Trecho do conto “A Moça da Sétima Janela”

A chuva é sempre uma oportunidade de sono para as almas românticas. É fatal! Basta que tamborilem no telhado as primeiras gotas para que aqueles que detém um “sono primordial” na alma caiam sobre as cobertas. Este sono nada é senão um elemento de ligação entre a quietude de dentro com a de fora: uma alquimia de melancolia. E não, não se trata de modo algum de melancolia que se parece com tristeza. É aquela melancolia dos regatos se deixando absorver por rios maiores, é a melancolia doce das folhas secas e douradas caindo aos pés da própria árvore. Ela me dizia que um dia de chuva a aconchegava como o colo de sua mãe. Ela sempre me disse que ouvir o murmúrio da chuva na calha ao lado de seu quarto era narcotizante, quase morfínico. Isabel, romântica feito princesa de conto medieval, se encorujava na escola quando menina, com seu capuz de moletom; e se aninha desde sempre nos cantos do sofá, com ou sem a companhia dum livro, quando é sábado à tarde e o mundo do lado de fora está acinzentado, cheio de nuvens, sob chuva pouca ou cerrada. Minha conclusão, e que deliciosa conclusão, é que ela é tão “anacrônica” quanto eu: vive num castelo, com pedras, torres, musgos, montanhas, ar frio, bosques; dormindo e sonhando ora no travesseiro morno, ora com os olhos castanhos bem abertos diante do horizonte.

Tricórnio

I.
Não só o céu, criança, está nublado.
Está assim também minha esperança.
Não só as estrelas estão apagadas.
Estão escuras e frias aquelas ilusões,
Aquelas linhas coloridas no tecido cinza,
Aqueles bordados de ânimo na realidade.

II.
Oh, tu, rasa opinião:
Que mísera fauna te deu razão?
Animal sempre é quem zurra
Com fala de humana turba!

III.
Tudo é um profundo fluir.
Um leite azul,
Um lírio transparente.
Oh, vem doce e quieta descer do além para cá, minha luz.
Vem quietinha espreitando entre as estrelas minha sombra.

Vocação

Um oceano vem com a alma
E ele goteja em qualquer coisa,
Naquilo que irrita e acalma,
Na letra dourada e na loisa.

Um poço que mina os mares,
Uma fonte que seca o abismo,
Como herói voando nos ares
Sem asas, no puro holismo.

Em cada pedrinha e lugar,
Sobre a terra e no lagar,
Sou de Deus a libação.

Em cada amor e desilusão,
Sobre a carta selo e aspersão,
Sou de Deus o respingar.

Essência mística

Ser que és não sendo,
Pedra no caminho que vai morrendo.
Toda terra no mar vai dormir,
Todo ser submerge antes de surgir.
Marca os pontos no céu
E no papel as alvuras do véu.
Porquê saem as estrelas
A dar-se ver
Como as virgens de Antioquia
No Amanhecer.
Se o alaúde tocar mistério
Como poderei ler teu saltério?
Nas linhas e contornos
Da alma antiga,
Nas frestas vagas
Onde goteja leite morno;
Está lá, bem escondida,
A rosa que o mel
Num milênio nutriu.

Trecho do conto “A outra possibilidade”

Quisera poder ter sido um fazendeiro. Medianamente alfabetizado, sem saber ler o barômetro mas capaz de olhar pro céu e dizer à terra dos próximos movimentos das nuvens. Eu não saberia de certo declamar os poemas latinos que decorei quando menino, não saberia escrever naquela caligrafia gótica aprendida na adolescência, não comporia sonetos elegantes às moças que amei ou quase amei. Mas nada me impediria de ser gentil, mesmo bronco, com as camponesas da colônia e colher rosas frescas no jardim da casa-grande para a pastorinha que fica sobre a pedra do outro lado da cerca. Não que eu tenha me tornado um protótipo daquele dândi tolo e envernizado por civilidade inócua que arrastou debilidade na Cidade até encontrar as Serras. De modo algum! Meu espírito nunca foi tomado por plumas e firulas. Acontece que, é verdade, sempre me atraiu muito mais a vida rural que a as questões físicas e metafísicas da metrópole. Sempre me achei mais próximo da sabedoria profunda dos velhos roceiros que da erudição universitária. Sempre me cri mais capaz de admirar as coisas calado, ruminando exclamações e mistérios, que descrevê-las em boa prosa literária. Mas, cá estou neste século e lugar; pronto para procurar eternidades no calendário, preparado para minar diamantes num pântano tão infértil quanto os desertos do norte da África. Não sou nem serei fazendeiro, destes que lavram a terra diretamente, destes que aram os veios e os semeiam estação após estação. Permitiu-me o Senhor, contudo, que eu fosse um cultor destas verdades incômodas à Civilização, da qual esta é a maior: quanto mais longe da terra, menos pó dela nós somos.

