo menos pedra que as pedras que faziam o menino Jung meditar e menos pedra que as pedras que meu bisavô jogava ricocheteando no lago de Hinterburgseeli. Reacionarismo, romantismo, idealismo platônico temporal? Nada disso! Apenas a intuição de que, hoje em dia, nós mal olhamos pro chão e que a natureza das pedras nos diz qualquer coisa como: “vocês se vão daqui e nós ficamos por aqui, onde somos permanentes; aqui vocês se deterioram e lá, onde vocês são permanentes, nós nos desmanchamos.” Uma noção infantil, mas bem sincera, de Eternidade. Será por isto que o Senhor nos advertiu que se nós nos calarmos as pedras clamarão?
  16. Há pessoas completas muito complexas e pessoas complexas muito incompletas; e há pessoas completas muito simples e pessoas simples muito incompletas. Pessoas complexas são pessoas cuja estrutura de personalidade é filigranada — cada parte se desdobra, nuancentemente, em outra, como numa mandala, como a geometria molecular. Pessoas simples, por sua vez, têm estruturas com menor número de componentes, como a geometria das formas puras, como o Stomachion de Arquimedes. As pessoas completas descansam em Deus, encontraram a unidade de espírito e têm em si mesmas um mundo ordenado. As incompletas, vadiam pelo mundo esfacelando-se no caminho, com a alma esburacada e desencaixada dos pedaços que ela mesma soltou. Complexidade sem Deus é confusão do eu. Simplicidade sem Deus é fusão do eu.
  17. Um mau-caráter racional é como merda congelada: a frialdade, contendo a essência da bosta nela mesma, meio que aprisiona o fedor. Daí, o perigo da conservação do mau restrito ao âmago do ente que o carrega. Um mau-caráter emocional é merda como ela é no pós-intestino: na densidade, na cor e no cheiro, enfim, no crivo dos sentidos — de pronto reconhecível e, por isto, quase nada prejudicial a um homem bem armado dos “apetrechos higiênicos” da alma. Merda congelada é objeto contundente: pode matar. Merda in natura é inofensiva: no máximo suja. Entre fezes ferinas e logicamente reprimidas e excrementos molengas e extrovertidos, prefiro lidar com o pessoal deste segundo naipe, de rápida decomposição; contudo, quanto ao primeiro, Deus pode nos armar com o lança-chamas do “Discernimento de Espíritos”. Anota.
  18. Se você conhece a Deus, deve simplesmente agir segundo a Lei dEle sem calcular as complexas reações do mundo. As coisas darão certo, rápido ou devagar, porquê o Senhor vela sobre Sua palavra para cumpri-la (Jeremias 1:12). Mas, se você, conhecedor, resolve medir e ponderar sua ação não em função do Eterno, mas da lógica terrena das possíveis perdas e danos ou dos ganhos e lucros, as coisas necessariamente, agora ou depois, darão errado. Para qualquer outro mortal até que poderia dar “certo”, mas para você não: porquê você tem que ser e estar certo para, então, agir certo e, daí, o efeito ser o certo. O homem natural, desconhecedor da Lei, freqüentemente pode se dar ao luxo de avaliar e contar os caminhos do “efeito dominó” probalístico duma ação, jogando os dados do cálculo racional e tentando obter o desejado termo das coisas sob a ótica da sorte (O Fortuna, velut luna statu variabilis!). Mas, você não! Quando o movimento do seu espírito partir do errado (a tibieza, o egoísmo e a dúvida calculando…), mesmo que formalmente tudo pareça tremendamente certo, tudo dará errado para você; enquanto que, paralela e eventualmente, poderá dar tudo “certo” para os outros. Se Deus lhe conhece, Ele complexamente agirá para que Sua Lei calcule em você suas simples reações no mundo.
  19. Feto no infecto. Educação vem de útero.
  20. Três conselhos: i) Nunca minta para alguém em favor de ninguém. Não ajuda quem escamoteia ou esconde a realidade apenas para assegurar coleguismo ou segurança psico-social. Ajuda quem diz “sim, sim e não, não!” sem o temor de desagradar, porquê o que é, é, e o que não é, não é; e é a Deus que se deve agradar; ii) A mentira só ilude quem depositou seus afetos num certo conforto/estabilidade que ela pode, temporariamente, gerar. A “pulga atrás da orelha” fazedora de cócegas sempre crescerá até se tornar um dragão cuspidor de fogo. Melhor ceder de pronto à fricção irritante da consciência e da intuição que, depois, acabar com a alma incinerada; iii) A verdade às vezes é tão simples e evidente que, aos olhos duma pessoa hipersensível, ela pode ser tomada por mentira, já que lhe falta altas doses de adrenalina, teatralidade grandiloquente e histerismo. Para quem se impressiona com pranto e ranger de dentes, com juras e bateção de pezinho, melhor deixar que a mordida e a picada, que a queda da máscara e a “dancinha da vitória” sejam o remédio dolorido da realidade.
  21. Julgar se isto ou aquilo é certo ou errado é fácil. Porém, julgar se esta ou aquela pessoa que faz isto ou aquilo é moral ou imoral, é difícil senão impossível. As reações externamente muito se assemelham, mas nunca se igualam as ações que as geram. A dor de cabeça (na nuca, digamos) sempre é corporalmente equivalente na área atingida e no sintoma, mas a causa é sempre variada (tensão muscular, meningite, pressão arterial, etc), como variado também é o tratamento dispensado uma vez identificado o motivo. O roubo, o homicídio e o adultério levam absolutamente ao inferno. Mas não se pode dizer se tal ladrão, aquele assassino e este adúltero irão ao inferno por este roubo, por aquela morte e por tal traição, porquê rouba-se para comer e para minar o trabalho alheio, assassina-se levianamente e em legítima defesa, trai-se o cônjuge por luxúria e por coação. Entre Robin Wood e Catilina, entre Mao Zedong e Claus von Stauffenberg, entre Anna Karenina e Lucrécia, há nuances mil: há Al Capone e Lampião, Guilherme Tell e o Rei Davi, Messalina e Madame Bovary — há pessoas e pessoas com suas circunstâncias e circunstâncias.
  22. O eco sempre superará a própria voz enquanto ela não for consciente, ou seja, enquanto ela não for usada com propósito. Abrir a boca ociosamente, sem negócio objetivo a tratar, é atitude típica de gente cuja personalidade individual em nada ou quase nada (senão em detalhes inferiores) se diferencia da indigência da multidão. O homem superior não fala à toa; ele diz com intenção missionária. Se Deus é Logos, a Palavra, tua imagem-e-semelhança deve se ordenar na ação à partir dEle: o logos espiritual controla o caos carnal e ambos se equilibram (cosmos) na alma. O uso da língua e, consequentemente, da linguagem, é o primeiro sinal de auto-domínio do homem sobre si mesmo e sobre sua vontade vocacionada atuante. Enquanto nossa consciência não produzir as palavras que decidirmos lançar no mundo (transformando-o, sob a Vontade Divina), palavrório inconsciente nos arremaçará contra o mundo (fortificando-o através de sua própria destruição, sob o desejo satânico), porquê o mundo é o próprio “reino dividido” e a divisão, antes de tudo babéica, se insurge polissêmica e espiritualmente contra Deus. Por isto, o Cristo exorta: “Mas eu lhes digo que, no dia do juízo, os homens haverão de dar conta de toda palavra inútil que tiverem falado.” (Mateus 12:36). Controla tua língua e o mundo não te controlará!
  23. A verdade (estado essencial das coisas) liberta, mas também se liberta: ou ela alforria o homem da mentira (contingência momentânea das coisas) e o submerge na realidade ou ela se desprende do homem e o expõe em sua mentira. Mas, este escândalo da exposição é também Graça divina. Por isso, quando a Escritura nos diz que tudo o que está oculto ou escondido virá à luz do dia, enfim, será revelado, ela simplesmente promete redenção: o que é deve ser conhecido absolutamente; e o que não é, reconhecido totalmente para que, logo em seguida, seja completamente esquecido. A verdade permanece. A mentira, desaparece. Deus e sua criação inifinita continuam eternamente. O diabo e sua transformação provisória cessam temporalmente. Todo este processo acontece e ocorre o tempo todo. Prestem atenção e perceberão o quanto conversas particulares e discursos públicos, em pequena e grande escala, se fazem e se desfazem e se compõem e se decompõem em idas e vindas de dados e informações que, de repente, confrontados entre si (na afronta dialética do ser contra seu ente), nos revelam a realidade das coisas — a verdade. A mentira cria uma tensão no âmago da coisa por ela negada que (latejando, palpitando e pulsando desde dentro) logo acumula uma força que irrompe poderosamente para fora. É o que dizem, complementarmente, estes dois provérbios caipiras: “A verdade existe, só se inventa a mentira” / “A verdade sempre vem à tona”. Apenas o que existe permanece evidente.
  24. Nunca ceda (crendo) à conversas idas e vindas sem emissor e receptor identificáveis, mas cuja mensagem é papo louco e perigoso. Nunca ceda (acreditando) à blá-blá-blá de lá e de cá cuja ação não tem causa[dor] aparente, mas cuja reação é efeito devastador. Quem conta um conto não só aumenta um ponto: quem conta um conto descontrola a própria contagem e perde as rédeas dos próprios pontos aumentados ou diminuídos. A perna da mentira às vezes é longa, mas é curta a faca que num zás-trás a amputa.
  25. Ontem fui a um e hoje fui a dois velórios. Guardei Eclesiastes 7:2 (“Melhor é ir à casa onde há luto…”) e recordei que sou pó. Só lhes posso dar este conselho: não vivam o hoje como se ele não pudesse terminar ainda hoje; não vivam como se não fossem morrer; não vivam por viver como se esta vida, através da morte, não levasse à uma nova vida ou à uma nova morte eternas. Brahms entendeu isto e compôs esta beleza, consoladora.
  26. Você se sente bobo e ingênuo diante da platéia fuxicadora? É incapaz de interpretar tudo com malícia e na base das segundas e terceiras intenções? Você ainda acredita em olho-no-olho, na Lei de Deus e na liberalidade de fazer as coisas apenas por amor? Fique feliz, por mais que seja incompreendido: você ainda tem uma alma para chamar de sua.
  27. Atira uma pedra aos pés do teu próximo e ela voltará, célere e robusta, como rocha sobre tua cabeça. Atira pedriscos nos olhos do teu próximo e eles voltarão, leves e afiados, como toneladas de areia soterrando todo o teu corpo. Recorda — antes de empunhar o seixo, antes de preparar o estilingue: “Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós.” (Mateus 7:2)
  28. A grande beleza da música medieval consiste em que cada composição é um todo formado de partes que são por si todos, que por sua vez são partes de outros todos até que a Parte indivisível finalmente se aconchegue no Todo uno. É música composta de células de harmonias em escala infinita, filigranada de eternidades, gradual e hierárquica como os coros angélicos.
  29. Cheguei à conclusão de que 99,9% das brigas entre casais por WhatsApp tem origem na interpretação enviesada do texto pela mulher. Vejam, senhoras e moças, que quase sempre vocês lêem a mensagem já grudando à cada palavra ali utilizada um suposto tom de voz e à cada frase ali usada um suposto estado emocional, ou seja, vocês lêem o que nós escrevemos supondo não só nossa voz dizendo o escrito (vocês lêem “ouvindo”), mas supondo sua exata tonalidade vocal e supondo toda uma carga psicológica e mesmo gestual conexa. Daí, se seus pensamentos estão/são positivos e favoráveis ou negativos e desfavoráveis em relação ao interlocutor, o fato é que o texto é imutavelmente o mesmo, ipsis litteris; mas suas conclusões acerca dele são absurda e absolutamente antagônicas, divergentes e contraditórias. Por isto, caros confrades, fica aqui o meu singelo conselho: escrevam descrevendo seu estado de espírito o máximo possível, usando e abusando de gifs, emojis, memes, repetição de letras e pontuação, etc. Elas vão lhes entender mais e melhor — sem ver grosseria, melosidade, ironia ou qualquer outro sentido (e condição psico-vocal) que não aquele desprendido pelo significado quase puro, estrito e dicionaresco da palavra que vocês utilizaram e usaram apenas para dizer o que ela apenas e tão somente quer dizer. A comunicação com as belas filhas de Eva é, anotem, muito mais sútil e complexa que a tradução de qualquer uma destas línguas proto-indo-iranianas que quebram a cabeça dos eruditos de Oxford! Espero ter ajudado. Boa noite.
  30. Entre o certo e o duvidoso, só é certa a dúvida. Cambalear na escolha entre possibilidades mais ou menos já julgadas é o suprassumo da indecisão. Evidência de que a segurança do certo não é tão segura e de que o duvidoso tem em si qualquer pilar de sustentação…
  31. Li alhures que as últimas palavras de Arnold Schönberg, o compositor, foram na verdade uma só e sólida e solitária palavra: “Harmonia”. Não, ele não contemplou a “harmonia das esferas”, numa inspiração pitagórica de gênio moribundo; não, suas cordas vocais não articularam, último estertor da língua!, variando sob o tema da alucinação, a palavra que mais e melhor define a essência mesma da arte musical; não, o artista não intuiu a forma e a fórmula suprema da linguagem musical — uma “lingua ignota”, no esteio daquela iluminação verbo-sonora alcançada pela Santa de Bingen. Tampouco aflorou seu ocultismo numerológico, coisa de judeu atavicamente cabalista obcecado por comparações e coincidências, tentando definir o destino final-e-inicial das coisas criadas no molde da Geometria Originária. Tenho para mim, porquê senti isto no âmago dos neurônios, que o velho se arrepiou em Deus e desatou seu último suspiro… harmônico!
  32. Aconselha com justiça e fervor próximos à ira, mas aconselha com o amor de um pai que é irmão: palmada dolorida mas didática de quem ama, como um bê-á-bá soletrado (em alta voz, ao pé do ouvido!) som a som em busca do significado mais profundo do verbo na língua de quem ainda está (por culpa própria!) aprendendo que detém o dom da fala — o dom de ser moral.
  33. Dá ao rato o queijo todo e vê se, faminto, ele consegue roer dos vinte quilos algumas gramas para além das beiradas! A ambição que dilata a íris dos olhos grandes não é capaz de alargar a boca e o estômago.
  34. Leva-me aos Teus mais altos montes, onde as águias se aninham em família, onde os anjos se assentam para confidências.
  35. Idealizadas, as coisas vão se tornando “pomos de ouro”, tão superiores mas tão abstratas e inalcançáveis. Quanta gente, bem intencionada (e por isto muito tola), enche a alma de sublimações acerca das decisões, pessoas e quereres da vida! Pensar por arquétipos, por modelos prontos, por padrões engessados que o intelecto falho desenvolveu impulsionado pela perfeição sentimental do coração, conduz à infertilidade existencial; conduz à insipiência e, então, à frustação. Então, olha-se para o mundo encurralando suas possibilidades concretas pela régua interior, pela foice das idéias castradoras, como se o que se carrega desenhado na mente pudesse moldar a realidade independente dela mesma. Platonismo infantil! Manter concepções elevadas importa quando elas são orientadoras e transformadoras das coisas, mesmo que leve, poucamente; porém, quando os ideais impedem a fruição da vida porquê não se coadunam com as coisas, eles são instrumentos do Mal, afinal, se neles e por eles é inalcançável a Felicidade e o Bem, como justificá-los e quere-los e ansiá-los?
  36. Quando deixamos de ver na mulher um enigma e no olhar um mistério, quando o sorriso dela abandonou o contorno sútil do imediatamente indecifrável e o olhar brilhante mas obscuro tornou-se tão óbvio quando a volição relampejante da córnea duma hiena no cio, nós nos tornamos animais. Trocado o perfume pelo feromônio e o amor pela carnalidade, tudo é possível: e tudo é só “tiro, porrada e bomba.”