Esponjas de sol — XLIII

  1. Há dentro de cada um de nós um lugar onde nós somos nós mesmos com nós mesmos. É lá onde nosso silêncio tem interpretação pura e imediata, onde a palavra na língua nada comunica. É lá, nesta gruta aberta (antítese permanente de espaço e tempo), que o eu ricocheteia suavemente nas paredes de espelho que o refletem infinitamente para si mesmo. Vocês não percebem que há no centro do próprio eu um recinto no qual, circundado por Deus, nós somos nós mesmos por nós mesmos, numa espécie de solidão acompanhada, uma solitude presente de si, como aquela que a Trindade Santa vivia consigo mesma antes que qualquer outra coisa além de si existisse? Há dentro de nós um cenáculo onde nós nos reunimos conosco mesmos e deliberamos com o eu unificado, com a consciência leve a ponto de tocarmos o nada e então criarmos para nós (cada um para si, como Deus criou) um mundo inteiro de solidões completas de coisas e sonhos instantaneamente realizáveis. Há dentro de cada um de nós um lugar onde não há eco para o que vem de fora, um lugar onde nosso mistério particular soa uma mesma nota num mesmo tom sem que o ouvido imortal se enjoe da melodia. Há dentro de cada um de nós um lugar onde a luz pulsa, pulsa como coração da própria alma. Lá, neste pedaço de Eternidade que de alguma forma guardamos dentro do peito de carne, nós estamos nus e, como na inocência original, lá nós não vemos que estamos nus. Lá, a suprema, a inefável, a tão procurada Realidade.
  2. Nas suaves curvas das asas das aves, / O suor dos pássaros voa e toca o céu. / A gota que pinga não desce, não cai; / Ela sobe e avança nas nuvens e seca. / Seca como relâmpago no raio de sol.
  3. O homem autêntico age no mundo como se estivesse sozinho nele. Anda livremente sem medir a elegância métrica do passo. Fala sem empostar a voz em gravidade e falsete. Do primeiro pé no chão ao primeiro bocejo na cama, tudo é natural e espontâneo. Maneja os objetos do mundo e se relaciona com tudo e todos sem imaginar como lhe enxergam, como lhe julgam, como lhe crivam os movimentos visíveis. O homem autêntico é e só é, como se nada o acompanhasse senão a companhia de Deus. Nenhuma consciência lhe condiciona senão a sua própria. O homem autêntico é o homem mais livre e, porquê é o mais livre, é o único que é efetivamente homem.
  4. Lembrar é levantar a memória informativa das coisas, pô-las de volta no centro da atenção mental; é uma prática cerebral na qual os dados guardados são desengavetados da competente repartição burocrática neural; lembrar é acessar registros formais e oficiais do tabelião sináptico. Recordar é abrir um álbum, é passar os olhos e sentir de novo cada passado com a força dum acontecimento presente; é abrir o baú dos tesouros ou a caixa de pandora de nossa alma; recordar é aceder à biblioteca de pergaminhos da qual nós mesmos somos os escribas.
  5. A mulher conhece-se e ganha-se nos detalhes. A alma feminina é como uma toalha de renda: toda filigranada, toda cheia de minúcias e partes em si mesmas completas e aparentemente “autônomas”. É como um vitral gótico, como uma partitura tintinnabulum, como se Escher pintasse mandalas hindus e iluminuras ocultistas medievais valendo-se, ao mesmo tempo, de microscópio e telescópio para mais precisamente desenhá-las no mesmo papel. Uma mulher não é irracional, não senhor! Sua extrema sensibilidade e ultra-volatilidade não provém duma alma complexa porquê ilógica. Quando nós homens não entendemos (rotina nossa de cada dia!) bulhufas do comportamento feminino, isto se dá porquê nós via de regra apenas notamos as estruturas principais (da personalidade, das suas ações), enfim, nós padronizamos as ações duma mulher por sua regularidade quando, como no espaço-tempo da Física, aplica-se ao coração feminino a Lei da Relatividade, que, in caso, Verdi ironicamente resumiu nestes versinhos da ópera Rigoletto: “La donna è mobile qual piuma al vento / Muta d’accento e di pensiero” | “A mulher é volúvel qual pluma ao vento / Muda de voz e de pensamento”. Longe de ser um caos desamparado de padrões e uma anarquia desprovida de coerência, o coração duma mulher na verdade está assim tão semeado de micro-lógicas internas, que bem se parece com um ouroboros infinitamente clonado em versões pequeninas e grandonas que se auto-integram e comunicam. A mulher é fractal; é “alquímica”. As proporções de Pi e Áurea, as raízes de 2 e de 3 e de 5, as séries de Fibonacci e as escalas musicais e quaisquer outras coisas como as “medidas sagradas” totalmente fundidas mas não confundidas: bata tudo isto no liquidificador vórtico da alma e você terá uma mulher. A mulher não é ininteligível, porquê irracional. É inefável, porquê ultra-racional. Por isto, a nós, filhos de Adão, cabe conhecê-la como a um mistério e ganhá-la como a uma graça espiritual.
  6. Não são meras poéticas bíblicas as afirmações de que Deus têm contados os fios do nosso cabelo e que de folha alguma se desprende duma árvore sem que Ele expressamente o permita. É uma realidade profunda e às vezes imperceptível. Se você parar para prestar atenção na sua vida (nos acontecimentos externos, nos tempos e nas ações internas), verá que sua história pessoal é uma biografia escrita de cima para baixo e que, embora você tenha a sensação de que decide e escolhe o que fazer com seus passos, seus pés caminham por uma estrada previamente determinada. Portanto, também não é lirismo teológico afirmar que “todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus”. É realidade pura e refinada: tudo, absolutamente tudo, inclusive nossos pecados mais sórdidos e erros mais dolorosos, colaboram para a salvação de nossas almas segundo a vontade soberana do Senhor.
  7. O ridículo é a faceta mais evidente do amor quando estamos nos dias dos começos, quando ainda não há intimidade suficiente para não se preocupar com as primeiras, segundas e terceiras impressões. E o ridículo só nos acomete porquê idealizamos uma liturgia passo-a-passo para causar esta ou aquela impressão. O ridículo acontece como conseqüência da “média artificialidade” (porquê se por um lado a ação não é natural, sua motivação certamente é) do proceder que fazemos para demonstrar sermos assim ou assado. O ridículo ocorre quando nossa caricatura não se encaixa com a realidade do nosso ser autêntico, afinal, todo script falha e não há gênio de Stanislavski morto ou vivo capaz de atuar quando o coração quer saltar como géiser pela boca… O ridículo faz parte. O ridículo é coisa bonita de se ver e, principalmente, é coisa bonita de se sentir; porquê quando efetivamente se vê e se sente no outro, ambos se encontram “nus”, e nesta visão e sentimento que coram as bochechas, a timidez e a vergonha se beijam e, então, a intimidade nasce. Nascida a intimidade, acaba o ridículo e em seu lugar surge a cumplicidade de loucuras e doideiras próprias dum casal. O ridículo é a prévia superficial do profundo, é a avant-première externa do relacionamento que ocorrerá no âmago mais interno do coração.
  8. A Graça Comum, pilar da nossa doutrina calvinista, é de longe um dos mais belos dogmas da Teologia. Ela está tão amplamente enraizada em nossa vida ordinária, esta das rotinas silenciosas e modestas, que mal a percebemos. A Graça Comum é uma série infinita de “cafunés” divinos. Uma série de minúcias de contentamento e conforto diluída na existência mais quietinha do nosso dia-a-dia: a primeira xícara de café forte pela manhã, o cheiro de leite na boca dos filhotinhos, o sorriso das moças sonhadoras, a sombra do ipê carregado de flores ainda no verão, o copo grande e açucarado de limonada com bolo de chocolate no meio da tarde de férias, um filme antigo que há muito se queria assistir e que de repente qualquer canal resolve exibir bem quando estamos zapeando com o controle remoto… A Graça Comum é Deus acariciando a alma de todos os homens com gentilezas e elegâncias tão sutis quanto poderosas.
  9. Confiança é a pedra-de-toque de todo e qualquer relacionamento. Confiando, a distância de oceanos e continentes não demove a alma de sua paz. Desconfiando, na presença um do outro, supõe-se que embora o corpo não aja, lá está o pensamento traidor voando dum neurônio ao outro. Confiando, a integridade do sentimento está custodiado contra as setas e os laços da imaginação criadora de traições. Desconfiando, o coração é o alvo preferido de quaisquer suposições de deslealdades e emboscadas sentimentais. A desconfiança aterroriza a alma de quem está afeiçoado à outra pessoa: faz ver fantasmas, espectros e alucinações que, às vezes, dor das dores!, efetivamente são “penumbras” de carne e osso armadas com o antigo punhal da infidelidade. A par das obsessões e neuroses dos apaixonados, nunca se poderá amar sem que o ânimo esteja aquietado no sossego da confiança.
  10. Haverá dias em que nos “perderemos”. Sentiremos uma suspensão dos significados das ocorrências da vida. Não será possível compreender os rumos e a existência nos parecerá absurda neste ou naquele ponto. Não conseguiremos distinguir o porquê das coisas e como elas se encaixam ou se desencaixam no trajeto de pedras que temos trilhado. Haverá dias em que tudo parecerá estranho. Porém, apesar da angústia das nossas inconclusões, é preciso humildemente entender que Deus age estranhamente e que Ele mesmo trata de nos por nesta condição “para fazer a sua obra, a sua estranha obra, e para executar o seu ato, o seu estranho ato” (Isaías 28:21). Nenhuma obra grandiosa, por dentro ou por fora, pode ir adiante se o vaso a todo tempo for capaz de discernir os motivos de cada toque operado pelo oleiro no barro. Cristo nos consola, contudo. Recordo das palavras que ele oportunamente dirigiu a Pedro, quando este também se viu atordoado: “O que eu faço não o sabes tu agora, mas tu o saberás depois.” (João 3:7)
  11. Pode-se viver sem versos, mas não sem poesia. Aquela dose diária de qualquer coisa que faz brilhar os olhos e aquecer o coração é “poiesis”– porquê cria beleza, porquê goteja o Ser naquele pequeno buraquinho de não-ser que diariamente ameaça corroer nossa alma. Pode-se ser analfabeto e então estar incapacitado de ler os sonetos de Dante a Beatriz, as epopéias de Homero e de Milton, os poemas de T. S. Eliot e Pirandello. Mas não se pode pertencer à raça humana e não sentir tudo o que os grandes sentiram e… depois escreveram. Você pode viver sem escrever e declamar poesia pra morena, mas não pode viver sem ler a poesia dos olhos da morena. A poesia precede o poema como o número precede a matemática e o sentimento precede a declaração.
  12. Se você não aprender a diferenciar seus pensamentos, você não exercerá o necessário controle sobre si mesmo e, então, não prosseguirá muito além no caminho da santidade. Tudo o que voa-e-vaga na cabeça parece ser duma mesma substância e ter você como única fonte produtora. Mas, não. Há pensamentos que são genuinamente seus, há pensamentos que são setas malignas e há pensamentos que procedem de Deus. Aí dentro do seu crânio tudo é pensamento e é próprio do imediatismo natural das impressões dos nossos julgamentos supor que todos os pensamentos são produtos diretos do nosso eu. Mas, não. Com tempo e cuidado, você perceberá que estas três categorias exercem sobre sua consciência uma força diferenciada enquanto propostas de ação virtuosa ou viciosa: (i) seu próprio pensamento provém dum impulso resistível pela razão e pela vontade; (ii) o pensamento demoníaco provém dum impulso resistível pela razão e pelo desejo; (iii) o pensamento divino provém duma proposta resistível apenas pela consciência espiritual. Diferenciar a origem da “formação das idéias” que passam pelo nosso intelecto é primordial para crescer em graça e conhecimento. É sério, muito sério.
  13. Uma coisa esquisita mas bonita: semana passada, fui calçar os sapatos para vir pro trabalho e, ao por duma vez o pé, senti que tinha esmagado algo. Era uma crisálida de borboleta. Fiquei me sentindo mal. Hoje, no mesmo dia da semana, quinta-feira, fui por o mesmo sapato e, no mesmo par, antes da ponta do pé atingir o fundo do calçado, senti qualquer coisa lá dentro. Não levei o pé direito adiante e, com a mão, retirei lá de dentro outra crisálida. Guardei a pupa num outro calçado. Recordei então do primeiro livro que li na vida, no prézinho, presente de minha mãe. Está lá nO Pequeno Príncipe: “É preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas.” Se vivêssemos entre os persas antigos ou entre os gregos, decerto algum oráculo haveria de enxergar nisto um sinal, o sinal místico de que vêm por aí mudanças de ordem espiritual. Mas, claro: não é nada, nem diz nada senão que há pequenos e esquisitos acontecimentos de beleza no mundo — até mesmo surpresas dentro dum sapato. [18.10.18]
  14. A média da nossa moral é a média da moral de quem nos circunda. A média da nossa espiritualidade é a média da espiritualidade de quem se ajunta à nossa mesa. A “roda dos escarnecedores” (Salmo 1:1) e a “assembléia dos justos” (Salmo 111:1) interferem na alma de tal forma que, ainda que o salvo não seja um completo produto do meio, uma certa “homeostase” deforma pontualmente o barro onde Deus previamente começou a moldá-lo. Há um “efeito gangorra” nos nossos pecados que deriva, em certa medida, dos habitats espirituais que frequentamos e do quanto suas empatias, antipatias e simpatias agem sobre nossas passividades (convivência em grupo implica em passividade, sobretudo pela tolerância e moderação exigidas no relacionamento igual tido com os diferentes). O uso das expressões “roda” e “assembléia” por si já demonstra os critérios reunitivo e unitivo, respectivamente: no primeiro, um voltar-se de costas para o externo em direção a um centro de interesses egoístas que liga o grupo; no segundo, abertura ampla e arejada diante do mundo a partir dum ajuste interno reconhecidamente virtuoso. Em bom português: “quem com porco anda, farelo come.”
  15. A solidão degenera até as almas mais sólidas. A não ser que você seja um ermitão daqueles que peregrinavam santa e misticamente no deserto acompanhados apenas da Trindade, você vai se tornar um brucutu do mato se não mantiver relacionamentos profundos e intimamente sinceros. Isolamento é o primeiro passo para a amargura e o segundo para a soberba: sem contatos de afeto, carinho e amor (neste escala ascendente), a pessoa logo se torna um purgante de chata e, em seguida (como tentativa de proteção da auto-estima), o umbigo da galáxia de orgulhosa. Almas fortes o são na medida em que convivem, como os elos da corrente, como os ângulos da pirâmide, como o trançado da corda. Recordo duma frase de Bécquer: “La soledad es muy hermosa, cuando se tiene a alguien a quien decírselo.”
  16. Um pensamento que é seu surge e cresce por acumulação: uma idéia a esmo na qual sua consciência vai acrescentando e retirando nuances, informações, dados, conclusões, juízos e julgamentos; você meio que tem domínio do processo de desenvolvimento dele e sente que é por ele diretamente responsável (dure quanto durar) e que te liberta ou coage conforme você mesmo o conduz. Um pensamento que é demoníaco aparece abruptamente na sua consciência, como um choque imperativo (e tão urgente quanto fatal: um “deus ex machina” coator, um dado completamente inexpugnável que ordena e que, por isto, mal se pode tentar ser raciocinado passo-a-passo, ou seja, que só se impugna por completo, como um todo, porquê não é inteligível — logo, porquê é confuso – enquanto sistema), mas já com uma “arapuca” de base: uma idéia pronta e acabada que cai como bomba na sua cognição e, ao invés de destruir dividindo o que tem por lá, reúne as partes do “boom” e te obriga à qualquer mal; é a famosa gota d’água, mas uma gota d’água minuciosa e milimetricamente planejada a tal ponto de entornar um copo ou oceano que talvez você sequer tenha percebido existir dentro de si. Um pensamento que é divino aparece apresentando-se como idéia externa a você: uma idéia que é depositada na sua consciência com a delicadeza dum conselho fraternal; ele também surge pronto, mas não é um bloco sólido que não esteja aberto à análise e à discussão; ele brota de repente, mas como um regato manso de rio pequeno, como o toque vagaroso mas imediato do carinho de mãe; você escolhe o que fazer com ele.
  17. Cristo tem seu rosto estampado até numa lata de Coca-Cola. Você bebe o refrigerante e sequer percebe se é a efígie do Nazareno, do Luan Santana ou do Pablo Vittar que está ali. E a latinha vai pro lixo. Cristo tem seu corpo pregado a esmo em qualquer pingente à venda na 25 de Março. Você pendura a corrente no pescoço e sequer nota que, enquanto você mente, adultera e peca, o crucifixo mantém os olhos fechados pelo estatismo do metal, enquanto o Filho de Deus lá do Alto os cerra de tristeza. Como os santos do primeiro século, neste instante (agora!) nossos irmãozinhos chineses, escondidos nas suas “igrejas das catacumbas”, passam de mão em mão desenhos de gibi e recortes de revistas com a “fotografia” do Salvador. Guardam estes “ícones” escondidos sob o peito para, nos momentos de privacidade do Grande Irmão Estatal, olhá-los ternamente não como a ídolos, mas com aquela mesma reverência e carinho com os quais nós de vez em quando miramos cheios de saudade as fotos daqueles a quem amamos na vida ou na morte. A imagem do Rei do Universo, do Emanuel, foi banalizada no Ocidente. Nos museus ela é profanada com urina, fezes e mil ignomínias. Nas repartições públicas ela é um pedaço de madeira e bronze relegado ao alto das paredes que silenciam as vilezas e corrupções que ali se cometem contra os órfãos e as viúvas. Jesus Cristo tem seu rosto, sua carne e sangue, seu corpo chagado, pintado nas camisetas, tatuado nas peles, transformado em logomarca… |-| Jesus Cristo: e eu, e eu miserável, tenho-te ainda pintado em meu coração? Senhor, que eu não me esqueça do teu rosto. Senhor, eu não vi tua face “real”, a tua mesma que passou cá pela terra há dois milênios e nós esbofeteamos e então ferimos até que se desfigurasse. Mas, Senhor, eu tenho te visto por aí: os povos da Europa desenham-te branco e dolicocéfalo como eles o são, os asiáticos pintam-te sem aquela dobra na pálpebra superior, os negros retintam tua pele; e cada povo que te ama, bom Pastor, cada aprisco que te serve, lembra-se de que é tua imagem e semelhança, e então sobre ti ele carinhosamente põe a própria imagem e a própria semelhança. Que eu sempre me recorde do teu rosto impresso naquela primeira lição da Escola Bíblica Dominical em 1994… E embora eu não seja um novo Moisés pedindo para ver tua face, mostra-a, revela-a a mim sempre que qualquer figura apontar para quem és na terra ou no céu. Amém.
  18. O prazer de ter o tecido da roupa limpa e perfumada sobre o corpo recém-banhado. O prazer de ter na língua o gosto doce e azedinho do chá de hortelã com limão acompanhando um pedaço de bolo de chocolate. O prazer do silêncio eloquente entre quem se ama na mudez que sempre se segue a um diálogo sincero. O prazer dos pés descalços no chão frio de cerâmica fria da casa da avó num domingo de verão. O prazer de no bem-me-quer-e-mal-me-quer das dúvidas e ansiedades descobrir o sim ou o não definitivo. O prazer de de repente ouvir a música preferida numa esquina qualquer exatamente quando o ânimo era desânimo. O prazer do ócio dos rabiscos aleatórios da caneta no papel produzindo qualquer idéia bonita e útil. O prazer do abraço aninhante da mãe quando o coração quer ninho. O prazer de acordar pensando na mesma pessoa que embalou à noite o sono. O prazer de correr sem se cansar até parar simplesmente porquê a linha de chegada chegou. O prazer de ouvir do púlpito de Deus um raio-x da própria situação. O prazer de sair para fora numa noite insone e só de olhar para o céu conseguir voltar para a cama e dormir. O prazer de entender a letra e compreender a mensagem do bilhete amassado e quase rasgado que ficou no bolso da calça e foi parar na máquina de lavar. O prazer de sentir prazer por estes pequeninos prazeres.
  19. Todas as coisas são sinais. E uma coisa sempre será um sinal para outra.
  20. O amor não é sexualmente transmissível. Quanto mais “sexo sem compromisso” se faz, menos carinho está envolvido. Esta é uma geração que transa mais que os macacos bonobos do Congo e está ainda mais carente que filhotinho de cachorro solitário abandonado. Os olhos de “Gato de Botas do Shrek” das meninas não enganam: por mais lascívia a que se entreguem no mero corpo-a-corpo da luxúria sua de cada dia, mais elas necessitam ser efetivamente amadas. A rotina mecânico-química do rala-e-rola corporal esgana a alma se ela não estiver devidamente casada com o amor.
  21. Teu amigo nunca será teu cúmplice. Teu amigo vai por o dedo bem no meio do teu nariz, vai engrossar a voz contigo, vai te mandar tomar tento. Quem te auxilia nos teus pecados e incentiva tua degradação não é teu amigo. É teu algoz. Quem ouve teus planos e estratagemas imorais e neles é coadjuvante não é teu amigo. É teu carrasco. A necessidade natural de desabafar e de ter com quem dividir as agruras da vida tomando conselhos é boa, mas fazê-la acontecer aos ouvidos dum coração degenerado é loucura. Teu amigo vai te exortar, vai deitar o safanão na tua alma, vai te corrigir sem dó nem piedade. Teu amigo sempre será teu censor.
  22. Quantas vezes na vida eu pensei ter perdido uma oportunidade: pensei que o cavalo passou encilhado e eu não montei. Quantas vezes não deixei as coisas correrem por si mesmas e, então, depois, pensei arrependido: perdi o amor da minha vida, perdi uma carreira brilhante, perdi o grande acontecimento que poria tudo a ganhar. Quantas vezes! Mas, depois, passado todo o incômodo da frustração, com o tempo passando, percebi que o melhor sempre havia acontecido: aquele amor não era amor e coisa muito melhor substituiu a ilusão sentimental; aquela profissão não era vocação e coisa muito melhor substituiu a falsa percepção de trabalho; aquele grande acontecimento não era grande nem acontecimento e coisa muito maior, real e melhor substituiu a pseudo evolução existencial. Quando tu depositas cada palmo da terra do teu coração nas mãos de Deus, por mais que teus desejos vivam sapateando a tarantella das ansiedades no lagar do mundo, Ele mesmo vai tratar de fazê-lo fertilmente pulsar quando de ti mesmo faltar no peito a energia e a resolução para ir adiante no bombeamento dos teus “sonhos cardíacos”, para aceitar e acatar teu amor, tua vocação, tua vida!
  23. Ela não sabe sovar o pão como tua mãe sova? Ele não sabe instalar o chuveiro como teu pai instala? Ela não sabe usar aquela proporção de amaciante na roupa colorida como tua mãe usa? Ele não sabe cortar lenha e fazer uma fogueira para a costela como teu pai corta e faz? Ela não sabe passar a calça social e deixar a linha paralela como tua mãe passa e deixa? Ele não sabe usar a chave-inglesa no sifão da pia como teu pai usa? Um dia, teus filhos também olharão para trás, e do lado, e também idealizarão tuas capacidades, comparando-as, medindo-as, julgando-as em função de suas próprias mulheres e maridos. Talentos e capacidades domésticas são importantes para a rotina, mas não mantêm de pé casamento algum. Talvez até ela não saiba sovar o pão, lavar e passar a roupa. Talvez até ele não saiba instalar chuveiro, cortar lenha e usar ferramenta alguma. Mas, se houver talentos outros e capacidades outras compensando a falta dessas, nada estará perdido e, com amor, tudo estará ganho. O pão, o chuveiro, a roupa, a lenha, a costela e a pia o Youtube ensina a sovar, instalar, lavar, passar, cortar, assar e arrumar. E quanto ao namoro, o noivado e o casamento? Só você, com Deus.
  24. Todo sentimento verdadeiro se contradiz. O sentimento é imutável e permanente, mas quem o sente não. O amor verdadeiro se contradiz não porquê seja menos amor ou não seja amor, mas porquê quem ama se contradiz, mas porquê quem ama tem dentro de si a contradição máxima e imutável de ser humano. Trata-se, porém, duma contradição descompensada, onde o amor está sempre um [de]grau acima da raiva, por exemplo. O amor é dominante, mesmo que tenha que conviver com a soberba, com a ira ou com o “ranço”. Os sentimentos pelos quais o amor se “distende” são sempre antagônicos a ele na medida em que são, sobretudo, uma reação egóica a ele. Os sentimentos que contradizem o amor são seus subsidiários hierárquicos. Contradição aparente nas ações e emoções exteriores = coerência oculta e quieta nos sentimentos interiores.
  25. Todo homem é um pouco Sansão. Toda mulher é um pouco Dalila. Todo homem é biológico: deseja na mulher beleza corporal e sensualidade. Toda mulher é biológica: deseja no homem força corporal e poder. Isto é natural, e bom, desde que estes dois instintos masculino e feminino, respectivamente, estejam sujeitos à ordem da razão e do bem, que os moderará e encaminhará moral e espiritualmente. Do contrário, os vícios do narcisismo e do hedonismo animalizam homem e mulher, rebaixados a meros macho e fêmea. Como virtude, então, a vontade imprime à beleza estética a necessidade da beleza ética, e imprime à força física a necessidade da força metafísica: harmonia entre corpo e espírito. Assim, todo homem é muito Isaque, e toda mulher é muito Rebeca.
  26. Cada um de nós está um pouco solitário em si mesmo. A gente tenta remendar o rasguinho e tapar o buraquinho com uma taça de vinho, uma maratona na Netflix, um sono prolongado no domingo, uma mesa dividida com gente também cheia de rasgos e buracos, enfim, com qualquer peça do quebra-cabeça mundano que pareça ter a proporção da nossa “micro-solidão.” Isto é estar solteiro. Todos têm isto até que se encontre a “tampa da panela” para os vocacionados ao altar, até que se encontre a peça que à si completamente se ajusta no complexo e difícil quebra-cabeça de duas peças que é o amor. Os santos e os místicos, os psicopatas e os degenerados, estão todos esburacados no ponto onde a nudez homem-mulher é redescoberta sem aquela vergonha do Éden. Por que? Nos versos de Shakespeare em Romeu e Julieta, pode-se doutra maneira dizer: “pois nunca houve história tão triste como esta de Eva e seu Adão.” A história da quebra da unidade natural, que agora nos põe no jogo dos encontros e desencontros amorosos. Desde então — desde o Éden — apenas duas solidões são capazes de se anular e dar utilidade à esta tristezinha, criando uma “terceira presença”, a presença dos dois que se fazem um. Assim, um costura no outro a brecha nas vestes e cobre no outro a abertura da falta: duas taças para uma garrafa, uma série para dois lugares no sofá, um cochilo de conchinha, uma mesa para duas famílias que caminham para ter o mesmo sobrenome. O rasgo se torna abertura; e o buraco, toca. Isto é ser casado.
  27. Estão pintando as guias das ruas do cemitério municipal. Fui dar uma inspecionada no trabalho. Andei por cada uma delas. Acabei botando reparo na mudança da arquitetura dos túmulos conforme os anos. Os da década de 10, 20 e 30 têm na crença do além-morte sua tônica e são de longe mais refinados artisticamente: mármore talhado em vasos e arabescos, esculturas de anjos e do Cristo, só pedra polida, nada de metal, nada de fotografias, muitos epitáfios; um “campo santo”, enfim, como se fosse um anexo ora clássico ora barroco duma igreja. Conforme chegou a década de 40, e até meados da década de 70, os túmulos estão mais brutos e minimalistas com suas pedras rústicas, correntes de ferro e ladrilhos de cerâmica vermelho-chumbo todos com poucos sinais de religiosidade, um pouco mais de fotografias (em branco e preto) e os nomes em placas pequenas e simples; muitos dos jazigos parecem saídos do estilo Bauhaus, todo imanente. As décadas de 80 e 90 são o ápice do piso cerâmico e a inserção do granito lapidado e polido (mas anguloso e geométrico), surgem pequenas peças de bronze (devoções a santos entre católicos e versículos bíblicos entre evangélicos) com uma qualidade artística razoável, poucas cruzes e muitas fotos coloridas. Os anos 2000, que avançam até hoje, representam o ápice do granito polido e ondulado, o quase que fim das cruzes, a inserção das devoções marianas (Aparecida e de Fátima, predominantemente) com peças de bronze com uma qualidade artística altamente kitsch (brega) e o aumento drástico de fotografias (no tamanho, no colorido e na postura do fotografado) e capelinhas para velas que fazem lembrar os incensadores hindus; confusão metafísica e sincretismo. Dá para fazer uma leitura religioso-cultural e ideológica a partir dos túmulos cá do nosso cemitério. E, com o devido respeito, ela não é boa. A monarquia dos mortos prevê duras lições à república dos vivos… “Fomos o que és — Serás o que somos”, eles dizem silenciosamente. [29.10.18]
  28. Em amor há tipos. Há “modelos” mutuamente atraentes, em maior e menor grau. Por que? Porquê cada tipo corresponde à uma função/funcionalidade sócio-espiritual. Há tipos que se classificam por biótipo e há tipos que se classificam por arquétipos: predomínio do físico e do metafísico, respectivamente, do concreto e do abstrato que se entrelaçam, variando, num tipo específico. A moça de caráter mais romântico e feminino, de físico mais delgado, quase sempre se atrairá por homem de caráter mais nobre e intelectual com físico imponente. O rapaz de caráter mais prático e ativo, de físico mais franzino e mediano, se atrairá por mulher de caráter mais impetuoso e de físico corpulento. Os sentidos e os sentimentos se complementam tanto pela igualdade quanto pela oposição e, na combinação espiritual de homem e mulher, combinam-se também o aspecto corporal de macho e fêmea. Há tipos regendo, via de regra, o amor erótico. A mesma força que atraiu a maçã à terra para Newton e a maçã à boca para Adão é a força que atraiu Catherine Storer a Newton e Eva a Adão: a mesma força que, em padrões e paralelos, aos quatro uniu. Em amor há tipos, não estereótipos.
  29. Deus a si mesmo retratou-se como pomba. Mas a João, como águia. Deus entregou-se silenciosamente à cruz. Mas em favor de seu povo, quando ofendido, bradou: “Por que me persegues?”
  30. A Santa Aliança havida entre católicos, ortodoxos e protestantes no século XIX será em breve revivida para a defesa da Cristandade em terras brasílicas contra o Globalismo.
  31. O jejum é uma forma de auto-contemplação. Quem retira do corpo a nutrição, acrescenta ao espírito. Retira do entorno do ego os espelhos de vaidade, pelos quais vemo-nos em reflexos, por partes; acrescenta ao redor do eu olhos espirituais de realidade, pelos quais vemo-nos nus e crus, inteiros. O jejum é um exercício de auto-conhecimento. Quem retira da carne a comida, acrescenta à alma. Retira de dentro do ego as quinquilharias da personalidade, pelas quais enxergamo-nos em facetas, por partes; acrescenta ao centro do eu as estruturas autênticas do ser individual, pelos quais enxergamo-nos unos, integrais.
  32. A implicância é uma das multiformes ações do amor feminino. Homem que não compreende isto (e acha chato, insuportável, incomodante) está quase tamborilando as portas do armário. “Encher o saco” e “torrar a paciência” é carinho. Dê graças a Deus com mãos aos céus se ela implica contigo. Há fidelidade na implicância — a fidelidade mais infantil, mais inocente, mais sincera. Birrar e embirrar é uma delícia para quem está consciente do quanto há amor nestes gestos e sentimentos: de cutucões insistentes (a repetição é a força-motriz da implicância) a “onde você tá?” contínuos. Implicar é se importar. Nietzsche, a propósito, acertou: “Die gleichen Affekte sind bei Mann und Weib doch im Tempo verschieden: deshalb hören Mann und Weib nicht auf, sich misszuverstehn.” | “As mesmas paixões no homem e na mulher são diferentes em seu andamento e é por isso que o homem e a mulher jamais deixam de se desentender.”
  33. O mundo quer nos dispersar para, depois, nos dispensar. Quer que troquemos o amor pelo rabo de saia, a magistratura nacional por honorários de porta de cadeia, um vinhedo por alguns goles de batidinha, um púlpito junto ao altar por um palanque político… Daí, a ilusão se desfaz no ar e, depois do gozo pecaminoso, da remuneração gorda, do álcool batizado e da agitação populista, sobra o nada; o nada em nós, o nada que ficamos sendo, o nada que acaba na lixeira. Fixe seu coração nas coisas grandiosas e elevadas, nas promessas reais de felicidade verdadeira. Tenha força de vontade e nutra-se com o amor duma só mulher, com o pão ganhado na honestidade nossa de cada dia, no cálice bebido na moderação duma consciência reta, na vocação e no chamado para as coisas do Alto. Conselho que dei e dou a mim. Conselho que dei e dou a cada um de vocês.
  34. Oh, grandes mares, dai do pó dos ossos o rastro n’água! / Oh, desertos salgados, onde da areia se distingue o cálcio?
  35. Navego por entre mares internos, Senhor. Sou eu quem me sopra as vagas do coração e os furacões cerebrais. Sou eu, Senhor, quem navega contra as ondas do próprio eu, atirando raios furiosos com o braço arqueado e recebendo-os depois no peito. Se afundo, sou o abismo. Se subo à superfície e respiro, tu és a rocha portuária sobre as águas. Remo em mim mesmo, ainda que também seja eu o líquido escuro do oceano e a ventania que me amedronta.
  36. Os detalhes são as mais importantes estruturas da realidade.
  37. Quem nunca teve vontade de silenciar completamente por dias inteiros, de emudecer tão visceralmente como se nunca tivesse tido língua na boca e fala no cérebro, que atire a primeira palavra.
  38. Ouvir um hino numa língua desconhecida é um exercício de mistério. A gente sabe que aquilo ali, aquilo que ouvimos, é um cântico. Sabemos que ali temos um amor louvando o Amor. Mas se por um lado a literalidade dos significados imediatos nos falta, sobra na consciência espiritual a mediação da verdade última das palavras com sua música, do idioma desconhecido numa música algo conhecida (porquê as notas ricocheteiam na alma na mesma fluência cognitiva que une alemães a zulus, mongóis a judeus, tupis a belgas): é belo, é bom, é divino, é beleza, é bondade, é sobre Deus.
  39. Se te olhares primeiro numa fotografia de quando eras criança e depois num espelho, sentirás triste saudade como aquela do poeminha de Casimiro de Abreu. Partirás do passado para o futuro, que é o presente, e suporás o que poderia ter sido e não foi. Mas se primeiro olhares para o espelho, e depois para a imagem no papel, te sentirás catapultado lá para trás, quando as ânsias de crescer te povoavam a imaginação. Então, teu sentimento será consolador, porquê perceberás que daquilo que querias tu já tens um pouco e que a matutação duma criança, por mais doce que seja ao sabor do coração infantil e romântico, pouco discerne o quão difícil é enfrentar as abelhas e recolher nas montanhas o mel dos favos. Tu te deves ver como homem que um dia foi criança, não como criança que está sendo homem em infindas vinte e quatro horas.
  40. Quando em teu coração brotar [porquê tudo nele já está semeado desde o Éden, bastando que os fatos da existência e os atos da vida preparem sua terra] amor, trata de imediato de ir ter com as nuvens do teu cérebro. Acorda com elas o seguinte pacto: “Vós não chovereis se em lugar das vinhas, das oliveiras e dos trigais que desejo lavrar, eu mesmo vier lançar sementes de estranha procedência, rajadas de cores atrativas, porquê elas (ouvi-me, distintas cumulonimbus da razão!) empestearão o solo com os legumes da horta que Acabe tencionava plantar com Jezabel na quinta de Nabote. E se eu vier a mastigar seu cozido de lentilhas, Dalila servir-me-á na bandeja de Salomé a ceia da indigestão!”

As Aventuras de João Burronenhum

VI. CAVALO XUCRO

Eu sempre dizia a plenos pulmões que não pretendia correr de briga alguma, que enfrentava o mundo inteiro sozinho naquela bravura de Santo Atanásio. Era um “galinho índio” dando murros até na brisa, como se ela fosse ventania. Quando punha o pé na rua, fazia questão de estufar o peito e amarrar a cara –marrento, queria marretar os outros na marra. Eu sempre dizia também que dava um boi pra não entrar numa briga e uma boiada pra não sair dela. Um dia, encontrei no boteco do Zé Galhardo um tipo que poderia ter nascido irmão meu: a mesma postura de alma e jeito de lutador de vale-tudo. O sujeito quis começar uma discussão com a garçonete por causa duma pururuca que ele disse ter gosto de ranço. Ele queria paladar no rango: coisa de fresco. Pensei: se esse filho da mãe tivesse fome de verdade, mastigava o torresmo como se fosse maná. Tomei por insulto a reprimenda dada na Belena e, movimento de bote, em dois segundos deitei o miserável no chão. Ele saiu de lá carregado por dois outros mal encarados que fiquei sabendo serem funcionários seus numa fazenda do distrito de Vila do Arraial. Dois dias depois, sexta-feira, o brutamontes voltou. Estava de batina! O canalha, além de implicante, era sacrílego. Ave Maria! Se a carne de porco me tinha posto irado ao primeiro embate, agora o acerto de contas era com o filhote bastardo do próprio Antíoco Epifânio! Num estalo, cai com os punhos no sujeito. Ele desviou, como cobra. Só consegui ver, de relance, um brilho de fazer cair do cavalo. Um clarão. Apaguei. Acordei três horas depois, me contaram. E me contaram que assim que me levantei para deitar porrada no homem, ele retirou do bolso um crucifixo e soltou um “vade retro, Satana!” Eu estava possesso! O homem era padre-padre: frei Zenón, um galego vigário de São Bento do Arraial. Durante quase duas horas ouvi atônito o João Quincas narrando o quanto me debati, blasfemei e atanazei. O ritual do exorcismo foi feito e, ao último amém da pequena multidão que circundava atônita todo o frenesi, eu acordei. Estava leve feito pena sobre as nuvens, me sentindo um filhote de coruja despenado, mudado, sem vontade de abrir a boca, mudo. Sai de lá envergonhado, invertebrado; mas decidido a ser santo, santo, santo!

Três anotações sobre a Tentação

Alguns amigos há algum tempo me têm pedido para falar qualquer coisa sobre tentação e como lidar com ela. Compilei algumas anotações que escrevi ainda ano passado, pensando em publicá-las numa “didática espiritual” — gênero tremendamente inexistente na atual produção literária reformada. Cá vão três excertos, apenas, que considero suficientes, en passant, para entender por cima como ela funciona:

I. A tentação é uma falsa promessa de prazer. Durante a tentação, sentimos uma “prévia” hipotética do que a suposta consumação pode proporcionar. É como se naqueles instantes, quando o impulso do desejo se densifica na carne e a inebria, o maior prazer disponível a um homem nos fosse oferecido facilmente, a um só passo de distância — um passo passivo de deixar-se levar pelo magnetismo que vem do objeto tentador. A tentação ao mesmo tempo que eleva a irracionalidade ao seu mais alto grau, também nos dá, simbioticamente, a possibilidade de refugá-la: a consciência está ali ativa e é capaz de deter nosso desejo através de dois passos para trás da nossa vontade ativa. Um passo para recuar ao estágio de “tentação imaginada” (aquele momento em que já se sente uma micro parcela antecipada do gozo total) e outro para retroceder ao estágio da “aparência do mal” (quando nós nos apercebemos diante da potencial tentação, aquele momento antes da “fisgada” que empurra para o anterior).

II. Uma vez que cedemos à tentação, não demora muito para ela desaparecer no éter e então sua fatura, seu preço de vacuidade, ser cobrada. Assim que o combo triplo adrenalina-endorfina-serotonina evapora da corrente sanguínea e a realidade bate à porta, o vazio toma conta do peito e uma sensação do tipo “o que aconteceu?”, próxima à amnesie, cai sobre mente e coração. A promessa do prazer infinito ou perene vaza e se consome no nada. Aí, a gente “cai em si” e bate no peito um mea culpa não por arrependimento autêntico, mas por remorso, pelo egoísmo das contas feitas e conclusas: não valeu a pena! Nunca vale a pena. Quando tudo termina, quando a gente “limpa a boca” e diz “não fiz nada de mal” (Provérbios 30:20), sobra a destruição da vida ordinária, do dia-a-dia que deve ser enfrentado não como se nada tivesse acontecido, mas como se, pelo nosso pecado, nada mais já pudesse acontecer, porquê o espírito está cheio de nada e o mundo contra nós já levanta tudo e todos.

III. A tentação promete todo o El Dorado e entrega uma pedra cinza e afiada bem direto na testa. É ilusão, é Pasárgada, daquelas que desenham miragens no deserto e fazem os sedentos de água se lançarem nas dunas como se mergulhassem em oceano de água doce e fresca. Todos seremos tentados, mas aqueles que têm o “corpo” melhor “hidratado” pelo auto-conhecimento e por uma vida devocional com Deus (Mateus 26:41) terão menos sede, e terão alguma reserva no “cantil”. Aqueles que são adestrados na geografia das “coisas visíveis e invisíveis” são capazes de saber onde o calo aperta e por isso não porão os pés nus nos atalhos desconhecidos, nos supostos caminhos mais fáceis e prazenteiros que ao cabo levam, como no conto da Chapeuzinho Vermelho, direto para a boca grande do lobo mal; com a diferença de que o Lenhador pode não aparecer… Paulo ao dizer que “o espírito está pronto mas a carne é fraca” diz o que qualquer caipira sempre soube: “ninguém é de ferro”. O sangue de Cristo, porém, pode banhar de ouro nossa carne enferrujada…

Trecho do conto “O muro que se guardava do mundo”

Olhos profundos não têm fundo. A gente sabe que anatomicamente acaba tudo ali no limite côncavo da íris e da córnea; e que atrás dele vem o cérebro. Então, todo o complexo da visão se restringe espacialmente ao seu pedaço de carne incrustado no crânio. São duas bolinhas brancas e coloridas entre miolos cinza-sangue. E pronto. Olhos profundos, porém, superam a prisão do globo ocular. Que deleite olhar nos olhos dalguém e sentir que, se na morfologia corporal eles se resumem àquele espaço, àquela órbita e cavidade óssea, o espírito que neles habita mostra-nos galáxias, mundos, sonhos e existências tão superiores que a gente chega a duvidar que estamos diante dum corpo físico; a gente chega a pensar que aqueles dois círculos além-pupila detém a eternidade e que cada piscadela é um eclipse de glória sideral. A ternura do olhar é tão mais infinita, e tão mais bela, que toda a progressão matemática que vai dum extremo do universo a outro. Depois que eu olhei nos olhos dela, Monsenhor, eu entendi dois versos do Pessoa que sempre lera batidos: “A noite não anoitece pelos meus olhos, / A minha idéia da noite é que anoitece por meus olhos.” Com ela, é sempre dia e o sol não ousa deixar de brilhar. Mas esta ousadia fulgurosa, por outro lado, misteriosamente chama a lua ao dia; e a noite com ela vem para fazer das minhas vinte e quatro horas uma só e mesma coisa que não é nem totalmente dia nem totalmente noite. É um tempo lusco-fusco. Só tempo, cuja sombra é também labareda. Tudo por causa daqueles olhos profundos… Valha-me Deus de me apaixonar outra vez por alguma dessas moças de olhos rasos e embaçados, rasos feito um pires convexo e embaçados como espelho de banheiro de boate. Depois que eu olhei nos olhos dela, fiquei sabendo que os abismos que vão e voltam do centro do planeta não passam de poças d’água. Olhos profundos não têm fundo, Monsenhor Alfons! Não têm fundo!

O paraíso na terra do qual falam os cristãos

[Comentário a João 18:36]

A vida cá no planeta bem que poderia ser como num daqueles panfletos utopistas das Testemunhas de Jeová: união universal entre tudo e todos ao som dum piano variando restritivamente sobre sol-lá-si-dó (ou sobre um assovio hipongo acompanhado pelo chacoalhar búdico dum sino dos ventos), um comercial da margarina Doriana com a axiologia do comercial do cream cheese Philadelphia. Uma perfeição kitsch: caricatural porquê artificial, engendrada na patacoada forçada duma harmonia melada e tão certinha quanto bobinha. Não seria fenomenal que todos se tratassem festivamente com salamaleques superlativos, como o Ciro Gomes faz com quem lhe cai bem? “Oh, digníssimo e caríssimo ilustríssimo e excelentíssimo irmão!” Não seria grandioso que fôssemos assim todos perfeitinhos, e incapazes de levantar o dedo para discordar individualmente para o conforto da concórdia coletiva? Não seria maravilhoso que cada qual cuidasse dos alqueires invisíveis do próprio quadrado, moldando-se ao cubículo que o tabuleiro impõe às peças? A vida cá no mundo bem que poderia ser como nas páginas milenistas dos santos loucos e dos loucos santos e também dos pecadores loucos e dos loucos pecadores: Thomas More, Platão, Cabet, Francis Bacon, Evêmero, Marx, Saint-Simon e tutti quanti. Seria realmente bom que o Éden fosse por nós mesmos reedificado, que uma era dourada numa nova Arcádia fosse por nossas mãos obrada?

Não! Não seria. A vida só poderá ser boa no Bem quando não for assim tão facilmente descrita por papel e tinta, porquê se uma coisa o Cristo nos ensinou é que o “Reino não é deste mundo” porquê “a letra mata” (II Coríntios 3:6). Entre estes dois versículos articula-se a incapacidade humana de arrebatar a perfeição prometida lá e adequá-la aqui (seja na prática, muito mais difícil, seja na teoria, muito mais fácil). Estamos impossibilitados de construir uma terra de igualdade, liberdade e fraternidade como nunca jamais se viu desde que a maçã foi mordida justamente porquê a árvore secou e cá nós estamos escravizados à diferença (todas as maçãs são iguais entre si?) e à desigualdade (há maçãs iguais para todos nós, diferentes e desiguais?) do ego. A espada que foi posta para circundar o portão do Éden ideal é a mesma que circuncidou nosso coração real: entre nossa concretude falha e a abstração perfeita, está a espada — a espada da força, porquê só à força pode-se tentar obrigar à igualdade, só à força pode-se tentar obrigar à liberdade, só a força pode-se tentar obrigar à fraternidade. No dia-a-dia, quando estes belos conceitos ocorrem (alheios à quaisquer teorias político-filosóficas), já não ocorrem como conceitos; mas como gestos puros e amparados por resignação, consciência e auto-sacrifício de quem quis ser irmão do outro infringindo a si mesmo um nivelamento. Estas virtudes não são impostas pela coerção externa, seja da massa opressiva ou da longa manus estatal; antes, elas nascem do interior, do âmago individual, porquê se por um lado o “Reino não é deste mundo”, por outro “o reino de Deus está dentro de vós” (Lucas 17:21).

Trecho do conto “Às portas do Paraíso”

Sou mesmo um esquisito! E não te parece ser a coisa mais fenomenal do mundo? Por que você vive como se não tivesse alma? Olha, eu percebi que era um “esquisito” quando consegui reconhecer, no meio do engarrafamento, horário de pico em São Paulo, o “Va, pensiero” assoviado por um pedreiro, a uns vinte metros de distância do meu carro. Olhei para o relógio, instintivamente. Lembrei que por aqueles minutos tinha acabado o horário eleitoral gratuito. Tratava-se, com certeza, duma reminiscência do jingle do Partido Liberal inspirando o velho da construção a assoviar. Desde então, sempre que encontro um “tesourinho auditivo” em meio à cacofonia da cidade, eu fixo nele minha atenção e deixo meu pensamento pousar “sobre as encostas e as colinas onde os ares são tépidos e suaves.” Pode ser qualquer coisa, desde que ela detenha uma beleza superior digna de atenção, digna da nossa condição de homens. Um radinho de pilha tocando um baião à moda antiga, uma criança gargalhando pra mãe toda estabanada entre sacolas, um naco de som que de alguma forma seja eco daquela música que toca desde que Deus compôs o mundo. Ah, como é delicioso ser “esquisito”!

Trecho do conto “O Último Sermão de Beda o Menor aos Náufragos”

A vida está escorrendo das suas mãos, como aquela água de mar que escorreu das mãos do menino que a Agostinho ensinou a resignação dos mistérios. A vida passa como tempestade na primavera, como brisa no inverno, como um jogo de xadrez no qual o movimento das peças é feito pelo acaso determinista das correntes de ar do planeta. Nós cá estamos, sentados em nossos cantos e tronos, no anonimato de nossos particulares reinados, à espera da lágrima final e do sorriso eterno. Tudo se encaminha pela entropia, pelo desgaste das pedras no fundo do mar e pela consumição dos gases de Júpiter. Tudo é uma grande mancha no espelho, uma casquinha de prata sobre o bronze polido, um véu rasgado duma noiva casta mas sem pretendente? Não, meus filhos, nós somos o espelho feito daquele cristal fluído que moldou as almas; nós somos já a imagem pura e irrefletível do Espírito que soprou; e nós estamos em festa de bodas desde que água batismal lavou nossas frontes e corpos. A vida aqui sob o sol está correndo contra àquela ampulheta que reúne um grão a mais que todos os desertos da terra. A vida aqui escoa como a chuva que desce do solo até às nuvens e contraria o ciclo das águas ao se reempregnar no acolchoado branco e silente do céu que está um pouco acima do céu. A vida aqui se torna permanente como os peões, os cavalos, os bispos, as torres e os reis e rainhas do mundo vindouro se enfrentam naquele jogo de pique-esconde que agora apenas os anjos jogam.

Trecho do conto “O laço e o nó”

Tu eras um desenho, pouco mais que rascunho, uma pincelada de guache na cartolina, um esfumado de grafite, linhas da estrutura ainda não completada pelos detalhes de lábios e íris. Poderias ter sido obra-prima, tela nas galerias e quadro sobre a lareira. Tu eras sinfonia inacabada, partitura em alegro ma non tropo que cuidava de anunciar aquelas notas de êxtase do vivace; notas esparsas e geniais, árias fulgurosas, harmonia superior mas incompleta. Poderias ter sido a opus fundamental dos consertos que me arrepiaram a espinha. Tu eras uma grande peça de mármore, extraída finamente daquela fonte toscana, delineada por fora no cinzel, só esculpida nas mãos e na face, com um certo polimento na ponta dos dedos mal talhados. Poderias ter sido uma Pietà casadoira, um monumento de pedra à tua carne rosada. Tu eras e poderias… Então vieram as novas de Viena e tive que correr a acudir minha mãe viúva. Pensei que, órfão, tu me acudirias o coração. Ausentei-me durante o inverno e a primavera. Bastou uma semana e as cartas então diminuíram primeiro no tamanho, na quantidade de palavras; depois, reduziram-se no número e no espaço de tempo entre uma e outra. Há dois meses nada vem daí e nada vai daqui. De minha parte, com a guerra na fronteira, tu sabes o quanto é raro encontrar papel nas imediações de Innsbruck. Da tua, sei que em Saint-Fargeau o papel não apenas é da melhor qualidade, mas está tão barato que a resma já se compra ao preço de dois francos.

 

 