Tríduo da Segunda-Feira

I. A melancolia e o cheiro das pedras, estes minerais cinzas da cor das nuvens pouco antes da chuva, cobriram de neblina o jardim. O muito esforço da menina tinha enchido de tulipas alaranjadas, de camélias brancas e de rosas vermelho-sangue os pouco mais de dez metros de terra que lhe correspondiam sob o muro. Mas a cerração caiu fria e lentamente sobre a terra até que, dois dias depois, a geada tinha transformado aquele colorido num cemitério de caules retorcidos e pétalas queimadas. Talvez esta fosse a descrição ideal, mais bem narrada, do que foi todo o período de luto. Bastou trocar a roupa preta pelas que haviam sido deixadas no guarda-roupa desde a manhã do enterro para que, sem que ninguém revolvesse o solo ou nele jogasse qualquer adubo, as flores brotassem à partir do pedaço de chão onde por acaso pousara o lenço ainda úmido com a última lágrima.

II. Na penúltima página do livro ficou guardada a primeira flor, cor de cereja, odor de lírio. Como última lembrança da tarde fresca, de sombra rajada sob o zimbro azul. No ar o sândalo e o café, o limão e a baunilha, no doce de comer, no doce de cheirar. A toalha listrada de xadrez: tu aqui e eu aí, partida de duas peças, jogo de dois oponentes, entre blefes e poesia, entre confissões e ira. A penúltima palavra antes de “fim”, que é a última: “sonho”. O travesseiro me engana? Não há farol entre o nevoeiro? Na primeira prateleira, no primeiro lugar aberto, o livro dorme seu sono e eu deliro inquieto. E escrevo a primeira página, a primeira estrofe e a primeira frase, a primeira palavra e a primeira letra. Nas eiras da história, nas beiras da memória, teu rosto fresco, lavado. Mel com vinho e queijo, o céu sobre o Minho, o verso sem rima aparente, a música e a grama verde. Um e dois parágrafos, copos cheios e pratos limpos. Retiro a flor. Apegada a cada pétala uma, outra palavra ficou. No bem-me-quer uns verbos, no mal-me-quer uns substantivos. Na haste, cor de pó de jade, em caractere romano, um pronome: “tua”.

III. Quando ela ficava feliz, sua felicidade não era tão aberta como uma tarde de sol, brilhante em cada aspecto, iluminada em cada espaço, uma felicidade de passarinhos piando sobre fontes de água fresca e cristalina, e de flores desabrochando a cada passo no caminho. Aquela felicidade semeada de pequenas sombras, adornada de meios-tons crescentes e decrescentes na luz, no canto dos pássaros e também das aves noturnas, nas flores de perfume leve e também inodoro ou muito exagerado. A felicidade dela era aquela felicidade do Concerto de Aranjuez: uma alma castelhana, equilibrada mas de profundo melancólica, dedilhando caprichos árabes duma felicidade tão feliz, e por isto tão distante, que suavemente se alternava entre a melodia grave e longa e a melodia aguda e curta, até que sobrava o violão quase solitário, um violão taciturno, carregando a orquestra pela harmonia. Quando ela ficava feliz era noite, e a noite se iluminava não porquê a lua refletia as últimas fagulhas do sol, mas porquê, de tanto ser iluminada, a lua ganhara qualquer reserva infinita de luz, luz que se fazia própria.

Dois bilhetes dispersos a mim mesmo

I. É como ouvir um oboé tocando solitário uma qualquer melodia de taverna irlandesa, é como dos passos da bailarina soarem os trovões dum órgão de catedral gótica. Quem já mediu a temperatura duma lágrima recém-saída dos olhos daquela mulher, no instante entre a queda que vai do canalzinho no canto do globo ocular até o ponto que na face consegue sustentar o líquido, sem alterá-lo no sentimento, no calor e mesmo no ph ao contato da pele? É como ela cantando, duma campina distante e próxima, o “Baïlèro” de Canteloube; é como se, ainda que da cor da aurora presta, as maçãs amadurecerem sem antes o outono folhar a superfície do rio. Ninguém, de certo, jamais mediu a precisa porção de joules que aqueles olhos castanho-raiz entornam toda vez que resolvem meditar. O termômetro, o único termômetro, é teu coração.

II. Tu és estátua que fazes a ti mesma. Nesta dialética de movimento que faz a inamovibilidade, neste dinamismo que organicamente assenta e fixa, tu te esculpes. Mas podes sair deste trabalho obra-prima ou monturo de pedra com feições algo humanas: se te esculpes sozinho, mal se vendo e percebendo (porquê, recorda, o homem que esculpe é o homem que é esculpido), sem espelho sequer, tu pouco ou muito cortarás na lapidação e nenhuma harmonia conjunta surgirá; porém, se deixas que Deus conduza tuas mãos, confiando, cada aresta aparada dará forma à uma beleza superior. Por mais que no início nada vejas, quando as linhas se interligarem em suavidade e perfeita geometria, um qualquer espelho embaçado brotará do teu coração e, de olhos fechados e de íris cerradas, contemplarás o Senhor dizendo-te não aquele “parla, parla!” de Michelangelo nem aqueles versos homéricos que balbuciava Rodin aos ouvidos de suas estátuas; ouvirás, voz forte de brisa serena como se lua e sol compartilhassem o mesmo céu, aquele brado — “vive!”— que ouviu Adão.

Confissões — II

Quanto mais observas teu passos, mais percebes a deformidade dos teus pés. E na incoerência mínima das pisadas formando os passos no caminho, tantinho à direita e tantinho à esquerda, depois de tempo mais demorado, do Caminho chegas aos caminhos laterais e finalmente aos muitos e tortuosos atalhos; e então te perdes. Mas, porquê estás atento ao movimento que a mente ordena às pernas e aos pés, tu de pronto retornas à trilha radicular e dela sobes à senda colateral e, então, galgas outra vez o reto Caminho. Observa teus passos e vê como a terra eles marcam, como teus dedos sulcam rastros, como tu e tu mesmo imprime a força do corpo e do espírito sobre o solo. As falhas da anatomia da alma, pespegadas ao corpo, são para ti um mapa das rotas da existência. Se queres viver para além de falanges e metatarsos te obrigando a percorrer a corrida dos desejos, submete teus pés pela vontade, assente na maratona que se caminha toda a vida.

As incoerências que pairam disfarçadas sobre o coração, faiscando e atraindo sobre ele miragens reativas ou inertes, ou mesmo as incoerências mais profundas, e por isto mais próximas, que densamente repousam no baixo subsolo da alma… As incoerências são como aquelas linhas paralelas que os matemáticos mitólogos ou mitômanos sempre nos disseram não se encontrarem no infinito, mas que se cruzam, em algum momento, quando Deus o decreta, para unir as disparidades e contradições da biografia e reatá-las no fim almejado: a Eternidade.

Confesso, Senhor: deformado que sou, forma-me na tua forma — tuas mãos de oleiro darão à minha carne a contingência da alma; deformado, dá-me a forma da perfeição que aos santos é dada atingir ainda em corpo. Confesso, Senhor: incoerente que sou, tanto careço da tua linha de costurador de tecidos contrastáveis, de linhas mais finas e grossas, de toque macio e grosseiro; incoerente, faz que os ponteiros do relógio que correm nas horas pela direita, nos minutos pela esquerda e que nos segundos pulsam para o alto, conciliem-me no tempo para o tempo-que-não-se-conta. Deus meu, tece a tapeçaria de minha vida não pelo fiar inconsequente das moiras nem pelo fazer e desfazer das mãos amorosas mas humanas de Penélope: tece-me entre os fios coloridos da carne e os fios alvos da luz do espírito para que, ao cabo, eu te seja uma túnica inconsútil.