Esponjas de sol — XLII

  1. Creio que o maior esforço espiritual nestes nossos dias seja a luta para não se tornar uma caricatura de si mesmo. As personalidades estão tão afetadas por certas “facetas de estrutura”, dominantes, que é impossível não perceber o quanto tantos e tantos outros componentes (responsáveis por estabilização psíquica) estão sendo deixados de lado. Está tudo muito burlesco. E quando alguém está levando uma ideologia pra cama, muito pior a coisa fica: com causa, qualquer abortista ou pró-vida, eleitor do Bolsonaro ou do Boulos ou do Amoedo e do PT, vegano ou proto-carnívero, adepto da Intervenção Militar ou da Alienígena numa nova Woodstock galática, se torna um rascunho muito mal feito (kitsch, eu diria) de si mesmo. Conclusão: há mais pessoas que indivíduos. A existência desta maioria, por isso, pode até se parecer com uma charge, mas a vida… ah, a vida sequer é uma tela de Manet: a vida é a nossa carne e nosso osso como estão carregando nossa alma e nosso espírito como eles serão! Lute para não ser uma caricatura. É das coisas mais desprazerosas ter que passar algum tempo ao lado de um cartoon que calhou pertencer à espécie dos homo sapiens.
  2. Atirar politicamente rótulos sobre os outros (com todos os seus pré-julgamentos psicológicos e ideológicos) é coisa de fanáticos incapazes de argumentar. Toda barreira que você cria contra uma idéia e contra uma pessoa, sem se dar ao trabalho de racionalizar a primeira e de se relacionar com a segunda, depõe contra você mesmo: diz que você é, no mínimo, bocó; e que esta bocózice camufla a instabilidade daquilo que você pensa/defende. Apenas quem não está seguro de si e do que carrega na cabeça pode espernear tão histéricamente quando alguém lhe indaga o porquê de sua opinião/credo. E não há nada mais óbvio, mais sintomático disto, do que apontar e deitar fogo com a metralhadora dos pré-conceitos.
  3. Nossa intimidade profunda foi feita para ser dividida com duas pessoas, apenas: Deus e nosso cônjuge. Se você não é casado, só com Deus. Não é prudente contar a ouvidos humanos que não tenham contigo o mais alto grau de relacionamento (espiritual, almal e corporal) as coisas que teu eu produz desde o âmago. Cala a boca! Guarda teus sonhos, anseios e preocupações para compartilhar com o Senhor, sempre, e com a pessoa que receberes no altar. Silêncio para todos os outros.
  4. Eu te quero encontrar, Senhor, onde da minha alma sai a fagulha de sol. Eu te quero encontrar, Senhor, no silêncio desprendido do último suspiro de Adão. Eu te quero encontrar, Senhor, entre dois reflexos que se anulam até o infinito. Senhor, encontra-me quando faz frio e meu espírito gela em si mesmo; encontra-me quando respiro o oxigênio do mundo sem o ar do teu pulmão; quando a vaidade dos olhos-espelhos é a visão que mais anseio.
  5. Sei dizer tantas coisas, meus amigos anjos e homens, mas é esta a única que me tem comovido: “Eu prefiro o Paraíso!”
  6. Pisa o teu passo. Se na terra encontrares o rastro doutros pés, passa ao largo. Dá a volta sobre a pisadura alheia e percorre, e corre, a maratona dos teus próprios pés. Não te voltes a olhar e seguir a medida do caminhar alheio, porquê outros são os mapas e outros são os tesouros. O “x” que procuras, em dourado marcado sobre o pergaminho do Texto Sagrado, foi ditado pelos sábios, pelos profetas e também por Deus: sê tu mesmo! Pisa o mundo, calca teus pés, impõe tuas linhas à face do solo. Passeia, de passo largo e firme, e faz de cada naco de chão fronteira alargada de Sião!
  7. A seresta que mais a comovia / Não era a flor que eu juntava, / Não era o dourado do mimo. / Era eu, eu mesmo, / Dando na cara que a via, / Mostrando tudo quando sorria.
  8. Há dois encantamentos que a mulher produz no homem: i) o encantamento de catarse, que vem do coração e é capaz de purificar os sentimentos até dum australopithecus; ii) e o encantamento de animalização, que vem da baixa biologia e conspurca as emoções até dum querubim ungido. Você pode se apaixonar pelas duas, mas só conseguirá amar uma: aquela que te deixa bobo ao mesmo tempo que consciente, idiota ao mesmo tempo que racional, bestão ao mesmo tempo que sapiente. O encantamento de catarse é um permanente “je ne sais quoi” que de alguma forma sabe o quê é, e que, feito aqueles perfumes espirituais dos desenhos animados, arrasta a atenção, o olhar e o pensamento até que os sentidos todos se narcotizem na realidade.
  9. A arrogância é, de longe, o mais poderoso inimigo da inteligência.
  10. Que dificuldade maior tens que a de suportares a ti mesmo em teus acertos e desacertos, em tuas trapalhadas e mancadas? Sabotar-se é da condição humana, filho. Nossa natureza, indômita e xucra como estes cavalos arredios que vês naquele monte acima, pisa e sapateia nas coisas, pisa e sapateia com o ímpeto dos titãs do mito malhando os crânios dos deuses no lagar. Mas sabe antes que todos os teus pecados e infrações, cada maldade e tolice, colaboram para que sejas homem mais santo, mais preparado, mais Homem! Cada lança quebrada, cada flecha vergada, cada desastre quando desastrado e cada ira quando estivestes irado, são para ti o que para o vaso são as mãos do hábil mestre ceramista. Olhas para ti mesmo como um menino da Antiguidade mirava inquieto o próprio reflexo turbado pelo tosco polimento do espelho de latão! Tu não és teu reflexo, de linhas tortas e vagas! Tu não és a aparência refletida, de tonalidade metálica e pardacenta! Espera porquê ainda tens que passar pelo espelho do vidro banhado de prata e pelo espelho da água pura antes que finalmente possas dar de cara contigo mesmo, na montanha mais alta, no cume mais elevado, no centro do mundo onde céu e terra se beijam. Então, meu filho, quando tua mão mesma te machucar, quando tua ação em ti reagir dolorosamente, quando teus porquês forem causa de respostas amargas, sê feliz: porquê aprendes, e mudas!
  11. Cabe ao homem completar o silêncio da mulher não com um discurso, mas com outro silêncio. Quem silencia, silencia ou para se fazer notar ou para se esconder. A mulher age no silêncio querendo, ao mesmo tempo, estas duas condições de espera: quer que lhe percebam a quietude, mas quer que esta quietude não seja por qualquer coisa (senão pela sua resolução) perturbada. Respeita o silêncio feminino como o observador da ave-do-paraíso mal toca a relva por medo de vê-lo bater asas e ir silenciar em outro lugar. O canto do pássaro, quanto mais raro, não será ouvido por um homem ansioso — porquê as aves, como as mulheres, quando observadas, só cantam quando seu silêncio é quebrado por outro silêncio.
  12. Vou buscar nas auroras os raios altos, rabiscar vôos, soltar sorrisos presos, sonhar surpresas ouvidas só pelos anjos, ajustar orações. Vou buscar nos rios os sopés das montanhas, as estranhas mornas das águas calmas, a alma da sopa, o núcleo de paz de todas as coisas.
  13. Senhor, eu te seguirei até a primeira estação da via. Depois, medroso, te deixarei. Irei até o limiar da primeira acusação. Ouvirei, escondido atrás da mureta do quartel, o primeiro e o último estalar do flagelo: ao segundo até o trigésimo-nono estrondo do açoite, estarei mastigando tâmaras na vendinha de um dos sacerdotes. Beberei vinho impuro e esfregarei as mãos na fogueira enquanto o Cireneu te carregar o lenho. Senhor, eu te abandonarei sempre que me sentir ameaçado, sempre que meu egoísmo subir à superfície das minhas prioridades particulares. Senhor, mas tu me segues pelas minhas vias dolorosas, tu és meu defensor ante o tribunal do mundo, tu cauterizas com amor as feridas com que sou ferido em casa de meus inimigos, tu vens a visitar-me quando sou para mim mesmo uma cela, quando sou de mim mesmo o carcereiro. Porém, cá estou admirando-te as chagas, contemplando o quão vermelho é o sangue de Deus; aqui estou, sentado aos pés da cruz como diante dum quadro, donde tu pendes como se o sono de Adão outra vez tivesse prostrado um mortal…
  14. O tempo que vai por aí perdido… Quanta proeza soterrada pelo alarme do WhatsApp, quanto sentido escorrido na válvula de escape do bate-papo eletrônico, quanto doce não cozinhado, quanta unha não cortada, quanto versinho pela metade ficou para trás anotado nas margens dobradas do caderno de Direito Constitucional, quantas idéias e ideais de possibilidades o cuco do aplicativo não sepultou na memória e na realidade. Artur deixou de sonhar com o reinado em Camelot para jogar Clash of Clans no Facebook. Rapunzel não ouviu o príncipe gritando seu nome porquê há semanas está deitada na cama e não desliga os fones de ouvido do Spotify de jeito maneira. Dante deixou de treinar seus sonetos no “stil novo” para focar nos 140 caracteres do Twitter. Van Gogh está brincando de acende-e-apaga no Paint. Bach está viciadão no Guitar Hero. Perdidos, nós vamos por aí no tempo. Nunca pensei que chegaria a usar aquele lema batido dos epicuristas, mas vá lá e lá vai: “Carpe diem”, turma!
  15. Das centenas de sonhos que temos na vida, uma dúzia e meia são factíveis, quatro ou cinco são realizáveis e apenas um ou dois acabam vingando. Lei natural, uma espécie de “filtro entrópico” que purga as pequenas coisas que sublimamos das grandes coisas que podemos. No fim das contas, é desejável que apenas um sonho se realize — o grande sonho que abarque e complete nossa vida, que é também apenas uma. Você pode ter centenas de desejos, dúzias de anseios, umas poucas vontades, mas apenas naquilo em que tua alma concentrar a densidade duma aspiração humana inspirada por Deus o teu eu será feliz, feliz como num sonho, o “sogno di volare.”
  16. Por mais que a gente cresça e vire adulto, que a gente avance na idade e na experiência das coisas, resta em nós uma “rapa de tacho” de infantilidade autônoma. Sabe quando você está lá, comportado e centrado, com a mente preparada para devastar a selva escura da própria vida e o deserto iluminado da existência dos outros e, de repente, a criançola (misto de bobo-da-corte com Loki na puberdade) que habita silenciosamente aquela porção do teu cérebro que ainda é caverna pula pra fora e põe tudo a perder? Até um tempo atrás, eu via nisto uma espécie de auto-sabotagem ou mesmo uma área do espírito não suficientemente domada pela metanóia, uma faceta não alcançada pela regeneração salvífica. Percebi, com o tempo, que eu não devia esganar este pequeno Bart Simpson interior, que fala bobagem quando o momento é de gravidade, que prega peças quando é hora de [com]postura, que dá vexame quando há uma liturgia a seguir (seja ela qual for). Ele, como todo o mais em nós, também amadurece e, se bem entendido, serve beneficamente à unidade do nosso ser individual. Este bicho peralta (tolo e bocó, idiota saltimbanco, louco mas com laivos geniais de racionalidade) é, para quem o aceita, um “algo além” misterioso, um grão de sal que compõe a receita das personalidades grandiosas e fascinantes.
  17. Este negócio de “dedo podre” é simplíssimo: você se afeiçoa (e continua afeiçoado) amorosamente à pessoa que lhe “reapresenta” ao seu próprio nível moral. Digo reapresenta porque, via de regra, a si mesmas as pessoas (se auto-enganando) se apresentam no mínimo como de médio senão como de alto nível moral. Nós amamos aquela pessoa que representa proximamente o mesmo nível que o nosso. Em bom português: se o seu tipo erótico-afetivo é uma porcaria e você re-correntemente cai no mesmo buraco, não é porquê você simplesmente se atrai por porcaria, como se fosse um destino sofrer, de foça em foça; é porquê você também é (mais ou menos, aparente ou ocultamente) uma porcaria. Se o seu padrão é baixo, você se atrairá por gente de padrão baixo. O seu arquétipo se inclinará a outro igual ou semelhante. Melhore como gente e você gostará de gente mais decente. Continue sendo quem você é que a podridão do dedo logo se estenderá não apenas a todo o corpo, mas também ao seu espírito (porquê a meleca toda já sai da alma). Abismo chama abismo, diz lá o salmo. E montanha invoca montanha. Recordo do famoso conselho de Ibn Hazm: “Guarda tu alma de lo que la vicia, y desecha la pasión, pues la pasión es llave de la puerta de los pecados.”
  18. No mesmo dia em que escrevi aquele que considero o mais belo dos meus poemas, usei desta minha língua para dizer palavras das mais pérfidas contra meu próximo. No mesmo dia em que mais carinhosamente toquei um coração e um corpo, destruí outro com o desprezo imerecido duma virada de face. No mesmo dia em que dei cem contos a um mendigo embriagado, neguei cinco moedas ao gazofilácio do Senhor. No mesmo dia… É esta a nossa grandiosa e miserável natureza: entre o céu e o inferno, anjo e demônio em vinte e quatro horas; mas bem-aventurado, porquê somos terra convidada à Eternidade!
  19. A nitidez dos olhos sinceros. O embaçamento dos olhos insinceros. Nuns, tudo é cristal da cor da água; noutros, tudo são córneas espelhadas de cinza. Não me esqueço da primeira vez que vi uma galáxia em um par de olhos autênticos, duas gemas de luz — o urim e o tumim do amor. E sempre quero me esquecer quando vejo, quando sempre vejo, um buraco negro incrustrado nas órbitas falsas dalguém. Por mais belos que sejam aos cílios e a íris, neles eu só consigo ver o que os pequenos hobbits viram no Olho de Sauron: vacuidade, o vazio niilista da mentira.
  20. Será triunfal ver o homem comum de senso comum triunfando. O roceiro agricultor suplantando o universitário guevarinha de coletivo, a dona de casa modesta vitoriosa sobre a atriz messalina do Projac, o caminhoneiro semi-analfabeto com um sorriso de orelha à orelha e o intelectual uspiano chorando fel, o pai e a mãe trabalhadores vencendo a guerra ideológica contra a filha sustentada vagabunda e revoltada “contra mundum”. Será triunfal que o homem comum de senso comum chamado Jair Messias Bolsonaro triunfe nestas eleições.
  21. Como se eu fora um daqueles velhos galeões, de madeira e ferro, velejo entre as tormentas e as calmarias. O mundo, oceano imenso e não mapeado, bate rijo no casco ancestral de minha estrutura antiga. Na noite dos tempos, ora de bandeira no mastro ora anônimo na surdina dos litorais virgens, eu persigo o fogo de santelmo que meu astrolábio (herança dos reis-magos) indica. A âncora não quer descer, submergindo na água salgada que a corrói; ela quer subir, como se o céu fosse o fundo dum mar maior e mais vasto e doce, o profundo inverso dum empíreo que também é caverna, qual aquela em que Elias dormiu nos dias de sua melancolia. Navio de antiga forma eu sou, duma engenharia que mistura as formas da galé bizantina com a serenidade dos bergantins brancos que carregam os príncipes em dia de boda real, que une os canhões potentes da nau-capitânia de Filipe II com a ligeireza da liburna romana. Ao mar, ao mar! Que Camões jamais escreveria versos a estes krakens de aço e fogo que percorrem a água do mundo sem notar que no horizonte o pôr-do-sol é mais belo. Que fariam João d’Áustria e Horatio Nelson comandando barcos tão grandes quanto fastiosos na sua tecnologia e inumanidade? Ah, Lepanto! Ah, Trafalgar! Guardo no coração, coração de velho barco (tão barco quanto os botes tailandeses, tão barco quanto o cruzador ignoto que levou a pique os sonhos de grandeza dum reizinho de brincadeira), a proeza e a poesia de quem ousa dizer: “I am the master of my fate: / I am the captain of my soul.”
  22. Jung exagerou no seu arquétipo da sombra, dando-lhe feições demasiado exotéricas e místicas maniqueístas. Mas acertou que em cada um de nós subsistem trevas, negrores, horrores de penumbras malignas que sobem e descem na superfície e na profundidade da consciência, da subconsciência e da inconsciência. Nós cristãos bem podemos chamá-la “carne”. Trata-se, para todos os efeitos, da mesma estrutura de maldade que convive com nossa vida ordinária e mais ou menos boa. A grande questão, porém, é outra. E é uma pergunta: o quanto a luz em nós é capaz de sobrepujar as sombras, ainda que estas decorram daquelas, “brilhando mais e mais até ser dia perfeito”? (Provérbios 4:18). Porquê a Luz Inacessível, quando toca nosso espírito, brilha e brilha acessando nossa alma até que a candeia seja acesa e as trevas sejam alumiadas (Salmo 18:28). A grande batalha espiritual, a grande e maior, creio, é esta: lapidar a abstração da própria sombra até que do escuro brote o claro; é devolver a chama a Prometeu e esperar na caverna o raiar da Estrela da Manhã.
  23. O uso de “frases de efeito” é diretamente proporcional à incapacidade de argumentação lógica, racional e sistêmica. Quanto mais comprometido afetivamente com um causa, maior o número de memes, tiradas, chavões e instrumentos retóricos (emocionais e imagéticos, sobretudo) que um indivíduo utiliza. Quanto mais se tenta condensar toda uma gama de questões complexas numa frase tiro-e-queda, numa imagem caricatural que força o sentimento contra o pensamento, numa espécie de “anzol” ou “gancho” que prende mais pela força impressiva do humor (bom ou mau) despertado que pela estrutura que ele parece re[a]presentar, mais a pessoa se afasta da realidade e, com isto, mais mentirosa e canalha é a mentira defendida. Visite e reviste a timeline alheia nestes dias eleitorais e averigue por si mesmo.
  24. O coração de pedra fria e o coração de sangue quente se parecem numa coisa: um precisa de carne e sangue, o outro de dureza e solidez. No confronto destas duas forças aparentemente antagônicas, irreconciliáveis na superfície de pele e mineral, acontece o milagre: o coração de carne bombeia pedra até diluí-la; o coração de pedra bombeia sangue até que ele a consuma. Então um só coração, natural na biologia e no espírito, pulsa e palpita a razão e a emoção; um só coração, cálido e gélido num extremo e noutro, se equilibra na temperatura da normalidade. Eis o extremo possível do que consiste o “e sereis ambos uma só carne.” Há ajustes entre estados, personalidades e almas que, por mais contraditórios que pareçam entre si, não incorrem em “jugo desigual” (que não raramente se dá entre carne e carne e pedra e pedra, infecundas entre si).
  25. Sentimento e ressentimento. A capacidade de saber quando estamos com um ou outro no coração é a chave para julgarmos a autenticidade daquilo que experimentamos afetivamente. O sentimento é sempre originário, primário: por mais que já tenha sido experimentado no passado em contextos tão diversos quanto distintos, ele sempre se apresenta com tal intensidade como se fosse a primeira vez. Você ama a mulher, adulto, como amou pela primeira vez a menina na infância. Isto é real e verdadeiro. O ressentimento é sempre uma repetição, uma volta cíclica: ele é uma tentativa de reproduzir, por vero-imitação, o sentimento. Você tenta amar a mulher, adulto, como amou pela primeira vez a menina na infância; tenta recuperar o autêntico que aconteceu no passado e pespegá-lo, e implantá-lo, no presente pela contínua projeção ideal no futuro. Isto é irreal e falso. É preciso, por isto, perscrutar sem cessar as disposições do nosso coração e o quanto ele tem entranhado desejos que, na ânsia de acontecerem, acabam criando espantalhos sentimentais naquelas pessoas com as quais nos relacionamos por fartura ou carência afetiva.
  26. Conta das misérias do teu coração as obras que as eras nele deitaram. Conta das grandezas do teu coração os feitos que os séculos nele frutificaram. Não sabes que nas tuas ações agem os atos dos teus ancestrais? O gosto pela gordura do porco é cinco gerações à mesa e ao prato. A ira, fecunda de violência é cólera, é a fúria dos cruzados teus avós. Te encantam as ruivas do Norte e as morenas do Oriente? Não tens dos godos a predileção do próprio povo e das terras conquistadas? Mas, são gostos teus também, porquê entre ti e Adão há um e só homem: tu mesmo.
  27. Pisa o teu passo. Se na terra encontrares o rastro doutros pés, passa ao largo. Dá a volta sobre a pisadura alheia e percorre, e corre, a maratona dos teus próprios pés. Não te voltes a olhar e seguir a medida do caminhar alheio, porquê outros são os mapas e outros são os tesouros. O “x” que procuras, em dourado marcado sobre o pergaminho do Texto Sagrado, foi ditado pelos sábios, pelos profetas e também por Deus: sê tu mesmo! Pisa o mundo, calca teus pés, impõe tuas linhas à face do solo. Passeia, de passo largo e firme, e faz de cada naco de chão fronteira alargada de Sião!
  28. Para ser considerado civilizado o suficiente pelo establishment, e então ser um bom político, o homem deve ser um eunuco. “Moderação”, hoje em dia, é uma outra palavra da novilíngua para castração. Quanto mais emasculado, mais tido por cheio de virtudes cívicas e sobriamente administrativas é o sujeito. O negócio desta laiada é ser uma espécie de Gríma Língua-de-Cobra misto com Luís Roberto Barroso. Leônidas de Esparta, Churchill, Reagan, Trump e Bolsonaro mandam lembranças aos frutinhas Demarato, Chamberlain, Carter, Clinton e Alckmin.
  29. Eu te quero encontrar, Senhor, onde da minha alma sai a fagulha de sol. Eu te quero encontrar, Senhor, no silêncio desprendido do último suspiro de Adão. Eu te quero encontrar, Senhor, entre dois reflexos que se anulam até o infinito. Senhor, encontra-me quando faz frio e meu espírito gela em si mesmo; encontra-me quando respiro o oxigênio do mundo sem o ar do teu pulmão; quando a vaidade dos olhos-espelhos é a visão que mais anseio. Amém.
  30. A gente só ama quando há murmúrio e silêncio. O barulho da exposição destes relacionamentos “ostentados” no Facebook como provas cabais de felicidade valem tanto quanto o berro dum mudo. No muito ruído há pouca substância: é tudo oco de superfície e caro, como um kinder ovo. Calcule, objetivamente, o “custo-benefício.” Quanto mais real, mais tempo se gasta com a coisa por ela mesma e menos tempo se tem para dar a [in]devida publicidade. Quanto mais ilusório, mais tempo se gasta em se mostrar e demonstrar que a coisa não é ilusória, porquê ambos bem sabem que qualquer brisinha praieira derruba o castelinho disneylândiano. A meia-voz os amantes se amam entre si. No estrondo das declarações publicamente declamadas, eles amam o fato de que o mundo pensa que eles se amam.
  31. Você come o arroz e o feijão e não distingue a diferença do sabor do comido ainda ontem. Você acorda, põe o pé no chão e não sente se ele está mais ou menos frio que ontem. Você olha pros olhos de quem diz amar e não percebe se eles estão, na cor e no humor, mais claros ou escuros. Você perdeu o ontem hoje e, por isto, não tem futuro amanhã. Todo o dia a mesma coisa, todo o dia que é dia nenhum. Esteja o sol no começo ou no fim do horizonte, na verão ou no inverno, é o relógio do celular que apenas te diz, vibrando: faz isto e aquilo porquê está estipulado. O teu hábito te fez habitual, tão habitual quanto um bacilo de Koch mastigando o pulmão dum cadáver. O tempo te corrói. O mundo te consome. Os outros te devoram. Você é comida do nada. Até quando? A cerveja bebida no sábado passado, a redação escrita na aula anterior, a boca beijada na última balada, etc, etc, etc. Liste aí tuas realizações, tuas ações reais e irreais. Liste e perceberá que você é um autômato sem eira nem beira que duma caveira se distingue apenas pelo funcionamento biológico. Até quando? Hoje, mais arroz e feijão na marmita ou no prato, mais pisos e solos de cerâmica ou barro, mais relacionamentos insossos que apenas se mantêm pela comodidade afetiva e social de ter qualquer coisa pra fazer ao se ocupar de ocupar o outro. Hoje, mais nada de nada em função do nada. Até quando? Pense nisto.

Trecho do conto “A Penúltima Estrela de Annwn”:

O coração feminino também é selvagem. Apaixonado, é capaz de crimes inarráveis, de terrores míticos e trevosos, de loucuras que esfriam e esquentam a espinha de quem lhes ama ou detesta. Mas é duma selvageria doce, cheia de candura.
— Acende aí o candeeiro, interrompeu dando-lhe também o copo e apontando para a garrafa sobre a pequena mesa posta ao lado da lareira. —
A abelha que ferroa a cabeça, deita mel na boca. A rosa que violenta a pele, dá o perfume que estonteia. A mulher assim tremendamente apaixonada parece-se com aquelas crianças psicopatas dos contos e da realidade: beijam carinhosamente a testa que talvez escalpelassem e curam com seus unguentos as chagas que num minuto poderiam salgar. E os olhos, como agem nesta selva? Abertos, eles hipnotizam; fechados, erotizam. São medusas cujas serpentes se aninharam no cálice cerebral, invisíveis. Os faróis da Antiguidade também causavam esse estupor: se a fogueira flamejava, marinheiro algum ousava tirar dele a visão; mas se a chama sumia, seu desejo e oração eram, com obsessiva ansiedade, não de chegar seguro ao porto, mas de rever o ponto de luz que lhe guiava, nem que para tal tivesse que gastar propositadamente mais algumas horas ou talvez se fizesse, por alguns dias, náufrago consciente no mar. Sereias e naufrágios, meu filho, são amantes associados entre si; pactuaram o mesmo contrato visceral que sede e água mantêm ajustado desde que Deus criou os mundos.

Trecho do conto “Os Sinais”

Como caem secas as folhas e o vento a cada uma empurra à fogueira, com um pulo me levantei do divã e em três segundos já estava diante da porta dos aposentos de Leonora. O piso, apesar de diariamente barulhento, não rangeu. Madeira alguma estalou sob e sobre meu caminho. Talvez por obra do demônio, de repente, impulsionado por esses ares frios que, rastro do inverno, acometem violentamente certas noites de primavera, começou lá fora um vendaval capaz de abafar o barulho produzido por um pelotão de artilharia praticando tiro-ao-alvo no meio do salão. Também me recordei, porquê desde o começo da semana eu ainda estava acordado à esta hora, que a velha governanta costumava fazer uma última ronda antes que o relógio batesse à meia-noite. A Sra. Jenyns não apareceu e, por isto, também todas as velas que se acabam àquela hora não foram trocadas. Tudo ficou escuro. Que potestades do ar assim poderiam conspirar para que um tal pecado se cometesse em silêncio? Deitei o ouvido esquerdo à madeira da porta: discerni o som da pena no papel e a respiração ofegante de quem está tomada por ansiedade. Ela me esperava, e de certo rabiscava qualquer verso na tentativa de me impressionar novamente. Mas estes sinais, arautos das aparências do mal, aos quais eu sempre fora muito sensível desde a infância, me detiveram antes de bater à porta. Pela manhãzinha, pouco depois do último canto do galo, saí do palazzo alegando enfermidade na família. Deixei-lhes um bilhete, um bilhete oficial, no qual pela primeira vez opus o brasão pastoral e assinei o título de reverendo doutor. Passei pela mulher de Potifar sem sequer deixar-lhe as vestes nas mãos. O próximo passo, para ao qual eu já havia calçado as botas, era pedir Rebeca em casamento.

Trecho do conto “Num lugar de São Paulo”

O Quixote deste tempo forjou das latinhas de refrigerante sua armadura prateada; alumínio com o logo da Coca-Cola embaçado. Fez do bambu arrancado da decoração dum restaurante japonês sua lança. Arvorou bandeira dos trapos amarrotados duma torcida organizada. O escudo, retirou-o do tampão azul dos bueiros da Sabesp. E dum capacete de futebol americano fez seu elmo. Seu Rocinante? Mira o fidalgo cavalgando a Monark aro 26 resgatada do lixão! Ainda vejo cavaleiros. Homens de porte digno e medieval, trotando a pé seus alazões de almas antigas, seus espectros de puro-sangue equino estacionados nas baias das praças com catraca. Cavaleiros sagrados e ungidos pelo óleo que pinga do céu, o óleo duma gota gelada do filtro do ar-condicionado instalado no septuagésimo sétimo andar, o óleo duma cagada aérea de andorinha que dizem dar sorte. A Dulcinéia persiste sendo a mesma, debruçada do balcão da lojinha ou do consultório médico, moça igual as lavadeiras de Tebas, as enfermeiras de Gettysburg, igual as donzelas castas e não tão castas que as ruas, as igrejas e o mundo expõem na modéstia um pouco brega e um tanto cândida da normalidade feminina.

Cinco pensamentos | Gênesis 2

Cinco pensamentos sobre o Sermão de 30.9.2018, acerca de Gênesis 2, do Rev. Benones Santos, pregado na Igreja Presbiteriana de Catanduva:

I. Um homem e uma mulher, juntos por algum tempo, sozinhos os dois nalgum lugar, se tornarão Adão e Eva no Éden. “Si puer cum puellula / Moraretur in cellula…”, canta a Carmina Burana. Impossível que um rapaz e uma moça sem vínculos terceiros compartilhem o mesmo espaço por algum tempo sem que qualquer coisa de afetivo surja em seus corações.

II. A expressão “dominar a terra” pode ser perfeitamente traduzida por “guardar a terra.” Dominar é extrair, mas não é sugar; é retirar, mas não é espoliar; é remover, mas não é arrancar; é fruir, mas não é extorquir. É criar a partir da Criação para que o homem também “veja que é bom” (“vós sois deuses”, aplica-se), não recriar para a Destruição na cegueira do que é mau.

III. Ao homem cabe tomar a iniciativa amorosa. É ele quem deixa seu estado de solteiro e avança em direção a mulher para uni-la a si. A corte, como ao flerte chamavam os românticos, principia com o olhar feminino mas se inicia com o passo masculino. “Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma só carne.”

IV. A costela de Adão foi o tubo de ensaio da variabilidade genética humana.

V. Deus nomeia as coisas dando-lhes um ser: o que é como é porquê é — interno. O homem nomeia as coisas descrevendo-as num ente: o que é conhecido como é conhecido porquê é conhecido — externo.

Lamento sobre a Alexandria Brasílica

O galo-da-serra viu subir a lua vermelha.
Cantou, medroso, a melodia que aprendera com o dono antigo, rei e poeta:
Ré do si lá sol fá mi ré…
Dum esquisito paço no centro da nação,
Custodiada por infame mão,
Veio descer a centelha duma brasa que Alexandria incendiou.
Os ossos da Eva do Novo Lácio, calcinados com o faraó inominado.
Os pergaminhos de Cícero e Brutus, enrolados pela labareda insone,
Consomem a letra carmesim, rubricando de brasa a velha liturgia.
Quem é teu Nero, que harpejava enquanto Roma ardia?
Ah, mármore e dourado modestos dum soberano sábio,
Que pode o Clássico, na quinta rural,
Contra o mundo de aço, de pó cinza, artificial?
Eleva teu canto ancestral, poeira de glória,
Como sobre o Ararat Noé balbuciou a História,
E diz ao povo órfão até de avós
A genealogia do homem, da pedra à mó.
O gládio romano e a cimitarra do Islã,
O espadim dos Luíses e a adaga de Lampião,
Tudo fundido, na pedra e no chão,
Sob a força do férreo, espacial torrão;
Outro meteoro da Extinção?
Como cantiga de exilado no próprio lar,
Caipira meto a viola debaixo do alqueire,
Junto à candeia da fé que vem renascente.
Rezo a Deus o pedido final:
Que Idade permanente e medianeira chegue,
De luzes como aquela da gótica catedral,
E escreva, com letras de iluminura,
Sol de caligrafia e altura,
O futuro deste Império Milenal.

[2.9.2018]

Poesia Orgânica — I

A impressão causada às vezes dispersa o ímpeto, como água fria em calçada cálida sobre as fezes.

Figura de verdades ocultas: o figo verde e suas agruras, a nuvem sem forma e a mente nua, a tentativa de comer e enxergar significado, de ter tento no sabor e na variação do vento, sem avaria na boca e alucinação neural.

Paranóico, partiu para o ócio feito rei, potentado estóico em terra de delícias, para tentar a toada do poeta com leite banhar, para no círculo encantado o quadrado da lucidez encontrar: qual luz e verso, a acidez do líquido e a limpeza do místico.

Teus olhos reféns dos meus troféus: lhe dou os méritos, os três lugares do pódio, o lagar sem vinho, a ira sem ódio, a vida sem pretéritos.

Deus deu seu sangue sem cálice, na boca nua, na língua crua, na boa hélice das papilas. O trigo assado, motivo da carne, molhado no corpo, arde votivo no estômago, no âmago.

O professor refez as letras, as palavras na terra desenhadas. Confesso, Senhor, que lavro no papel, o ser da árvore. Vê do alto as nuvens, que vêm todas chover sobre o texto daqui. Tua obra, luz sem breu, que abra o livro à cruz.

Deitei na areia, ali onde reina o mar, onde os ramos se aninham nos pássaros e as leis não doem na teia da civilização. Viril, mantenho a mania de somar proezas e remar sozinho: quero alcançar fama com Deus e zerar a lonjura do horizonte. Juro, ontem e hoje, que rumo da poesia vil ao poema raro.

Caro, li na parede a mensagem, o ágio dos deuses, mentindo à mente, rede de lambaris neurais. O texto, peixe de Jonas, jaz no ventre das arraias: raro sentido para este comum intérprete. Se pedra fosse, preto granito, que alfabeto eu teria? Tédio, são enguias!

Alça vôo, criança! O vô alcança tuas mãozinhas, amorzinho. Maior alegria, raio pacífico ao luar, ilumina a imensidão do agreste. Assim, antes e depois, fica numa geração e noutra cindido o mundo debaixo do mundo de cima. Nós unimos o universo, na ascensão e na queda, ao céu e à terra. E o sol, na cor, crepita na fogueira. Cessa o brilho noturno e o grilho anuncia o galo.

Acostuma-te com as constelações que se apagam. Tem contidas tuas ações, como se no céu os santos, em grandes telas, te assistissem a vida. Tão nuas lágrimas e prantos são assim os eus se unindo na lida. Volta ainda as costas às tímidas jornadas e vai correr, na esgrima dos anjos, com as asas e os arreios dos pássaros e dos cavalos.

O caráter dela é éter, cara! Mas sê com ela gentil, ainda que seu gentílico seja etílico melado ou ácido. Assim dominas os lados éticos do espírito, assim alivias sem lítio o cérebro.

Dê à vida aquilo que te deleita. Sê o Aquiles do teu meio, e não débil cheirando à leite e chorando-o derramado. Sê duma mulher o amado, sê aquele cujo nome sem lamúrias é honrado, ainda que estejas na metade do caminho e te rias do rábula que tenhas te tornado. O furacão da existência, cão de fúria, sopra nas almas prenhas seu gérmen de caos. Mentem as gentes: mentem de língua nos dentes, mentem té aos mendazes!

Dividiremos um túmulo, a dívida do tumulto do Éden. Para lá iremos muito tarde, quando as folhas já forem pedra e os rios rastros na areia, quando os astros medrarem luz fora do universo, no antro onde rema o barqueiro ou no empíreo onde o Rei verseja unidade o Rei.