Tríduo da Quinta-Feira

I. Se a sede é pouca, dão-te um garrafão de cinco litros e exigem que o bebas num gole. Se a sede é muita, ministram-te uma gota d’água num conta-gotas, esperando que a engulas vagarosamente e que ainda a sintas percorrendo todo o caminho que vai da língua à boca do estômago. Este mundo é louco, bella fantina! É louco não na acepção brincalhona da palavra, aquela que nos fala de pinéis, juqueris e piadas conexas à camisas-de-força. É louco como Satã mesmo é louco: em seu íntimo o grão-demônio domina a verdade, mas ela é tão desproporcional nele quanto essa desconformidade entre sede e água. Cristo parece-te desproporcional quando do poço tu retiras no balde capaz quantidade para encher teu cantil, e Ele ainda te vem falar que essa água, suficiente para hidratar saudavelmente teu corpo, ainda te causará sede? E, mais ainda, julgas louco o Mestre quando diz ele que do teu interior fluirão rios de água viva? Ele, insano, que ainda ontem nos dizia que Seu reino não é deste mundo? A alegoria equilibra os pesos e medidas das coisas visíveis e invisíveis.

II. No meio do caminho, começo e fim se unem não pela pedra no meio do caminho, mas por mim mesmo admirando a pedra. Se estou no meio do caminho e vou daqui para aí e se tu estás no meio do caminho e vens daí para cá, teus pés e os meus pés estão juntos. Ora, gostas também de por demoradamente os olhos nas pedras. Estamos cá juntos no meio do caminho. Então, não há mais passos para serem caminhados. O caminho acaba aqui, neste milímetro entre pés descalços, que separa o meu dedão do teu dedinho. Esta pedra, moça, é mais que pedra: é rocha. Eu posso querer esculpi-la, porquê sou metido a artista e tu mereces uma estátua que no mineral faça um pouco mais permanente teu sorriso; tu podes querer implodi-la, porquê preferes fazer areia na beirada deste mar de nossos sonhos azuis. Então… Faz tua areia, faz, porquê este caminho converge com a eternidade e melhor me é passar o tempo todo que foi, é e será olhando para teu sorriso de anjo arrepiado que recordando, na pele de pedra duma Eva inanimada, estes lábios que na carne e no osso me encantam a alma!

III. Esta perambulação de “amor” em “amor” que é senão corrida, quase maratona!, numa gangorra, de paixão em paixão? Patologia do coração. Loucura sem cura, sandice, folia da anomia, esquizóidice. É como se um demônio, um fauno maligno, dançasse polca no útero das fêmeas. É como se fadas, salamandras do mal, mergulhassem nos bolsões dos machos. Os adjetivos masculino e feminino são, respectivamente, coisas de homens e mulheres; coisas de quem ama — amor apegado às sinapses. Na razão sentimental não há vagar errante no amor, com subidas e descidas tão altas e tão profundas num ziguezague de loucura vertical entre céu e inferno. Caminha-se, pois, naquele caminho estreito do qual Cristo falou. Mas que bonito caminho! Apertado, mas retilineamente avante, frondoso e harmônico na mistura de minerais para os quatro pés, vegetais para os quatros olhos e animais para uma só companhia (dois, um para o outro, são sempre um).

Trecho das “Baladas para a Dama das Sete Estrelas”

CANTO XII

E o tempo parou, e a pupila se abriu para o último raio de sol do Levante, entre a areia que o vento trazia e o subir do véu. Vem, vem aqui, sobre o monte mais alto, sobre a torre mais forte. Daqui verás o lugar que para nós dois conquistarei nos quadros, daqui ouvirás as canções e os poemas que deste dia farão seu recordo. Se o pergaminho se queimar e ainda da tela a tinta se despregar, um anjo e sua talhadeira escreverão diante de Sião os versos do meu e do teu coração. Que ressoe a fanfarria e que os tamborins marquem o tempo das flechas, mas que este nosso silêncio seja mais ouvido que qualquer clarim de prata e que esta pulsação acelerada mais se ouça que um hino marcial. O luar já vem subindo e o olhar com ele vai cedendo. O elmo levanto quando já a brisa devolveu às dunas cada grão-de-areia e a ampulheta faz o trabalho que o astro-rei há meia hora deixou de obrar. O tempo está parando. Não o sentes fugindo, suspenso outra vez no olhar recíproco e cândido? Se as dançarinas dançarem apenas sob o desejo de dançar e os soldados sem soldo lutarem, e se o ofício der lugar à vocação e a rotina diária for pelo prazer repetitivo vencida, o tempo, o tempo aqui neste monte, o tempo aqui nesta torre, terá neste leito a única fresta capaz de lhe revelar a eternidade.

Confissões — I

Talvez o grande chamado fosse despertar e dormir sob o canto do galo. Talvez lavrar alguns hectares de terra boa e roxa e criar os filhos ao lado do celeiro onde os patos, as vacas, os porcos e os cães têm suas ninhadas. Arar a terra úmida e ao fim da tarde bater a poeira das botas e do chapéu. Comer o guisado e beber o vinho como um fazendeiro micênico que passou sua vida desconhecendo Tróia e seus heróis. Talvez o grande chamado fosse contar coisas bonitas, causos da roça, para a amada, sem cantá-las em versos hexâmetros. Talvez ter calos nas mãos e não curvaturas mais robustas no cérebro fosse o ideal e esquecer os pergaminhos antigos e os livros modernos aquecesse mais o coração. Talvez nunca compor poemas, mas ter no peito a mesma chama que inspirou o soneto barroco de Camões e até aquela cançãozinha agourenta de Henrique VIII: porquê o “fogo que arde sem se ver” reduziria às cinzas as “mangas verdes”. Talvez ouvir a respiração dela e só, e mais nada neste mundo, fosse suficiente para esta alma que ainda hoje quer por os ouvidos nas composições dos gênios. Talvez o sabiá a ajudasse, e o bem-te-vi e o pintassilgo, e a coruja. Amar ela e só ela sem outra beleza a tentar, sem outra paixão flertando com carências despistadas, sem qualquer outro olhar com que sonhar quando uma viagem precisasse ser feita. Talvez o grande chamado fosse confiar no produto da terra, tão próxima do chão da casa larga com filhos fortes e sadios quanto a limpeza asséptica com sua química está apegada ao berço imunizado dos bebês filhos únicos. Talvez, então, o grande problema filosófico não fosse Deus e o nosso eu e o quê é a verdade, mas tudo se resumiria à certeza de que, um dia após o outro, quando o relógio batesse o primeiro segundo da vigésima-quinta hora, tudo estaria consumado na Eternidade. Talvez o grande chamado fosse uma caneca de café forte pela manhã e uma botija de água fresca da moringa para a tarde e uns goles de vinho doce à noite, e não estes líquidos açucarados que passam direto por sol e lua, por sangue e pâncreas. Dormir na rede, pescar no riozinho fino no fundo do sítio, comemorar as datas santas e os aniversários e os batizados e os casamentos, comer feijão e torresmo do fogão à lenha, passar manteiga saída da vaca que mugiu na noite em que o primeiro filho nosso nasceu, passear descalço no meio da plantação, cavalgar pelo campo feito um homem livre. A vida seria pastoral sem saber o quanto esta palavra, aparentemente bonita e jovial, comoveu poetas, pintores e músicos tão enervados com suas cidades… Talvez o grande chamado fosse acordar e sonhar sob o canto da vida.