Esponjas de sol — XLI

  1. Se almejas a grandeza, não deves construir teu castelo nas mais altas montanhas, porquê ele te ficaria inacessível; nem nas montanhas mais baixas, porquê aos outros ele ficaria acessível. Mede as coisas pelo teu passo e estatura. Procura, então, uma montanha de médio porte e sobre ela ergue teu castelo, para que ele seja acessível a ti e inacessível aos outros.
  2. Se escolhes o céu, tu aqui já o provas com a cabeça nas nuvens. Se escolhes o inferno, teus pés já na terra queimam…
  3. A verdade às vezes liberta tão profundamente que sua mera menção é (poderosa ao “trincar” a estrutura da realidade) tão incrível quanto a mentira.
  4. Não percepção de presença não é ausência.
  5. Enigma. Trombeta de cobre, clarim de prata, flauta de ouro. Assim se descobre o tesouro! Atlas carrega o mundo nas costas como faz seu irmão, o imundo besouro.
  6. Você sabe que alguém está a sério na sua vida quando você sonha com a pessoa. Sonho desobrigado por “barriga cheia” ou por qualquer impressão que passou batida pelo filtro da consciência. Quem remexe com seu espírito durante o sono, primeiro mexeu com sua alma acordada. Quem inspira poesia quando o sol está no seu zênite, a pino, necessariamente a inspirará quando lua e estrelas esbranquiçam, como veias de prata, o céu escuro. Recordo Kant: “O sonho é uma arte poética involuntária.”
  7. TRÊS CONSELHOS AOS CAVALHEIROS (utilidade pública): I. Entre o que fala uma mulher e o que pensa uma mulher há a expressão facial duma mulher. Aquilo que a boca dita o cérebro nem sempre medita, mas a cara credita. Aprender a entender a modulação da voz, a compreender as caras-e-bocas e toda gestualística do semblante feminino é obrigação moral do homem que não quer sucumbir à loucura. Há uns cem anos atrás, se diria com razão que a “verdade verdadeira” do comportamento duma mulher está no meio do caminho entre o leque e seus olhos. Hoje, basta substituir o leque pelo smartphone; II. A simplicidade cai bem ao homem. Mulher alguma é simples. Se você não se deleitar (e se divertir, em boa medida) com os altos e baixos de humor, com as quedas e subidas de nervos, com as idas e vindas de opinião/gosto/vontade/desejo duma mulher, melhor você comprar um vídeo-game, que vem com manual de instruções e funciona na base do joystick. Barquinhos para flutuar pimposamente em lagos plácidos com cisnes, pedalinhos e vitórias-régias são para meninos. Homens são naus-capitânias que enfrentam as tempestades, as ondas e os monstros marinhos femininos (coisas complexas e perigosas, mas belas, mas tremendamente belas como as sereias). Capisce?; III. Aprenda a jogar xadrez, a montar quebra-cabeças, a brincar com jogos de adivinhações e a ler as estórias do Sherlock Holmes (a Arte da Dedução ajuda muito, ô rapaz!). Mais: aprenda a gostar disto tudo, caso naturalmente você não seja dado à estratégia e à tática, e também não se empolgue muito com enigmas, mistérios e “obscuridades lúdicas”.
  8. O processo de santificação é paralelo ao processo de individuação. Quanto mais o indivíduo é ele mesmo, mais santo ele é. Há um mal-estar interno, espécie de “radiação de fundo”, em toda personalidade que está deformada pelo pecado que lhe sobrevém da própria carne, do mundo e do diabo; e que lhe vem, em última instância, de si. Este mal-estar, este incômodo que de vez em quando ressurge (em forma de melancolia e suspensão de significados existenciais) lá do fundo da personalidade, surge do profundo do espírito da pessoa mesma. Quando não se está sendo o que se é e quem se é, quando toda a potência de ser não toma conta de cada parte do eu real, mas há apenas fragmentação e espargimento dele em direção desnorteada e incerta, o homem não pode ser integralmente feliz porquê não é integrado em si, e o desintegrado existe impermanentemente nas partes reunidas aqui e acolá em sua ação no mundo, mas desunidas pela falta de propósito, pela ausência de impulso constante em direção à uma vocação permanente. Quanto mais você é você mesmo, uma variação única e especialíssima da Imagem-e-Semelhança, mais você é santo e, como tal, cheio daquele bem-estar que impulsionou Maria a cantar “Magnificat!” — mais que canção poética, uma anuência implícita e explícita de quem quis se entregar ao Querer, porquê convergentes, porquê é-se unido, e não [con]fundido, em Deus, de modo que quando mais próximo dEle mais próximo é o homem de si. A Divindade diz ser seu nome “Eu sou o que sou”; o homem, nomeado por Ela, de si pode dizer “Eu sou quando nEle sou.” Abandonar o pecado e dedicar-se a virtude é abandonar a personagem atriz dum eu falso e cultivar a pessoa real e autora do eu verdadeiro. A exortação “Sejam santos porquê eu sou santo” nada é senão isto: “Sejam vocês mesmos, porquê eu sou eu mesmo.”
  9. Deus sussurra no silêncio noturno, nos nossos sonhos de mente limpa e nos pesadelos de barriga cheia. Deus está ali, nos cantos do dia e nas frestas das oportunidades, dizendo baixinho: “Este é o caminho, andai nele!” No meio do nosso coração, por debaixo da carne e do sangue, há uma bússola, uma bússola cuja agulha o Espírito imantou. Ela aponta não para o norte magnético, não para os pontos cardeais; ela gira, e tanto gira que fixa permanece (stat crux…), ela gira apontando para o Céu! Ah, minha consciência, meu astrolábio para caminhar na senda das coisas visíveis e invisíveis, sê em mim a guia! Deus me conta, sentado ao meu leito, que vêm por aí dias de vinho sangrado das uvas mais doces, de pães da flor do trigo dilacerados pelos dentes mais brancos. Deus me conta que o mito, que a imagem desfeita das lendas e símbolos antigos, é tão faz-de-conta quanto os números por detrás da matéria. Deus sussurra segredos e mistérios, revela imagens de minha vida e semelhanças dela com a existência dos anjos. Sonhamos à toa, colorido e branco-e-preto como as televisões mais velhas? Sonhamos como sonha o cão que corre deitado no canto da sala e que rosna de olhos fechados para preás feitas de nuvens e miragens cerebrais? Deus continua sussurrando, mas já é dia! É dia, de sol e luz ao alto, e Deus sussurra porquê dormindo eu também estava acordado…
  10. Todos nós julgamos uns aos outros o tempo todo. Justa e injustamente, benéfica e maliciosamente, racional e irracionalmente. Nós nos julgamos de maneira automática, instantânea de tão rápida. O pensamento — tiro disparado entre alma e cérebro — de imediato julga tudo e todos que entram na sua mira cognitiva. O fato é este: com critério e sem critério, nós batemos martelo e emitimos veredictos. Impossível deter isto. E ainda bem que impossível, porquê o julgamento é nossa balança condutora, é nosso GPS relacional. O problema, e que grande problema!, é julgar desde uma posição de superioridade inatingível e egóica. O problema é julgar para apontar, para criticar por criticar, para analisar o semelhante como espécime de outra raça que não a humana, tão miserável e gloriosa. Julgue o outro, julgue sim, mas em silêncio; no silêncio de quem primeiro se julgou e por isto se calou de vergonha…
  11. Não dou o mínimo valor à cultura, à erudição e ao conhecimento para gostar de alguém. Ao toque da última trombeta, tudo isto é bobagem terrena. Quando falamos de gente para se ter ao lado na vida (nesta e na outra), a coisa que me comove de verdade, que mexe fundo e remexe o profundo do meu coração de pecador arrependido, é a capacidade de ser tão sincero e verdadeiro quanto o mais santo e o mais iníquo são. Detesto com rins e fígados a macaqueação, tenho nojo visceral de [dis]simulação, me dá coceira na alma lidar com atores sem Oscar, com simulacros caricaturais de “gente boa”, com fingidos que acreditam no próprio fingimento. E tudo é muito pior quando à falsidade existencial somam-se diplomas, honras acadêmicas e pose cheia de afetação sapiencial. Lasquem-se todos! Eu amo (com amor reverente) nas pessoas é a cara limpa, suja ou lavada, mas limpa naquilo que se é nua e cruamente — humano, demasiado humano. Letrado ou iletrado, o negócio é prestar, é ser gente decente. De mentirosos compulsivos para si e para os outros, eu quero é a mesma distância que o diabo quer da cruz sagrada.
  12. Jesus Cristo perdoou completamente prostitutas, assassinos e ladrões em sua grande luxúria, morte e roubo, mas nunca perdoou fariseus e hipócritas sequer nos seus pequenos deslizes de fingimento e falsidade. Podem procurar na Bíblia.
  13. Você será feliz quando valorizar coisas pequeninas, também. O prazer de tomar um copão de água, de beijar o rosto quente da namorada, de conseguir assistir ao filme até o final sem dormir e controlando a quantidade de pipoca na vasilha, de correr alguns quilômetros sem ofegar, de se espreguiçar na manhã de sábado observando aquelas partículas de quaisquer elementos brilhando através da luz que passa pelas frestas da janela. Quantas coisas diminutas, sem preço, são capazes de nos fazer felizes. As coisas grandes, grandonas e grandiosas são legais, gostosas e nos fazem bem. Mas elas acontecem só de vez em quando. Porém, de vez em sempre nossa rotina está assim rodeada duma densa mas imperceptível nuvem de felicidadezinhas. Presta atenção, ô!
  14. Estou cansado, bom amigo, deste vale de ilusão. Para onde corre o fiozinho, a gota d’água, meu coração? Sombra imunda duma vela que morto algum velou. Sou assim, oh meu Mestre, a ondinha que ricocheteou no casco do teu barco e aos téus se prostrou…
  15. Toda dor e sofrimento colaboram conjuntamente para nossa salvação — que é o bem final da vida, e está necessariamente ligada ao fim da vida. A rede de infinitas reações que se sucedem à uma ação só é conhecida por Deus. Quais os efeitos duma morte, p.ex, na conduta física e metafísica de alguém a curto, médio e longo prazos? Quantas coisinhas rotineiras se seguem e se acrescentam umas às outras na existência a ponto de imperceptivelmente mudá-la por completo? Nós não somos onipotentes, oniscientes e onipresentes. Só Ele é. Que console nossos corações saber que o Senhor limpará dos olhos toda lágrima, porquê toda lágrima pedagogicamente lava nossas vestes manchadas pelo pecado hoje, amanhã e pelos séculos dos séculos. Jeová é oleiro e suas mãos nos moldam dolorosamente, quando necessário. Todo sofrimento, pequeno ou grande, nos ensina alguma realidade dantes oculta ou esquecida, e nos transforma — nos transforma para melhor. A cada dor, o amor dEle se manifesta. É misterioso, é enigmático, é imperscrutável. Nós não o entendemos e até contra ele nos revoltamos. Mas é amor.
  16. Procura te obrigar ao silêncio. Falas muito. Fica mudo, então. Observa como tu te negas ao agir impulsivamente pela boca. O impulso da língua! O impulso da palavra sem logos!
  17. O faro aguçado que as mulheres têm para identificar mentiras e embromação facilmente transforma-se em cegueira completa quando elas estão apaixonadas ou muito apegadas afetivamente. É como se o bloodhound (talvez a melhor raça de cães farejadores que existe) do Sherlock Holmes de repente fosse incapaz de distinguir um bife de picanha mal-passado duma rodela de papelão pintado.
  18. Há paralelos entre todos os pensamentos e feitos, seja em identidade ética (semelhança) e/ou estética (imagem). A presença dum elemento “igual” em essências e entes diferentes e divergentes é conditio sine qua non para a criação, para a existência, para a vida e para a Criação da Existência e da Vida. Por isto, eis parte(s) e todo(s) e seu relacionamento intrincado de fluxos de significados convergentes no imanente e no transcendente. Tudo se comunica em todos.
  19. A escumalha é a espuma dos metais. Alquimia.
  20. O número de homens de caráter é proporcional ao número de mulheres de caráter. São poucos. Quem eleva, via de regra, a qualidade da moral masculina é a mulher. O homem imprestável pode se esforçar para prestar por amor à uma mulher. Uma mulher imprestável dificilmente melhorará por um homem. Um anjo é sempre superior, mas quando ele resolve tingir suas asas de negro e cortá-las (ou depilá-las)… Corruptio optimi pessima!
  21. A ordem do teu mundinho exterior (teu quarto, teu banheiro, tua casa) corresponde à ordem do teu mundo interior (teu pensamento, teu sentimento, tua inteligência). Se o caos domina teu metafísico e a bagunça impera no teu imaterial, enfim, se a desordem sobrepuja tua alma e espírito, também teus ambientes físicos serão confusão material.
  22. Fui buscar água no pote e ela, já ao primeiro gole, revelou que tinha tomado um pouco do gosto do barro. “O Espírito de Deus se movia sobre a face das águas”: “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra.”
  23. Nesta vida quem nunca, estando certo e correto, pisou o pé na jaca, chutou o pau da barraca e cagou na retranca, fazendo-se assim errado e incorreto? Eu já me irei e, furioso, me enchi dos piores sentimentos de “justiceiro galáctico” (como se a minha causa, justa a princípio, devesse movimentar a cólera e a solidariedade de toda a Criação): já mirei a espingarda pro céu como se pudesse atirar nas estrelas e acertar em cheio os miolos prateados dum anjo. É da vida. Quem nunca atirou pedra, que atire mais uma pedra; e confesse, assim, que peca. O importante (pra nós mesmos, pros outros e pra Deus) é ter a consciência no lugar e então se julgar, se criticar coerentemente e, por fim, se arrepender. Quem se arrepende, sem vergonha e timidez, tem perdão. Melhor fazer constantemente o “mea culpa” do publicano que exalar a orgulhosa auto-justificação do fariseu. Mesmo com um pé lambuzado de nódoa e o outro quebrado, e os dois fedendo a estrume, seja sempre capaz de aceitar que você é um pecador. E lute para melhorar. Coma o fruto da jaca, arme e levante a barraca, faça das fezes esterco!
  24. Nossa consciência nunca entra em contradição consigo mesma. Ela sempre alerta para um único caminho, para uma só possibilidade, para um julgamento. A consciência fala em nós como se o profundo do coração e da mente unissem suas vozes de sentimento e pensamento num único e permanente sussurro. A bagunça da incerteza só acontece quando nós pretendemos ouvir o superficial do coração e da mente, que de vez em quando gritam (cada qual em seu tom e volume) seus desejos contraditórios. A gente sabe qual caminho tomar. A gente sabe onde deve colocar os pés e caminhar. A gente sabe. E a gente sabe que sabe. E é aí que as coisas se complicam porquê nós nos acostumamos a conviver com esta tensão, com esta oposição de incoerências, como se ela fosse natural, contínua e ininterrupta. A gente vive acossado, suspenso de nós mesmos; como diz o ditado, nem cagando nem saindo da moita. Canseira do mesmo se repetindo no looping ourobírico da angústia que mal se compreende: um “não sei o quê” renitente e obstinado que vai e volta e estagna em si mesmo. Então, nestas condições, não se vive propriamente. Porquê viver é fluir a vida sem barreiras quanto ao sentido, sem contrariedades de compreensão daqui e dacolá, é perseguir o tracejado do mapa da existência através da bússola da consciência. Dá ouvidos à tua consciência quando ela te despertar falando baixinho das coisas horizontais (teu dia-a-dia contigo e com os outros) e verticais (teu tempo com Deus), quando ela ao pé do teu ouvido declamar os versinhos que o teu eu te quer compor para ti mesmo, quando ela levantar o véu espesso da ilusão e te mostrar a realidade da felicidade que é possível.
  25. Quem gosta da gente nos trata bem. Quem não gosta da gente e finge que gosta da gente também nos trata bem. Mas há uma diferença: a gentileza de quem gosta de verdade é minuciosa, é espalhada nos pequenos gestos sentimentais, nas coisinhas visíveis e invisíveis do dia-a-dia, ela é feita de movimentos menores e efetivos, de açõezinhas cheias de bem-querer que vão crescendo e diminuindo na intensidade do carinho conforme o peso do dia. A gentileza de quem não gosta da gente é feita de grandes ações que se esforçam em demonstrar sua intenção lisonjeira e conquistadora; são espalhafatosas, performáticas, são jogos de cena, espetaculares; e são grandes “atos” (no sentido teatral do termo) muito enérgicos, muito veementes, que acontecem hoje e se repetem daqui semanas ou meses. A gentileza de quem não gosta da gente é sazonal e, quando acontece, é assim intercalada de explosões emocionalescas. Anota.
  26. Se você pudesse olhar nos olhos dum anjo cego e enxergar sob o branco opaco de sua córnea impotente uma centelha espelhada duma célula qualquer que absorveu o fulgor do Pai das Luzes… E se você pudesse sussurrar e gritar nos ouvidos ocos dum anjo surdo, talvez um querubim da guarda que durante certo tempo cuidou dos tímpanos de Beethoven… Ele não te veria materialmente, nem te ouviria fisicamente. Mas ele de certo te amaria, porquê te sentiria a querida presença. Por mais insensível (dotada ou não dalguma consciência) que alguém seja ao carinho; por mais refratário que alguém seja ao cuidado e à gentileza, por sua natureza nem tanto atávica mas provavelmente adquirida, é certo que a comunicação que vai de quem olha até os olhos de quem não pode expandir suas íris e então piscar, e que vai da boca de quem diz aos ouvidos cujos martelos não tilintam na bigorna e cujos sinos não badalam às sinapses, ah!, é certo que esta comunicação produz o milagre da visão e da audição espiritual. Tenho para mim que certas almas que nos parecem brutas e inertes, impassíveis até, só nos aguardam o primeiro olhar, só nos esperam a primeira sílaba. As moças brucutus, as donzelas chucras, as mulheres indomáveis; eis o que elas são: anjos indiferentes, de granito sólido, cujo despertar não se faz pela violência da talhadeira amputadora de arestas, mas através da carne e do osso que, frágeis, tocam; tocam e esculpem vida.

Os Vales de Fortún e o Pendão de Carolina

Granada parecia-me um pedaço de céu habitado por demônios. Jardins de querubins alojados de diabos e suas cimitarras. Azulejos, torres, zimbórios… Tantas e tantas graciosidades celestes servindo de espaldar para gentios. Granada era este Éden ocupado pela Serpente e suas crias. A romã que provei aos pés da colina maior deixou minha língua permanentemente marcada por um dulçor que até então desconhecia e talvez cria mesmo fisicamente impossível. A maça, o fruto da queda? Maná, que foi e que era? Notei também a quantidade de pedras bem polidas e de vidros lapidados. Natural, entre nós cristãos, que as pedras sejam lapidadas e os vidros polidos, porquê um já vem com brilho implícito e o outro nós homens fazemos brilhar porquê fazemos existir, e isto é explícito. Talvez seja esta a lógica do Islã com sua Sharia: o criado por Deus, mais duro e duradouro, deve ter seu brilho pouco revelado, quase embaçado na fricção irreverente das lixas grossas e finas; e o criado pelo homem deve ser elevado, posto numa proeminência de modo que a areia fundida mais refulja que os rubis e os diamantes. Porém, nós os súditos do Ressuscitado já há muito aprendemos com o querido Boi Mudo que a pedra deve ser burilada para sua ascensão e exaltação enquanto reflexo de Deus, e que aquilo que o homem cria deve permanecer como descendente de sua pequenez originária.

Eu, arvrinha

Esconde-te do mundo.
Faz-te comportado e mudo
Como a árvore que solitária
É agora a chama mais fraca na fogueira.
Regula a seiva da tua madeira
E sê, como quiseres, o rei da eira.
Se te querem cortar e usar,
(Galho e graveto,
Tronco e raiz),
Não dês aos maus
O fogo dos teus ossos
E o calor da tua alma.
Resiste na fornalha,
Porquê contigo,
Entre a brasa e a labareda,
Caminham o Jardineiro,
O Lenhador e o Carpinteiro.

Propter officium – III

Quando as hastes douradas
Vergam-se ao cinza no buril,
Quando só resta no cálice
A lâmina escultora e infantil,
Quando os séculos cinzelam
A verdade em imagem e mito,
Da Medusa resta o grito
E do tempo a marcação.
7.5.2018

“Tum propria flammis corpora alienis cremant diripitur ignis: nullus est miseris pudor.”
Sobra do barro que o fogo queimou,
Que em areia ou poeira se tornou.
Um graveto de tempo e cálcio
Enterrado no meio do Lácio.
Entranhas ao vaticínio.
Pensamentos ao símio.
Aranhas cosendo o sudário
Da carne podre no relicário.
8.5.2018

Num canto do mundo,
Entre a muralha chinesa e a parede babilônica.
Num ponto escondido,
Da acumulação holandesa e da visão faraônica.
15.5.2018

Quantos becos e tropeços,
Quantas ruas de pedras nuas.
16.5.2018

Dissimula!
Disse a mula?
Disse o mulá?
Muge lá!
21.5.2018

Eis o homem, de nós o demônio murmura.
Eis a carcaça mal assemelhada de Adão,
A estrutura carnal daquele rei e peão!
Toca o mundo, sente a brisa e o vinho,
Acaricia a seda das pétalas e o espinho,
Descansa tranquilo sobre oceanos e secura.
22.5.2018

Às vezes, planeja não planejar.
Arqueja os ideais por um instante.
Revê as idéias, areja a mente.
Planeia o mundo em silêncio,
Planifica o ar do parlatório.
Sempre sim ao esmo
Do mistério sem fim.
23.5.2018

Quando fizeres contigo tuas contas
E teus afazeres do passado as luas
Tiverem engolido em delícias nuas,
Olharás para o céu sem frio,
Sem sol cálido, sem sentido
E sem rio.
29.5.2018

Há uma sombra que se achega à parede,
A parede das heras e ervas, das eras cinzas,
A parede densa e vertical do bosque perdido,
Do jardim enclausurado no centro do mundo.
29.5.2018

No centro do céu o inferno,
No centro do inferno o céu.
Quatro círculos assim desenhados,
Um dentro do outro, em ordem.
Divisando a fronteira, um véu.
Velando a divisa,
Minha fronte altaneira.
29.5.2018

Eu vi uns olhos
Guardando galáxias,
Velando os astros
Lânguidos de prata.
Entre lua e luar,
Entre reflexo e clarão,
Ali estava a face,
O rosto enternecido
Da donzela de Ruão.
30.5.2018

Erbarme dich.
E que esta piedade
Pie no bico do passarinho,
Que no ar me diz:
Voa, voa, voa!
30.5.2018

Mal o dia delendava o pensamento,
E um anjo enviado pelo Senhor veio dizer,
Em cor de confidência há muito no céu remoída:
Isto aí que tens no peito: maladie de la pensée!
5.6.2018

Nunca contaste teus passos,
Porquê passeias nos contos
E sempre preferes o caminho
À geografia que fere o destino.
6.6.2018

Precipita-te de cabeça no teu peito.
Tateia a prece que começa a subir,
Que sobe e sobe; incenso de fé a ir,
A ir anuviar a beca lassa do direito.
6.6.2018

Ja, maar niet te veel.
Já, mar e nada, véu:
Batata marinada, mel.
Sim, mas não muito.
Nuvem, talvez o céu.
6.6.2018

Dantes os mistérios
Misturados de Dante.
Sérios textos pedantes?
Pés, versos, quebras,
Métricas, terços,
Estranhos quereres.
Véus místicos e ares
Soprando sereno
Sobre as palavras,
Remando no Arno,
Voando sem asas.
7.6.2018

Deixa a ilusão,
Vem ver este clarão
No céu, meu bem.
Olha a imensidão
Acenando pro além.
Bate a saudade
Quando a rosa murcha vai,
Vai murchar ainda mais
Com saudade do meu pai.
Olha, a escuridão
Vem se anunciar:
O quanto os teus olhos
Me inundam do teu mar.
8.6.2018

Lógica, ogiva de loas à angina de Satã:
O coração acídico do mal palpita meditada incongruência,
Odeia da ciência o pito ditado pela mediação da contingência.
Cérebro de nódoa racional, berrando sério impropério.
Contra o Logos lança sua lama, palavrório da insignificância,
Na ânsia de agitar, fogo e narina, seu afã.
14.6.2018

No teu peito, taciturno, bate com o luar o coração.
Entre as brumas e as pedras, pensas e caminhas.
Peleja à tarde, tácita e noturnamente, e sê a ação.
14.6.2018

Lírios negros sobre brancos montes,
Nuvens azuis em céus também brancos,
Améns entre turíbulos e anjos silenciosos.
Satã barulhento, fumo de vulcão, nega!
Escuridão sobre o firmamento vermelho,
Abismos cinzas debaixo de ervas pardas.
15.6.2018

A lança feriu de relance
A couraça de carne e sangue.
Abriu no corpo fresta de luz,
Criou no espírito rico pus.
4.7.2018

Se o véu do mistério eu descobrisse
E por sob a pele, na alma, a luz visse,
Que alegria deitar cedo para sonhar!
Sonhar sem querer acordar, e acordar
Sobre a nuvem deitado, no céu acordado.
19.7.2018

Som de luz, qual é,
Quando o Céu desce aqui
E ilumina de som a Terra?
Som de luz ouvi
Entre silêncio e altar.
Aleluia, cantai!
Aleluia, Aleluia,
Aleluia!
26.7.2018

Esponjas de sol — XL

  1. Se tu não escolhes um caminho e nele pões enraizados os pés, qualquer direção incerta te escolherá: ou marcas no mapa a tua caminhada, a linha reta ou ali e aqui bifurcada mas lá no horizonte convergente à missão proposta, ou qualquer placa falsamente direcionada a atalho ou qualquer anúncio de roteiro mais barato te lançará naquela cova aonde vão cair os incautos cuja bússola são as paixões tão instáveis quanto a adrenalina que no sangue lhes envenena a alma. Quem lê, entenda. Et tu, Calvinista!
  2. O que um dia nos diz quando a luz entra pela fresta da janela; quando um pardal pia e bate os pezinhos na calha; quando qualquer silêncio é anormal porquê a vida tem que correr pela rua. O que um dia não nos diz quando o sono ainda cansa as pálpebras; quando o grilo cantador ainda deveria de longe (cúmplice do mosquito, de perto) violar o repouso; quando sequer o eco do eco sussurra a queda duma gota de orvalho na grama, sob o espanto da formiga insone…
  3. A fortaleza cristã consiste em ser afável por fora e sólido por dentro, como um tronco de carvalho: gentileza nos gestos comuns no dia-a-dia, mas possante e resoluto no combate naqueles dias necessitados de vigor e decisão “fulminante”. Brando por fora, cavalheiro amortecedor; duro por dentro, cavaleiro lutador: assim age o homem digno de sua hombridade, na alternância contextualizada do lenço e da espada, do escudo e da pena. O problema é que a imensa maioria de nós, caros senhores, têm sido duro por fora (bronco e grosseiro) e mole (jujubinha-de-jesus) por dentro. Conselho do rei Davi ao seu filho Salomão: “Esforça-te, pois, e sê homem!” (I Reis 2:2)
  4. Quando a proverbial sabedoria caipira nos diz que uma palavra às vezes dói muito mais que um murro, muito mais que um soco, muito mais que um tapa, enfim, dói muito mais que uma violência física qualquer, ela nos diz a verdade. Deus é Logos e nós somos nano-logos: as palavras criam, em nós e nos outros, ações, situações e reações. Elas ferem e curam, atam e desatam, libertam e escravizam: correm em disparada do positivo ao negativo, e entre estes pólos amornam inação. Qualquer coração se movimenta (de dentro para dentro ou de dentro para fora) quando outro coração-e-mente se movimenta em sua direção verbalizando-se. Quantas vezes, por isto, não queremos o silêncio supremo, sem contato com quem quer que seja!, sem conversas e sem diálogo, como que almejando um completo vácuo e uma total suspensão do mundo da fala? Não à toa, Shakespeare confessou no ato V da cena I do seu Timão de Atenas: “Lábios, fazei cessar o amargo verbo, pondo fim à linguagem!” A palavra dói, dói desde o âmago mais abissal do espírito humano, porquê no fim também é o verbo e o Verbo sangrou no Calvário.
  5. Oh, minha alma, tanto antes calva,

Porquê sobre o vento vi a luz, vi a alba;

E se a nuvem escureceu a estrela,

Daqui da terra esculpi uma estela:

Gravei o movimento fixo do astro

Como se o girar fosse uma palavra,

Como se a amplidão em seu círculo

Fosse uma rima num verso perfeito.