Esponjas de sol — XXXIX

  1. O sentido se reveste do véu invisível da aparência verdadeira, como a brancura etérea segue ao colorido no dente-de-leão e nas fotografias antigas. Acaso pensas que o amarelo enrubescente e as cores quaisquer no papel revelam-te a realidade última e profunda do vegetal e do retrato? Para o branco que ascende ao céu quando o vento sopra e para o branco que emerge da natureza celulósica da folha (como um prisma inverso, reunificador das suas tintas), desliza aquilo que é eterno naquilo que se vê. Também por isto os velhos ficam com os cabelos brancos: o corpo está deslizando em direção ao espírito. As coisas vão, cada vez mais, se parecendo com luz.
  2. O tempo não é linear.
  3. Usa a palavra sem usura, como tecido sem costura, como conselho que cura.
  4. O divino 1-QUE-É-3, desde o princípio da Criação se faz acompanhar pelo 12 humano. Deus e seu relacionamento individual e coletivo com seus comissionados. O Triângulo, ao gerar imagens e semelhanças geometricamente refletidas ao seu [r]estrito redor, gera doze triângulos.
  5. Distância, às vezes, só aumenta a ânsia. Por que de longe desperta o coração quando de perto adormece a paixão? O dia-a-dia relaxa apenas o já lasso, mas aperta e tensiona quando é demorado o contato. Manter na rotina a afeição sentida na extensa espera é a pedra de toque da verdadeira relação. Ao lado, um minuto que dura uma era? Hormônio desarmônico é. Colado, horas a fio que passam num instante? Alma em harmonia é.
  6. Toda ação é uma reação, perpetuada numa descendência infinita, à Primeira Ação.
  7. Tu te perguntas: e o que poderia ter sido se então eu tivesse dito o sim ao invés do não? Seria outra a vida ou mesmo a disposição do universo? As coisas e seus passos teriam se encaminhado por linhas mais retas que estas que hoje, enviesado pelo contexto que te julga, supões tortas? As planícies teriam alçado pés até tocar os planaltos? Subjugados os planaltos e os picos e depois os topos superiores das montanhas, seria talvez o céu mais próximo ou suas cores mais vibrantes que daí do solo nu? Tua voz teria outro tom e as coisas que hoje dizes seriam ditas neste tom? Como seria teu dia de hoje se o caminho escolhido tivesse sido o outro e não este de cujas pedras reclamas? Como seria tua existência se as circunstâncias que acolhestes tivessem no teu espírito encontrado a devida e antagônica resolução contrária? Por que te perguntas, afinal, se até este perguntar altera a essência mesma do espírito que o gera, mudando e variando a alternativa como num radial labirinto infinito? Se tivesses escolhido Beatriz e não Helena. Se tivesses ido visitar tua avó e não caminhar pelas trilhas. Se tivesses lido Petrarca e não Proust. Se tivesses comido amendoins salgados e não amendoins doces. Se tivesses aguentado o primeiro semestre, persistindo na faculdade de Medicina. Se tivesses desenhado mais retratos e menos paisagens. Se tivesses isto, se tivesses aquilo, se tivesses… oh sacra merda da inquietação que é supor! Eu te respondo: nada teria sido, porque o ser das coisas ditas e não ditas se conjugam para o mesmo destino.
  8. Aquilo que começa mal, termina mal. Se o início foi errado, o fim será errado. Se principiou no engano, seu termo será no engano. A origem é pecaminosa? O destino também o será, necessariamente. O efeito da causa ruim será sempre ruim e a reação da ação funesta será sempre funesta. Maquiavelismos do tipo “os fins justificam os meios” não existem senão na retórica sedutora do diabo. E tem de ser assim, porquê Ele, além de instituidor da Lei da Semeadura, é também Alfa e Ômega — Princípio e Fim como Palavra e Primeiro e Derradeiro como Pessoa: todo o dito age, da partida à chegada; o plantar, o regar e o ceifar necessariamente constituem-se no processo de labor pessoal pelo qual se dilata, se extrai e se revela a espécie da semente escolhida.
  9. Neste mundo digital-e-online infernalmente “celularizado”, indício de amor é salvar a foto e mandá-la ao estúdio para ser revelada e colocada num porta-retratos à moda antiga. Nesta seara etérea dos pixels, concretizar uma imagem em papel-fotográfico e enquadrá-la em vidro e madeira esculpida é ato sentimental revolucionário.
  10. Cada dia, para cada pessoa, tem sua melodia. Cada dia é uma música: é um período de 24 horas dominado por uma canção, por um hino, por um estribilho, por uma composição — por uma personalidade musicalmente específica que lhe revela o tom. Ontem foi o Adagietto da 5a Sinfonia de Mahler, hoje foi uma gaita sussurrando um country incerto e melancólico na companhia dum banjo amuado, amanhã poderá ser o dia dum samba do Noel Rosa, dum clarim barroco italiano, dos sinos espelhados de Arvo Pärt ou mesmo dum assovio improvisado. Se você é chegado em música, em boa música, faça o teste: a música que teu espírito quiser escutar (a cada dia com seus ontens, hojes e amanhãs) estará calibrada nele próprio. Cada pessoa, para cada dia, tem sua melodia.
  11. Se eu fosse outra vez menino, criança com meus dez anos e meus cinco sonhos (um castelo nas terras altas da Escócia, uma armadura igual a do imperador Maximiliano, uma namorada como Rebeca de York ou Bárbara Radziwill, a coleção completa das moedas romanas e o Prêmio Nobel de Literatura — sim, eu era uma criança “esquisita”), trataria de me escrever cartas, admoestações sinceríssimas, mandando-me manter cada um destes sonhos infantis com as devidas e necessárias adaptações à Realidade. A gente fica adulto e o castelo torna-se um apartamento caro e apertado, a armadura o sistema de segurança e as aulas de krav-magá, a namorada a moça ou gostosa por fora ou gostosa por dentro (onde, se possível, o meio-termo do “jugo igual”?), a numismática é substituída pelo colecionismo de extratos bancários e a honraria da Academia Sueca se contenta com estes textinhos bocós cá no Facebook. O negócio, o ponto da curva do nó, é este: no dia-a-dia, sê castelão do teu próprio espírito fortificado sobre outonos infindos; cavaleiro nas justas que a rotina arroja contra teu escudo; enamorado de boas-moças-boas; colecionador de curtos mas contínuos períodos de tempo bem cunhado; escritor de pequenas e até voláteis palavras, mas capazes de despertar o fons honorum, os elogios, dos teus amigos.
  12. Faze as contas contigo mesmo, de agora em diante até o último dia em que possas raciocinar acerca do teu eu: perceberás que, mesmo evoluindo (seguida e gradualmente ou aos trancos e barrancos), mesmo avançando nas melhorias que cada recôndito do teu ser carece, ainda assim serás um tolo consumado. A tolice é a condição humana por excelência: ela apanha o iníquo e o santo, ela acompanha o erudito e o analfabeto, ela está pespegada na alma mais lívia e no espírito mais tenebroso, ela balança o berço e sacode a maca hospitalar. “Ai de mim!”, escreveria hoje em dia o profeta, “porquê sou um homem tolo e habito no meio de um povo tolo”. Que é ser tolo? É ser incompleto nas ações e no entendimento delas. Mas a tolice do homem bom, apesar do desajeito, é sempre alegre e dotada de certas profundidades: sua incompletude o faz bem-humorado, palhaçal, risonho como aquelas crianças das pinturas de Frans Hals. O homem mau, porém, de sua tolice arranca perversidade. Escárnio e barbárie o acompanham, como lepra: ele é incompleto no significado, no sentido, no “way of life”; por isto, sua tolice julga mal e faz mal desde sua abissal rasidão. Irmãos, da tolice homem algum escapará. Então: sede tolos, mas sede santos!
  13. As conversas que temos frequentemente acobertam ou desnudam as coisas, sobretudo nossos problemas mais problemáticos. Conversamos com alguém frouxo e superficial, e é como se um véu, um anestésico véu espesso, caísse sobre o fato, coberto por uma grossa mas quase invisível camada de nada, um nada que traz a amenidade da despersonalização, um nada neutral cobridor que extingue no ninho da nossa volição toda a possibilidade de ação e reação, um apaziguamento falso, alienante, embotador. Conversamos com uma pessoa “sangue nos olhos” e a ira cai sobre nós — emerge cruentamente do núcleo do ser, respinga fogo no ambiente e nos inflama a tal ponto que revivemos no presente todo o fato passado, reinterpretando-o coléricamente; então, saímos à guerra, marchando para a vingança. Por isto, diante de questões sérias geradas por fatos sérios que exigem soluções sérias, converse com Deus: só Ele nos amenizará na realidade para a paz ou nos fortalecerá na realidade para a guerra.
  14. Há dois meses não consigo escrever um único verso. Poema nenhum de poesia nenhuma. Por que? Porquê o coração é quem verseja. Coração oco só produz falso silêncio e eco barulhento. O cérebro por si é mudo e analfabeto quando lhe mandam trovar solitário, sem o sangue inflamado do órgão que pulsa a vida mais crua. Nada de palavras bonitas e musicais com rimas, ritmo e sonoridade espiritual. Nada. A prosa prossegue como dantes — vigorosa, bem “almada” e até apegada aos mesmos componentes líricos e psicológicos da poesia. Mas… poesia, mas a poesia não consegue aqui em mim parir sequer um “batatinha quando nasce espalha a rama pelo chão.” Nem mesmo a mediocridade dos versos tolos, infantis e despropositados me ocorre. Há dois meses… Calhou d’eu ler, agora de pouco, esta frase de Benetti, o grande poeta uruguayo: “Si el corazón se aburre de querer, para qué sirve?”
  15. Viver um dia após o outro, num movimento existencial indefinidamente cíclico, é uma espécie de pena infernal. Uma vida sem tesão diário, que não sinta a tensão por cada pedacinho de tempo passando e que aí não perceba com atenção o que vem a médio e longo prazo, é um tormento digno dos círculos demoníacos. Não suponho nada mais infeliz que a rotina entediante de quem usa suas 24 horas apenas para mastigar sem se deliciar, dormir sem sonhar, transar sem amar e defecar sem filosofar (porquê um homem decente é, ao menos quanto à pose pensativa à Rodin, um filósofo sobre a privada). Viver o dia como se ele fosse o último; como se dele dependesse a salvação de toda a Criação; como se Cristo, e não Horácio e depois os epicuristas, tivesse dito o “Carpe Diem”: é nisto que eu acredito.
  16. Foge do olhar que foge. Olho no olho — íris contra íris — continua sendo a melhor peneira para separar trigo de pedrisco. Tudo está lá, entre um globo ocular e outro, na tensão que desvia e na serenidade que encara, na culpa que se nega à fixação da alma na córnea e na inocência que ultrapassa a carne da órbita e chega ao espírito. Tudo está no olhar. Eu gosto de gente que escoa suavemente tudo o que é e que sente pelos olhos, como uma libação do melhor vinho à Divindade. Quanto aos maus, mentirosos, por mais que eles se esforcem para segurar o fluxo, seus olhos vazam como esgoto a céu aberto.
  17. É preciso que ames o complexo e seus detalhes, que te afeições às filigranas, às minúcias e aos pormenores caso desejes passar a vida ao lado duma mulher. Exercita-te no desenho das iluminuras e dos arabescos e também das caligrafias, no estudo das formas geométricas dos cristais de neve e do gótico das catedrais, no exercício pneumológico de respirar e inspirar com mais e menos ar em mais e menos tempo, no cuidado com a quantidade de sal e açúcar e de temperos ao cozer para variados paladares, no preparo das tintas da paleta à imagem das cores no universo, na atenção ao volume que acompanha o subir e o descer das notas musicais nos motetos barrocos, na força gradual empregada no martelo para se chegar a tal e qual espessura segundo a espécie do metal, no sentir a variação de umidade no ar conforme a temperatura e a estação… Exercita-te na polivalência das proporções da Criação do Senhor. E é preciso que ames estas coisas com pura simplicidade: então, sendo simples ao amar (ao amar com este amor bem adestrado no complexo), num relance distinguirás na mulher as finíssimas variações de humor, as quase imperceptíveis alterações no tom de voz, as etéreas mudanças na expressão que do coração e da mente vão à pele da face, as modificações quase inaparentes na cor do cabelo, enfim, serás capaz de nela amar as “variazioni sullo stesso tema”. Perceberás aquilo que ela quer que percebas que nela é passageiro, para que sejas capaz de conhecer aquilo que nela é permanente. Exercita-te na visão, na audição, no gosto, no toque e na fala desta fina e elegante ourivesaria das coisas sutis, porquê elas te darão a dourada e prateada chave capaz de abrir-te, um a um, os segredos do coração daquela tua amante filha de Eva.
  18. Tu pagarás o preço. O preço alto, o preço caro, o preço doído da inautenticidade, do escambo do momento atraente mas frágil pelo resto de tua vida e, pior!, pela poderosa eternidade. Não quisestes ouvir a razão do melhor sentimento? Pagarás o preço. Mentistes por dó ou velhacaria? Chamar-te-ão, nos céus e na terra, de mentiroso. Casastes sem amor? Teu desejo não será para tua aliança e teu coração palpitará a todo instante ansioso em pecar. Folheaste os livros entre bocejos e indolência? Tua inteligência atrofiada terá sua paga no holerite. Destes teus melhores anos à frivolidade noturna? Tuas vazias tardes de velhice sofrerão de insônia. Comestes muito ou pouco? Teu corpo seboso ou esquelético mal se nutrirá de fármacos. Para tudo e em tudo, nas ações e reações em ti e por ti cometidas, um preço será cobrado. Agirás? Recorda, então, que cada um de teus feitos é uma nota promissória, sobre a qual um anjo carimba “Lasciate ogni speranza voi che entrate” / “Deixai toda esperança vós que entrais.” Tu pagarás o preço.
  19. O mundo é imundo, e mudo. Tudo nele é oco e vacuoso, sem sabor nem paladar, sem graça nem humor, entendiante como a contagem duma dízima periódica, sujo como a ramela dos olhos de um porco velho e cansado. É desordem de rumos sem direções definidas, sem caminhos objetivos, sem horizontes capazes de nos dar sequer o prazer retilíneo de um pôr-do-sol silencioso em si mesmo. É caos. Mas o amor é uma espécie de bomba nuclear que, ao invés de pulverizar e tudo destruir até o limite das beiradas do átomo, ao inverso faz o seu trabalho: é uma bomba que constrói do nada, que organiza do zero, que engendra do vazio, que cria do inexistente. É explosão de logos. O mundo, então, passa a ter gosto, passa a ter ânimo, passa a estimular o eu até que, de repente, o estômago gostosamente dói de tanto gargalhar. No amor, o mundo fica sendo digno dos dois últimos versos daquela canção: “Yes, I think to myself / What a wonderful world.”
  20. Caráteres fracos se reúnem, em coleguismo, quando descobrem abruptamente antipatias que lhe são afins: desgostam e odeiam as mesmas coisas e pessoas. São como aquelas agitadas moscas varejeiras que zumbem ao redor do mesmo monte de estrume. Caráteres fortes se unem, em amizade, quando simpatias que lhe são afins são lentamente descobertas: gostam e amam as mesmas coisas e pessoas. São como aquelas andorinhas que cantam ao redor da mesma fonte de água. Idem velle, idem nolle.
  21. Ter dois pães numa mesa, um para cada um, não faz uma comunhão através do alimento; faz apenas uma reunião de fomes individuais. Homem e mulher reunidos corporalmente por uma certidão civil não fazem um casamento; fazem apenas um concerto de interesses patrimonialmente atendidos. Não se deve dividir o “pão nosso”, um diante do outro, se o objetivo é apenas a nutrição física do organismo. Não se deve unir “numa só carne”, um no outro, se o alvo é tão somente a satisfação orgânica do físico. Sem o suporte do coração, não há mesa e cama que valham a pena.
  22. Não te preocupes com a vergonha, que é pública e por isto nada é senão a opinião desintegrada e parcial que vem de fora. Preocupa-te, antes, com a culpa, que é julgadora íntima e por isto tudo discerne quando unida à tua consciência. Não te envergonhes senão quanto o teu próprio dedo, direcionado desde dentro, te apontar a falha, o erro, o pecado. A superfície da poça da reputação é o habitat natural dos mosquitos (e quantos eles são ao nosso redor!), atores no frenesi mais agitado e infértil da existência biológica. A profundidade do oceano do caráter é a morada dos grandes, autores de legados duradouros mesmo quando mediocremente escondidos na calmaria duma vida anônima (mas quão fecunda e produtiva!). Quanto vale tua alma? Vale o silêncio da santidade modesta que só Deus, Senhor de Todos os Eus, conhece; porquê só Ele conhece as batalhas que diariamente travamos contra nós mesmos na luta pela Alegria que não tem fim. Quanto vale teu espírito? Vale a quietude da inocência tão odiada pelo mundo, quando ele cochicha de ti como outrora cochichou de José: “Eis lá vem o sonhador-mor!”
  23. Problema sério da nossa psiquê associada ao nosso ego: projetar interpretações positivas e/ou negativas (conforme nosso querer íntimo) nas ações e reações alheias. Tentar observar as coisas como elas são — a realidade dura e nua e crua — é um exercício diário no qual devemos nos esmerar por dois motivos, sobretudo: (I) para não nos enganarmos a nós mesmos e, conseqüentemente, (II) para não enganarmos os outros. Olhar para as pessoas a partir do que esperamos delas é erro perigoso, que frustra e desespera. António Machado, o poeta, já ensinava: “Peor que ver la realidad negra, es el no verla.”
  24. O homem deve se comportar como advogado de sua mulher, deve agir como seu defensor contra o mundo acusador, contra a multidão maldosa de dedo e língua em riste. É este o papel masculino e varonil, mesmo que ela esteja errada na “briga”. E estando, discuta seriamente com ela em privado, entre quatro grossas paredes; mas nunca, em hipótese alguma, a censure (a favor de tudo e a favor de todos) em público. Se você não age assim, tu é um castrado bem frouxildo e não passa dum bunda-mole mais preocupado em manter uma suposta coerência com os de fora em detrimento daquela que, contigo, é uma só carne. Não cacareje de cabeça baixa diante da turba que não trata bem aquela que te ama. Seja um leão e vá pra cima, ô seu mané!
  25. Quanto à interpretação de sonhos, José está para Freud assim como Daniel está para Jung.

Aquella dolçor amarga

Aquilo que contemplas te completa.
Onde passas tempo está teu templo.
Se os meus olhos não te escapam
E se contigo minhas horas voam…

Alta mirada de fecunda jornada,
Altar mais alto donde jorra alma:
O mapa do mundo recosturado;
Coração calmo, canta meu salmo!

Como é cedo e como é tarde agora…
Preenchido o vazio, foste embora?
A sombra abandonou já o relógio

E do mosaico caiu o vidro dourado.
Um suspiro oculto que só anjo ouviu,
Raio bruto que outro buraco pariu.

Uns olhos

Uns olhos redondos, da cor da jabuticaba depois que acaba de perder o verde, firmes e doces como os favos de mel que as abelhas negras produzem no Himalaia. Uns olhos profundos e turbados, fundos como o lago do conto de Avalon e turbados como as águas purificadoras do Jordão. Uns olhos que olham para o alto mais que para baixo e para o horizonte. Olhos em que qualquer coisa de místico e niilista se fundem na crença do nada e na descrença do tudo. Uns olhos que arrastam anjos à perdição e demônios à santidade. Uns olhos vastos para uns e limitados para outros: os olhos da esfinge, os olhos da coruja de Atena, os olhos da chama do caldeirão e do relâmpago da primavera. Uns olhos imaginando galáxias nas poças d’água, fiando tapeçarias infindáveis, desvendando os enigmas dos magos antigos, caçando os bois de Gérion. Uns olhos onde um filho de Adão se perde para se encontrar.

Três trechos destes três dias

I. Eu me decepcionei com sua beleza como quando, menino de sete anos, pela primeira vez enxerguei uma borboleta imperial sugando as fezes de um cachorro lá da rua. Escândalo metafísico para uma alma toda tola e ingênua como a minha. Será que até mesmo este inseto naturalmente belo e colorido fora afetado pelo pecado original? Certo que meu bairro não era o Éden, mas me acostumei com a imagem constante de apenas vê-las no roseiral. Mas, e tu? Estranho, porém, era que eu te supunha como uma destas borboletas: pura, inocente, cândida. Então, eu te vi. Eu vi.

II. Anotei na última página limpa do caderninho estes versos, que nunca entreguei para o meu e o teu bem: “Sinto teus passos cambaleando, / Certos e incertos: teu pensamento. / E como a água fresca ardendo, / Ardendo na língua febril ao vento. / No íntimo do véu sob o peito, / Enclausuras meu nome ao relento. / E eu, neste espírito recôndito, / Custodio tua memória escrevendo.”

III. Deus também me deixou vê-lo na fresta dum penhasco. A fresta foi um sonho e o penhasco a consciência quando acordado. O sono foi pesado, mesmo depois de ter jantado macarrão e vinho como se meu estômago fosse o de um mamute. Foi na madrugada e na tarde duma sexta-feira, respectivamente. Sonhei que num tribunal um crucifixo caia sobre a cabeça do juiz e o feria de morte. Desperto, fui depois assistir à uma audiência criminal. Num bate-boca com o advogado, a maldita expressão soou do Bouche de la Loi: “Porco dio!” À noite, dirigindo seu carro de volta para casa, noutra cidade, o magistrado bateu de frente com uma estátua do Cristo Redentor instalada na rotatória principal da rodovia. Morreu…

Carta e trecho final do conto “Os Pequenos Sinos”

Bella:

À tua alma só anseio dizer meus nadas. Porque se me perguntas como andam as coisas, só me recordo das ausências das coisas, como o fato do sabor do queijo muito dever aos seus buracos, essas cavernas onde uma substância primordial em certo tempo agiu ocupando espaço e criando gostos. Contigo consigo ser o meu eu ideal. Não calculo palavras, não meço gestos e movimentos, não me articulo esperando ser interpretado de acordo com esta ou aquela idéia que causaria esta ou aquela impressão. Toda a fadiga da repetição não existe. Não há mecânica entre nós dois. Por isto, brotam-te de mim meus nadas; figuras eternas, idéias puras da essência mesma do meu amor. O amor, pequena, não é assim tão metafísico. É físico como a ausência de preocupações no cérebro do monge. Paradoxo? Contradição? O vocabulário está mudado, porquê desejo dizer a realidade que as palavras limitam na cadeia de suas formas sonoras e desenhadas.

Aquelas histórias sobre castelos nos céus, sobre pedras sustentadas por nuvens: é este o nada que te quero contar. O nada qual as sombras que a luz do vaga-lume gera por onde passa. Quais pequeninos entes ganharam, na terra e nas paredes da terra, figuras sombrias através do fogo químico deste inseto? Tal é um destes nadas. E também esta questão o meu nada encerra: em noite escura, quem vê as estrelas refletidas nas gotas d’água que umedecem a relva? A imagem dos astros o quê muda na natureza da água, seus espelhos? Tua alma escuta a minha nestes nadas que são tudo.

Então, eu te respondo: “mais ou menos.” Quão poucos são os seres de nossa espécie capazes de conhecer, nas vísceras do espírito, o significado desta expressão. Quem, pergunta por aí, já sentiu o mais do nada e o menos do mesmo nada a ponto de, tudo equilibrando no tudo, poder olhar para a situação, para sua situação, e dizer consciente como diante de Deus: “estou mais ou menos.” Este “ou” não é conjunção alternativa, segundo julga a gramática da língua lá de baixo. Porquê se diz por lá que o “ou” é isto ou aquilo e que ou está assim ou assado, de um jeito ou de outro, sendo x ou y; tudo bem estanque e limitado e definido. Mas, não: aqui se está, ao mesmo tempo, mais e menos. Este “ou” é, de certa forma, um “e” que adiciona. No entanto, não deixa de ser um “ou” efetivo, porquê funciona como uma balança, como uma gangorra, como um pêndulo, como um imenso cano que, deixando sem parar fluir água dum oceano a outro, durante a maior parte do tempo a retém neste caminho, em si. Pois, então, se estou mais e menos, um estado anula o outro e conclui-se que não estou nada. E este nada é tanto. É tudo. Por isto, à tua alma desejo dizer meus nadas.