  1. A minha alma — da tua a ferida benigna — rasgou-se em pó; verteu luz, seu pus. Enigma.
  2. Põe-te em pé, diante da tempestade. Faz das mãos os remos e da alma a vela. Tu és a nau e o capitão. Tu és a âncora e o marinheiro. Oh, deixa Deus soprar! Oh, deixa a onda arrebentar!
  3. A água a que chamais incolor, se muito se movimenta nada através se vê. Este espírito turbulento, que na quietude etéreo se apresenta, constrói e derruba na terra. Estrelas distantes brilhando iluminam; mas de perto, dos olhos a um palmo, elas cegam.
  4. Tu sabes que este dia um pouco te reviveu ou um pouco te matou? Se de segunda à segunda-feira tu divides os dias entre aqueles que deves trabalhar sofregamente e aqueles que deves descansar em diversões, se o tempo passas assim repartido entre labor penoso e fim de semana entretido, dize-me: de que qualidade fecal é a tua existência? Nada além de tempo em vão, perdido como se fosses um porco, um cão ou um vírus estirado na placa de petri — perdidos todos, cada um a seu modo, para a Eternidade. Agrada-te o fato de que chegarás à idade dos velhos apenas velho pela deterioração, apenas passado pela entropia atuando sobre o teu físico, como um assento de privada que por décadas serviu à latrina pública ou como uma lata de pêssegos reaproveitada para guardar pregos mais ou menos enferrujados? Agrada-te que entre tua concepção e teu funeral quase nada se terá acrescentado ao teu espírito? Sem vida interior (zoë), esta que sob a superfície do ordinário revolve em seu âmago o extraordinário oceano das fontes do abismo divino, a vida exterior (bios) logo te afogará com uma só gota… Uma só bastará. A sinfonia desprezada como “música que dá sono” te fará falta quando teus ouvidos estiverem ocos. O poema esquecido como “frescura de moças” te fará mais solitário quando os olhos estiverem opacos. Não terás apegada à tua memória e sentido as imagens, os sons e as letras da vida superior: então, no inverno, poderias recordar dos campos floridos de Van Gogh e das paisagens douradas de Caspar Friedrich; e nos domingos sem possibilidade de ir carregado à igreja, terias na alma cada trecho de sermão de Calvino, de Barth, de Vieira e de Balthasar, e recomporias no altar a música de Pérotin, de Bach, de Byrd e de Palestrina. Mas, para além da beleza que te ajudaria a consolar, te faltará mais, muito mais; te faltará a companhia da sossegada vida comum que todo homem deveria ter na carne e no espírito, que é a beleza mais alta: recompor, sarado, os passos e feitos de Adão e sua Eva; comer, com a descendência à mesa, torta de maçã, doce de figo e cordeiro assado — luzes e perfeições, símbolos engenhosos e fatos crus, terra e céu, transcendente e imanente. Pagarás, porém, o preço da solidão lancinante por te negares a amar uma só mulher e, com ela, santamente criar filhos como a videira presenteia de frutos as mesas e os altares, os copos e os cálices. Nestas segundas, terças, quartas, quintas e sextas-feiras e nestes sábados e domingos que passas como se não fossem dias especialmente únicos; mas uma mesma segunda e uma mesma terça, quarta, quinta e sexta repetidas ad infinitum, e então uma só coisa, um só bloco de “dias da semana”, de “dias úteis”; como também sábados e domingos não te são este sábado e este domingo específico, mas sábados e domingos igualmente atabulados na rasidão duma mesma nomenclatura e finalidade ourobóricas. Não vês que tens nome de vivo, mas estás morto? Do Senhor sequer preciso dizer-te: Ele é em tudo e para tudo indispensável. A Suprema Beleza que perpassa cada ato teu e cada ação tua, como uma linha de luz atômica que vai e volta do Ocidente ao Oriente dentro da alma. Do contrário terias cultura e erudição ou incultura e ignorância sem sentido, esposa e filhos sem missão extra-genealógica, existência socialmente acomodada à regras em si corretas mas sem o amor livre à Lei que gera a Realidade. Se o mundo assim tão cheio de fama é condenado com aquele brado altissonante (“Sic transit gloria mundi”), a ti este mesmo mundo sussurra ao pé do ouvido: e tu passarás comigo, oh homem anônimo e ludibriado! Hoje, reviveste ou morreste?
  5. Se tu não tens Deus, não tens a ti mesmo: és folha solta, folha petrificada de árvore extinta num só golpe de mandíbula. Sem Deus, que és? Não és… Um desenho no pó delineado, um sopro pareidólico, uma miragem sútil na penumbra demiurga. Se tu não és possuído pelo Senhor, como um cálice se realiza acolhendo o vinho da ceia vespertina, como a pena só tem sua missão quando a asa lhe movimenta nos céus, como a letra só se lê ao se irmanar ao alfabeto na palavra… ||| Oh, Senhor, fonte eterna que gera as fontes perenes, útero da substância da certeza que é real, coração de luz que fora do universo pulsa o puro ser! Sê seiva e enxerta-me na árvore. Outra vez me diz ao ouvido: “vive!”; e sopra nas minhas narinas a pneuma imortal. Assenta sobre as colunas da existência a casa do meu espírito. Desenha-me — no mármore intangível do Teu pensamento, pela concretude da Tua invisível paleta fazedora — e prova-me Tua paternidade. Deus meu, Senhor meu… tem-me em Ti!
  1. Tu podes conquistar um castelo inteiro com seus feudos — das torres góticas à esmerada alcova real. Por que sucumbir por um seixo arrancado do calçamento da rua onde pisou Lady Guinevere? Tu podes juntar todos os quadros e cenas humanas e retábulos e imagens divinas. Por que tudo trocar por um esboço mal desenhado da segunda ou terceira cópia duma bela mas falsa tela? Tu podes compor sonetos como Dante e escrever versos tão métricamente puros como Shakespeare. Por que tudo trocar por insossos poeminhas dedicados à trigueirinha mundana e imbecil? Tu podes, sob Deus, riscar nos mapas o destino eterno dos povos cristãos. Por que tudo trocar por um tabuleiro de xadrez com peças gastas, quando o peso da idade te curvar a coluna idosa? Tu podes fazer tuas preces no Santo Sepulcro e jejuar junto ao altar de Santa Sofia. Por que tudo trocar por rezas pela conversão de almas iníquas, irmãs de Saul? Tu podes gerar uma descendência vigorosa, cheia do viço milenar da raça dos godos cavaleiros e lavradores. Por que tudo trocar pela desonra duma aliança com cepa desarmoriada e preguiçosa? Tu podes ouvir o canto dos rouxinóis nos jardins imperiais e o piar das águias no topo do Himalaia na companhia duma moça virtuosa. Por que tudo trocar pelo gorjear cacofônico do rádio de pilha e pela ralhação duma mulher rixosa? Tu podes viver os dias dum Adão restaurado, empunhando o cetro do auto-domínio e do governo de si, nomeando regiamente a tua porção da Criação. Por que tudo trocar pela pulverização de tuas forças e por esforços hercúleos para no lugar manter minimamente são o centro de tua consciência, a todo tempo desequilibrada pelo mundo exterior? Tu podes ser rei e sacerdote, coroado e ungido entre o insenso da justiça e a glória do amor. Por que tudo trocar pela servidão laical, onde a espada te decepa a cabeça e a balança te pesa o coração, como se Maat e não o Cristo julgasse os homens? Tu podes ser o que podes ser, ato factual da potência possível, máximo e excelente no limite que o Céu te impôs. Por que tudo trocar por pedriscos e rabiscos, por pés de barro e esterco, por ninharias no instante atraentes mas cujos prazeres tanto valem quanto uma flatulência animal guardada em vidro de perfume caro ou um confeito apodrecido vendido sob o preço do maná dos anjos? Tu podes. Por que tudo trocar?
  2. Quando a proverbial sabedoria caipira nos diz que uma palavra às vezes dói muito mais que um murro, muito mais que um soco, muito mais que um tapa, enfim, dói muito mais que uma violência física qualquer, ela nos diz a verdade. Deus é Logos e nós somos nano-logos: as palavras criam, em nós e nos outros, ações, situações e reações. Elas ferem e curam, atam e desatam, libertam e escravizam: correm em disparada do positivo ao negativo, e entre estes pólos amornam inação. Qualquer coração se movimenta (de dentro para dentro ou de dentro para fora) quando outro coração-e-mente se movimenta em sua direção verbalizando-se. Quantas vezes, por isto, não queremos o silêncio supremo, sem contato com quem quer que seja!, sem conversas e sem diálogo, como que almejando um completo vácuo e uma total suspensão do mundo da fala? Não à toa, Shakespeare confessou no ato V da cena I do seu Timão de Atenas: “Lábios, fazei cessar o amargo verbo, pondo fim à linguagem!” A palavra dói, dói desde o âmago mais abissal do espírito humano, porquê no fim também é o verbo e o Verbo sangrou no Calvário.
  3. Olha pela janela, mesmo quando for alta noite e os assovios do vento e das corujas te encherem de medo. Talvez vejas lá por baixo passar a alma que o destino conduz pela rua porquê é a tua rua, e porquê é a tua alma! Olha, olha porquê o mundo quer que os quartos não se fechem apenas para a intimidade; olha, porquê Deus mesmo quer que para o lado de fora haja uma abertura pelo lado de dentro.
  4. O primeiro sinal duma alma atacada pelo diabo é seu fracionamento. A pessoa está toda dividida, despedaçada em pedaços quase sem encaixe: há vários “eus” reunidos num mesmo ente, mas cada “eu” (o profissional, o familiar, o afetivo, o isto e o aquilo) é uma qualquer coisa que quase que age por si mesma, sem coesão, sem unidade. Papéis diferentes, personalidades distintas, funções diversas e caráteres divergentes num só bloco individual, num só indivíduo, variando conforme tempo e lugar. As partes acéfalas, mas autônomas, não pertencem ao todo, já que o todo não é um tudo — é um nada. “Qual é o teu nome?” Respondeu ele: “Meu nome é Legião, porque somos muitos.” (Marcos 5:9). Quem está sob o poder do diabo pouco se conhece e, por isto, pouco se reconhece a si mesmo em si mesmo. Há ação, há impulso, há energia fazendo e acontecendo por meio de si no mundo, mas não há consciência, não um querer da vontade sobre a realidade, não há sequer um desejo (porquê o desejo se sente sempre em paralelo ou contraposto ao intelecto): age apenas o instinto encavalado pela perversão — ora jorrando e ora vazando um comportamento tão impetuoso e forte quanto improdutivo e sem finalidade. A alma assediada pelo diabo olha para o horizonte e não enxerga o porvir, lê o calendário e não mede o tempo pelos propósitos de prazo mais longo, cheira o ar úmido anunciando a chuva e não percebe que o campo está pronto para o plantio. Um “eu” trabalha o dia todo, outro “eu” trabalha odiando o trabalho, um “eu” sai de volta para casa para descansar o corpo, e um e outro e mais outro e outro “eu” prepara o jantar, toma banha, assiste a novela, manda mensagens no WhatsApp, paquera os contatinhos, acorda ainda com sono, acorda também os filhos, compra e lava e passa roupas, vai à igreja esquentar o banco, faz isto e aquilo e só faz; e qualquer um dos “eus” objetivamente apenas e só faz — porquê fazer por fazer é o que faz o diabo. A pessoa se perde num movimento cíclico sem fim no qual todo dia a vida começa e acaba. Há tantos “eus” que não há “eu” algum… Cada pecado que cometemos nos tira lentamente do centro de nós mesmos, nos tira e arranca (gradualmente) um pouquinho do controle que temos sobre nosso “eu”, dividindo-o. E dividido o “eu”, o diabo impera. Ao pecar, batemos a talhadeira do mal na rocha e vamos nos quebrando, nos fracionando e nos esmigalhando até que, em grau absoluto de iniquidade, sejamos e estejamos espalhados em cada pedra, pedrisco, pedaço de pedra e pedaço de pedrisco, e em cada grão de areia que restar pulverizado daquela grande pedra original (petra que es, guardadas as devidas proporções, petrus).
  5. Se não tens controle de ti mesmo, se não és senhor de tua alma, o mundo te controlará e em ti mesmo tu não serás mais que um inquilino com vaga posse do teu corpo. Se não dispões tuas ações, alguém as disporá sob o império duma consciência decidida e duma vontade férrea que não as tuas — porquê estás inconsciente, alienado, e cheio de inconstantes desejos. Se não te controlas, és peça de xadrez no grande jogo mundano; peão ou rei, não importa a hierarquia com suas penas e confortos, uma mão invisível te controla. Sê de ti mesmo o mestre, para que sejas causa e ação, e não joguete inerme de efeitos e reações que desconheces porquê não conheces a ti mesmo!
  6. Um pequeno mal gera mais e outros e maiores e mais fortes males. Se tu não deres fim ao pequeno trinco (tapando-o) que ameaça expor tua mente e teu coração, ele logo crescerá até que se torne rachadura e, então, muro após muro e muralha após muralha, desmoronará todo o teu castelo interior. Duma semente de cardo não queimada pelo jardineiro de pronto surgirá um jardim logo feito bosque e após transformado em floresta, em selva, de ervas-daninhas! Quando identificares um mal, um pecado aqui e ali confinado em ti, trata de eliminá-lo para que ele não venha, depois, a fertilizar teu espírito e neste esparrarmar-se indefinida e incontrolavelmente; assim, perderás as rédeas dos infinitos efeitos e das infinitas reações desta causa e ação primária que poderias, santificando-te, ter exterminado. Anota.
  7. A paixão é de si tão inferior ao amor que não somente é um estado patológico psiquiátricamente comparável à loucura, é também muito mais sem graça no nível consciente (porquê a paixão, ora, é feita de inconsciência pura e refinada). É sem graça porquê lhe falta, entre muitas coisas, o enigma e o mistério. No amor, sorrisos recatados e olhares de cores sentimentais mais cheias de nuances que uma tela de Van Gogh; na paixão, lábios-e-bicos caricaturais e caras eróticas de hiena no cio. No amor, detalhes silenciosamente entregues aqui e ali no perfume borrifado no papel e na gola, na letra mais esmerada, no apertado de mão sem jeito, no encabulamento amplo, geral e irrestrito, na timidez que sabe porém o que quer; na paixão, o exagero atirado dos feromônios, a comunicação sem-vergonha dos toques, contatos e mensagens retas e diretas (mas espiritualmente tortas e oblíquas), a desinibição que sequer sabe o que quer. Na contramão dos versos de Camões: paixão é fogo que arde e se vê, é ferida que dói e se sente. A paixão é o suprassumo do aparente, do alcançável, do evidente; e, como tal, é solucionável. O amor é de si tão superior à paixão que não apenas é um estado de saúde espiritual, é também muito mais cheio de graça!
  8. Faz o que é certo. Deixa os resultados com Deus. Semeia, planta e rega, porquê ao Senhor cabe dar o crescimento. Faz a tua parte, sem terceirizá-la ou dividi-la, para que depois a culpa ou o mérito não sejam injustamente compartilhados no todo. Guarda tua consciência e nunca arreda em nada, sequer numa vírgula ou til. A covardia de ceder por conveniência psicológica ou social não cabe a um homem redimido. A única opinião que importa é a da tua consciência julgada por Ele. Faz o bem, o elevado, o melhor: e que se lasque o mundo amante do mal, do baixo, do pior. Se estão acostumados à lavagem dos porcos, mostra-lhes as pérolas e depois joga-as aos leões da terra e às aves do céu. Faz o que é correto. Deixa as reações com Deus.
  9. Vida feliz é vida com Deus. O resto é desespero existencial camuflado. Um buraco na terra tapado com concreto ou geléia ainda assim é um buraco. Um buraco na terra tapado com terra deixa imediatamente de ser buraco. O buraco é o vazio que todo homem carrega. Deus é a terra para nossa terra, é o preenchimento perfeito que extingue o vácuo, que acaba com o buraco — porquê em Sua semelhança se funde nossa imagem. Qualquer outro material é placebo tampador, que nada promove senão um disfarce tapeador. Sem Deus a gente não passa de animal ansioso por saciar imediatamente seu instinto sedento por prazeres desordenados ao preço de tristeza rigorosamente paga em prestações intermináveis e cada vez mais caras, mais doídas. Isto deveria fazer você perder o sono!
  10. Há muita beleza numa face trigueira, de carne ondulada e harmoniosa. Há muita beleza nuns olhos da cor e da forma da amêndoa, de íris alada e fulgurosa. Mas há muito, muito mais beleza numa expressão sincera, de espírito reto e angular. Há muito mais beleza num olhar colorido de pureza translúcida e moldado na integridade de mãos livres. A partir do momento em que a pessoa deixa de ser uma estátua de carne e osso, um objeto para o julgamento estético à distância, e torna-se um indivíduo de alma e espírito no contato e no relacionamento direto, a ética da proximidade altera completamente nossa percepção de sua beleza. Conclusão, que aprendi lendo Ortega y Gasset e, muito melhor, que aprendi lendo as mulheres: a beleza que atrai muito raramente coincide com a beleza que enamora.
  11. Sinta, só hoje, saudades de passados que não foram; de namoro, noivado e casamento que não aconteceram; de filhos que não tivemos e com os quais não brincamos, e que nunca conhecerão a fé em Nosso Senhor porquê eles não são, porquê eles não foram; sinta saudades de jantares que nunca comemos, cúmplices, à luz de velas, de estrelas e de comuns lâmpadas incandescentes, na cozinha apertada do apartamento do começo inexistente das moedas contadas e depois na longa e elegante sala de jantar do casarão que nunca foi comprado na abastança; sinta saudades dos poemas não compostos mas de alguma forma decorados, das canções orquestradas entre duas sombras no cerebelo mas nunca ensaiadas para platéias silenciosas, dos sonhos desesperados e das esperanças que foram cair num buraco — o abismo do que poderia acontecer e não aconteceu, a câmara secreta do possível transmutado em impossível. Sinta, só agora, saudades destas possibilidades tão simples e douradas, tão caras e singelas, inundadas por complexidades assassinas, prateadas, tão custosas e presunçosas; sinta, porquê se qualquer fio de luz ainda te restar na alma, ainda hoje e agora és capaz de reviver estas possibilidades. O presente é ausente quando não se move para o futuro por culpa das ansiedades do passado. Estou ouvindo aquela Romanza melancólica, de solitudes suaves e profundas, de Bacarisse: escuta ela também, para que sobre o teu espírito desçam as mesmas preocupações que inundam o meu. O violão, assim ponteado, desnudou a nós dois, como se a pele mesma fosse rasgada e mais nua que o corpo se encontrasse desvestida a própria alma; mas os violinos, e a orquestra toda com eles suspirando, nos cobrirão, nos cobrirão!
  12. A maioria das pessoas sequer conhece o significado do próprio nome. Daí (início mínimo do conhecimento sobre os aspectos formais acerca de si mesmo enquanto terráqueo), até o auto-conhecimento fundamental de seu significado individual no cosmos, há um abismo quase que intransponível pela imensa maioria das pessoas. Tudo começa e termina com nomes: com aquele que está na Certidão de Nascimento e cujo registro nos identifica entre os membros sociais da espécie, e com aquele que Deus nos chama em oculto e depois nos chamará publicamente e cujo escrito nos assinala como filhos Seus. Começa aprendendo o porquê de teu nome Aqui, para que, então, te prepares para o porquê de teu nome Lá. Será assim tão à toa e casuísticamente despropositado teu nome, fruto dum capricho de gostos paternos ou maternos? Não! Teu nome é teu símbolo impermanente no imanente e permanente no transcendente, tua sina fatídica no físico e fática no metafísico. Sê minoria: sabe o porquê e o significado; conhece-te a ti mesmo!