Esponjas de sol — XXXVIII

  1. Se por mil casas passássemos, o lar conosco ainda habitaria. E se centenas fossem as mesas, ainda assim um seria o jantar.
  2. Quis para mim jurar que este seria o último poema e que verso algum, desta pena e coração, teus olhos veriam. Mas é assim tão louca a desilusão, e tão variante a canção, que outra vez tomo papel e escrevo sobre a paixão. Ainda que negues ver neve sobre os umbrais da casa, chamando amarelidão à brancura em montanha, como se nos afligisse o sol em verão, desperta sob a lareira e vem ler esta ilusão.
  3. Jurei ouvir passos onde não haviam pés e sentir o calor do sol quando não havia dia. Por que discernir distintamente o andar e na pele o candor dos raios se tais não são? Outrora jurei que nela eu tinha a amiga e que o tempo tratava de compor sua valsa, e que num fim de tarde a dança moveria todo o aguardado em pensamento e emoção. Mas de juras não pode a realidade viver, porquê a verdade é este permanente escolher: aqui tens o caminho e os teus pés, aqui tens o inverno onde a sombra não chega. Juro-me, para poder jurar-te depois, que há existência além de nós dois. Tu tens de mim o que de mim te dou e eu de ti tenho o nada que me deste. Apreendida ficará para sempre esta lição: jurar para quê quando há confiança? Jurar, então, já não é uma quebra de aliança?
  4. Pessoas de pensamento instável, cuja ansiedade movimenta o julgamento, quase sempre assumirão como verdadeira a última versão à qual tiveram acesso no contexto dum “puxa-puxa” de conversas, boatos e falatórios acerca dum mesmo fato-assunto. Em bom português: gente de miolo mole frequentemente aceita e acata, por força da impressão psico-emocional mais recentemente causada, os supostos argumentos da última pessoa com quem conversou. Julgo que 99,9% dos indivíduos padeça deste mal cá no Brazil-zil-zil. Doravante, fica diagnosticada a “Síndrome do Pós-Julgamento Recarregado”. Popularmente, podem chamá-la de “Síndrome do Ouvi-Agora-Logo-É-Verdade.” E também já podem inscrevê-la no CID. Meditem aí.
  5. Na Criação, a mulher vem do homem. Na Redenção, o homem da mulher.
  6. Joana d’Arc é a Judite da Idade Média.
  7. Escarlate ou rubra é a cor. Vermelha, direi. Eis a face quente em cor, o sangue gotejando na flor, a imagem sanguínea do amor. Coração pulsando humor e rubor, espinho rasgando a pétala da pele: também é carmesim.
  8. Arquétipos são sequestradores do ser, da personalidade real.
  9. O santo é o homem logosoficado. Seus gestos e ações são puros como idéias-palavras. São essências excedendo o próprio ente.
  10. A justaposição de imagens cria uma imagem inexistente. A justaposição de idéias cria uma idéia em si mesma existente.
  11. Haverás de calar por um instante, e entenderás que o silêncio é relevante como um eco do universo bem no peito, como um brado de mil deuses em respeito. E então caminharás bem vacilante, na alegria inesperada do levante, como ébrio de razão e devoção à verdade deste nosso rei-peão.
  12. Cavalguei pelas colinas florescentes, sob as estrelas douradas.
  13. Confiar é fiar-se no coração alheio.
  14. Ourivesando palavras, ando lavrando maravilhas, vendo douradas nuvens, ouvindo serafins.
  15. Qualquer covarde pode manejar um revólver. Mas a bravura sempre estará apegada (porquê indistinta) à espada. A bala é distância. A lâmina é contato.
  16. A flor perfeita é rara, / cor branca de nata / para a régia receita. / Pura e sem mácula.
  17. Estava com as narinas entupidas. Então, vi ela. O nariz logo ficou livre, desentupido. Sem Sorine nem assoamento no lenço. O amor, bem sei, é uma espécie de pneuma.
  18. Quando os passos a si mesmos se guiarem, entre o descalvado monte e a reta avenida, saberás que o caminho marcha dentro de ti como bússola pelo Santo Espírito imantada. Escuta a harpa que a musa futura dedilha, a harmonia que à alma traz som e calma, porquê ouvirás ainda poucas vezes o hino que o Rei mesmo compôs na invernada. A guia dos teus sonhos e melhores ilusões é o labor que o dia-a-dia desenha em mapa, é o amor que, farol superior, do eu se aparta. Se a primavera vier forte porém atrasada, entre o lastro do frio a bela rosa apertada, terá chegado o kairós desta santa jornada.
  19. O tamborim e o ventre da dançarina: eco de mútuos vais-e-vens de couro e corpo.
  20. Sob as abóbodas celestes, as abóboras terrestres.
  21. Ler todo dia algo que valha a existência das palavras: um poema de mil anos, a Bíblia, uma mensagem escrita ainda ontem por quem nos quer bem, um livro qualquer que não te faça ser um qualquer. Ouvir todo dia algo que vá além dos tímpanos e chegue ao mundo das esferas musicais: uma sinfonia de Mozart, um samba do Cartola, uma missa de Byrd, um modão de Tião Carreiro e Pardinho, um oratório de Bach. Contemplar todo dia a beleza de Deus no mundo: uma mulher bonita sorrindo, uma árvore se desfolhando, uma criança aprendendo a andar, uma ninhada de cãezinhos cheirando à leite. Provar todo dia, nos cinco sentidos, que há um sentido na vida, e que a beleza se impõe como meio de salvação diante da rudeza ordinária e vil que tenta deformar a imagem e semelhança dEle em nós. Faço isto todo santo dia. Funciona.
  22. Apenas quem for capaz de ler tua alma será capaz de te amar. Algumas pessoas, poucas pessoas, poderão bem entendê-la em certos aspectos principais e até mesmo compreendê-la em certos detalhes mais profundos, mas nunca te amarão integralmente, fecundamente, totalmente: no máximo ter-te-ão carinho, paixão e bons afetos. Porém, apenas quem for capaz de ler teu “textus vitae” (aquela narrativa oculta e misteriosa que a alma individualíssima encerra) com a gana de querer relê-lo para sempre (sem tédio, sem enfadar-se com a rotina, sem fastio) te amará. Cada alma é uma esfinge: decifra-a e ela também te amará. Recordo, à propósito, Valéry: “Il y a une sorte de réciprocité entre le besoin et l’objet qui le satisfera.” / “Há uma espécie de reciprocidade entre a necessidade e o objeto que a satisfará.”
  23. Frequentemente quer-se demonstrar como presença aquilo que é ausência. Quer-se demonstrar que se ama e se está amando e sendo amado porquê a falta real de amor agoniza a alma. Quer-se demonstrar inteligência porquê a falta fática de razão e tirocínio embaça o pensamento tão diariamente que a fala chega a parecer-se com o zurro asinino. Quer-se demonstrar sucesso, elevação e posição como adereços capazes de enfeitar aquilo que no fundo é medíocre e por enquanto insuscetível de subir para além de certo e “baixo” status. Então, pára de te comportares como titã da paixão e do sexo, como mito e gênio do intelecto, como exemplar maquiado e macaqueado da realeza mediatizada alemã ou de super-executivos de Wall Street! “Conhece-te a ti mesmo”, profetiza o oráculo socrático. “Examine-se o homem a si mesmo”, pontifica o Evangelho. Sê tu mesmo a ponto que, conhecendo-se e examinando-se, teu eu efetivamente (de eco fraco a eco forte do ser) chegue ao fundo final do teu eu-si-mesmo. Estes vernizes mundanos, a quem enganam senão a ti mesmo? Não te comportes como don juan ou femme fatale, como Tomás de Aquino ou Simone Weil, como Dostoievski ou Flannery O’Connor, como arquiduque d’Áustria ou lady vitoriana, como Steve Jobs ou Huguette Clark. Nas baladas, no câmpus universitário, na sociedade e no trabalho (e também no Facebook) é certo que és apenas um zé-mané/mariínha-manoa. Teus anseios de subida são legítimos. Tuas pretensões de ascensão são cabíveis. Mas o fingimento nada alcança senão uma fina película de mentiras meticulosamente tramadas que qualquer perguntinha à mamãe ou ao Google desfaz. Concentra-te em saber quem és e, então, a partir do ponto-radicular da verdade, poderás dilatar tua potência e aí serás de fato um adulto amante, sábio, culto e, sabe-se lá o que isto quer dizer, enfim serás um adulto “importante”.
  24. O ritual é a base social da sanidade moral do indivíduo. Do culto ortodoxo russo ao haka dos maori, estou convencido desta realidade.
  25. Há tantas grandezas por conhecer, tantas alturas por alcançar, tantas belezas por criar… e nós (e eu, e eu mesmo, quantas e tantas vezes!) nos deblaterando por ninharias, por tolices tão nulas quanto implicantes, por coisinhas ranzinzas e “inhas” de infindos diminutivos, por minúsculas partículas de nada com nada e mais nada. Há tanto por viver entre uma meia-noite e outra. Há tanto por viver entre uma pessoa e outra. Há tanto! Há tanto, que nada destas desgastantes tolices diárias e nada destas desenergizantes idiossincrasias cotidianas vale à pena. Nossa rigidez lógica é frequentemente um lago de breu; um lago de breu, reverso daquela má e velha “tempestade em copo d’água”, perturbando a razão natural das coisas — profundas, vastas, oceânicas. Há tanto por viver. Tanto…
  26. O homem salvo por Cristo não foi feito para viver como a maioria dos homens. Se o calo aperta, continuamos a caminhada com os pés sangrando. Se a boca seca, engolimos saliva em benefício de cada palavra que ainda precisa ser dita. Se a tentação mastiga ferinamente a carne, nós nos jogamos no espinheiro até que o auto-domínio floresça. Se os homens comuns desejam apenas existir como entidades biologicamente controladas por aquelas necessidades da Pirâmide de Maslow, nós suportamos as carestias físicas e metafísicas com os olhos pregados na vida que é eterna. Um homem cristão não foi feito para passar a vida se arrastando entre cama-e-ronco e sofá-e-bocejo entremeados por trabalho profissional, fadigas corporais e rotinas mentais: nós fomos feitos para avançar audaciosa e corajosamente o Reino de Deus entre esses outros homens em cuja humanidade a “imagem e semelhança” dEle está embaçada. Há um mandamento sacrificial por guardar: “Ide!” Lembra-te.
  27. Apenas gente muito boa ou muito má calcula com certo rigor de detalhes suas ações, seu minucioso procedimento diante do mundo das coisas e dos homens. Atenta-te para o caráter de quem observas: se é virtuoso, tal cálculo é sua temperança e prudência no agir; se viciosa a alma, ali tens um enxadrista a calcular cautelosamente seu ataque.
  28. Se é o olhar que te seduz, que farás com ela inteira? Se é o sorriso que te cativa, que farás com todo o resto abaixo e acima da curvatura dos lábios? Se é isto ou aquilo ou qualquer outra “parte” do conjunto que especialmente te atrai, que farás com o “todo” harmônico ou desarmônico que carrega o detalhe encantador? Que farás com o todo interior, com tudo aquilo que carrega seu corpo pelo mundo? Que farás com sua genealogia e atavismos, com seus modos e usos e costumes, com sua impostura diante do altar de Jeová? Que farás com seu desdém por livros e música, por arte e vida interior, por viagens por terras cheirando incenso e canela, macarrão e doce de maçãs, sal desértico e gelo ártico, lã no curtume e carneiro na brasa, tâmaras e pato de Pequim? Que farás quando quiseres gastar dobrões a mais numa iluminura medieval e ela outra-e-outra-e-outra vez desejar a grife milanesa? Que farás no domingo quando tu quererás acompanhar as crianças na escola bíblica e ela quiser dormir mais e mais, atordoada pela ressaca? Que farás com sua existência anterior toda marcada, toda chagada, pelo sistema coator das massas? Tu quererás a 5ª de Shostakovich e polvo e vinho verde e quererás na semana seguinte o forró pé-de-serra pernambucano e baião-de-dois com buchada de bode e batida de cocô com jurupinga; ela te arrastará perpetuamente para qual pub, para qual balada, para qual rolê, para qual night de Skol Beats e cacofonia entre o cheiro do cigarro barato e o gosto rançoso da porção mal feita? Tu quererás ler e gastarás algumas horas lendo; ela irá para o shopping. Tu quererás que teus filhos estudem música, aprendam línguas antigas e cacem e cavalguem e acampem; ela lhes dará celulares, babás e conselhos falsamente maternais sobre como “não perder tempo com estas bobagens” e sobre o quanto “é perigoso ficar correndo por aí.” Tudo por um reflexo momentâneo dum olhar tentador e brilhante? Tudo por duas mandíbulas bem providas de dentes e graça estética? Dalila é sempre um pesadelo perfeito: sentimento de sonho que ao pensamento é horror.
  29. Só se ama quando tu és tu e só tu mesmo com a pessoa, sem vernizes cobrindo e recobrindo tua personalidade, sem brumas anuviando teu ser. Ser e só ser, de espírito nu. Sem os melindres de parecer isto e insinuar aquilo, sem a preocupação de impressionar falando ou calando, sem o medo de fazer a coisa certa do jeito errado. Sem as “folhas de figueira” da persona projetada no mundo: sem vergonha. Só se ama na nueza da alma toda despida dessas preocupações de não ser bom o suficiente, porquê o outro basta na sua [in]adequação. Só se ama quando ali, um diante do outro, homem e mulher se enfrentam e se encaram sem que frontes e caras se despistem no olhar mútuo — olhar que carrega, leve e densamente, tudo o que eles foram, são e serão porquê passado, presente e futuro comungam do mesmo destino. Todo o resto, senhoras e senhores, é bobagem sentimental que não vale a pena.
  30. O amor não carece de dia, mas o dia, um em especial como hoje, sempre carece de mais amor. A lógica do Dia dos Namorados, por mais que pretensos racionais a neguem sob gastos argumentos de que se trata dum evento comercial dedicado a varejismo sentimental, é a lógica que sempre guiou o ritual, a liturgia: determinar especialmente um tempo para, com melhor consciência e atenção, se dedicar mais intensamente àquilo que já se dedica silenciosamente no dia-a-dia. Então, não chorem as amargas pitangas contra a data se o andarilho cupido ainda não lhes acertou o miocárdio. É feio!
  31. Os ideólogos dum lado atiçam o povo contra o povo atiçado pelos ideólogos dum outro lado. Os dois povos são um só povo, que uma verdade (igualdade) numa grande mentira (igualitarismo) opôs à outra verdade (liberdade) numa outra grande mentira (individualismo).

Versos livres — IV: César e Cleópatra

Uma estátua primeiro eu vi,
Divinizada em ouro e rubi,
No estuário do grande rio
Reluzindo fogo nas águas,
Suando sol em suas lágrimas.
A cidade, teu baluarte, passei;
Sobre o cavalo do lácio montei
E nas ruas cheirando a jasmim,
Sob o incenso e o perfume dalém,
Fui arriar diante do portal teu,
Morada da neta-ninfa de Ptolomeu.
Corredores de pintura rajados,
Frescos pelo granito sepulcral,
Prenúncio de dor no bem e no mal.
Uma estátua de carne eu vi,
Humana da cor do leite acanelado,
No trono de carvalho ancião,
Entre as sombras do palácio janelado.
Braseiro de estrelas, teus olhos,
Corpóreos assomos de espírito
Atribulado por desespero e paixão.
O protocolo por dois poderosos seguido,
Teatral arranjo de acordo e coação.
Despedi-me com aceno de elmo posto,
Conquistando terras e talvez teu rosto.
Crepitava a chama e o sono já me vinha
Quando a ama me chamou à tua cama.

Do Livre-Arbítrio

Poderás escolher entre o fundo do poço e o chão do abismo, entre as entranhas trevosas da terra e as profundidades escuras do solo. Poderás arbitrar entre o gosto amargo do fel e o paladar acre da bílis. Em copo de vidro, em taça de cristal, em cálice de prata e ouro atesourado, do mesmo líquido, espesso líquido, beberás das mil e uma versões iguais. Na mutação das palavras, apenas, a diferença entre os caminhos bifurcados no início separam-se em opostos destinos; mas, lá no horizonte da realidade final, onde convergem as linhas todas das escolhas aparentes, encontram-se no mesmo cavoucado sepulcro o querer dos homens, o teu querer e desejo e vontade. Poderás escolher e arbitrar entre a morte do corpo e a extinção da biologia, entre sepulcro de mármore esculpido e vala rasa no canto anônimo do campo santo. Poderás decidir entre velas amarelentas de cera apiária e de parafina branca, entre coroa de rosas vermelhas e arranjos de lírios alvos. Poderás deliberar sobre o cântico fúnebre: se o Dies Irae de Mozart ou o de Verdi ou ainda qualquer assobio triste na gaita rouca ou pagode entretido no estéreo. Poderás sentenciar os detalhes indetalháveis das tuas exéquias, se na luxúria das telas pornográficas eletrônicas ou nos caros bordéis monegascos, se no licor decantado nos barris das Terras Altas ou na ordinária cachaça dos jacus, se na lâmina prateada de espadachim palaciano ou no tiro exterminador de brigão de pocilga, se erguendo o punho ideológico cerrado contra as Duas Tábuas ou calando passivamente a voz da lei eterna que palpita consciência. Eia, ao labirinto dos trezentos e sessenta e cinco atalhos conduzindo para o único portal, caminho por onde o barqueiro das chamas distribui suas moedas aos cegos. Poderás deliberar e sentenciar, resolutivamente, sobre qualquer aspecto fatal do decreto imperecível: estás morto e ainda uma vez mais morrerás.

Que é este facho de luz, puro como a água da primeira fonte a irrigar aquela árvore de cognição perfeita? Por que escoam centelhas e farelos de estrelas sobre o cerebelo que me atina sentido? Que é esta escada, faiscando direções longínquas até o topo celeste? Por que sinto os sentidos sensíveis à imensidão, querendo o que nunca quis e tendo prazer em não ter os prazeres que agora pouco me excitavam a carne? O choro com suas lágrimas, lágrimas densas de terra por saliva umedecida, rompeu nos meus olhos visão plena de quem sou, de onde estou e para onde ia e agora já não vou. O sono da campa fria vai-se embora num nevoeiro de espectros e arquétipos fantasmagóricos e dentro de mim, no centro nuclear do espírito moldado do pó da terra, ergue-se — ergo-me! — o eu mesmo. A espada cessou de guardar sentinela a entrada do meu éden; conduz-me uma Mão através da fronteira, passo ao largo do foço, atravesso as muralhas custodiadoras das formas originais da alma, adentro o portão ameado pelas lanças e bandeiras dum “Faça-se!” que é palavra-e-ação, chego ao pátio do domínio, posto-me no grande salão real, sento-me num banco que ladeia um trono em doze degraus assentado. De repente, grande mesa de dois manjares, pão e vinho, estende-se; e brancura celeste toma o recinto. É de barro ourivesado o cálice, o graal da Verdade. A doce bebida vinificada jorra do lado dum cordeiro estendido e o pão é a carne trigal do seu corpo. As vozes invisíveis dos arautos dizem-me: “nasceste!” Escolho? Arbitro? Decido? Quero? Desejo? Mas, quê? Escolho escolher e arbitro arbitrar decisões de quereres desejados? Há só e solitariamente uma direção que me pode impulsionar, um só trecho que é também única estrada: o teu querer, Senhor. Se assim sou tua imagem que o físico quis refletir em semelhança de veroparecimento, não sou contigo fundido sem ser confundido? Não sou um exemplar tão acabado como aquele pai meu, pai nosso, erguido da vermelha fuligem terrenal? Despertaste-me. Ah… e se ainda não é em glória o corpo reformado, se ainda não está elevado à estatura maior que o aguarda, ainda assim escolheste-me para a Vida que não tem fim. Vivificaste-me e ainda uma vez viverei.

Esponjas de sol — XXXVII

  1. Aprende, todo santo dia, a cortar as pequeninas amarras que se vão enraizando bem devagarinho, tiquinho por tiquinho, no teu coração. Se permites que o teu maior sentimento seja presa dos teus afetos menores, se assim deixas o que é passageiro deitar a mão suja sobre aquilo que em ti é puro, se consentes que cresça contradição à força de sedução sorrateira quando mais e mais deveria a coerência fulgurar em teu espírito; se assim ages, oh homem, como lograrás cingir nesta existência a verdadeira felicidade e no além a vida que é alegria eterna? Aprende a libertar-te destes grilhõezinhos que, ao cabo dos dias, serão para ti um calabouço: coração esganado, louco e desencaminhado, sucumbente ao mundo e aos deleites mais efêmeros. Vide cor tuum!
  2. Coincidências não existem. Na vida, esta nossa vida sobre o planeta, tudo é incidência da mão ordenadora de Deus. Nada é acidência dum acaso cego e mecânico com suas causas e efeitos subsidiários — tão desconhecidos quanto despropositados. Então, quando tu te perguntares “por que?”, mesmo que não seja possível distinguir um qualquer sentido racional para o fato que te molesta a consciência, sabe isto: o Senhor, o Deus Todo-Poderoso que nos formou do quase etéreo pó da terra, trabalha para enxugar dos olhos toda lágrima. E quão sólidas são nossas lágrimas! Em tudo, para todos, há um propósito (uma purgadora intenção salvífica) a ser cumprido. É a Graça, soberana Graça!
  3. Byron, aquele grande poeta, escreveu desde o estábulo do seu coração que “but the test of affection’s a tear” / “mas o teste da afeição é uma lágrima.” Belo verso, mas enganado verso. Pode-se chorar por qualquer coisa — na ira ou no amor, na dor ou na cólera, na alegria ou na desgraça, no positivo ou no negativo. Mas sorrisos, mas um sorriso!, só se pode dar, só se pode transparecer na face perante o mundo, quando a afeição é sincera e, então, é de fato afeição. A prova melhor do carinho é um sorriso, porquê facilmente consegue-se discernir (pela curvatura dos lábios, pelo rubor das bochechas, pelo tencionamento da pele, pelo estado dos olhos…) o que verdadeiramente sai da alma daquilo que amarelamente uma postura social introjetada na psiquê obriga por na cara. A lágrima é líquido vazando da biologia corporal, esteja o espírito como estiver. Enganar-se acerca da natureza fontanal duma lágrima é facílimo. O sorriso, no entanto, nasce dum estado bruto e puro e muito específico do espírito humano; não se dissimula, por mais que teatralmente se tente.
  4. Durante o processo de amadurecimento (de aperfeiçoamento real para esta vida), com todas as suas tentativas e erros e acertos, nós sempre nos machucamos uns aos outros. Ferimos e somos feridos, mesmo querendo acariciar. Sangramos o outro, que também nos sangra. Um coração canibaliza outro coração por pura inépcia, por falta de jeito, por despreparo, por criancice geniosa. Então, de ferida em ferida e depois de cicatriz em cicatriz, nós um dia acordamos conscientes do turbilhão de causas e efeitos que gerem o mundo do outro. Assim, concluímos nossa questão: já não há muito o que fazer, senão tentar não repetir os mesmos erros. Amadurecemos, pois.
  5. Todos nós, pouco ou muito sinceramente, somos montadores de quebra-cabeça. Os outros são nossos quebra-cabeças. As mulheres, sobretudo, são dificílimos quebra-cabeças. A gente se achega à “grande mesa das montagens”, o palco da consciência onde interpretamos o mundo e o mundo dos outros, e, com as peças que as pessoas nos vão disponibilizando a esmo e aleatoriamente (aos gritos e aos silêncios, aos berros e aos sussurros, com gestos miúdos e espalhafatosos, em hecatombes e vácuos), tentamos montar a imagem, a figura, o símbolo, o significado, enfim; aquele complexo “ideo-imagético” que quer assim nos dizer aquilo que não foi explicitamente dito. Toda mensagem muito séria que não se quer tornar completa e evidente a quem ela se destina acaba quebrada em cacos, atirados como pedras ou espalhados como a trilha de pães de João e Maria. E os cacos, como ciscos ou como lascas, nos caem nos olhos de dentro (o coração) e nos olhos de fora (a mente). Enigmas e sombras que compomos, pedaço a pedaço: tudo “sotto il velame” não dos versos estranhos, como diria Dante, mas sob o véu das “azioni strane”, das ações estranhas. Tudo muito cansativo, mas muito rotineiro e permanente. Fadigoso ofício: montar quebra-cabeças, humanos.
  6. Duas vidas freqüentemente se emparalhelam e assim devem permanecer por toda a vida: pararelas, lado a lado, caminhando numa mesma trilha fraterna; sem se cruzarem e então se fixarem numa intersecção de destinos unidos para serem existencialmente “uma só carne”. Há distâncias, de perto e de longe, que foram feitas para um mútuo auto-aperfeiçoamento que de modo algum — por mais que a diferença seja sútil — se confunde com mútuo aperfeiçoamento. Relutância, melancolia, frustração e alguma tristeza surgem, mas é assim que as coisas (Deus o sabe!) são e estão organizadas para o nosso bem.
  7. De vez em quando, aquele menino de cinco aninhos que eu fui há vinte e quatro anos passados aparece, com o dedo levantado e bem apontado para o meu nariz, e passa pito sem cerimônia: “E então, Dayher, o que é que você está fazendo com a minha vida, seu moleque existencialista?” Machado de Assis tinha razão, e lá está ela bem inscrita como título num capítulo do seu Brás Cubas: “O menino é o pai do homem.”
  8. Um olhar não olha outro olhar. Os olhos assim olham-se como espelhos que se refletem. Donde a luz? Qual caminho percorre o facho, a linha cintilante de duas íris, o élan da mirada de dois corações? Um olhar para outro é lúmen e também uma labareda cegal: se a um tempo liberta das trevas, noutro é densa escuridão capaz de tolher qualquer apelo, luminescente ou não, da razão. Estes faróis que antigamente guiavam naus em calmaria e tempestade; estas fogueiras diante do sol e das luas, estas córneas, apontam para portos e altares, para pedidos e promessas, para juras e confidências. Que é um olhar? Que são dois pares de olhos justificando-se em silêncio? Olhos olham outros olhos. E apenas no relance, o instante pequenino em que o ângulo de intersecção arranca das cavernas das retinas o extremo clarão do amor, apenas neste relance pouco mais que instantâneo, uns olhos ficam sabendo que outros olhos existem em si mesmos, porquê, sabei vós, na maior e mais larga medida do tempo disposto, eles lá estão ocupados no ofício hipnótico de olhar, de olhar e olhar, mas não de ver o próprio olhar. O olhar, os olhares, são qualquer coisa acima da biologia do globo ocular. O olhar, os olhares, são aquela íntima visão-de-além-corpo que Adão e Eva compartilhavam entre si quando ainda não se percebiam nus. A alma, a alma enxerga.
  9. Quem mente no pouquinho, mente no montão. Mente no pequenino? Mente também no grandão! As minúcias e pormenores da vida desenham suas grandes estruturas. Impossível ser verdadeiro no principal e no superior se se é falseado no subsidiário e no inferior. És amante da verdade, custando o que custar?; da verdade libertadora, doendo como doer? Então, teus lábios não provam a mentira no menor detalhe, porquê tudo é curva e linha no maior entalhe. Anota, recordando do nono mandamento.
  10. Entranha-te na realidade. Cria raízes nas coisas como elas são. Esquece e dá cabo de ilusões pueris, de ventos vãos que cintilam desejos em oásis também miragens. Apega-te à terra, que é como é e está como está. Apega-te àquela sensação superior da qual és capaz de perscrutar a origem — o amor. Destrói as baixas impressões que apenas impressionam, e cujas raízes pairam solitárias plantadas no éter das emoções, no nada comovente — a paixão. Procura a solidez da permanência, da estabilidade da coluna ereta diante da sordidez mundana, da dignidade espiritual que vem com o bipedismo. Entranha-te na realidade porquê a vagueza cai bem apenas ao mar, porquê “quizás, quizás, quizás” apenas comovem os tolos e os insonsos, porquê o homem foi formado da terra, máxima realidade…
  11. É grande quem vive no mundo e para o mundo aquilo que se vive no íntimo silencioso da própria consciência. É grandeza, grandeza libertadora, que uma alma consiga se despir das aparências, das futilidades, das mascaradas supérfluas que revestem as personas sociais. É grande (três vezes grande como três améns), é soberanamente grande exercer os destinos da própria existência em respeito ao que vai no coração sentimental e na razão mental. É grande, porquê é verdadeiro, porquê é real, porquê há muito deixou de ser animal soprado e levado ao sabor dos vendavais da aspiração-e-respiração alheia. Como é bom — sob a Providência preparando o mar, a rota e o porto para nosso barquinho — poder navegar e declamar para si e poder remar e recitar para o mundo: “I am the master of my fate: I am the captain of my soul.” / “Eu sou o mestre do meu destino: Eu sou o capitão da minha alma.”
  12. É preciso muito esforço e muita força de vontade para não cair seduzido pelo fingimento. Nunca fingir ser o que não se é, para si mesmo nem para o mundo. Quem finge, apenas finge, e com isto ganha, por pouco tempo, algum conforto psíquico (que tenta dar substância às idealizações próprias, congelando na alma certas “gelatinas” emocionais e fornecendo-lhes a aparência de solidez) e algum conforto social (a veneração ignorante das massas adoradoras de ícones, aos quais, ao mesmo tempo, elas votam concomitantemente o ódio mais cruel: palmas à realeza daquele a quem condenam à cruz). Quem finge, constrói para si uma maquetezinha romântica e toda empoada do Palácio de Neuschwanstein na escala 1:1000, que a coletividade, em seguida, saúda atônita fotografando-se e deixando-se fotografar ao lado das coloridas muralhas deste novo Castelo da Disney. O cristão, porém, o homem equilibrado que é efetivamente o que é (tanto individual quanto socialmente), deve resignar-se à arquitetura original que Ele quis dar às suas “quatro paredes.” Daí, conforme ensina Teresa d’Ávila, ele tem pleno acesso ao castelo da sua alma. Fantasias caem; e sempre cairão muralhas de papelão abstrato e torres frágeis de ilusão isoporada — as de dentro e as de fora. Anotai: o diabo não apenas assedia; ele sempre conquista fortalezas edificadas sobre a areia (segundo a Mineralogia, não é também rocha um grão de areia?) do fingimento; Pai da Mentira, sem ler Sun Tzu ele sempre soube que demonstrar ser nunca é efetivamente ser. Todos somos castelos quanto à dignidade, quanto ao “fortitudinis spiritus”, mas na arquitetura dos frutos (da missão do ente segundo à natureza do ser) cada qual é cada qual. Eu, p.ex., sou uma simples casa de família, de pedra e madeira, construída no topo duma montanha onde primavera e inverno predominam. Cada qual, porém, é uma morada diferente e específica para o retiro do Espírito Santo. Cada um de nós tem uma vocação já engendrada pela engenharia celeste, um sentido estruturado para trilhar o Caminho da Verdade na Vida. Por isto, “To be or not to be, that is the question.”
  13. O diabo ataca sempre em várias frentes aparentemente autônomas e desconectadas. Faz isso para não dar à “presa” o senso das proporções do golpe tramado. Mas, há um fio invisível na medida em que inquebrável conectando cada atacante a um grande ataque final (depois que os ataques individuais e ocasionais não logram efeito). Há uma estrutura metafísica demoníaca gerando complôs silenciosos. Então, busque discernir o espírito das pessoas e o mundo ficará claro como um tabuleiro de xadrez. Discirna os afetos que elas depositam em seus interesses, anseios e desejos (sobretudo os frustrados) e você verá limpidamente cada peça na sua casa e cada peça harmonizada ao lance da outra numa “avant-première” do xeque-mate: os até então dispersos unem suas escaramuças e reúnem suas demandas num ataque orquestradente grupal. E tudo faz sentido, porquê, como diz o salmista, “abismo chama abismo”; ou ainda, como ensina perguntando São Paulo, “poderão estar juntos se não estiverem de acordo?” O diabo, eu já o dizia semana passada, é um mestre da estratégia. Ainda bem que o Espírito Santo está conosco. Dominus Deus Sabaoth!