  13. Qualquer coisa grosseira se muito e repetidamente tocada acabará delicada. A madeira mais rústica se tornará lisa e tão polida quanto uma mesa envernizada de convento de freiras idosas. A pedra mais dura se tornará lapidada e tão luminosa quanto um fragmento de estrela ou uma gema de coroa imperial. E o coração mais escamoso e congelado, toque a toque, no toque digital e individual que desgasta o metal carnoso e lhe transfere um poucochinho do seu calor, se tornará tão aveludado e quente quanto o colo materno. O toque puro de uma alma é capaz de descascar, lapidar e polir outra tão melhor que as milhares de mãos que diariamente, há séculos, lustram o pé da estátua de São Pedro em Roma. Com muita sabedoria diz o caipira: “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.” Se no carvão há centelha de diamante e sob o tronco se delineia obra de arte: goteja teu afeto! E repara bem, porquê o brilhante pode ser negro e a escultura o entalhe de uma árvore…
  14. Tenho notado que, das coisas que uma alma mais sente falta em outra, a falta maior é de companhia para conversar aquelas conversas tão longas e profundas que se começam falando, vá lá, por exemplo, do mistério da Santíssima Trindade, passam pela povoação de todas as galáxias e terminam numa boa receita de spaghetti alla carbonara. Encontrar companhia para olhar as estrelas como Kant olhou e como os aborígenes ainda olham o céu noturno e, depois, conversar sobre; companhia para ficar perplexo com a última notícia proseada no pinga-sangue sensacionalista do Datena e com a crueza poética de Macbeth e, depois, conversar ainda mais sobre; companhia para se encantar com uma idéia bem pensada, com uns versos bem limados, com uma pancada de chuva na diagonal molhando justamente o pedaço de chão mais seco do jardim, com uma ninhada de cãezinhos cheirando à leite, enfim, com isto: com o mundo real que parece imaginário para a maioria que mal sabe que, entre o coração e o cérebro, existe uma alma da cor do primeiro gole d’água que Adão deu na moringa logo depois que suou sua primeira gota de suor. E depois? Conversar mais e mais sobre! Companhia adequada para falar, aparelhada para dizer, alinhada para… conversar. O silêncio é importante como a digestão e a conversa como a comida. Tem alma quem não precisa assim, assim tão profundamente, conversar?
  15. Descobri que eu tinha qualquer coisa na vida mais a ver com o passado que com o presente quando, moleque, eu olhava pras pedras e pensava (sentindo) que elas não eram tão pedra quanto o seixo que Davi meteu na testa de Golias, quanto qualquer rocha tocada pelos pés dum eremita anônimo nos desertos da Síria ou da Capadócia; menos pedra que uma pedra lapidada pelas mãos de Moisés ou esculpida por Michelangelo, e mesmo menos pedra que as pedras que faziam o menino Jung meditar e menos pedra que as pedras que meu bisavô jogava ricocheteando no lago de Hinterburgseeli. Reacionarismo, romantismo, idealismo platônico temporal? Nada disso! Apenas a intuição de que, hoje em dia, nós mal olhamos pro chão e que a natureza das pedras nos diz qualquer coisa como: “vocês se vão daqui e nós ficamos por aqui, onde somos permanentes; aqui vocês se deterioram e lá, onde vocês são permanentes, nós nos desmanchamos.” Uma noção infantil, mas bem sincera, de Eternidade. Será por isto que o Senhor nos advertiu que se nós nos calarmos as pedras clamarão?
  16. Há pessoas completas muito complexas e pessoas complexas muito incompletas; e há pessoas completas muito simples e pessoas simples muito incompletas. Pessoas complexas são pessoas cuja estrutura de personalidade é filigranada — cada parte se desdobra, nuancentemente, em outra, como numa mandala, como a geometria molecular. Pessoas simples, por sua vez, têm estruturas com menor número de componentes, como a geometria das formas puras, como o Stomachion de Arquimedes. As pessoas completas descansam em Deus, encontraram a unidade de espírito e têm em si mesmas um mundo ordenado. As incompletas, vadiam pelo mundo esfacelando-se no caminho, com a alma esburacada e desencaixada dos pedaços que ela mesma soltou. Complexidade sem Deus é confusão do eu. Simplicidade sem Deus é fusão do eu.
  17. Um mau-caráter racional é como merda congelada: a frialdade, contendo a essência da bosta nela mesma, meio que aprisiona o fedor. Daí, o perigo da conservação do mau restrito ao âmago do ente que o carrega. Um mau-caráter emocional é merda como ela é no pós-intestino: na densidade, na cor e no cheiro, enfim, no crivo dos sentidos — de pronto reconhecível e, por isto, quase nada prejudicial a um homem bem armado dos “apetrechos higiênicos” da alma. Merda congelada é objeto contundente: pode matar. Merda in natura é inofensiva: no máximo suja. Entre fezes ferinas e logicamente reprimidas e excrementos molengas e extrovertidos, prefiro lidar com o pessoal deste segundo naipe, de rápida decomposição; contudo, quanto ao primeiro, Deus pode nos armar com o lança-chamas do “Discernimento de Espíritos”. Anota.
  18. Se você conhece a Deus, deve simplesmente agir segundo a Lei dEle sem calcular as complexas reações do mundo. As coisas darão certo, rápido ou devagar, porquê o Senhor vela sobre Sua palavra para cumpri-la (Jeremias 1:12). Mas, se você, conhecedor, resolve medir e ponderar sua ação não em função do Eterno, mas da lógica terrena das possíveis perdas e danos ou dos ganhos e lucros, as coisas necessariamente, agora ou depois, darão errado. Para qualquer outro mortal até que poderia dar “certo”, mas para você não: porquê você tem que ser e estar certo para, então, agir certo e, daí, o efeito ser o certo. O homem natural, desconhecedor da Lei, freqüentemente pode se dar ao luxo de avaliar e contar os caminhos do “efeito dominó” probalístico duma ação, jogando os dados do cálculo racional e tentando obter o desejado termo das coisas sob a ótica da sorte (O Fortuna, velut luna statu variabilis!). Mas, você não! Quando o movimento do seu espírito partir do errado (a tibieza, o egoísmo e a dúvida calculando…), mesmo que formalmente tudo pareça tremendamente certo, tudo dará errado para você; enquanto que, paralela e eventualmente, poderá dar tudo “certo” para os outros. Se Deus lhe conhece, Ele complexamente agirá para que Sua Lei calcule em você suas simples reações no mundo.
  19. Feto no infecto. Educação vem de útero.
  20. Três conselhos: i) Nunca minta para alguém em favor de ninguém. Não ajuda quem escamoteia ou esconde a realidade apenas para assegurar coleguismo ou segurança psico-social. Ajuda quem diz “sim, sim e não, não!” sem o temor de desagradar, porquê o que é, é, e o que não é, não é; e é a Deus que se deve agradar; ii) A mentira só ilude quem depositou seus afetos num certo conforto/estabilidade que ela pode, temporariamente, gerar. A “pulga atrás da orelha” fazedora de cócegas sempre crescerá até se tornar um dragão cuspidor de fogo. Melhor ceder de pronto à fricção irritante da consciência e da intuição que, depois, acabar com a alma incinerada; iii) A verdade às vezes é tão simples e evidente que, aos olhos duma pessoa hipersensível, ela pode ser tomada por mentira, já que lhe falta altas doses de adrenalina, teatralidade grandiloquente e histerismo. Para quem se impressiona com pranto e ranger de dentes, com juras e bateção de pezinho, melhor deixar que a mordida e a picada, que a queda da máscara e a “dancinha da vitória” sejam o remédio dolorido da realidade.
  21. Julgar se isto ou aquilo é certo ou errado é fácil. Porém, julgar se esta ou aquela pessoa que faz isto ou aquilo é moral ou imoral, é difícil senão impossível. As reações externamente muito se assemelham, mas nunca se igualam as ações que as geram. A dor de cabeça (na nuca, digamos) sempre é corporalmente equivalente na área atingida e no sintoma, mas a causa é sempre variada (tensão muscular, meningite, pressão arterial, etc), como variado também é o tratamento dispensado uma vez identificado o motivo. O roubo, o homicídio e o adultério levam absolutamente ao inferno. Mas não se pode dizer se tal ladrão, aquele assassino e este adúltero irão ao inferno por este roubo, por aquela morte e por tal traição, porquê rouba-se para comer e para minar o trabalho alheio, assassina-se levianamente e em legítima defesa, trai-se o cônjuge por luxúria e por coação. Entre Robin Wood e Catilina, entre Mao Zedong e Claus von Stauffenberg, entre Anna Karenina e Lucrécia, há nuances mil: há Al Capone e Lampião, Guilherme Tell e o Rei Davi, Messalina e Madame Bovary — há pessoas e pessoas com suas circunstâncias e circunstâncias.
  22. O eco sempre superará a própria voz enquanto ela não for consciente, ou seja, enquanto ela não for usada com propósito. Abrir a boca ociosamente, sem negócio objetivo a tratar, é atitude típica de gente cuja personalidade individual em nada ou quase nada (senão em detalhes inferiores) se diferencia da indigência da multidão. O homem superior não fala à toa; ele diz com intenção missionária. Se Deus é Logos, a Palavra, tua imagem-e-semelhança deve se ordenar na ação à partir dEle: o logos espiritual controla o caos carnal e ambos se equilibram (cosmos) na alma. O uso da língua e, consequentemente, da linguagem, é o primeiro sinal de auto-domínio do homem sobre si mesmo e sobre sua vontade vocacionada atuante. Enquanto nossa consciência não produzir as palavras que decidirmos lançar no mundo (transformando-o, sob a Vontade Divina), palavrório inconsciente nos arremaçará contra o mundo (fortificando-o através de sua própria destruição, sob o desejo satânico), porquê o mundo é o próprio “reino dividido” e a divisão, antes de tudo babéica, se insurge polissêmica e espiritualmente contra Deus. Por isto, o Cristo exorta: “Mas eu lhes digo que, no dia do juízo, os homens haverão de dar conta de toda palavra inútil que tiverem falado.” (Mateus 12:36). Controla tua língua e o mundo não te controlará!
  23. A verdade (estado essencial das coisas) liberta, mas também se liberta: ou ela alforria o homem da mentira (contingência momentânea das coisas) e o submerge na realidade ou ela se desprende do homem e o expõe em sua mentira. Mas, este escândalo da exposição é também Graça divina. Por isso, quando a Escritura nos diz que tudo o que está oculto ou escondido virá à luz do dia, enfim, será revelado, ela simplesmente promete redenção: o que é deve ser conhecido absolutamente; e o que não é, reconhecido totalmente para que, logo em seguida, seja completamente esquecido. A verdade permanece. A mentira, desaparece. Deus e sua criação inifinita continuam eternamente. O diabo e sua transformação provisória cessam temporalmente. Todo este processo acontece e ocorre o tempo todo. Prestem atenção e perceberão o quanto conversas particulares e discursos públicos, em pequena e grande escala, se fazem e se desfazem e se compõem e se decompõem em idas e vindas de dados e informações que, de repente, confrontados entre si (na afronta dialética do ser contra seu ente), nos revelam a realidade das coisas — a verdade. A mentira cria uma tensão no âmago da coisa por ela negada que (latejando, palpitando e pulsando desde dentro) logo acumula uma força que irrompe poderosamente para fora. É o que dizem, complementarmente, estes dois provérbios caipiras: “A verdade existe, só se inventa a mentira” / “A verdade sempre vem à tona”. Apenas o que existe permanece evidente.
  24. Nunca ceda (crendo) à conversas idas e vindas sem emissor e receptor identificáveis, mas cuja mensagem é papo louco e perigoso. Nunca ceda (acreditando) à blá-blá-blá de lá e de cá cuja ação não tem causa[dor] aparente, mas cuja reação é efeito devastador. Quem conta um conto não só aumenta um ponto: quem conta um conto descontrola a própria contagem e perde as rédeas dos próprios pontos aumentados ou diminuídos. A perna da mentira às vezes é longa, mas é curta a faca que num zás-trás a amputa.
  25. Ontem fui a um e hoje fui a dois velórios. Guardei Eclesiastes 7:2 (“Melhor é ir à casa onde há luto…”) e recordei que sou pó. Só lhes posso dar este conselho: não vivam o hoje como se ele não pudesse terminar ainda hoje; não vivam como se não fossem morrer; não vivam por viver como se esta vida, através da morte, não levasse à uma nova vida ou à uma nova morte eternas. Brahms entendeu isto e compôs esta beleza, consoladora.
  26. Você se sente bobo e ingênuo diante da platéia fuxicadora? É incapaz de interpretar tudo com malícia e na base das segundas e terceiras intenções? Você ainda acredita em olho-no-olho, na Lei de Deus e na liberalidade de fazer as coisas apenas por amor? Fique feliz, por mais que seja incompreendido: você ainda tem uma alma para chamar de sua.
  27. Atira uma pedra aos pés do teu próximo e ela voltará, célere e robusta, como rocha sobre tua cabeça. Atira pedriscos nos olhos do teu próximo e eles voltarão, leves e afiados, como toneladas de areia soterrando todo o teu corpo. Recorda — antes de empunhar o seixo, antes de preparar o estilingue: “Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós.” (Mateus 7:2)
  28. A grande beleza da música medieval consiste em que cada composição é um todo formado de partes que são por si todos, que por sua vez são partes de outros todos até que a Parte indivisível finalmente se aconchegue no Todo uno. É música composta de células de harmonias em escala infinita, filigranada de eternidades, gradual e hierárquica como os coros angélicos.
  29. Cheguei à conclusão de que 99,9% das brigas entre casais por WhatsApp tem origem na interpretação enviesada do texto pela mulher. Vejam, senhoras e moças, que quase sempre vocês lêem a mensagem já grudando à cada palavra ali utilizada um suposto tom de voz e à cada frase ali usada um suposto estado emocional, ou seja, vocês lêem o que nós escrevemos supondo não só nossa voz dizendo o escrito (vocês lêem “ouvindo”), mas supondo sua exata tonalidade vocal e supondo toda uma carga psicológica e mesmo gestual conexa. Daí, se seus pensamentos estão/são positivos e favoráveis ou negativos e desfavoráveis em relação ao interlocutor, o fato é que o texto é imutavelmente o mesmo, ipsis litteris; mas suas conclusões acerca dele são absurda e absolutamente antagônicas, divergentes e contraditórias. Por isto, caros confrades, fica aqui o meu singelo conselho: escrevam descrevendo seu estado de espírito o máximo possível, usando e abusando de gifs, emojis, memes, repetição de letras e pontuação, etc. Elas vão lhes entender mais e melhor — sem ver grosseria, melosidade, ironia ou qualquer outro sentido (e condição psico-vocal) que não aquele desprendido pelo significado quase puro, estrito e dicionaresco da palavra que vocês utilizaram e usaram apenas para dizer o que ela apenas e tão somente quer dizer. A comunicação com as belas filhas de Eva é, anotem, muito mais sútil e complexa que a tradução de qualquer uma destas línguas proto-indo-iranianas que quebram a cabeça dos eruditos de Oxford! Espero ter ajudado. Boa noite.
  30. Entre o certo e o duvidoso, só é certa a dúvida. Cambalear na escolha entre possibilidades mais ou menos já julgadas é o suprassumo da indecisão. Evidência de que a segurança do certo não é tão segura e de que o duvidoso tem em si qualquer pilar de sustentação…
  31. Li alhures que as últimas palavras de Arnold Schönberg, o compositor, foram na verdade uma só e sólida e solitária palavra: “Harmonia”. Não, ele não contemplou a “harmonia das esferas”, numa inspiração pitagórica de gênio moribundo; não, suas cordas vocais não articularam, último estertor da língua!, variando sob o tema da alucinação, a palavra que mais e melhor define a essência mesma da arte musical; não, o artista não intuiu a forma e a fórmula suprema da linguagem musical — uma “lingua ignota”, no esteio daquela iluminação verbo-sonora alcançada pela Santa de Bingen. Tampouco aflorou seu ocultismo numerológico, coisa de judeu atavicamente cabalista obcecado por comparações e coincidências, tentando definir o destino final-e-inicial das coisas criadas no molde da Geometria Originária. Tenho para mim, porquê senti isto no âmago dos neurônios, que o velho se arrepiou em Deus e desatou seu último suspiro… harmônico!
  32. Aconselha com justiça e fervor próximos à ira, mas aconselha com o amor de um pai que é irmão: palmada dolorida mas didática de quem ama, como um bê-á-bá soletrado (em alta voz, ao pé do ouvido!) som a som em busca do significado mais profundo do verbo na língua de quem ainda está (por culpa própria!) aprendendo que detém o dom da fala — o dom de ser moral.
  33. Dá ao rato o queijo todo e vê se, faminto, ele consegue roer dos vinte quilos algumas gramas para além das beiradas! A ambição que dilata a íris dos olhos grandes não é capaz de alargar a boca e o estômago.
  34. Leva-me aos Teus mais altos montes, onde as águias se aninham em família, onde os anjos se assentam para confidências.
  35. Idealizadas, as coisas vão se tornando “pomos de ouro”, tão superiores mas tão abstratas e inalcançáveis. Quanta gente, bem intencionada (e por isto muito tola), enche a alma de sublimações acerca das decisões, pessoas e quereres da vida! Pensar por arquétipos, por modelos prontos, por padrões engessados que o intelecto falho desenvolveu impulsionado pela perfeição sentimental do coração, conduz à infertilidade existencial; conduz à insipiência e, então, à frustação. Então, olha-se para o mundo encurralando suas possibilidades concretas pela régua interior, pela foice das idéias castradoras, como se o que se carrega desenhado na mente pudesse moldar a realidade independente dela mesma. Platonismo infantil! Manter concepções elevadas importa quando elas são orientadoras e transformadoras das coisas, mesmo que leve, poucamente; porém, quando os ideais impedem a fruição da vida porquê não se coadunam com as coisas, eles são instrumentos do Mal, afinal, se neles e por eles é inalcançável a Felicidade e o Bem, como justificá-los e quere-los e ansiá-los?
  36. Quando deixamos de ver na mulher um enigma e no olhar um mistério, quando o sorriso dela abandonou o contorno sútil do imediatamente indecifrável e o olhar brilhante mas obscuro tornou-se tão óbvio quando a volição relampejante da córnea duma hiena no cio, nós nos tornamos animais. Trocado o perfume pelo feromônio e o amor pela carnalidade, tudo é possível: e tudo é só “tiro, porrada e bomba.”