1116: Quem se apega à verdade, faz aliança implícita com o próprio Deus. A verdade, nunca excessiva e por isto nunca má, constrói no caráter a humildade: ensina que as coisas acontecem como acontecem e são e estão como são e estão porquê o mundo é coator de tudo e de todos, ou seja, sobre nós caem definitivamente certas ações e reações inalteráveis. Porém, a despeito de todo este poderio, o mundo não nos pode impedir de conhecer seus movimentos e natureza. Conhecemos aquilo que não podemos alterar concretamente, e cuja negação formal é a mentira, abstrata. Entretanto, além: o mundo não nos pode impedir de contra sua verdade (imutável, humanamente) combater pela Verdade (plenamente imutável): II Coríntios 13:8. A verdade da terra pode, quando Cristo o manda, ser conformada pela Verdade do Céu. O conteúdo-de-Ser que desce do Alto até o baixo, aqui, transforma a estrutura-do-ente. O homem que ama a verdade-informação será amado pela Verdade-Pessoa. Eis algo da metanóia, que se explícita.

  1. Se tu aceitas qualquer coisa, qualquer resto e migalha, tu aceitas ser uma coisa — restinho e migalhinha. Se não escolhes o melhor para ser melhor, contentando-te com o “menos pior”, com aquilo que na escala das delícias está abaixo da vibração da tua alma, acabas escolhido pelo pior e, então, irremediavelmente, ficas pior. Quando compreendes que assim como as estrelas têm cada qual sua glória particular (I Coríntios 15:41) e tu também tens a tua, percebes a grandeza da individualidade e o quanto tal grandeza dignifica-te e honra-te pelo que és. Não aceita o que sobeja vil e podremente. Come, mastiga e digere o manjar todo do amor. Come, mastiga, digere e te nutre de todo o banquete da paixão. Não permitas que requentem sequer o prato principal. Não permitas que teu paladar prove o fruto murcho, o vinho quente e cheio de borra, a carne seca e fibrosa, o pão duro e inutrível. Aceita a superior coisa, o primeiro e o principal, a primeira fatia, a primeira colher, o primeiro corte, o primeiro gole.
  2. O teu eu verdadeiro onde está, que faz, que é? Em que núcleo bem denso e duro do teu espírito está escondida a tua personalidade, esganada pelo mundo malemolente? Quem és tu, entre as personas visíveis e invisíveis que envernizam tua ação entre os homens? O teu eu verdadeiro às vezes rompe a caricatura, não percebes? Não percebes quando tu e tu mesmo dizes algo, falas algo, pronuncias algo, pensas algo, meditas algo e refletes algo que estava assim tão aguilhoado no profundo do teu espírito porquê abafado pela personagem que se apresenta ao mundo como se fosse tu, tu mesmo? O teu eu verdadeiro dorme nas sombras, quando na verdade é mais luzido que o meio-dia. O teu eu verdadeiro faz discursos imortais enquanto tu balbucias concordâncias servis com a massa numericamente forte. O teu eu verdadeiro é um obelisco de dignidade antiga enquanto tu te enraízas no lodo vil e baixo da modernidade envelhecida. O teu eu verdadeiro brame hinos misteriosos, canções diletas aos profetas e sábios dos desertos, enquanto tu aqui entre os tolos e mortais assassinas a eternidade em infecundos falatórios sem fim. O teu eu verdadeiro está onde não estás, fazendo o que não fazes, sendo quem não és.
  3. Apenas o que é verdadeiro vale à pena. Todo o resto, dispensável. Todo o mais, digno de descarga antes mesmo que o produto fétido das entranhas psíquicas submerja na água limpa da privada do esquecimento. Pelo verdadeiro, enfrenta audacioso o mundo, atravessa oceanos, aventura-te nos continentes, sobe as cordilheiras, dá a cara (limpa e lavada) diante do Céu. Pelo que é mentira manifesta ou mentira disfarçada de dúvida, não entrega sequer o teu mais fraco pensamento de atenção. Pelo verdadeiro, batalha a peleja até que tua alma sangre luz. Pelo dúbio gangorreiador, pelo periclitante insosso, por aquilo que contradiz malignamente a realidade disfarçando-se com o manto denso, cinza e trevoso da falsa sinceridade, nada faz senão virar tua face em direção ao sol. Vale à pena o que é verdadeiro, apenas.
  4. Mulher que não se comove com poesia e homem que não se atreve a rabiscar versinhos para quem ama, estão condenados à infertilidade espiritual. Eis aí dois corações que vão se ressecar assim que a pele secar, dois cérebros prontos a raciocinar um “fui!” assim que a emoção passional perder sua fonte feromônica. O relacionamento pode até durar em termos cronológicos, mas dificilmente aspirará à eternidade: “vou aguentar mais um pouco, mais um dia, mais uma semana, mais um tempo.” E por poesia entenda-se, simplesmente: palavras bonitas que ninguém mais poderia (querer) dizer, estejam elas arranjadas na forma de soneto italiano, estribilho de música popular ou bilhete escrito no guardanapo da lanchonete. Sem palavras formadas pela beleza, ecos diários e infindos daquela palavra dada no cartório ou jurada no altar, a feiúra da realidade do mundo carcome a certidão e expõe a promessa copiada do Google. Sem o Logos, sem o Verbo, sem a Palavra: logo o vento sopra a palha. Se não tem palavra bonita, não tem alma bonita; e se não tem alma bonita, não tem nada.
  5. Tudo passa e passará. O corpo, belo ou feio, se desfará. As linhas bem proporcionadas, harmônicas e geométricas, se desalinharão conforme o caos tomar a pele, fazendo do tônus fragilidade e da melanina uma profusão de fraqueza celular. Tudo passa, e está passando. Da beleza e da feiura do lado de fora, só restarão poucos traços estruturais e muitas lembranças saudosas num espelho trincado não no vidro mas na pele refletida. Quando tudo aquilo que hoje é firme e matematicamente gracioso se desfizer, o que sobrará do lado de dentro? Quando o presente for passado e o futuro um pretérito há muito conjugado, que será da alma? Que permaneça, pelo menos, aquela beleza que brilha nos olhos mas que às vezes ricocheteia na íris. Que permaneça, ao menos, aquela formosura de valores que hoje vaza silenciosamente apenas nos sorrisos e na fala sincera. Que permaneça o permanente, porquê, como dizia o apóstolo, “as coisas que se veem são passageiras e as que se não veem são eternas.” Tudo passa e passará, mas a beleza que vem lá do âmago, do espírito ainda luzindo inocências, esta ficará.

Bewusstsein?

Ouço os meus passos. Mas não caminham estes meus pés sobre terra alguma. Eles estão quietos, estirados debaixo do manto. Quem vem lá, aderido ao timbre dos meus ossos e nervos caminhantes? Lá fora os pinheiros lamentam qualquer hino ancestral, na língua dos ruídos, entro os uivos dos lobos, que se vestem do lastro de prata que a lua asperge, a lua que iluminada pelo dourado solar é enigma e musa para a alcatéia. Qualquer coisa como palavras — não as minhas, porquê estou calado — formulam um discurso no parlatório desentranhável da minha mente.